Depois de uma silly season atípica, um pouco à
semelhança do Verão, os governantes, os partidos com representação parlamentar
e os ditos “representantes da Nação”, todos eles parecem vir cheios de pica
para o trabalho (figas, canhoto) e a primeira tarefa, questão decisiva para a
manutenção da boa saúde das instituições do regime, que se conjectura que dure
pelos menos mil anos, é a “exoneração, a pedido de várias famílias, do ministro
da Administração Interna, os restantes, incluindo Montenegro, podem ficar. Quem
mais reclama pela preservação do bom funcionamento de tais instituições, é quem
tudo faz para as desacreditar, para as sabotar e por fim as destruir –
extrema-direita, oligarcas e seus órgãos de propaganda, vulgo media
mainstream, e comentadores e jornalistas avençados cerram fileiras.
Os "sucessos" de Montenegro
Pouco importa se os preços da gasolina e do
gasóleo subam 11,5 e 13,5 cêntimos esta segunda feira, parece que o governo faz
desconto de 3 cêntimos. Importante é ir doar equipamento energético à Ucrânia
enquanto as vítimas da tempestade Kristin continuam à espera dos apoios
prometidos por Montenegro. Quase normal e sem solução imediata, na opinião do
ministro responsável pelo caos nos exames nacionais, que, em início do ano
lectivo, ainda haja mais de 2.650 horários por preencher. Os tempos de espera
nos hospitais públicos continuam, superiores a 10 a 11 horas para doentes
urgentes, e a ministra vem desde há dois anos prometer que a concentração
destes serviços resolverá o problema, em vez de o agravar. Faltam 14 mil
enfermeiros no SNS e o ministério das Finanças apenas autorizou a contratação
de uns poucos para que algumas das ULS não fechem.
Mas que importa tudo isto, haja dinheiro para
Portugal pagar quase 10 mil milhões de euros, quase o dobro do empréstimo
realizado para a compra das fragatas e outro material de guerra! Relembrar que
Montenegro não se cansou de enaltecer, no seu discurso de encerramento da
Universidade de Verão do PSD, os "sucessos" do seu executivo. Será
que o sol que apanhou na praia lhe terá feito mal à moleirinha?!
Importante, importante foi o PRR ter chegado
ao fim com menos betão e mais "amigo" das empresas. Ou seja, cinco
anos depois e após sete revisões em benefício do patronato, o importante foi
enfiar nos bolsos dos grandes empresários, nacionais e estrangeiros, a cor
pouco importa, mais de 9 mil milhões de euros. E quais foram as empresas? Não
foram nem pequenas ou médias nacionais, foram elas: Petrogal, do grupo Galp,
que viu os lucros aumentados em mais de 40%, a Cimpor e Bondalti, que lideram a
lista de felizes contempladas. Esclarecer que a Galp registou um lucro recorde
de 1.154 milhões de euros em todo o ano de 2025 e de 812 milhões de euros no
primeiro semestre de 2026. Entretanto, foram retiradas verbas da mobilidade
sustentável, gestão hídrica e respostas sociais. Estas são coisas de somenos.
Comprar casa em Portugal ficou mais caro 7,5%
no ano passado; habitação pesa cada vez mais no orçamento: famílias gastam 82%
do rendimento em rendas; o salário não dura até o final do mês para 70% das
famílias portuguesas. Mas o que é isto comparado com os “sucessos” do Luís que
se ufana da elevada taxa de emprego e de Portugal crescer acima da média da
União Europeia. Mas a realidade é tramada, o preço médio da venda da casa
fixou-se em cerca de 3.693 euros/m², o que torna a habitação praticamente
inacessível à maioria da considerada classe média, para não falar da
generalidade do povo trabalhador. E a riqueza líquida das famílias por
habitante em Portugal diminuiu 1,6% entre 2024 e 2025, contrariando o recorde
global de crescimento. Isto é, a distribuição da riqueza produzida no país
favoreceu o Capital em detrimento do Trabalho. Os ricos mais ricos, os pobres
mais pobres – para quem não perceba.
Escola Pública e SNS são para destruir
Para além da falta crónica de professores,
iniciada no tempo do governo PS/Sócrates e continuada pelo de
Coelho/Portas/PSD/CDS, a percentagem de alunos pobres colocados no ensino
superior diminuiu e é apenas de 3%. O que significa que o elevador social através
da formação académica avariou de vez. Na prática, tem direito a ser doutor ou o
filho de doutor ou de novo rico, a nova burguesia emergente, à custa dos
benefícios e negócios do estado ou dos fundos europeus. As assimetrias sociais
agravam-se, daí o empobrecimento também já crónico das camadas mais baixas e
até intermédias da sociedade. Para quem anda mais distraído, cumpre-nos
esclarecer que a inflação volta a “aquecer”, tendo acelerado para 3,3% em
Agosto – a culpa é dos combustíveis, dizem.
Dizem, também, que há uma grave falta de
enfermeiros no SNS, a Ordem dos Enfermeiros estima uma carência de cerca de 14
mil profissionais. Este ano, há três mil novos enfermeiros no mercado, mas
hospitais não conseguem contratar porque o ministério das Finanças não autoriza
– informa o director executivo do SNS. Alega “atrasos” na aprovação dos planos
de desenvolvimento organizacional 2026. E a dita “ministra” (comissária
liquidatária) da Saúde declara-se “preocupada” com falta de médicos
anestesiologistas. Grande preocupação que levou nove chefes de equipa da
urgência do Hospital D. Estefânia a apresentar a demissão devido à falta de
anestesiologistas. A imprensa noticia que a ULS de São José tem 83 médicos
desta especialidade para sete hospitais e três urgências. No entanto, muitos destes
médicos desdobram-se entre o público e o privado e os mais novos trabalham por
conta própria, tanto no SNS como no sector privado.
A Administração Central do Sistema de Saúde
(ACSS) em comunicado dignou-se informar o reviralho que: "A 24 de agosto,
encontravam-se inscritos nos cuidados de saúde primários 10.769.099 utentes,
dos quais 10.599.255 reuniam as condições de elegibilidade para atribuição de
médico de família". Assim, a taxa de cobertura de médico de família é de
87% (9.234.694 utentes), enquanto 1.364.561 aguardavam atribuição. Em
consequência da falta de médicos e do SNS falhar muitas vezes, problemas
amplificados pela comunicação social mainstream, os portugueses foram
empurrados para o logro dos seguros de saúde: os portugueses pagam em média 39
euros por mês pelo seguro de saúde. Ficou-se a saber que a clínica privada de
fertilidade Ovom Care, que abriu em 2025 em Cascais, declarou falência, coisa
que nunca tinha acontecido em Portugal. Estranho, mas aconteceu, e muitos
utentes ficaram a arder em milhares de euros. Já depois de falida, há utentes a
receber ainda contas para pagar. Como se constata, o negócio da doença está bem
de saúde e recomenda-se.
A cobarde e belicista elite política do
regime
Nas comemorações do 35º aniversário da
independência da Ucrânia, vários figurões da UE e de Portugal fizeram questão
de estar presentes, depois, como é óbvio, de terem avisado Moscovo para não
lhes enviar míssil ou drone de boas vindas. Entre a delegação portuguesa,
distinguiu-se o dito “Grupo Parlamentar de Amizade Portugal-Ucrânia da
Assembleia da República”, presidido pelo deputado do PS Eurico Brilhante Dias.
Dele fazem parte os brilhantes deputados Francisco Figueira (PSD), Rodrigo
Saraiva (Iniciativa Liberal), Paulo Núncio (CDS-PP) e o incontornável Rui
Tavares (Livre). O amor pelo neo-nazismo é inquebrantável nesta excelsa e mui
democrática gente. Montenegro e Rangel ficaram-se pelas mensagens, não fosse o
diabo tecê-las.
Esta subserviência a Bruxelas quanto a
política externa e este amor acrisolado à guerra, movida cada vez mais
directamente pela União Europeia contra a Rússia, é bem reveladora da falta de
coragem política de quem ocupa o cargo governativo em Portugal, de quem não
hesita em enfiar o país numa guerra que não é nossa, ou seja, do povo
português. Ainda há pouco o ministro Rangel convocou o embaixador russo para
dar explicações quanto ao pretenso ataque da Rússia a aeroporto da Alemanha. A
que propósito, o ataque foi a território nacional? E o ataque terá sido mesmo
real ou uma encenação levada cabo para incitar a russofobia entre o povo alemão
e para Merz tentar não perder as próximas eleições que, fazendo fé nas
sondagens, serão facilmente ganhas pela AfD? Nós portugueses, não seremos bucha
para canhão. Os nossos (mau) dirigentes, incluindo o arrivista Costa, peguem na
“canhota”, levem também os filhos, e pisguem-se já para a linha da frente.
Ontem já era tarde.
Imagem: Vasco Gargalo/Revista Sábado.