Giorgio Agamben
Como explicar o facto — aparentemente
verdadeiramente inexplicável — de a nação que até há pouco tempo dominava o
mundo ter sido, na última década, e continuar a ser governada por um presidente
tecnicamente demente? Talvez a única resposta possível seja a de que os Estados
Unidos se encontram numa situação histórica para a qual apenas a demência é
adequada. Quando um país atinge o estádio final de desintegração espiritual, as
decisões racionais para enfrentar a crise já não estão ao seu alcance. Resta apenas
acelerar o colapso — agora inevitável — por quaisquer meios necessários, e a
demência, seja ela real ou fingida, é certamente o instrumento de governo mais
adequado a este fim.
Como súbdita leal dos Estados Unidos, a Europa
também se está a autodestruir e, tal como o seu senhor, parece estar a
mergulhar na demência. Resta saber, nos próximos anos, se certos Estados
europeus conseguirão parar à beira do abismo ou se mergulharão nele juntamente
com aquela entidade deplorável e ilegítima conhecida como Comunidade Europeia.
15 de junho de 2026
*
A Gramática do Ocidente
Num ensaio de 1942, Louis Renou afirmou que
"na base do pensamento indiano residem linhas de raciocínio de natureza
gramatical". As três categorias em que a filosofia indiana divide toda a
realidade — substância, qualidade e ação — derivam, indiscutivelmente, da
análise gramatical da linguagem: substantivo, adjetivo e verbo. De facto, a
gramática do sânscrito de Pāṇini e o comentário de
Patañjali são anteriores à maioria dos textos filosóficos indianos.
Poder-se-á perguntar até que ponto isto se
aplica também à filosofia grega que fundamenta a nossa própria cultura. Esta
hipótese parece entrar em conflito com a tradição que atribui a descoberta das
classes gramaticais — e, consequentemente, a invenção da gramática — a Platão e
Aristóteles. No entanto, este conflito aparente dissipa-se e desaparece assim
que compreendemos a implicação: a de que, para se tornarem filósofos, Platão e
Aristóteles tiveram, antes, de ser gramáticos.
Do início ao fim, o Ocidente é uma civilização
gramatical; fez da análise da língua — e da sua estruturação numa gramática — o
fundamento do seu conhecimento do mundo e do seu domínio sobre a natureza. A
ciência, que se tornou a religião do Ocidente, pressupõe — como qualquer
religião — um mundo nomeado no qual a ontologia (o facto de o ser ser
articulado e ordenado através da linguagem) se divide em regiões distintas,
cada uma abordada por um ramo específico da ciência. Por outras palavras, o
destino do Ocidente inscreve-se na gramática indo-europeia — com os seus casos
e as ligações lógico-sintácticas de dependência hierárquica através das quais
articula o seu pensamento juntamente com a sua linguagem. É por isso que —
talvez ao voltarmos o olhar para a China, uma cultura que não analisou nem
estruturou a sua linguagem numa gramática, mas que a vê como uma série de
monossílabos desprovidos de articulação gramatical — possamos encontrar não
necessariamente um novo modo de pensamento, mas pelo menos uma saída para o
destino sombrio a que a análise lógica da linguagem (ensinada a nós na escola
primária, e não sem razão) nos condenou irremediavelmente, tudo isto sem que
sequer nos apercebêssemos.
20 de abril de 2026
Imagem: Rapto de
Europa por Zeus disfarçado de touro pintura mural de Pompeia

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