segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

O país das calamidades e o presidente "moderado"

 

Pelas costuras - HenriCartoon

Passadas três semanas de temporal, depois de se realizarem a segunda volta das eleições presidenciais e de terem votado os cidadãos que o não puderam fazer a 8 de Fevereiro, ficamos a saber que: parte do país ainda se encontra paralisado, cerca de 40 mil pessoas ainda não possuem energia eléctrica; as cheias dos rios ainda demorarão cerca de um mês a desaparecer, e se não chover ainda mais; a reconstrução dos bens destruídos terão de esperar mais de uma ano, segundo opinião do governo, mas na nossa opinião muitos ficarão por resolver, à semelhança dos incêndios de 2025, cujos lesados, na sua maioria (mais de seis mil, 63%), ainda estão à espera dos apoios financeiros prometidos pelo governo; o buraco da A1, o principal eixo rodoviário do país, irá demorar muitas semanas, ou meses, a ser reparado, obrigando o trânsito a ser desviado por dentro de Coimbra ou por atalhos que estão a prejudicar tanto empresas como cidadãos.

Assistimos a um país preso por arames, que não ficará muito melhor depois dos investimentos prometidos e aplicados, porque tudo será feito na lógica do enriquecimento de alguns e não no benefício de todos. Neste país completamente à deriva, sem planos de ordenamento ou de emergência a nível nacional e em termos práticos, não somente em papel, sem alternativas para fornecimento rápido de energia e telecomunicações ou de transportes rodoviários ou ferroviários, ou para reconstrução rápida das habitações, confirmou-se que metade do eleitorado remeteu-se à abstenção (52,37%, incluindo votos brancos e nulos) e cerca de um terço optou por um presidente da República “moderado”, cultor da “estabilidade”, que não levante muitos problemas ao governo, que, aproveitando as calamidades, irá reforçar o poder da oligarquia e dos bancos, à custa do empobrecimento do povo português e da proletarização da dita “classe média”.

O buraco da A1 é bem o espelho do país

O buraco da A1, cuja reparação ficará em alguns milhões e sem prazo de finalização certo, acabará por ser custeado pelos dinheiros públicos e não pela concessionária que, se agora assumiu a obra, não quererá de maneira alguma ver os lucros dos acionistas prejudicados. As borlas nas portagens das auto-estradas nas regiões afectadas pelo temporal depressa terminaram e s será o governo a indemnizar o “benefício”. A E-Redes ainda não terminou a reposição da electricidade em toda a rede e irá demorar mais de um mês que o faça; entretanto, as populações desesperam. Como desesperam muitas famílias sem um tecto onde possam abrigar-se sem saberem quando e como o governo, ou as autarquias, lhe arranjará uma habitação minimamente condigna. Muitas famílias bem como muitos pequenos empresários não estão dispostos, nem possuem condições para o fazer, em endividar-se ainda mais com os bancos. Porque os dinheiros prometidos são sob a forma de empréstimos, os bancos esfregam as mãos de contentes, a calamidade para eles é mais um maná. Representarão mais uma transferência de riqueza do trabalho para o capital financeiro.

Ao mesmo tempo, o governo de Montenegro/PSD/Chega deu uma borla tributária aos grandes senhorios que passaram a pagar 10% de IRS, em vez de 28%, fazendo cair a receita fiscal em mais 300 milhões de euros e cujo objectivo propalado seria “controlar” o preço das rendas; ora, o efeito será exactamente o oposto, segundo Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO). Portugal possui o 4.º preço mais caro do gás na Europa. O preço do cabaz de alimentos tem vindo a subir de forma consecutiva desde o final de 2025, atingindo máximos recorde em Fevereiro de 2026, com o valor a superar os 253 euros. O temporal será justificação, à semelhança da pandemia e da guerra na Ucrânia, para um maior aumento da inflação em Portugal. A produção automóvel em Portugal desceu 7,8% em Janeiro, face ao mesmo mês de 2025. Segundo o INE, as exportações de bens caíram 0,7% e as importações 2,7% em Dezembro de 2025. A economia nacional engasga-se.

Os prejuízos na agricultura irão no caminho de mil milhões de euros e o ministro da Economia aponta para mais de quatro mil milhões no conjunto da actividade económica. No entanto, o governo já avisou: quem tiver dívidas ao fisco ou à segurança social, nem que seja de 1 euro, não tem direito aos apoios prometidos, repetimos, “prometidos”. Em relação aos trabalhadores abrangidos pelo lay-off simplificado nas empresas afectadas, o governo recuou e veio dizer que vão receber apenas dois terços do salário bruto até ao triplo do salário mínimo nacional (até 2.760 euros) e não 100%, o restante será pago pelas empresas. Percebe-se a intenção, as principais empresas beneficiadas serão as grandes, enquanto as pequenas ficarão mais próximas da falência – o CEO do BCP deixa o aviso: “se as empresas não regressam rapidamente (à normalidade) são excluídas” da procura global, ou seja, deixam de existir.

Na saúde: há mais cidadãos sem médicos de família e à espera de consulta e cirurgia, assim como a produção assistencial estagnou. Já falta dinheiro nos hospitais para comprar medicamentos e mal começou o ano – doentes oncológicos denunciam falta de medicamentos no Hospital de Braga; entretanto, foi anunciada a abertura do Hospital Central do Algarve para 2031 e a concessão aos privados será decidida no fim de 2027. As urgências de Ginecologia e Obstetrícia continuam a encerrar aos fins de semana no SNS, enquanto as companhias de seguro vão engordando encaminhando os partos para os hospitais privados. A artificial falta de resposta na região de Lisboa obrigou SNS a encaminhar 362 grávidas para o privado, nos últimos dois anos e meio, com recurso à convenção que integra os hospitais CUF, Luz e Lusíadas, que, se foi mais intensa durante as obras na maternidade do Hospital Santa Maria, a dita “solução” irá manter-se “por segurança”… dos lucros do lóbi do negócio da doença.

O panorama para os próximos três anos, ou seja, o que falta do mandato do governo, será mais do que sombrio, um outro temporal se aproxima para quem trabalha. A demissão da ministra da Administração Interna revela as fragilidades do governo Montenegro/PSD/Chega.

A calamidade como resultado e instrumento de corrupção

O presidente da APA recusou esclarecer a intervenção da Navigator na obra do Mondego, nomeadamente, no que refere ao contrato, ou outro procedimento público, que permite àquela empresa do grupo Altri – proprietário do canal CM/TV e Now (Medialivre) – fazer intervenções num sistema cuja gestão é de inteira responsabilidade da própria APA. O silêncio poderá denunciar relações algo obscuras, já que a bomba que está a funcionar é para levar água às fábricas de pasta de papel. Deve-se esclarecer que o verdadeiro objectivo da regularização do rio Mondego era o benefício destas empresas e não propriamente a irrigação dos campos, razão pela qual estas obras de irrigação nunca foram concluídas. Nos entrementes, foi notícia que o irmão do chefe de gabinete de Montenegro – jovem de 25 anos, com grande experiência profissional e de vida como se pode calcular – foi nomeado consultor coordenador no Governo, Grupo de Trabalho para a Reforma do Estado, indo auferir um salário mensal de 4 mil e 400 euros e cujo curriculum se resume a estagiar há um ano na EDP Renováveis em Madrid.

O país acabou de saber que o governo Montenegro/PSD/Chega gastou cerca de 20 mil euros de dinheiro público, no passado Dezembro, para ter futebol premium na residência oficial do primeiro-ministro; ao que parece uma despesa perfeitamente conforme com as dificuldades que o povo português está a passar neste momento, especialmente, o que reside e trabalha nas regiões afectadas. Não é a quantia em si mas o que representa em termos simbólicos, declaradamente que o que atormenta a mente de Montenegro não é o bem-estar de quem trabalha mas os privilégios e o gozo pessoal dos governantes que, no final de contas, vivem à custa de quem os elegeu. Depois, venham queixar-se que o populismo está aí a medrar a olhos vistos. Isto pouco tempo depois de o Parlamento ter aprovado a lei que proíbe o livre acesso de crianças e jovens a plataformas online e redes sociais, com os votos favoráveis do PSD, PS, PAN e JPP, como a saúde mental da nossa juventude estivesse na preocupação daquela gente – a idade do utilizador terá de ser confirmada através do sistema Chave Móvel Digital. A realidade é outra, o governo, com a colaboração activa dos partidos alapados em S. Bento, prepara a censura sobre todos os cidadãos, seguindo os mesmos passos da legislação já aprovada em Bruxelas.

A corrupção e o favorecimento são mais que evidentes quando se trata de negócios com os interesses privados. O contrato de exploração que foi feito, em 2019, entre o governo de PS/António Costa e a cadeia de hotéis SANA para a recuperação do antigo Quartel da Graça em hotel de luxo – como Lisboa tivesses falta de hotéis! –, não foi cumprido pela empresa. As instalações encontram-se neste momento abandonadas e em degradação cada vez mais evidente; a população do bairro quer travar o projecto e dar outros usos ao edifício, no entanto, nem o governo denuncia o contrato e executa judicialmente a empresa, nem a autarquia, câmara ou junta de freguesia, se mexe. E bem falta faz mais habitação na cidade de Lisboa. Entretanto, o Ministério Público abriu novo inquérito sobre casa de Montenegro, haverá suspeitas de fraude fiscal. Será manobra de distração para desviar as atenções da inépcia do governo e de outros casos escandalosos, como por exemplo as trafulhices do BES, com Ricardo Salgado, que jamais irá para a prisão, a gozar com a cara dos portugueses, e já lá vão mais de 10 anos. E, quanto a corrupção e justiça branda para com os poderosos, parece que o pedófilo e agente da Mossad/CIA Epstein ponderara mudar-se para Portugal em 2014. E por que seria logo para Portugal?!

Algumas interrogações sobre o país preso por arames

Muita coisa há em Portugal para mudar. Por que carga de água o Sistema de Proteção Civil não está pensado para se articular com as Forças Armadas? Por que razão, mais de metade (63%) dos lesados dos incêndios continua à espera dos apoios prometidos em 2025? O que leva que muitos (68,2% ) dos nossos jovens legitimem violência no namoro? Por que Portugal (empresas e governo) só destrói emprego entre os mais jovens e nunca houve tantos trabalhadores com mais de 65 anos? Por que razões a grande maioria das construções neste país não respeita os requisitos de boa construção, incluindo anti-sísmicos, e muitas delas (cerca de 60 mil) são construídas em leitos de cheia? Qual a razão da E-Redes manter enterradas somente 20% das linhas de alta tensão, enquanto a média da UE é exactamente o oposto, 80% enterradas e 20% aéreas? Quando é que o governo conclui as obras de irrigação dos campos do Baixo Mondego e obriga as celuloses a deixarem de poluir o país e acaba com a eucalipalização? Os rios precisam de ser desassoreados e as encostas arborizados, o governo possui algum plano ou intenção para o fazer? Para quando o corpo único de bombeiros a nível nacional e público, com um só comando, e a aquisição de meios aéreos e sua gestão pelo estado/governo para combate a incêndios? A ministra da Administração Interna demitiu-se, ou obrigaram a demitir-se, protegeu o chefe e o grupo, quanto tempo durará o governo Montenegro/PSD/Chega?

E mais perguntas se poderiam fazer, não caberiam nesta página.

O resultado das eleições presidenciais e a regionalização

 O pequeno vencedor - Vasco Gargalo

Em relação aos resultados das eleições presidenciais, pouca coisa haverá acrescentar ao que já dissemos em crónicas anteriores. Metade dos portugueses entendeu não votar e da outra metade que votou em alguém dois terços escolheram o candidato das meias tintas, da dita “moderação”, da “picha mole”, como se diz popularmente. Depressa se ficará a saber qual o rumo que tomará logo que o governo apresente o seu pacote laboral, agora com algumas arestas limadas, uma versão mais suave. Comprova-se que o partido da extrema-direita serviu como um espantalho para assustar uma parte da pequena-burguesia e levá-la a votar no candidato politicamente correcto. Apesar de estar longe de ser o líder de todo o campo da direita, o 4º pastorinho conseguiu mesmo assim um excelente resultado, que lhe poderá facilitar a vencer umas próximas eleições legislativas, muito provavelmente antecipadas.

O ministro das Finanças já veio dizer ao populacho que tem de haver uma opção, ou aumentar a despesa para cobrir os prejuízos dos vendavais e das cheias e, para que isso não afecte o sacro-santo equilíbrio das contas públicas, terá de fazer sacrifícios; ou, então, não se poderá ocorrer a tudo porque o caminho deixado pela folga orçamental é muito estreito. Será o preparar da opinião pública para as políticas de austeridade que a oligarquia, mancomunada com Bruxelas e ao serviço dos bancos, se prepara para lançar sobre a cabeça do povo português. Se o plano do governo de fazer aprovar em Bruxelas um PRR à portuguesa, o já famigerado PTRR, deixará sempre metade das coisas por fazer, porque parte será gasto pelas clientelas políticas, nunca no interesse do povo, mas no final terá de ser pago por este. A dívida soberana irá aumentar desmesuradamente, contando também com a dívida para fazer face ao aumento das despesas com a guerra, dita “defesa”. Os próximos tempos serão duros e tudo se perfila para que este governo não chegue ao fim do mandato.

Uma questão que forçosamente virá para cima da mesa, já que agora foi aventada com a dificuldade na resposta pronta e eficaz aos temporais, é a questão da regionalização. A maior parte dos partidos são a favor, desde a esquerda à direita, porque entendem que o país é muito grande e que são os autarcas que se encontram mais próximos das populações, e por essa razão, estarão mais aptos a solucionar os problemas. Escamoteia-se que se os problemas não são resolvidos é por uma simples questão da natureza da política que é defendida, e não por desconhecimento dos problemas que afligem mais o cidadão comum. Ilude-se outro facto que é a da corrupção, e é precisamente no poder local que existe mais corrupção, mais compadrios, mais nepotismo e mais impunidade quanto aos crimes e tropelias cometidas. Basta lembrar-nos do soba Alberto João da região das bananas da Madeira.

Com a regionalização irão replicar-se mais meia dúzia Madeiras das bananas no país, com mais poderes intermédios, mais tachos e mais mordomias e um aumento significativo de burocratas e políticos de carreira. Qual será a posição do novo presidente da República sobre o tema, a resposta não será difícil. O país tenderá para a fragmentação, será o esbater do sentido de nacionalidade, muito de agrado de Bruxelas e do grande capital financeiro, que assim melhor poderá invadir e extrair as riquezas locais, o lítio irá ser um bom exemplo. Assistiremos à Europa das regiões, já programada e em movimento, e uma maior integração do nosso país na Espanha, que, é bom lembrar, faz parte do pelotão da frente da Europa a duas velocidades, tão ao gosto de Ursula von der Leyen.

Repetimos, neste país das calamidades, as maiores são sem dúvida os governos e a oligarquia reinante, os tempos que se advinham são deveras sombrios.

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