terça-feira, 7 de julho de 2026

O país arde, caos nos exames, saúde desfalece e o Luís vai à bola

Quando o país está em dificuldades, incêndios quase descontrolados, este ano a área ardida atinge já os 30 mil e 155 hectares, com 4 mil e 592 incêndios registados até agora, o pior segundo ano da década e ainda nos encontramos no princípio do Verão, o primeiro-ministro Montenegro vai ver o futebol ao Canadá, para dar sorte à selecção “nacional portuguesa”, como dizem os jornalistas avençados, e fazer do futebol (um dos 3 f’s de Salazar) um meio de se promover a ele e ao governo. Faz lembrar outra ocasião semelhante ocorrida no ano passado, o país ardia de lés-a-lés e o chefe do governo encontrava-se na festa do partido no Pontal, Algarve. Mas não só o país está a ser destruído pelos fogos rurais, a escola pública vai queimando lentamente com o caos da correção do exames nacionais, que este ano o ministro da tutela, o mais habilitado para o cargo segundo outras doutas opiniões, entendeu que as provas deveriam ser digitalizadas por uma empresa contratada por ajuste directo e cuja identidade teima em esconder – a culpa do atraso das correcções é dos professores e se algum cidadão se sentir prejudicado que reclame que o “estado irá ressarcir”. Assim vai o estado do país e do governo, que urge ser demitido, mergulhado no calor dos incêndios criminosos, na confusão e na incompetência. Como aconteceu com a discussão e votação do “pacote laboral”, o Luís esteve ausente em Bruxelas, porque sabia que o chumbo era mais do que certo, agora o Luís vai à bola (por três vezes) e não está cá.

Quando o país arde, caos na Escola Pública e liquidação do SNS

Em relação ao atraso da correcção dos exames, que poderá vir a ser o caso do ano devido á inépcia do governo, tudo tem acontecido. Ao contrário da promessa do ministro da Educação, ainda há professores à espera de provas e com problemas na plataforma de classificação; amanhã a plataforma estará fora de serviço. As datas para afixação dos resultados das provas e dos exames da segunda fase foram adiadas. O ministro teima em esconder a entidade responsável pelo sistema digital, sabendo-se que este negócio rende às empresas privadas contratadas por ajuste directo mais de sete milhões de euros – deve-se perguntar quais serão as comissões e quem as recebe? Mais de 5 mil pais já assinaram petição para anular exames nacionais e o ministro foge quando um grupo de pais se aproxima a fim de saber quais as causas e medidas para resolver a questão. São as provas enfiadas em envelopes amontoadas em prateleiras em armazém, denotando o desprezo do governo para com os alunos da escola pública. E de forma displicente, o ministro ainda tem a lata de afirmar que "se família demonstrar que houve prejuízo, o Estado deve ressarcir". O “Estado”, neste caso, são os dinheiros públicos de todos nós, se houver alguém que tiver de ressarcir que seja ele e o governo a que pertence. O ministro não serve pela simples razão de que todo o governo não presta.

O que se passa com a falta de água no concelho de Almada é bem revelador da política praticada em muitas autarquias deste país; neste concelho é protagonizada pelo PS, poderia ser pelo PSD. E diz um pouco também da situação do SNS: “Centro de Saúde da Costa da Caparica fechou hoje por falta de água”. Ao mesmo tempo, a ministra da saúde, ou melhor, a comissária política para a liquidação do SNS diz ser "muito difícil" manter atual rede de 168 urgências do país, e mais ainda, hospitais com urgências fechadas vão sofrer cortes no financiamento. Enquanto fecha o público prolifera o privado, incluindo a medicina curativa tipo banha da cobra: há 54 clínicas a promover-se como “medicina integrativa” sem qualquer controlo do estado e já ganharam mais de um milhão de euros em fundos europeus. Quanto às PPP para ULS, os privados, conhecendo as fragilidades do SNS, esticam a corda, a Lusíadas Saúde admite nova PPP só com modelo melhorado, ou seja, com mais dinheiro. As farmácias vão receber 7,9 milhões de euros por participarem na vacinação contra gripe e covid-19. O SNS fechou 2025 com mais utentes, mais pessoas sem médico de família e défice acima de mil milhões – que novidade, é tirar do público para dar ao privado!

Um momento de viragem para a pobreza

Diz o chefe da bancada parlamentar do PSD que o país vive "um momento de viragem", viragem miraculosa, mas virtual, no seu débil entendimento, porque o país real, o que trabalha e não o que defende acerrimamente a reforma laboral, está bem pior. Quatro em cada dez portugueses dizem que o custo de vida para as famílias está pior do que há um ano e 63% acreditam que continuará a piorar até ao final do ano. Se o número de milionários (o país do governo) cresceu em Portugal em 2025, o cidadão português mediano está a empobrecer continuamente desde a pandemia, 2020. Portugal reflecte o que se passa a nível mundial, onde apenas 1,5% da população controla quase metade do património global, ao mesmo tempo que a riqueza mediana recuou na maioria dos países. Indubitavelmente, que o povo português está mais pobre e os ricos cada vez mais ricos. É disto que o governo e Hugo Soares, para quem Montenegro é o “amuleto da sorte”, podem gabar-se.

Montenegro garante que “Portugal está a construir um modelo de baixos impostos”, mas para as grandes empresas e especuladores financeiros. Soube-se que “as transferências de capitais de clientes com contas bancárias em Portugal para instituições financeiras localizadas em paraísos fiscais aumentaram 16,4% (1.325 milhões de euros) em 2025, para 9.400 milhões de euros, com a Suíça como primeiro destino dos fluxos, segundo estatísticas do fisco” (da imprensa). Foram 9.629 pessoas em nome individual e 8.615 empresas e outras pessoas coletivas que expatriaram riqueza produzida pelo povo trabalhador em Portugal, não foram reinvestidos cá e nem terão pagado os impostos devidos, relembrar que muitas empresas nacionais possuem a sede em outros pontos da União Europeia. Há livre circulação de capitais, de pessoas, incluindo trabalhadores, é que não. Estamos na Europa do capital, não é também por acaso que os “portugueses são os segundos mais pessimistas na União Europeia com evolução da qualidade de vida - Eurobarómetro”.

Enquanto o Fórum BCE chega à conclusão de que a “imigração traz mais produtividade às economias”, melhor dizendo, Portugal continuará a ser um país com base em baixos salários (e baixos impostos para o Capital, segundo Montenegro), os preços das casas disparam 17,8% só num ano. Pela lógica, os salários deveriam ter um aumento semelhante no mesmo período de tempo, mas não é o que acontece, o fluir da riqueza faz-se sempre do Trabalho para o Capital. Enquanto os novos ricos compram 146 carros de luxo por dia, a Porsche foi a marca de luxo mais vendida em Junho, com 85 automóveis matriculados, dados de Junho da ACAP, o “PIB per capita em paridades de poder de compra (PPC) de Portugal em percentagem da União Europeia (UE) é de 77,0% da UE em 2025, surgindo assim na 22ª posição” (da imprensa). Bastante abaixo dos 81,3% nos dados originais da Comissão Europeia (CE), valores corrigidos por estudo de 2025 da FEP Faculdade de Economia e Gestão da Universidade do Porto. Ou seja, há uma grande fraude quanto à “convergência portuguesa”, somos o 6º país mais pobre da UE.

Governo de Montenegro/PSD/CDS agente de negócios do Capital

Em Maio, a dívida pública aumenta para 288,7 mil milhões, segundo o Banco de Portugal, crescimento em parte graças á burguesia rentista que vive dos negócios com o estado. O presidente da Associação Portuguesa das Concessionárias de Autoestradas e Pontes, Manuel Melo Ramos, não esteve com meias palavras: “Já chega de abolições de portagens, senão vamos dar cabo do sistema”. Vale dar cabo dos dinheiros públicos é a lógica desta gente, que não quer ver os privilégios e os lucros tocados. Esta burguesia ociosa fica bem representada, por exemplo, na família Berardo: o comendador confrontado em sede da comissão parlamentar de inquérito com as dívidas à CGD, ao BCP e ao então Banco Espírito Santo, que ascendiam a 1 mil e 027 milhões de euros, declarou que não tinha dívidas e apenas possuía em seu nome uma garagem, agora soube-se que a mulher faleceu deixando uma fortuna de 140 milhões de euros que serão herdados pelos filhos e netos. Mais palavras para quê, é uma família portuguesa!

No mesmo sentido se deve entender a privatização da CP, depois do governo do PS ter investido 1,8 mil milhões de euros na aquisição de novos comboios - CP “fatiada” em quatro: Governo prepara subconcessão de linhas suburbanas. Cascais, Sintra-Azambuja, Sado e o conjunto das linhas suburbanas do Porto deverão ser exploradas por privados, mas sob a marca CP (da imprensa). Quanto à TAP, tudo indica que será a alemã Lufthansa a ficar com o bolo por inteiro, tendo já iniciado a construção de uma fábrica em Santa Maria da Feira. Para quem tivesse ainda algumas dúvidas, o antigo chairman da transportadora aérea, Miguel Frasquilho, é claro: "a TAP é uma empresa apetecível, vai trazer valor a quem se tornar acionista". Se não fosse “apetecível”, ou seja, geradora de grandes e garantidos lucros ficaria na posse do estado. O PSD nunca conseguiu esconder a sua febre privatizadora, lembremo-nos do governo de Passos Coelho que foi “além da Troika”. A seguir será a Segurança Social (SS) a ser entregue aos privados, bancos, seguradoras, fundos de investimento, de preferência estrangeiros. A ministra do Capital (não do Trabalho), que não desiste do “pacote laboral”, dará a conhecer o relatório para a sustentabilidade da SS dentro em breve.

Quando o governo e os bombeiros falham, é o povo que toma a iniciativa no combate aos incêndios.

Vários ministros já mostraram sobejamente que são uma fraude, da Saúde, do Trabalho, da Educação, pela simples razão de que o governo que integram também é uma fraude – um engano onde muitos eleitores portugueses caíram, mas caíram porque quiseram, os avisos eram muitos e visíveis – e liderado por um político sempre de riso sardónico para encobrir uma grande falta de seriedade e de coragem política. Este governo terá se ser demitido, nem que seja para bem da saúde pública do povo português. O PR Seguro terá alguma coisa a dizer sobre a urgência do assunto ou os trabalhadores terão de vir de novo para a rua?

Imagem de destaque: na net

segunda-feira, 29 de junho de 2026

O governo da demência

 

Giorgio Agamben

Como explicar o facto — aparentemente verdadeiramente inexplicável — de a nação que até há pouco tempo dominava o mundo ter sido, na última década, e continuar a ser governada por um presidente tecnicamente demente? Talvez a única resposta possível seja a de que os Estados Unidos se encontram numa situação histórica para a qual apenas a demência é adequada. Quando um país atinge o estádio final de desintegração espiritual, as decisões racionais para enfrentar a crise já não estão ao seu alcance. Resta apenas acelerar o colapso — agora inevitável — por quaisquer meios necessários, e a demência, seja ela real ou fingida, é certamente o instrumento de governo mais adequado a este fim.

Como súbdita leal dos Estados Unidos, a Europa também se está a autodestruir e, tal como o seu senhor, parece estar a mergulhar na demência. Resta saber, nos próximos anos, se certos Estados europeus conseguirão parar à beira do abismo ou se mergulharão nele juntamente com aquela entidade deplorável e ilegítima conhecida como Comunidade Europeia.

15 de junho de 2026

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A Gramática do Ocidente

Num ensaio de 1942, Louis Renou afirmou que "na base do pensamento indiano residem linhas de raciocínio de natureza gramatical". As três categorias em que a filosofia indiana divide toda a realidade — substância, qualidade e ação — derivam, indiscutivelmente, da análise gramatical da linguagem: substantivo, adjetivo e verbo. De facto, a gramática do sânscrito de Pāini e o comentário de Patañjali são anteriores à maioria dos textos filosóficos indianos.

Poder-se-á perguntar até que ponto isto se aplica também à filosofia grega que fundamenta a nossa própria cultura. Esta hipótese parece entrar em conflito com a tradição que atribui a descoberta das classes gramaticais — e, consequentemente, a invenção da gramática — a Platão e Aristóteles. No entanto, este conflito aparente dissipa-se e desaparece assim que compreendemos a implicação: a de que, para se tornarem filósofos, Platão e Aristóteles tiveram, antes, de ser gramáticos.

Do início ao fim, o Ocidente é uma civilização gramatical; fez da análise da língua — e da sua estruturação numa gramática — o fundamento do seu conhecimento do mundo e do seu domínio sobre a natureza. A ciência, que se tornou a religião do Ocidente, pressupõe — como qualquer religião — um mundo nomeado no qual a ontologia (o facto de o ser ser articulado e ordenado através da linguagem) se divide em regiões distintas, cada uma abordada por um ramo específico da ciência. Por outras palavras, o destino do Ocidente inscreve-se na gramática indo-europeia — com os seus casos e as ligações lógico-sintácticas de dependência hierárquica através das quais articula o seu pensamento juntamente com a sua linguagem. É por isso que — talvez ao voltarmos o olhar para a China, uma cultura que não analisou nem estruturou a sua linguagem numa gramática, mas que a vê como uma série de monossílabos desprovidos de articulação gramatical — possamos encontrar não necessariamente um novo modo de pensamento, mas pelo menos uma saída para o destino sombrio a que a análise lógica da linguagem (ensinada a nós na escola primária, e não sem razão) nos condenou irremediavelmente, tudo isto sem que sequer nos apercebêssemos.

20 de abril de 2026

Imagem: Rapto de Europa por Zeus disfarçado de touro pintura mural de Pompeia

Fonte

sábado, 20 de junho de 2026

A derrota do governo e a fuga de Montenegro

(Expresso)

Quando a proposta do governo de alteração da legislação laboral – o famigerado “pacote laboral” – era discutida e votada no Parlamento, Montenegro, primeiro-ministro de Portugal e principal defensor da medida, encontrava-se em Bruxelas em reunião do Conselho Europeu, mas logo que soube do resultado da votação não se coibiu de apontar o dedo à oposição, acusando-a de: "politiquice" e de "falta de coragem" e, mais tarde, de “estratégia política manhosa” e “imaturidade” – falou o “corajoso” enquanto prestava vassalagem ao grande capital financeiro europeu em vez de estar em S. Bento a enfrentar as críticas e a contestação. Realçar que os partidos que votaram contra, fizeram-no porque os trabalhadores estiveram na rua. E será na rua que este governo de Montenegro/PSD/CDS, já que o PR Seguro irá por tudo evitar uma crise política, cairá como fruto podre.

“O PSD vai continuar a pressionar”

Em congresso do partido, também não deixou de perorar que “eu estou tudo menos preocupado com o meu futuro político”, do que a continuação do governo e de prosseguir a missão de que foi incumbido pela oligarquia indígena e por Bruxelas: “executar o programa” de empobrecimento do povo português e, mais concretamente, "não desistir" de objetivos da lei laboral que permita uma maior transferência de riqueza dos trabalhadores para os grandes capitalistas. Não houve nenhum representante das principais associações patronais que não lamentasse o facto da reprovação do pacote laboral: CAP, CIP, AIP são unânimes no "profundo desapontamento" e na revisão laboral continuar a ser "essencial". Mas o PSD não desiste e “vai continuar a pressionar a oposição”, diz o líder da bancada parlamentar que dava a aprovação do pacote laboral como certa. E corrobora a ministra do Trabalho: “se bem o conheço (refere-se a Montenegro), lá iremos outra vez fazer esta e outras reformas”.

Ao criticar o partido da extrema-direita que, à última da hora resolveu chumbar a proposta governamental, porque sabia que caso votasse favoravelmente corria o risco de perder mais de metade dos votos em próximas eleições legislativas, Montenegro não conseguiu refrear a hipocrisia e a falta de vergonha: "jamais tomarei qualquer medida que possa prejudicar o pagamento futuro de pensões". Ora, sabe-se que o governo criou um grupo de trabalho com a missão de fazer um relatório sobre sustentabilidade da Segurança Social e que será entregue até ao final deste mês de Junho. Sabemos antecipadamente qual a intenção, justificar a entrega dos muitos milhões descontados pelos trabalhadores aos grandes fundos de investimento e aos bancos. Será o roubo generalizado e sem disfarces. Mas ainda antes, e já estando na calha, a reforma da Saúde será apresentada em Julho – anunciou o ministro da Reforma do Estado, ao lado de Ana Paula Martins, que se considera a ministra mais impopular do governo, mas não liga ao que os media dizem. Soberba, arrogância e vaidade são outras marcas deste executivo mal parido.

Até que a reforma da Segurança Social seja levada a cabo – o governo de Montenegro ufana-se constantemente de que a sua obsessão é o “reformismo”, o combate ao “imobilismo” e a “missão” será levada até ao fim – ensaia a reestruturação da PSU (Prestação Social Única). A intenção é poupar dinheiro, isto é, retirar o pouco que os pobres ainda recebem, se vier a acontecer são menos 3,2 milhões por ano. Não é para ajudar a reinserção social dos ditos “subsídio-dependentes”, como refere a milionária ministra do Trabalho, mais concretamente do Capital, não passando de uma rematada mentira e provocação a “evidência de subsídio-dependência” e 159 milhões em "pagamentos indevidos". Ao mesmo tempo, e não deixa de ser mais do que mera coincidência, a autorização da despesa por parte do governo de 130,4 milhões de euros para apoio à Ucrânia este ano, devido à guerra que a União Europeia trava contra a Rússia. Os milhões para combater a pobreza servirão para fazer a guerra.

Portugal, a “inveja” da União Europeia

Montenegro irá ficar na história não só pela hipocrisia e cobardia política, mas sobretudo pela lábia e manhosice, que gosta de atribuir aos outros: “Portugal faz corar de inveja qualquer economia da União Europeia" - garante. Ora, se formos aos números, a economia entrou em estagnação no primeiro trimestre do ano em relação ao trimestre anterior; o défice comercial sobe para 11,4 mil milhões de euros até Abril, após queda das exportações e subida das importações – diz o INE; “Portugal entre os mais expostos a choques no turismo se faltar combustível na aviação”, embora a ministra do Ambiente diga que tudo voltará ao normal, contrariando as expectativas dos empresários do sector; o IGCP realiza leilão de até 1.250 milhões em dívida a 9 e 19 anos, ou seja, a dívida pública aumenta; o PIB da Zona Euro entra em contração no primeiro trimestre do ano; o FMI avisa que juros vão subir e gastos públicos na Zona Euro têm de cair; o salário mínimo já vale 91% do salário mediano e o BdP alerta para riscos da situação.

Perante a situação de crise económica grave e estrutural, governo, oligarcas, jornalistas avençados, paineleiros de serviço e outra fauna oficial e oficiosa são unânimes: “o salário médio só descola do mínimo se houver aumento de produtividade”. Ora, como se encontra a produtividade? “A produtividade em Portugal é a quarta mais baixa da União Europeia e piorou em 2025” (Expresso). A produtividade por hora trabalhada em Portugal caiu para 66,8% da média da União Europeia. Em sentido contrário, no alojamento e na restauração, por exemplo, trabalha-se, em média, 41,3 horas semanais efetivas, acima da média europeia, que são 35,9 horas. Quais as causas principais? Fraca formação dos empresários, deficiente gestão das empresas, falta de investimento na gestão e na produção, nomeadamente, robotização e inteligência artificial (IA). Mantendo-se a situação de baixos salários, os trabalhadores nacionais continuarão a emigrar, restarão os imigrantes, com menor formação, estigmatizados pela extrema-direita e perseguidos pelas forças policiais. Novos empresários precisam-se, ou, o que já é mais que tempo, os trabalhadores, com mais competências e instrução do que os patrões em média, devem eles próprios tomar conta das empresas e mudar o paradigma económico.

Justiça, polícias e organizações terroristas

Algumas decisões da justiça portuguesa revelam à evidência que a justiça que se faz em Portugal é uma justiça de classe, que poupa o poderoso, o rico, o famoso e o agente policial mais zeloso na defesa do establishment, contra o pobre, o migrante, o desordeiro e o trabalhador, ou seja, todo aquele que não se encaixa no sistema da ordem e da lei da oligarquia. A sentença no caso do assassínio de Odair Moniz foi simbólica, o polícia apenas "se excedeu" na sua defesa pessoal, embora não tenha respeitado as regras sobre o uso da arma de fogo, estabelecidas na União Europeia. Assim como a pena suspensa de prisão do cantor condenado pelo crime de abuso sexual de uma menor de 12 anos, ou do actor de novelas, também condenado a pena de prisão suspensa por violência doméstica, foram penas para ficarem emolduradas na parede da justiça de faz de conta. Relembrar que os agentes envolvidos na tortura e assassínio do migrante ucraniano Ihor Homeniuk já estão todos em liberdade. No tempo do “Botas” de Santa Comba não teria sido muito diferente.

O director nacional da PSP veio publicamente manifestar o seu apoio ao subordinado, em termos corporativos ficou-lhe muito bem, lembra a solidariedade das mafias, mas foi muito infeliz em termos humanos: Odair deixou uma viúva e dois filhos órfãos. Mas como não há duas sem três, o mesmo chefe da polícia considerou “grave” e “excepcional” que oficial da polícia esteja envolvido num movimento neo-nazi, que ainda não foi ilegalizado e nem sabemos se alguma vez o será, e que supostamente estaria a preparar atentados terroristas contra 40 políticos, incluindo o primeiro-ministro, mais de 80 figuras públicas e um sem número de organizações sindicais, sociais e políticas de esquerda. Ora, é exactamente do seio das polícias e das forças armadas profissionais que estas organizações terroristas saem e se consolidam, porque o objectivo é semelhante: defender o establishment, nomeadamente, o seu núcleo base, a classe dos grandes capitalistas.

Ficou-se a saber que o julgamento do caso da recusa de embarque dos marinheiros do navio NRP Mondego não tem avançado porque o chefe da Marinha tem torpeado o processo de notificação das testemunhas, essenciais para que se realize. Acaba de ser condenado a uma multa ridícula de 816 euros por “comprometer julgamento”. Os advogados de defesa dos três militares da Marinha acusados de insubordinação, traição e outras fantasias, adiantaram à Lusa que vão pedir para que a sanção seja paga pelo próprio Almirante, Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA), e não pelo Estado/Marinha; e irão requerer "a detenção das duas testemunhas para serem conduzidas sob detenção a juízo na nova data que vier a ser designada". Se o tribunal irá proceder ao requerido não sabemos, o que fica claro é que a justiça se inclina mais contra o lado mais fraco, parece que as testemunhas são peça chave na prova de que o navio não tinha condições para se fazer ao mar. E basta um chefe militar para torpedear o "bom e célere funcionamento" da dita justiça. Como mais uma vez se constata que a justiça é uma justiça de classe.

Realizou-se no mês passado, na Figueira da Foz, a segunda Remigration Summit que reuniu a fina flor do entulho neo-nazi e fascista da Europa. Nela pontificou como estrela da companhia o tenebroso Gregory Bovino, ex-chefe da Patrulha Fronteiriça dos Estados Unidos (ICE) e símbolo da política anti-imigração de Donald Trump. Esta gente defende a deportação em massa dos que considera “imigrantes ilegais” e que poderão substituir a população nacional. A organização esteve a cargo de Afonso Gonçalves, líder do movimento (legal) de extrema-direita Reconquista. Em Novembro, Pedro Frazão, deputado e vice-presidente do Chega, enviou uma mensagem para o congresso desta organização: “é com enorme orgulho que envio esta mensagem ao congresso da Reconquista, que sei ser uma das casas da direita cristã patriótica em Portugal”. Muitos dos indivíduos presentes, segundo a imprensa, estão a ser investigados pelas polícias dos seus países, uns são acusados de crimes de ódio, outros são condenados e alguns são fugitivos. Ninguém foi preso, foi tudo legal, e não nos admiramos que até tenham tido até protecção policial.

"Piada Fácil" - Henricartoon

Este é o país em que Portugal se está a transformar sob a administração de Montenegro/PSD/CDS, um coio de fascistas, com uma justiça vesga e com polícias de gatilho fácil contra quem ouse ser diferente ou conteste as reformas do Luís. Ainda a procissão vai no adro.


sábado, 13 de junho de 2026

Toda a espécie humana foi transformada numa máquina geradora de lucros

Caitlin Johnstone

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A espécie humana foi essencialmente transformada numa máquina gigante para gerar lucro para as empresas.

Sob o capitalismo, a humanidade existe para servir os interesses da corporação. Somos todos gado; animais de carga usados para transportar a expansão da margem da declaração trimestral para a declaração trimestral. O gozo da vida não tem outro valor senão até que ponto pode ser usado para aumentar o patrimônio líquido dos acionistas.

Por isso todos estão tão infelizes. Não estamos vivendo com propósito. Não estamos trabalhando juntos para construir um mundo melhor e um futuro melhor, estamos apenas puxando alavancas para girar as engrenagens para fazer a linha de seta subir no gráfico na sala de conferências. É uma maneira oca e inútil de as pessoas viverem.

Torna toda a nossa cultura insípida e sem alma.

A música é feita para ser o mais lucrativa possível, o que significa dar-lhe o apelo mais amplo possível usando uma estrutura musical estereotipada calculada para causar uma resposta química no maior número de cérebros humanos.

Os filmes são projetados para atrair a maior receita de bilheteria possível com o menor risco possível para estúdios e investidores, muitas vezes apenas refazendo um filme que já provou ser bem-sucedido no passado ou juntando uma história sobre um IP com apelo de massa pré-existente.

A comida é feita para ser rápida e viciante, em vez de nutritiva.

A conexão humana saudável foi mercantilizada à medida que as mídias sociais se entrelaçam com amizades e os aplicativos de namoro se inserem no desenvolvimento de relacionamentos românticos.

A sexualidade humana está sendo distorcida e distorcida à medida que a pornografia na Internet normaliza a violência e a degradação pelo número máximo de cliques.

A atenção e o envolvimento foram monetizados, criando um ecossistema de informação dominado por conflitos e fofocas concebido para apelar aos nossos instintos mais básicos.

O anúncio é injetado em todos os cantos possíveis da nossa experiência sensorial de vigília, com qualquer espaço disponível onde o olho possa descansar ou o ouvido possa ouvir sendo inundado por manipulação psicológica que nos obriga a consumir. Eles começarão a veicular comerciais em nossos sonhos no instante em que tiverem tecnologia para fazê-lo.

Você passa oito horas no escritório trabalhando para gerar lucros corporativos, depois volta para casa e consome produtos para lucrar com outras corporações. Você precisa de sua cerveja e lanches para relaxar, seus serviços de streaming e mídias sociais para distrair sua mente do estresse de tudo isso, sua compra de roupas on-line para tentar se sentir bem consigo mesmo e seus medicamentos prescritos para dormir à noite. As pessoas vivem a vida inteira assim.

E esses somos aqueles de nós que têm a sorte de viver no norte global. No sul global, obtém-se escravatura e exploração assalariadas com muito mais trabalho árduo, muito menos tempo de relaxamento e sem produtos baratos fabricados por trabalhadores empobrecidos de outros continentes para se confortar.

Toda a humanidade foi amarrada nesta confusão. E para quê? Para fazer aumentar os números em algumas contas bancárias. Para obter algumas setas verdes apontando para cima na bolsa de valores. Para permitir que alguns bilionários comprem ilhas e eleições.

Ao mesmo tempo que destruímos a biosfera da qual todos dependemos para sobreviver.

Dizem-nos que este é o melhor sistema possível sob o qual poderíamos viver.

Pessoalmente, não acredito que isso seja verdade. Eu pessoalmente acredito que podemos ter melhor. Aqueles que se beneficiam desse arranjo atual vão nos garantir que é impossível e fazer tudo o que puderem para nos impedir de mudá-lo, mas temos os meios para recuperar a riqueza, a dignidade e a felicidade que eles nos roubaram.

Construíram toda esta máquina nas nossas costas. Tudo o que precisamos fazer é levantar-nos (e destruí-la - NT).

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terça-feira, 9 de junho de 2026

HIND - O QUE É A INFÂNCIA NA PALESTINA?

Hind Rajab - NBC News

Por Francesca Albanese

Conseguir nunca mais ter medo é a derradeira meta do homem.

ITALO CALVINO, O Atalho dos Ninhos de Aranha1

Final de Janeiro de 2024. Hind Rajab tem seis anos. Está encolhida no assento de trás do carro dos tios, agarrada aos quatro primos. Assim que foi dada a enésima ordem de evacuação na zona ocidental de Gaza, a mãe e os irmãos fugiram a pé, mas, porque chovia e fazia frio, os tios levaram-na de carro com eles.

É início de tarde, os sons das bombas entram pelo habitáculo e os carros parecem presos num engarrafamento. Algo não está bem. Os tios pressentem isso mesmo, estão nervosos, falam de maneira agitada. A pouca distância de uma estação de serviço nos arredores de Tel-al-Hawa, o carro fica sob uma chuva de fogo de artilharia israelita. Depois, um silêncio surreal. Hind olha à volta: ninguém fala e todos estão curvados sobre si mesmos. Com as mãos seguramente trémulas, tira o telemóvel dos dedos de Layan, a prima de quinze anos que fora atingida enquanto falava com os operadores do Crescente Vermelho. Hind explica que «os outros estão mortos ou talvez estejam a dormir» e suplica por ajuda. «O tanque está ao meu lado. Está a andar. Vêm buscar-me? Tenho tanto medo.»

Do outro lado da linha, a operadora — assustadíssima, porque sabia o risco que Hind corria — responde-lhe com afecto: «Habibti», «tesouro», e fica ao telefone com ela para não a deixar só.

Depois de três horas de chamada — o tempo que demorou aos seus colegas do Crescente Vermelho para se coordenarem com a autoridade israelita de forma a localizarem o carro e obterem permissão para porem a menina a salvo —, a operadora assegura a Hind que os socorristas estão a ir em seu auxílio. A gravação daquela conversa angustiante, com a vida da pequena presa por um fio, está consagrada na História, e espera-se que um dia também o esteja no trabalho dos juízes que punirão os responsáveis da chacina em que Hind foi morta pelo Exército israelita.

Doze dias depois, o corpo exânime de Hind será descoberto dentro daquele carro, sobre o qual se continuou a disparar. O carro, atravessado por mais de trezentas balas, não se encontrava muito longe da ambulância na qual jaziam os corpos dos socorristas do Crescente Vermelho, que não chegaram a tempo de a salvar. E as investigações da equipa britânica da Forensic Architecture, sob orientação do professor Eyal Weizman, ao reconstituírem a distância e a dinâmica dos impactos, conseguiram demonstrar que «não é plausível» que os soldados israelitas que dispararam do tanque não conseguissem ver plenamente que no veículo estavam presentes civis, entre os quais duas crianças.

A história de Hind tornou-se um símbolo da brutalidade do ataque israelita à população de Gaza na sequência do 7 de Outubro de 2023. Mas a pequena foi morta mais de três meses após o 7 de Outubro, quando Israel já matara mais de vinte e seis mil pessoas, entre as quais pelo menos dez mil crianças. Como foi possível tolerar tudo isto? E como é possível que ainda hoje — final de Março de 2025, enquanto termino a revisão deste livro —, quando o número comprovado de crianças mortas chegou a mais de dezassete mil, das quais mil tinham menos de um ano de vida, continue a reinar a impunidade e a máquina de morte posta em marcha por Israel siga imparável?

A resposta está oculta em dezenas de manipulações discursivas que distorceram a percepção das relações de forças entre israelitas e palestinianos.

Nos últimos trinta anos, esta narrativa levou muitos a acreditarem que os palestinianos são os responsáveis pela situação em que se encontram, que representam uma ameaça existencial para Israel. Até mesmo as crianças? Sim, até mesmo elas, e quiçá, sobretudo elas, porque, na lógica do ataque israelita iniciado após o 7 de Outubro, cada vida palestiniana é vista como um potencial perigo futuro para a sobrevivência de Israel.

Quantas crianças palestinianas morreram assim? Com os culpados a saírem impunes, com famílias e comunidades inteiras a sentirem uma dor lancinante? Dezenas de milhares. Na Palestina, a história de Hind, por mais atroz que possa ser, não é inusitada. Mohammed Tamimi tinha dois anos quando, alguns meses antes do 7 de Outubro de 2023, as forças de ação de Israel — formalmente conhecidas como Forças de Defesa de Israel (FDI) — lhe deram um tiro na cabeça, enquanto estava no carro com o pai na Cisjordânia ocupada. Ninguém foi considerado responsável, como sempre.

É assim a infância na Palestina.

1 Italo Calvino, O Atalho dos Ninhos de Aranha, trad. Maria do Carmo Abreu, Lisboa, Pablicações Dom Quixote, 1992, p. 173. (N.T.).

(Quando o Mundo Dorme – Histórias, Palavras e Feridas na Palestina, Francesca Albanese. Antígona, Lisboa, 2026.)

terça-feira, 2 de junho de 2026

A Greve Geral Nacional e o Empobrecimento dos Portugueses

O governo PSD/Montenegro pode orgulhar-se de ter provocado até agora duas greves gerais, mas, pelo andar da carroça, ainda irá produzir mais umas poucas, mesmo que não termine o mandato em 2029. O que acontece está na lógica das dinâmicas sociais e da luta de classes, quando há ataque aos direitos e ao bem-estar dos cidadãos dá-se um reacção em sentido oposto. Não se trata somente de mudar a legislação do trabalho, no sentido de extorquir uma maior mais-valia, mas sobretudo de um plano mais vasto de empobrecimento do povo português. A seguir ao pacote laboral, será a privatização da segurança social, da água, das praias, das ruas e dos espaços públicos, deixando a habitação, por exemplo, de ser um direito constitucionalmente estabelecido para ser um privilégio dos mais ricos e um activo financeiro dos grandes especuladores nacionais e estrangeiros. Montenegro precisa de uma maioria absoluta para atingir os seus objectivos, pede responsabilidade a PS e Chega, no entanto, não tem garantida a legislatura por inteiro, nem é sólida a sua liderança no partido. Foi o líder menos votado em toda a história do PSD, dos mais de 254 mil militantes inscritos, pouco mais de 56 mil com quotas em dia, recolheu 14.467 votos, ou seja, 5,7% do universo laranja. Passos Coelho está à espreita. Os trabalhadores estão em luta.

O governo impõe a lei da rolha e promove o neo-nazismo

Entretanto, o governo agradece ao Chega e IL o apoio nas políticas de imigração e acontece em Portugal, mais precisamente na Figueira da Foz, sob mandato de Santana Lopes, a reunião de toda a escória fascista e de extrema-direita da Europa e do mundo, a Remigration Summit, onde esteve presente o ex-chefe do ICE (“ U.S. Immigration and Customs Enforcement“, o organismo anti-imigração reforçado por Trump), o norte-americano Greg Bovino. Cimeira esta organizada pelo movimento português neo-nazi “Reconquista”, cuja agenda principal, para já, é a expulsão dos trabalhadores imigrantes. Montenegro, PSD e CDS escancaram as portas ao nazismo e ao fascismo, último instrumento a ser lançado pelas elites contra os trabalhadores, migrantes ou nacionais, que ousem opor-se aos planos sinistros do grande capital.

Ao contrário do propagandeado, quer pelos governantes quer pelos seus propagandistas nos media e nas redes sociais, a economia portuguesa não está tão bem como a pintam, daí a necessidade para a oligarquia de mudanças na legislação laboral e de um conjunto de reformas, já elogiadas por Cavaco Silva e ainda não satisfatórias para Passos Coelho. A economia estagnou no primeiro trimestre do ano, apesar de ter crescido 2,3% face ao mesmo período do ano passado; assim, de acordo com os dados do INE, a riqueza nacional não cresceu desde os últimos três meses de 2025 e nem se perspectiva um descolar tão depressa, bem pelo contrário. Esta tem sido a principal razão para uma maior saída de trabalhadores imigrantes de Portugal para outros países, nomeadamente para a vizinha Espanha, e não só ou exactamente as provocações racistas organizadas pelos jagunços do establishment, ou a carestia da habitação, ou os entraves burocráticos da AIMA.

Para que haja uma prossecução das políticas de aumento de exploração dos trabalhadores e levar os trabalhadores a aceitá-las, é obrigatório criar um clima de intimidação a nível da sociedade e dentro da estrutura administrativa do estado. E as notícias da intensificação da repressão são frequentes, para além do ambiente intimidatório nas empresas privadas, e nas greves gerais os casos têm aumentado, na cadeia de supermercados Pingo Doce, do oligarca Soares dos Santos, trabalhadores são agredidos inclusivamente. E dentro do estado utilizam-se métodos semelhantes. O secretário de estado da Proteção Civil Rui Rocha garantiu que nenhum operacional ficará “impune” caso faça declarações aos jornalistas sobre dificuldades no combate aos incêndios rurais; mais tarde veio “esclarecer” o sentido da frase que não era exactamente o literal. Logo a seguir, em tom mais “esclarecedor”, António Nunes, presidente da Liga dos Bombeiros, vem dizer que os comandantes não devem comentar incêndios em curso, apenas o deverão fazer "como cidadãos". Ensaia-se assim a lei da rolha por parte do governo, antecipando que neste Verão haverá forte borrasca incendiária, provocada em grande parte pela política de desprezo em relação à massa florestal derrubada e ainda espalhada por quase toda a Região Centro, devido às tempestades ocorridas em Janeiro. E com as respectivas vítimas também à espera dos tão prometidos apoios.

O povo português está em processo rápido de empobrecimento

«As famílias em endividamento excessivo voltam a aumentar», é o título da notícia, confirmada pelos dados do INE, que mostram que uma em cada dez famílias se encontrava em sobrecarga em 2024; resultados que também indicam que os aumentos de riqueza assentam na subida dos preços das casas. Quase metade dos portugueses já comprou menos alimentos devido à subida de preços, segundo o barómetro da Intercampus, revelando que quase 80% dos entrevistados pedem mais medidas ao governo para conter a inflação e dois terços consideram que o país está pior hoje do que em 2025. Se a pobreza (oficial) baixa, de 17% para 15,4% em dois anos; contudo, mais de 300 mil crianças e 540 mil idosos são pobres, persistindo “fortes desigualdades sociais, regionais, salariais e habitacionais” – relatório "Portugal, Balanço Social 2025". Em relação às crianças, é de referir que uma em cada 20 crianças pobres passou fome em Portugal durante o ano de 2024. Mas, nestas coisas de números oficiais há sempre um “mas”, o risco (“risco” será eufemismo) de pobreza em Portugal sobe para 27,6% se forem considerados os custos com a habitação, segundo estudo da Rede Europeia Anti-Pobreza. E se não fossem os apoios sociais do estado, que Montenegro quer agora retirar com o ajustamento da dita “Prestação Social Única”, haveria quatro milhões de pessoas pobres em Portugal.

O primeiro-ministro veio, quase com pompa e circunstância, “explicar” que a Prestação Social Única (PSU) serve para que os "apoios não se transformem num cheque permanente e num modo de vida”; ou seja, veio chamar aos pobres que recebem algum apoio do estado de malandros, relapsos e oportunistas, que gostam de viver à sombra do estado, confundindo-os com ele próprio e com a oligarquia que vive dos negócios e negociatas com os dinheiros públicos, que foge aos impostos e exportam ilegalmente os capitais para off-shores. Por exemplo, sabe-se que o Fisco tem 29.592 milhões de euros em impostos por cobrar, que desses impostos mais de 60% são já considerados dívida incobrável ou suspensa, por aguardar decisão dos tribunais ou por causa de processos de insolvência, na maioria fraudulentas, montante referente ao ano de 2025, o que representa um aumento de 1.258 milhões face a 2024. Grande fatia de receitas por cobrar vem do IVA e do IRS, de grandes empresas e de grandes empresários.

Ainda em relação à famigerada PSU, Montenegro esclarece que visa "simplificar o regime de apoio social do estado“ e “combater a exclusão social", o que é uma rematada mentira, o verdadeiro objectivo é de restringir ainda mais a sua atribuição, quer ao número de beneficiários quer ao montante globalmente despendido – quem recusar fazer trabalho social fica com apoio suspenso durante 2 anos. Mas para azar do primeiro-ministro, o governador do Banco de Portugal, mais propriamente dito, chefe da sucursal do BCE (Banco Central Europeu) no nosso país, não conseguiu evitar que a boca lhe fugisse para a verdade: os apoios devem ser “para os mais vulneráveis” porque impactam as contas públicas. Não impactar as contas públicas à custa dos mais pobres, é a finalidade da medida, não a mínima preocupação quanto a justiça social ou a honestidade do processo. Não deixa de ser despiciendo referir que este ex-ministro dos pastéis de nata foi obrigado a livrar-se de acções que tinha adquirido já durante as suas funções, aproveitando-se muito presumivelmente da sua situação de acesso a informação privilegiada – enquanto muitos são ainda mais empobrecidos do que eram, outros em menor número não deixam de aproveitar a mínima probabilidade de enriquecer bastante mais.

A situação da economia em geral vai piorar substancialmente e de forma rápida, mais do que se possa esperar a uma primeira vista, muitos empresários estão pessimistas, e com razões sobejas, como se pode constatar pelos 4 mil e 700 empresários inquiridos pelo INE, cuja maioria é de opinião que “o pior está para vir”, justificando com a guerra do Irão; mas não só, a crise é estrutural ao capitalismo. A dívida pública cresceu 3,9 mil milhões no mês de Abril, é o quarto mês seguido a aumentar, atingindo o montante de 287,1 mil milhões de euros, será o resultado das tempestades Kristin como da assunção das dívidas dos privados pelo estado. Os alarmes soaram para o governo apertar o cinto das contas públicas; contudo, como já referimos, grande parte dos portugueses está descontente com a acção do governo perante a crise inflacionista. E as consequências não se fizeram esperar: Sondagem: “PS à frente da AD e Chega perde força”, todos os partidos da direita descem, com o Chega em terceiro lugar e a IL atrás da CDU. Montenegro perde popularidade, registando valores negativos pela primeira vez – sondagem do ICS/Iscte/Gfk Metris. E sonha o gajo com maioria absoluta, deverá ser efeito de alguma droga alucinogénica.

Mal se soube dos resultados das sondagens favoráveis ao PS, com a possibilidade de vir de novo a ser governo, caso houvesses por estes tempos mais próximos eleições legislativas antecipadas, e por interessante coincidência, o Ministério Público desencadeou uma operação de busca à sede nacional do PS e a autarquias onde alguns militantes do PS teriam cometido crimes de corrupção e uso indevido de dinheiros públicos em adjudicações directas. Foram detidos cinco pessoas e foram usados 400 (quatrocentos) inspectores da PJ (quando o PGR diz que o Ministério Público não actua como deveria por “falta de meios”, não está nada mal). Foi no dia 28 de Maio, nos 100 anos do golpe militar que instaurou o fascismo em Portugal, e passados dois dias todos os detidos foram libertados – a montanha terá parido um rato, com o MP a passear pelo Largo do Rato. Foi nitidamente, uma operação de lawfare, com o governo a usar o poder judicial como arma de ataque contra o principal rival. É a fascização do regime, que teve outro episódio com o derrube do governo maioritário do PS/António Costa, embora aqui acreditamos que terá havido colaboração por interesses pessoais do próprio Costa, que não estrebuchou colocando de imediato a lugar à disposição.

A Greve Geral Nacional que se vai realizar a partir das 00 horas de amanhã, é uma greve não só contra o pacote laboral de Montenegro/PSD/CDS, como principalmente contra o empobrecimento geral dos trabalhadores e do povo português, contra o regresso a 28 de Maio de 1926… e contra o governo, que se arvora em executor zeloso do programa da oligarquia de reanimação do seu sistema económico, em crise crónica e profunda, à custa da escravização de quem trabalha e produz. O governo PSD/CDS/Chega deve cair!

Imagem 1: Cartoon de Rodrigo de Matos (daqui)

Imagem 2: 1.º de Maio na Alameda D. Afonso Henriques - CGTP.


segunda-feira, 25 de maio de 2026

MANUAL DO BOM FASCISTA

 

Por Rui Zink

O BOM FASCISTA NÃO GOSTA DE SER CHAMADO FASCISTA

Acha que o retrato não lhe faz justiça. E a justiça é muito importante para o bom fascista. Ele não suporta injustiças. E, afinal de contas, o que significa "ser fascista"? Nada. Salazar, por exemplo. Passam a vida a chamar-lhe fascista, mas «não era fascista» [sic — estas coisas não se inventam]. Já muitos e bons doutores explicaram que Salazar não era fascista. Fascistas eram Hitler e Mussolini. E Salazar era muito diferente de Hitler e de Mussolini. Para começar, Hitler falava alemão e Mussolini italiano. Ora, Salazar não falava nem alemão nem italiano, falava português. Para terminar, Mussolini era gordo e careca e Hitler tinha bigode a Charlot. Já Salazar, embora tivesse cabelo, não usava bigode. Só não vê quem não quer ver! Haverá provas mais científicas de que nunca houve ditadura em Portugal? Ora bem.

Depois, há todo um ror de infinitas e subtis (mas significativas) diferenças. Salazar nao comia tagliatelle nem sauerkraut, ele era patrioticamente mais aderente a dieta lusitana: bacalhau a Gomes de Sá, arroz de cabidela, iscas com elas, chocos sem tinta.

Pimba.

E há mais:

«(...) Enquanto Mussolini, Hitler ou Franco discursavam e apareciam em púbico em trajes militares, Salazar nunca o fez.»

Inteira razão, doutor Campos e Cunha, só não vê quem não quer ver. Salazar era apenas, admitamos (sendo contemporizadores após este momento de retórico triunfo), talvez "um bocadinho autoritário".

Mas isso era para o bem do país. E não enriqueceu. A prova é que não deixou nada aos filhos nem pôs a empresa em nome da mulher.

*

O BOM FASCISTA NÃO SE ARMA EM ESQUISITO

O bom fascista alimenta-se de mentiras e distorções, é essa a sua dieta favorita, mas, se não houver mais nada para comer, também não desdenha a um facto. O bom fascista gosta de tasquinhar, e até acha graça à ocasional verdade, desde que esses exóticos produtos chamados factos cumpram o requisito fundamental: confirmarem aquilo que pensa.

Quando vê o noticiário, um bom fascista não se deixa dispersar nem enganar: só escuta aquilo que já sabe. Um telejornal pode mostrar golfinhos no Tejo, um incêndio em Los Angeles, uma entrevista um ministro estrangeiro, greves em França, o julgamento dos separatistas em Espanha, uma declaração do Papa sobre recentes escândalos, uma cimeira entre a Ucrânia e a Rússia. Tudo isso o bom fascista vê com o ar adormecido de um velho crocodilo a jogar bingo. Só quando sai o número certo — digamos, “cigano/muçulmano atacou alguém" — é que o crocodilo lá abre um olho, subitamente alerta. E comenta, satisfeito com a sua visão periférica:

«Eu sabia. Esta gente...»

*

O BOM FASCISTA NÃO SE METE EM POLÍTICA

Até porque a sua política é o trabalho.

E muito gosta o bom fascista do trabalho. Ao contrário dos outros, que «não querem é trabalhar», o bom fascista quer trabalhar. E não tem medo do trabalho. A sério, não tem. Consegue aproximar-se do trabalho sem medo — desde que tenha um chicote, uma cadeira e, bem entendido, o trabalho esteja devidamente açaimado e/ou acorrentado à parede.

Se o bom fascista tem um chicote e uma cadeira, e o trabalho estiver devidamente açaimado, o trabalho que se cuide. Com ele não faz farinha.

Quando interrompe o trânsito e os carros de trás começam a buzinar, o bom fascista ruge:

«Estou a trabalhar!»

E quando não o deixam passar, aí é o bom fascista que carrega na buzina, e grita:

«Tira daí essa merda que tenho de ir trabalhar!»

Todavia, por vezes, o bom fascista também gosta de dizer, rindo com gosto, que «o trabalho é bom é para o preto». Isto é, aliás, por definição, o que faz rir o bom fascista: imaginar alguém a ser pisado, maltratado, espezinhado. E a levar porrada no lombo, se refilar, para aprender a da próxima vez ficar quietinho.

O bom fascista, quando ri, ri de cima para baixo.

O que nem sempre é fácil, convenhamos. Sobretudo quando estamos cheios de trabalho.

O bom fascista gosta tanto de trabalhar que, quando não está a trabalhar, finge que está a trabalhar.

*

O BOM FASCISTA TOLERA PRETOS, DESDE QUE SAIBAM O SEU LUGAR

Esta não é a terra deles, diz o mesmo bom fascista que antes achava que a terra deles era "nossa". Esta terra é a nossa terra e se não gostam voltem para a terra deles. Quem não está bem, muda-se. E calem-se. Parem com a chinfrineira sobre o "colonialismo" e o “tráfico de escravos”. Quem não está bem emudece.

Eles são eles e nós somos nós e assim é que é bonito. O bom fascista desconfia do até do turismo: pode ser imigração encapotada. E tecnicamente até é, só que  imigração por pouco tempo — tal como a imigração pode ser também vista como turismo prolongado.

De igual modo, aquilo a que chamam "tráfico de escravos" pode ter sido apenas a invenção, ainda titubeante, do turismo moderno. Afinal, quando levaram pretos de África para o Brasil, não estariam os nossos gloriosos antepassados apenas a criar a primeira Agência Abreu da História? Certo, as condições no porão talvez não fossem as melhores, mas os lugares na Ryanair e na EasyJet também são apertados. E desde quando quem viaja quase à borla (ou mesmo à borla, no caso dos escravos) tem direito a queixar-se?

O bom fascista nada tem contra os pretos, atenção, só acha é que não têm a nossa cultura, não partilham os nossos valores e está mal se vêm para cá surrupiar os nossos empregos e, com os seus mastodônticos marsápios, ficar com as nossas mulheres.

O BOM FASCISTA NÃO TEM SAUDADES DE SALAZAR

Nem precisa. Por que raio precisaria se Salazar continua vivo em nossos corações, fígados, bocas e mentes?

Factos são factos. Mesmo passado meio século, o bom homem continua a polonizar-nos o imaginário, qual abelhinha redentora.

Qual santa da ladeira, continua a escutar e a reciclar os nossos pecados.

Qual el-rei D. Sebastião em modo de rancho-melhorado, não precisa de voltar numa noite de nevoeiro — pois ele mesmo é nevoeiro.

O bom fascista sabe que Salazar «sempre quis o melhor para o país». E concede que (está bem, melga) aqui e ali terá sido um bocadinho autoritário e que a PIDE terá feito coisas, das quais ele até nem não sabia, porque não lhe diziam tudo. Agora fascista, Salazar? Isso não.

Foi o quê. então? Foi, digamos, um bocadinho autoritário.

A verdade é que, vendendo volfrâmio aos alemães e emprestando a base das Lajes aos americanos, «Salazar salvou-nos da guerra». E fê-lo com a mesma camponesa manha com que acomodava espiões aliados no Hotel Vitória (hoje, ó ironia, sede do PCP) e espiões nazis no Tivoli (hoje, oh ironia, ainda um belo hotel).

E Salazar foi sempre humilde e discreto. Certo, viveu quarenta anos num palácio — mas acaso era seu? Ah, bom. Tava a ver. E, modesto e humilde, nunca foi agarrado ao poder. O poder é que se lhe agarrou às mãos como um irritante adesivo se cola aos dedos. Acaso uma pessoa é culpada por um adesivo se lhe colar aos dedos?

Ná, o bom fascista não tem saudades de Salazar. Acha apenas que Portugal precisa de um outro Salazar. Alguém que pusesse isto no eixo.

(“Manual do Bom Fascista”, Rui Zink. Ideias de Ler, 2019)

Caricaturas de João Abel Manta (1928-2026, Lisboa)

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Velho com 1 ano de idade e subserviência ilimitada

 

Passou um ano de vida do governo PSD/CDS e as promessas que foram feitas na tomada de posse foram todas traídas, como já seria de esperar. Montenegro prometeu “valorizar o trabalho e o rendimento dos portugueses” e “continuar a salvar o Estado Social”, da saúde à habitação, passando pela imigração. Mas aconteceu o contrário. A saúde está pior, o número de portugueses sem acesso aos cuidados de saúde aumentou, o desempenho do SNS degradou-se; a habitação está inacessível a qualquer família trabalhadora ou até à dita “classe média”; com a nova lei sobre imigração, mais difícil adquirir a nacionalidade portuguesa por parte dos imigrantes que aqui trabalham, mas mais rápida a expulsão; a vida do povo português piorou, mesmo sem aprovação do pacote laboral. E quanto a política externa, foi o escândalo do ano, a base das Lajes foi disponibilizada sem autorização prévia aos EUA para a sua agressão ao Irão – governo e ministro afirmaram de imediato que nem a autorização era necessária como fizeram o que tinham a fazer.

A subserviência indisfarçável por genética

O secretário de estado norte-americano foi claro na sua afirmação de que o governo português aceitou o uso da base das Lajes sem saber exactamente a natureza da missão, a autorização veio depois, o que escandalizou parte da opinião pública e, como não podia deixar de ser, provocou a indignação dos partidos da oposição. O PS clama que o governo português levou o país a uma "humilhação à escala planetária"; o BE acusa o governo de “mentir” e de “subserviência”; o PCP exige um “inquérito”; o Chega declara que os que utilizam território português devem cumprir as “normas”, e critica o PS; IL não manifesta opinião; Assis, como já é habitual nestes casos, vem em socorro da direita, ataca os "termos excitados" e "retórica extremista" do PS. Rangel dá a cara pelo governo, escudo protector do chefe, um pernas abertas que salienta que a autorização não é necessária sequer – apesar da base estar ao serviço da Nato e não dos EUA como país. Rangel acaba de atacar o PS, acusando-o de fazer “chicana política”. A subserviência é a marca indelével do governo Montenegro/CDS/Chega, e Rangel ficará como o rosto da humilhação. Caso fosse governo, acreditamos que o PS não faria diferente.

Na visita à Alemanha, onde Montenegro se foi encontrar com 80% do PIB alemão, que depressa passou para os 120%, no dizer do mainato ministro dos Negócios Estrangeiros, foi evidente a manifestação de subserviência perante o grande capital germânico. Foi mendigar investimento para o país, não trouxe nada de palpável, e nem sequer se encontrou com a comunidade portuguesa naquele país, frustrando a expectativa de muitos trabalhadores nacionais que, alguns deles, eventualmente até terão votado no PSD. Foi uma visita tida como “relâmpago”, que acabou por ser gozada, quer pelos próprios media mainstream como nas redes sociais pela gafe de Montenegro do “führer”, em discurso proferido em inglês macarrónico, muito parecido com o de António Costa, quer pela figura de parolo rural. Nós vamos mais longe, Montenegro foi acertar com os alemães a venda ao desbarato da transportadora aérea nacional, TAP, à Lufthansa, e outros negócios que não interessa publicitar. Fez o papel típico do vendilhão de feira e da sabujice política. Foi, no entanto, bem acolitado.

Governo forte com os fracos e dócil com os fortes

O governo, quando não lhe interessa, deixa de mandar, para ficar bem com Deus e com o Diabo. Perante a crítica da Comissão Europeia, em conjunto com o Fundo Monetário Internacional (FMI), quanto à aplicação da taxa reduzida de IVA (13%) na restauração em Portugal, e a forte preocupação por parte da AHRESP (Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal) quanto ao regresso da taxa máxima de 23%, o governo assume uma posição de verdadeira cobardia. Quere lançar o ónus da medida sobre os partidos da oposição: o ministro "Miranda Sarmento desafia o Parlamento a apresentar propostas para subir IVA na restauração". Por que é que aqueles organismos, CE e FMI, querem o aumento do IVA? Argumentam que a situação actual beneficia as famílias com maiores rendimentos, não é uma medida eficaz de apoio social, e que o regresso à taxa normal de 23% permitiria uma receita fiscal significativa para o estado português, estimada em cerca de 1.000 milhões de euros por ano. A preocupação desta gente, incluindo o governo, não é seguramente o bem-estar do povo português.

A insistência do governo de Montenegro de aprovar o pacote laboral custe o que custar – plano de empobrecimento dos trabalhadores e do povo em geral, que não ousou apresentar durante a campanha eleitoral, porque sabia caso o fizesse jamais ganharia as eleições – mostra à evidência qual a sua verdadeira missão: servir o grande capital. As alterações propostas à legislação do trabalho beneficiam acima de tudo as grandes empresas, não as pequenas ou micros empresas, como advertiu o presidente da associação que representa aquelas empresas. A obsessão da milionária ministra dita do “Trabalho”, bem como do seu chefe, que andou 9 meses a negociar com a UGT e depois da recusa por parte desta central em assinar o acordo de cruz, não a impediu de acusar a UGT de “intransigência” e de “não querer o acordo”, não representando ninguém, revela bem um fundo de personalidade doentio, nitidamente neurótico e reaccionário.

A insistência nas ditas “traves mestras” do governo quanto á questão laboral, por exemplo, revogação dos limites ao outsourcing e aumento dos prazos dos contratos, revela que a agenda (mal) escondida do governo é de fazer aumentar a riqueza dos capitalistas. Assim, os trabalhadores podem ser despedidos em qualquer momento e depois serem de novo contratados como tarefeiros e a um preço bem inferior pelo mesmo patrão; ou como prestador de serviços mas a um preço mais elevado como acontece no SNS já em termos de outsourcing. No final, o capital ganha, o trabalhador perde; no estado, alguém enriquece com a degradação das funções sociais e do esbulho dos dinheiros públicos; facilita-se o fluir da riqueza do trabalho para o capital, da base da pirâmide da sociedade para o topo. E os factos e os números comprovam-no.

Governo como agência de negócios do capital

No ano passado, as remunerações conjuntas dos líderes executivos das empresas cotadas do PSI atingiram 23,4 milhões de euros, ou seja, ganham, em média, 53 vezes mais do que os trabalhadores. Pedro Soares dos Santos, líder da Jerónimo Martins, continua a ser o mais bem pago, recebendo por ano o equivalente a 223 salários médios anuais dos trabalhadores. Encaixou cinco milhões de euros brutos, o equivalente a cerca de 416 mil euros por mês, isto é, o equivalente a 226 salários médios anuais dos trabalhadores do grupo, que são os mais mal pagos de todas as empresas do referido PSI20. Acrescentemos que as maiores famílias da bolsa ganham 653 milhões em dividendos e os acionistas estrangeiros levam mais de mil milhões em dividendos de Lisboa. com a curiosidade da percentagem dos lucros descer face ao ano passado, mas o montante a distribuir é maior. O importante é o saque aos trabalhadores e o maior quinhão vai para o estrangeiro, nomeadamente para China e Angola. Devemos agradecer aos governos do PS e principalmente do PSD, responsáveis pela venda das empresas públicas economicamente estratégicas ao capital estrangeiro privado e estrangeiro.

Em 2023, a riqueza na mão dos mais ricos em Portugal passou dos 60%, mais concretamente, os 10% mais ricos detêm agora 60,2% do total da riqueza nacional. Este aumento, face a 2007, é dos maiores da União Europeia e consta em Análise publicada por Bruxelas, e é a própria Comissão Europeia que diz que há margem para “tributar” estas riquezas, coisa a que os capitalistas são avessos, e aumentar a redistribuição pelos cidadãos, esta outra coisa que não será mais do que marketing político. Mas é o que é, são os factos. Os governos do PS e do PSD seguem uma política de aumentar constantemente os rendimentos do capital em detrimento dos do trabalho. Não esquecer que o governo de PSD/Passos Coelho/Paulo Portas de má memória foi além da Troika, Coelho gaba-se constantemente da proeza e Montenegro tenta seguir-lhe as pisadas. O Fisco acaba por dar como perdidas as dívidas, na sua maioria de grandes empresas e grandes contribuintes, que já sobem para 12 mil milhões de euros – se um pequeno contribuinte ficar a dever meia-dúzia de cêntimos ao estado vê de imediato o salário ou a casa penhorados.

Portugal depois de entrar no mercado internacional do imobiliário, rapidamente atingiu o topo da crise das rendas e dos preços da habitação. As casas deixaram de ser um equipamento social e cujo acesso depressa deixou de ser um direito constitucionalmente garantido do cidadão. As casas são um activo de bancos e investidores financeiros, são uma mercadoria para suscitar lucros e lucros que são, em grande parte, retirados do país com quase isenção de impostos. Notar que Lisboa surge no primeiro lugar entre 127 cidades analisadas por estudo recente, com uma renda média mensal de 1.331 euros, equivalente a 99,15% do salário líquido médio local. Lisboa, Porto, Braga e Coimbra estão entre as cidades menos acessíveis da Europa. Apoio às rendas, à semelhança de baixar o ISP nos combustíveis, é apoio aos senhorios e gasolineiras especuladores, em vez de tabelar os preços. É financiar o capital. É ser gerente dos negócios dos capitalistas. Facto também bem patente no recente negócio da venda do BES/Novo Banco pelo fundo de investimento norte-americano aos franceses do BPCE por 6,7 mil milhões de euros, quando o governo português enterrou ali 8,3 mil milhões de euros, entre 2014 até 2024, tendo agora recebido apenas 1.673 milhões de euros.

Greve Geral Nacional a 3 de Junho

A lei do pacote laboral encontra-se em suspenso na Assembleia da República e a Greve Geral Nacional está convocada para o próximo dia 3 de Junho. Os partidos à esquerda já afirmaram que iriam chumbar tal lei e o partido da extrema-direita encontra-se num imbróglio táctico, não sabendo como dele se desenvencilhar. Por um lado, tem de obedecer aos seus financiadores, o sector mais ganancioso da oligarquia nacional, cujos principais rendimentos vêm dos negócios com o estado, e, por outro, se votar a favor compromete o apoio de franjas de trabalhadores e da pequena-burguesia que acalentam alguma ilusão nas promessas do candidato a salvador da pátria. O tacticismo tem sido o de ligar um possível apoio à lei a reivindicações como abaixamento da idade da reforma ou de aumento do número de dias de férias, a fim de apresentar a cedência como uma vitória. Faz-nos lembrar Trump que não sabe como sair da trapalhada da guerra do Irão sem ficar identificado como o grande derrotado. No caso do 4º pastorinho, não ser visto como o principal lacaio da burguesia rentista portuguesa. Não se pode dar como certo o chumbo da obsessão do governo em querer aumentar a escravização dos trabalhadores portugueses.

A Greve Geral Nacional merece todo o nosso apoio e da grande maioria dos trabalhadores e do povo português. O objectivo não será só a derrota do governo, mas a sua destituição a breve trecho. Estamos expectantes qual será na realidade, na hipótese de a lei ser aprovada, a posição do PR Seguro quanto a esta questão.

Imagem: Cartoon de António Gaspar.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

As forças de segurança, a democracia e o estado de direito

(Público)

Tem dado muita celeuma e aproveitamento político a notícia de “Vinte e quatro polícias detidos”, acusados pelo Ministério Público de variados e gravíssimos crimes, atendendo que se referem a agentes de segurança pública: tortura, violação, abuso de poder e ofensas à integridade física. Terá sido em esquadras da PSP do Rato e do Bairro Alto, em Lisboa. O chefe do partido da extrema-direita veio logo a terreiro defender os polícias acusados de crimes, que envergonhariam os agentes da própria polícia política do regime fascista. A PIDE torturava com um objectivo concreto em mente, que era fazer confessar os eventuais crimes dos cidadãos que ousavam combater o regime de Salazar e Caetano. Estes agentes ora suspeitos faziam a tortura, ao que parece, por mero prazer sádico, sobre pessoas mais vulneráveis, imigrantes, sem abrigos, toxicodependentes, etc., que eram espancadas com luvas de boxe, violadas, sodomizadas com bastões e cabos de vassoura. Os actos eram filmados e partilhado em grupos nas redes sociais com dezenas de outros agentes. Levantam-se algumas questões: serão psicopatas? neo-nazis? as chefias permitiam? por que há tantos casos de ilegalidades praticados por “agentes da lei”? será que vivemos realmente num estado democrático e de direito? haverá justiça com penas severas ou haverá complacência, como por vezes acontece, por parte de alguns juízes?

Não deixa de ser importante relembrar a morte do cidadão Carlos Rosa, ocorrida em Maio de 1996, cidadão português, de vinte e cinco anos de idade, dentro do posto da GNR de Sacavém, tendo sido o corpo encontrado mais tarde num jardim público, decapitado e com sinais de sevícias. Carlos Rosa era toxicodependente, praticava pequenos furtos para sustentar o vício, foi interrogado com uma pistola, engatilhada e pronta a disparar, apontada à cabeça pelo sargento Santos, comandante do posto, que a usou no calor do interrogatório, infligindo-lhe morte imediata. O sargento, com o auxílio de outros dois guardas, resolveu cortar-lhe o pescoço, separar o corpo da cabeça, para esconder a bala. Foi facilmente apanhado pela Polícia Judiciária, foi condenado a 17 anos de prisão, cumpriu dois terços, os cúmplices do crime foram também condenados, um a seis anos de cadeia e o outro a pena suspensa por dois anos. Todos foram afastados da GNR. O crime chocou o país, não havia notícia de crime tão horrendo praticado por agentes de autoridade depois do 25 de Abril. Foi às 01h30 de 7 de Maio de 1996, faz agora precisamente 30 anos. O escritor António Tabucchi, escritor italiano naturalizado português, com base nos factos ocorridos no posto da GNR de Sacavém, escreveu o romance "A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro" (D. Quixote, 2022).

Aumento preocupante de denúncias e de casos de violência policial

São as próprias autoridades que reconhecem que nos últimos anos, Portugal tem registado um aumento preocupante de denúncias e investigações criminais, envolvendo agentes da PSP, e não só, de actos ilegais muito graves, desde os crimes de tortura, já denunciados, violação, abuso de poder e ofensas à integridade física dentro esquadras, e fora delas. Há um histórico que é necessário conhecer de crimes cometidos contra cidadãos mais indefesos e vulneráveis.

Continuando a recuar no tempo, há o caso do homicídio do cidadão Álvaro Cardoso, de 41 anos, que terá tido sido provocado por violência exercida por um ou mais agentes da PSP durante uma intervenção no bairro de Aldoar, Janeiro de 2000, aquando da efectivação da respectiva detenção. Este cidadão tinha uma particularidade, era feirante e cigano. O caso, passado dois anos, foi arquivado pelos juízes do Tribunal da Relação do Porto, por não existirem indícios suficientes para sustentar a acusação contra os dois agentes da PSP incriminados, justificando a decisão em longo e elaborado texto em que põem em causa a actuação do Ministério Público, criticam os jornalistas que trataram da notícia e chegam a insinuar que poderá ter havido alguma negligência por parte dos profissionais de saúde do Hospital de Santo António que prestaram assistência ao cidadão em causa. A justiça por vezes, ou muitas vezes. é branda, e os agentes prevaricadores contam com a impunidade.

Mais casos se poderão citar ainda antes do final do século passado. E denunciados pela Amnistia Internacional. Um dos mais considerados dramáticos pela imprensa, ocorreu em Março de 1994, quando dois agentes da PSP da 3ª esquadra de Lisboa interpelaram, na Rua do Poço dos Negros, Rafael Leite, cidadão de 33 anos associado pela polícia a diversos delitos. Como fora visto perto do local onde tinha ocorrido furto em estabelecimento comercial foi de imediato detido por agentes da PSP, só que em vez de ser conduzido à esquadra foi levado até ao Tejo, possivelmente para interrogatório, e no dia seguinte foi encontrado o corpo a boiar junto do Cais do Gás, em Santos. Foi no dia seguinte que um dos agentes, talvez com rebate de consciência, resolveu contar o que se passara, o colega empurrara o suspeito, que estava sentado numa amarra, para a água. O agente homicida fugiu para o Brasil, de onde regressou quatro anos mais tarde, para se apresentar à justiça, e os dois polícias acabaram condenados pelo crime de homicídio, em 1998.

Em 1994, um cidadão suspeito de tráfico de droga foi morto a tiro dentro da esquadra de Matosinhos da PSP, a versão da polícia foi a de que se tinha suicidado, depois de ter roubado a pistola ao agente Domingos Antunes. No entanto, a verdade era outra, porque a vítima nem apresentava vestígios de pólvora nas mãos, mas sinais de espancamento. O guarda Antunes, que entretanto foi mantido ao serviço da PSP de Matosinhos, acabou por ser condenado a três anos de prisão e foi expulso da PSP. A pena foi leve, os juízes foram “compreensivos”. O cidadão em causa era feirante e cigano. Não deixa de ser relevante as vítimas são geralmente pessoas que ocupam a base da pirâmide social, nomeadamente pertencente a grupos marginalizados pelo establishment.

Mais recentemente, parece que os casos aumentaram de frequência e de gravidade. Odair Moniz é morto em plena rua por agente da PSP que apresentou como justificação defesa pessoal contra eventual agressão por arma branca, o comando da PSP deu força à versão, que a PJ colocou em causa. O julgamento está a decorrer, foi contratado como advogado de defesa um causídico que se gaba de safar sempre os polícias neste tipo de casos. A cidadã Cláudia Simões foi espancada em paragem de autocarro e dentro do carro-patrulha em 2020, na Amadora; sendo levado o caso a tribunal, este entendeu absolver o agente e condenar a queixosa por ter mordido o agente acusado a oito meses de prisão, com pena suspensa. O que há entre estes dois cidadãos vítimas de violência policial: negros e pobres. Outras casos haverá.

Os governos do PSD são mais tolerantes com as ilegalidades das polícias

Ao fazermos rodar a fita do tempo para trás, devemos constatar que estes casos assumem mais gravidade e mais tolerados pelas autoridades políticas em governos do PSD. Em 14 de Novembro de 2012, os trabalhadores que estavam a manifestar-se frente do Parlamento foram selvaticamente agredidos pela PSP, com muitos elementos à civil e outros encapuçados, que funcionaram como agentes provocadores a fim de justificar a repressão. Era dia de Greve Geral Nacional, e os trabalhadores pela primeira vez em dia de Greve Geral tinham ousado fazer uma manifestação de rua, que se inseriu na continuação das massivas manifestações conhecidas por “manifestações da Geração à Rasca”, em 12 de Março de 2011. Estas constituíram o maior protesto popular depois da aprovação da Constituição Portuguesa de 1976 e ditaram o fim do governo pafioso de Passos Coelho/Paulo Portas/PSD/CDS.

E os casos que ocupam neste momento as primeiras páginas dos jornais e aa aberturas dos telejornais são: a polémica Operação Especial de Prevenção Criminal da PSP, ocorrida a 19 de dezembro de 2024; a rede de tráfico de seres humanos, onde se incluem 11 elementos das forças de segurança, 10 da GNR e 1 da PSP, que controlava cerca de 500 imigrantes para trabalho agrícola no Alentejo; dois agentes da PSP de Olhão estão acusados de algemar e espancar dois marroquinos, um deles até à morte, após desacatos em dois supermercados. Um dos polícias vai a julgamento acusado de homicídio, mas já é arguido em outro processo, também sob a acusação de agressão durante um despejo de uma casa. Razões sobejas para devermos interrogar-nos: quem nos protege destes polícias?

A extrema-direita defende abertamente a repressão do povo

Perante os desmandos, assiste-se ao discurso crescente de agressividade e de provocação por parte da extrema-direita, principalmente do chefe que até tem assento na Assembleia da República, que sai sempre a terreiro para defender os agentes criminosos e não quando estes são, por sua vez, vítimas – e  isso acontece mais vezes do que se possa pensar – da prepotência dos oficiais e outros superiores hierárquicos. E do lado do governo, que talvez tenha aprendido alguma coisa com o que aconteceu no governo de PSD/Passos Coelho, assiste-se a declarações de defesa da democracia e do putativo estado de direito; nomeadamente, por parte do actual ministro da Administração Interna que já sofreu ataques da extrema-direita de não defender os polícias – é passar uma vista de olhos pelas redes sociais e ver os perfis, na maioria falsos, dos militantes da extrema-direita. O governo sente a necessidade de dar verniz às forças de repressão e disfarçar que estas são um instrumento ao serviço da oligarquia dirigente, de defesa dos seus interesses e do seu establishment. Tentar ocultar o que é difícil de ocultar: os corpos policiais servem para proteger o rico e o poderoso e reprimir o pobre e o trabalhador, o marginalizado e o migrante, o outro.

Algumas boas almas, outras não tão boas como isso por avençadas, vêm com o discurso de: algumas frutas podres não estragam o cesto, que em todas as profissões há maus profissionais, que estes casos acontecem porque o filtro na selecção dos candidatos não é tão apertado como se desejaria, alguns agentes são demasiadamente jovens e sem experiência da vida, etc. etc. etc. Contudo, a realidade parece apontar em outro sentido: não será defeito, mas será mais feitio. E as dúvidas levantam-se: que tipo de formação se faz nas escolas das polícias? por que elementos notoriamente da extrema-direita são admitidos (um candidato a oficial da polícia, conhecido simpatizante do fascismo, foi eliminado devido apenas a denúncia de colega e por decisão do Tribunal da Relação)? por que razão que agentes da polícia conhecidos pela sua actividade em grupos de neo-nazis nas redes sociais são tolerados? qual foi a democratização das forças policiais depois do 25 de Abril, tirando os oficiais da PSP que já não do exército? por que se mantém ainda uma GNR, força militar com funções policiais, e não foi fundida com a PSP? E em resumo, qual o corte da actual PSP com a PSP que assassinou o estudante Branco em manifestação no Porto, em 1931, o primeiro cidadão assassinado pelo fascismo? Qual a diferença entre a actual GNR e a GNR que assassinou Catarina Eufémia, em greve de assalariadas rurais, com três tiros à queima-roupa e pelas costas – irá fazer 72 anos no próximo dia 19 de Maio?

quarta-feira, 29 de abril de 2026

A Falência e o desígnio de Montenegro

Sob a capa do putativo bom desempenho da economia portuguesa, do "hoje o país está melhor e os portugueses também estão melhor" depois de dois anos de governo PSD/CDS, este prepara uma série de medidas que contrariam esse optimismo, porque, caso contrário, não seriam necessárias: Reforma laboral, que trará "ainda mais dinâmica" à economia, ora se está de boa saúde para quê a reforma? Uma injecção de 22,6 mil milhões de euros até 2034, do PTRR, se o corpo económico não está doente, porquê injectá-lo? Ah! Mas há uma ressalva: os milhões não serão para todos pela simples razão – esclarece Montenegro – de que não se pode "pagar tudo a todos". Quem serão os felizes contemplados? A resposta não será difícil de encontrar conhecendo o histórico das ajudas governamentais, seja as oferecidas pelos governos de cor laranja seja pelos de cor rosa. Entretanto, o governador do Banco de Portugal comprou ações da Galp e Jerónimo Martins já depois de ter tomado posse, mas teve azar porque o BCE mandou anular as operações. Simboliza bem a natureza política de quem nos desgoverna.

Salvar a economia do capital da falência

Será que a economia nacional vai “crescer acima da média europeia” em 2026, como diz o primeiro-ministro? Ora, há indícios contrários quando se trata da “economia real”, ou seja do sector produtivo, e não da economia especulativa que não cria riqueza, apenas efectua transação de valores fictícios, como a especulação financeira. A título de exemplo, a Apicer (Associação Portuguesa Industria Cerâmica) alertou recentemente que o sector da cerâmica, está “de rastos” devido aos custos elevados e à concorrência desleal externa. Notar que este sector reúne “somente” 1.260 empresas e mais de 18 mil trabalhadores, enfrentando um desequilíbrio estrutural provocado pelos custos de carbono (imposto para a tal “transição energética”) e pela referida concorrência. Outros sectores mais dependentes do factor energético não estarão em melhores condições.

Mas o problema não fica apenas por aqui, é mais global e estrutural do que pontual ou sectorial, ou do momento que se vive presentemente. Ficou-se a saber que os bancos portugueses vão continuar a restringir crédito às empresas devido à maior percepção de riscos associada à instabilidade económica. Esta é uma realidade que não ficará restrita ao primeiro trimestre do ano, veio para ficar e é geral ao todo o espaço da Zona Euro; todos vão apertar ainda mais o crédito – é o Banco Central Europeu que o revela. Em Portugal, o endividamento das famílias e das empresas privadas subiu 2,3 mil milhões no mês de Fevereiro, do total do endividamento da economia portuguesa, 485 mil milhões de euros respeitam ao sector privado e 377,1 mil milhões de euros ao sector público – «Portugal está a acumular um nível “elevado” de dívida para devolver até 2039». Eis as razões para a contenção da banca e a conselho do BCE, que é quem manda realmente nestas coisas.

Verifica-se assim que os bancos não confiam nem nas empresas e nem nas famílias, mantendo-se o Estado/Governo como o o seguro de vida desta precária economia, como se pode constatar no crédito jovem à habitação, apoios às rendas, moratórias às empresas, diminuição do ISP, que são outras tantas formas de financiar o fraco poder de compra do consumidor sem que as empresas deixem de facturar. A banca não arrisca os seus capitais e nem abdica dos seus mais que chorudos lucros, assim se verifica na prática que o capital financeiro acaba por ser um entrave ao desenvolvimento industrial, passando o ónus para o Estado que, por sua vez, se encontra travado pelas limitações orçamentais e do défice público impostos por Bruxelas. E a estagnação económica, exceptuando o turismo, actividade económica por natureza volátil, veio e os números são categóricos: exportações caem 6,4% e importações sobem 2,6% no 1.º trimestre do ano.

A prioridade é o investimento na guerra

A crise é a crise estrutural do capitalismo, com o motor industrial europeu alemão a manter-se em estagnação económica há já quatro anos, curiosamente o mesmo tempo que dura a guerra na Ucrânia, e não encontrando outra saída se não priorizar o investimento na dita “defesa”, que na prática mais não é do que na GUERRA, utilizando o espantalho da hipotética agressão russa à Europa como justificação. A Alemanha acaba de anunciar um corte de 15 mil milhões de euros na saúde para investir na defesa, dando o mote para os outros países da União Europeia e que consubstancia ao cabo e ao resto a nova política de Bruxelas. A saída para a crise estrutural do capitalismo é a guerra, destruir para depois construir, como bem sabemos através das duas guerras mundiais no século passado. Mas parece que ninguém se lembra ou aprendeu alguma coisa.

Faz algum tempo que o FMI (Fundo Monetário Internacional) que afastou qualquer dúvida quanto a esta questão: «FMI: Portugal tem de travar despesa com saúde e medicamentos para "proteger investimento público"». Ora, aquela organização, que não é exactamente instituição de caridade, entende como “investimento público” o investimento na “área da defesa”, o que implicará “cortes brutais na despesa social, saúde e educação”, tal como a Alemanha, ainda o país mais rico da UE, está a começar a fazer. Aliás, o governo de Montenegro/PSD/Chega já planeou: mais de cinco mil milhões para aquisição de aviões militares e outro tanto para compras diversas de armamento, e sem concurso público. Não é por acaso que o governo quer acabar de vez com o visto do Tribunal de Contas, que costuma atrapalhar estas negociatas e dificultar a circulação das respectivas comissões para as mãos certas de quem assina os contratos por parte do poder político.

A oligarquia indígena também já reconheceu que a aposta no cavalo certo é na indústria da guerra. O grupo Sonae, propriedade da burguesia emergente Azevedo, através da sua empresa Beyond Composite, decidiu investir na construção de viaturas militares ligeiras em projecto europeu. Outras empresas se seguirão. É frequente ministros e jornalistas avençados propalarem as virtudes e potencialidades de empresas já existentes nesta área, e que só estão à espera das encomendas do estado português e de eventualmente de outros europeus. Vai ser a nova galinha de ovos de ouro. A reforma laboral vem a calhar com a disponibilização de mão-de-obra mais barata e menos reivindicativa por mais precária. Com certeza, uma parcela substancial dos 22,6 mil milhões de euros do PTRR irá parar às mãos dos industriais e comerciantes da morte.

A dinâmica de concentração do capital não pode enfraquecer

O mantra de Montenegro de que a reforma laboral inevitavelmente fará "ainda mais dinâmica" a economia e que, em pose de herói predestinado (lembrando Trump), "aguarda serenamente" anúncio de greve geral, que será feito pelas duas centrais sindicais e coisa já dada como certa, não passa de um estribilho que esconde uma outra realidade: a dinâmica será a de acréscimo de riqueza nos bolsos da burguesia nacional, pouca atreita ao risco e mais amante do rentismo e da protecção das benesses do estado. Assim se compreende a pressa da CIP, outra instituição de beneficência nacional, em ver a lei aprovada sem estar à espera do aval da UGT, central sindical já desvalorizada pela máfia dos patrões nacionais.

Os factos revelam bem e não enganam, à semelhanças da prova do algodão, e os factos dizem que «três meses depois de um “comboio de tempestades” ter causado mais de 5,3 mil milhões de euros de prejuízos no continente português, empresários, autarquias e particulares continuam a queixar-se de que os apoios chegam a “conta-gotas”» (da imprensa). Mais concretamente, dos cerca de 12.000 pedidos de apoio, até meados deste mês de Abril, apenas pouco mais de 3.000 candidaturas tinham sido pagas pelas CCDR (Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional). Entretanto, entre as medidas salvíficas, apresentadas no Parlamento por Montenegro, contam-se a criação de um fundo de catástrofes e seguro obrigatório para as habitações, porque, diz o dito primeiro-ministro, o governo não se substitui às companhias de seguros e não se pode "pagar tudo a todos". Claro que os particulares, os cidadãos comuns, e as pequenas empresas não são bancos falidos nem grandes empresas estrangeiras à procura de dividendos fáceis e rápidos, porque aí a solução seria outra.

Em relação às pequenas e médias empresas, a política a seguir também não deixa dúvidas: «Portugal tem "demasiadas" pequenas e médias empresas (PME), muitas delas microempresas, e isso constitui um obstáculo à produtividade, aos volumes de negócios, aos lucros e à criação de emprego e, acto contínuo, à afirmação da economia portuguesa no mercado global». (No debate organizado pelo Diário de Notícias e pela consultora PwC, ocorrido em Lisboa). Mais claro não é possível, um dos principais problemas da dita “economia (capitalista) nacional” é o grande número de empresas sem dimensão, o que dificulta a produtividade e a competitividade com o exterior. Os dinheiros do PTRR, mais do que os empréstimos do Banco de Fomento, são para isso mesmo: mais concentração capitalista, de preferência com trabalhadores, que podem ser imigrantes, mais baratos, e tudo pago com os dinheiros públicos e maior exploração de todo o povo português.

Enquanto a burguesia enche os bolsos, o povo que trabalha neste país aperta o cinto e deve fazê-lo de forma voluntária e com algum prazer, porque caso contrário, como já ameaçou Montenegro, a situação poderá ser pior do que aquela que terá levado Sócrates e implorar (foi obrigado para salvar os bancos) a intervenção da Troika de má memória, e que foi – devemos relembrar – um excelente pretexto para este mesmo PSD, e com Passos Coelho como chefe, a ir para além do exigido pela Troika – Portugal devolveu 800 milhões de euros à Troika este ano. Diga-se, de passagem, que os propósitos de Montenegro são exactamente os mesmo de passos de Coelho, a saber: o salário médio em Portugal continua 38% abaixo da União Europeia, ou seja, são menos 15 mil euros em média por ano; Portugal foi processado por Bruxelas por "discriminar trabalhadores com contrato a prazo", estes são excluídos no sector público de progredirem na escala salarial.

Como epílogo, mais esbulho do erário público e mais corrupção

Álvaro Santos Pereira comprou ações da Galp e Jerónimo Martins já como governador do banco de Portugal, contudo teve azar porque o BCE mandou anular as operações. Lá se foram uns milhares de euros fáceis por parte de alguém que quase de certeza beneficia de informação privilegiada, acto que em alguns países constitui crime passível de pena de prisão efectiva. Ficamos mais uma vez esclarecidos quanto à natureza política dos homens de que o governo de Montenegro se rodeia, embora esta figura responda essencialmente perante o Banco Central Europeu (BCE). O governo quer acabar totalmente com visto prévio do Tribunal de Contas, é a intenção afirmada no diploma que acabou de entrar no Parlamento, e que determina várias mudanças na orgânica interna do tribunal no sentido de agilizar os processos contratuais, melhor dizendo, o assalto aos dinheiros públicos, fomentando a corrupção, a fuga ao fisco e o nepotismo. Com as alterações à lei de financiamento dos partidos, deixa de ser possível saber quem financia os partidos e as campanhas políticas e as razões de certas contrapartidas por adjudicações públicas. O melhor exemplo é o que acaba de acontecer na Câmara de Lisboa, com Moedas a recompensar com 75 mil euros e isenção de taxas, por cedência de espaço público, a um evento privado de quem o ajudou a ganhar as eleições.

Os favores pagam-se e assim a democracia de Abril vai paulatinamente descambando em fascismo brando, à portuguesa.