terça-feira, 9 de junho de 2026

HIND - O QUE É A INFÂNCIA NA PALESTINA?

Hind Rajab - NBC News

Por Francesca Albanese

Conseguir nunca mais ter medo é a derradeira meta do homem.

ITALO CALVINO, O Atalho dos Ninhos de Aranha1

Final de Janeiro de 2024. Hind Rajab tem seis anos. Está encolhida no assento de trás do carro dos tios, agarrada aos quatro primos. Assim que foi dada a enésima ordem de evacuação na zona ocidental de Gaza, a mãe e os irmãos fugiram a pé, mas, porque chovia e fazia frio, os tios levaram-na de carro com eles.

É início de tarde, os sons das bombas entram pelo habitáculo e os carros parecem presos num engarrafamento. Algo não está bem. Os tios pressentem isso mesmo, estão nervosos, falam de maneira agitada. A pouca distância de uma estação de serviço nos arredores de Tel-al-Hawa, o carro fica sob uma chuva de fogo de artilharia israelita. Depois, um silêncio surreal. Hind olha à volta: ninguém fala e todos estão curvados sobre si mesmos. Com as mãos seguramente trémulas, tira o telemóvel dos dedos de Layan, a prima de quinze anos que fora atingida enquanto falava com os operadores do Crescente Vermelho. Hind explica que «os outros estão mortos ou talvez estejam a dormir» e suplica por ajuda. «O tanque está ao meu lado. Está a andar. Vêm buscar-me? Tenho tanto medo.»

Do outro lado da linha, a operadora — assustadíssima, porque sabia o risco que Hind corria — responde-lhe com afecto: «Habibti», «tesouro», e fica ao telefone com ela para não a deixar só.

Depois de três horas de chamada — o tempo que demorou aos seus colegas do Crescente Vermelho para se coordenarem com a autoridade israelita de forma a localizarem o carro e obterem permissão para porem a menina a salvo —, a operadora assegura a Hind que os socorristas estão a ir em seu auxílio. A gravação daquela conversa angustiante, com a vida da pequena presa por um fio, está consagrada na História, e espera-se que um dia também o esteja no trabalho dos juízes que punirão os responsáveis da chacina em que Hind foi morta pelo Exército israelita.

Doze dias depois, o corpo exânime de Hind será descoberto dentro daquele carro, sobre o qual se continuou a disparar. O carro, atravessado por mais de trezentas balas, não se encontrava muito longe da ambulância na qual jaziam os corpos dos socorristas do Crescente Vermelho, que não chegaram a tempo de a salvar. E as investigações da equipa britânica da Forensic Architecture, sob orientação do professor Eyal Weizman, ao reconstituírem a distância e a dinâmica dos impactos, conseguiram demonstrar que «não é plausível» que os soldados israelitas que dispararam do tanque não conseguissem ver plenamente que no veículo estavam presentes civis, entre os quais duas crianças.

A história de Hind tornou-se um símbolo da brutalidade do ataque israelita à população de Gaza na sequência do 7 de Outubro de 2023. Mas a pequena foi morta mais de três meses após o 7 de Outubro, quando Israel já matara mais de vinte e seis mil pessoas, entre as quais pelo menos dez mil crianças. Como foi possível tolerar tudo isto? E como é possível que ainda hoje — final de Março de 2025, enquanto termino a revisão deste livro —, quando o número comprovado de crianças mortas chegou a mais de dezassete mil, das quais mil tinham menos de um ano de vida, continue a reinar a impunidade e a máquina de morte posta em marcha por Israel siga imparável?

A resposta está oculta em dezenas de manipulações discursivas que distorceram a percepção das relações de forças entre israelitas e palestinianos.

Nos últimos trinta anos, esta narrativa levou muitos a acreditarem que os palestinianos são os responsáveis pela situação em que se encontram, que representam uma ameaça existencial para Israel. Até mesmo as crianças? Sim, até mesmo elas, e quiçá, sobretudo elas, porque, na lógica do ataque israelita iniciado após o 7 de Outubro, cada vida palestiniana é vista como um potencial perigo futuro para a sobrevivência de Israel.

Quantas crianças palestinianas morreram assim? Com os culpados a saírem impunes, com famílias e comunidades inteiras a sentirem uma dor lancinante? Dezenas de milhares. Na Palestina, a história de Hind, por mais atroz que possa ser, não é inusitada. Mohammed Tamimi tinha dois anos quando, alguns meses antes do 7 de Outubro de 2023, as forças de ação de Israel — formalmente conhecidas como Forças de Defesa de Israel (FDI) — lhe deram um tiro na cabeça, enquanto estava no carro com o pai na Cisjordânia ocupada. Ninguém foi considerado responsável, como sempre.

É assim a infância na Palestina.

1 Italo Calvino, O Atalho dos Ninhos de Aranha, trad. Maria do Carmo Abreu, Lisboa, Pablicações Dom Quixote, 1992, p. 173. (N.T.).

(Quando o Mundo Dorme – Histórias, Palavras e Feridas na Palestina, Francesca Albanese. Antígona, Lisboa, 2026.)

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