segunda-feira, 20 de julho de 2026

Domenico Losurdo, a esquerda ausente e a sua perda de capacidade transformadora

Em vez de enfrentarem o capitalismo, largos sectores da esquerda refugiaram-se no idealismo abstracto, dando prioridade aos debates morais e estéticos em detrimento das necessidades materiais da classe operária.

Por Javier Guijarro

A Esquerda Ausente: Crise, Sociedade do Espetáculo, Guerra (2014) é uma das obras mais incisivas do filósofo italiano Domenico Losurdo, um texto que desvenda as contradições e os desafios da esquerda contemporânea num mundo dominado pelo espetáculo mediático e pela dinâmica do poder global. Com o seu característico rigor histórico e analítico, Losurdo examina como a esquerda perdeu a sua capacidade transformadora, presa numa dinâmica que a afasta das lutas concretas e a condena à irrelevância.

Escrito numa época de crise económica mundial e de ascensão dos movimentos reaccionários, "A Esquerda Ausente" parte de uma observação crítica: a esquerda, sobretudo a esquerda ocidental, abandonou o seu papel histórico de força de mudança social. Losurdo defende que, em vez de confrontar o capitalismo e as estruturas de poder, amplos sectores da esquerda refugiaram-se no idealismo abstracto, dando prioridade aos debates morais e estéticos em detrimento da práxis política. Esta "ausência" não é apenas ideológica, mas também estratégica, deixando um vazio que os discursos populistas e conservadores conseguiram explorar.

O livro estrutura-se em torno de três temas principais: a crise da esquerda, a influência da "sociedade do espectáculo" (termo que Losurdo vai buscar a Guy Debord) e o impacto das guerras imperialistas no panorama político mundial. Através destes temas, o autor oferece um diagnóstico implacável, mas também propõe caminhos para recuperar o potencial revolucionário da esquerda.

A crise da esquerda

Losurdo identifica várias razões para a "ausência" da esquerda. Uma delas é a sua incapacidade de adaptação às novas formas de dominação capitalista. Em vez de articular um projecto político coerente, a esquerda fragmentou-se em sectarismo e adoptou posições que rejeitam qualquer engajamento com as realidades do poder. Este purismo, segundo Losurdo, manifesta-se numa obsessão em manter a pureza ideológica, que impede alianças estratégicas ou a participação em lutas concretas.

Além disso, o autor critica a desconexão da esquerda com as classes trabalhadoras. Enquanto os movimentos populares históricos se baseavam na organização de massas, a esquerda contemporânea caiu num elitismo intelectual, mais preocupada com os debates académicos do que com as necessidades materiais da maioria. Esta negligência permitiu à direita capitalizar o descontentamento popular, como se verificou na ascensão dos movimentos populistas de direita.

A sociedade do espetáculo

Inspirado por Debord, Losurdo analisa a forma como a "sociedade do espectáculo" transformou a política num palco de representações vazias. Os media, controlados por grandes corporações, reduzem os debates políticos a narrativas simplistas e sensacionalistas, distanciando a esquerda de uma análise profunda das estruturas de poder.

Neste contexto, a esquerda sucumbiu à tentação de competir no terreno do espectáculo, adoptando estratégias de comunicação superficiais em vez de construir um discurso contra-hegemónico sólido. Losurdo aponta ainda como esta espetacularização afetou a percepção das lutas sociais. As causas políticas tornam-se produtos mediáticos, despojados do seu conteúdo transformador. Isto leva a uma esquerda que, em vez de se mobilizar, apenas reage às agendas impostas pelos governantes.

Guerra e imperialismo

Um terceiro pilar da análise de Losurdo é o papel das guerras imperialistas na reconfiguração da ordem global. O autor critica a cumplicidade, por vezes inconsciente, de sectores da esquerda com as narrativas imperialistas, sobretudo no que diz respeito a intervenções militares justificadas sob o pretexto dos "direitos humanos". Losurdo defende que esta aceitação acrítica das guerras ocidentais reflecte uma perda de perspectiva histórica e uma falha em reconhecer a forma como o imperialismo perpetua a desigualdade global.

O filósofo italiano também liga estas dinâmicas com a marginalização dos movimentos anti-imperialistas. Embora a esquerda deva estar na vanguarda da resistência contra o neocolonialismo, a sua ausência nesta arena permitiu que outras forças ocupassem este espaço, muitas vezes com resultados ambíguos.

Propostas

Apesar do tom crítico, "A Esquerda Ausente" não é um livro derrotista. Losurdo propõe que a esquerda recupere a sua capacidade de análise histórico-materialista, abandone o purismo e construa alianças amplas que respondam às necessidades concretas das classes trabalhadoras. Isto implica superar a fragmentação, reestruturar um projeto anticapitalista e anti-imperialista e retomar o contacto com as realidades sociais.

A crítica de Losurdo ao espetáculo mediático ressoa numa era dominada pelas redes sociais, onde a política é frequentemente reduzida a gestos simbólicos. A sua ênfase no anti-imperialismo convida também à reflexão sobre o papel da esquerda face aos actuais conflitos globais.

"A Esquerda Ausente" é uma obra provocadora que desafia a esquerda a olhar-se ao espelho e a confrontar as suas próprias limitações. Domenico Losurdo, com a sua erudição e empenho político, oferece uma análise que combina teoria e prática, convidando os leitores a repensar o papel da esquerda num mundo em crise.

Este livro não é apenas um diagnóstico dos males da esquerda, mas também um apelo à ação para recuperar a sua relevância histórica. Para quem procura compreender a dinâmica do poder e as possibilidades de mudança social, "A Esquerda Ausente" é uma leitura essencial.

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