domingo, 8 de março de 2026

No protetorado da subserviência e do desastre

Desenho publicado no FB

Passou uma semana sobre o início da agressão em larga escala e não provocada dos EUA/Israel à República Islâmica do Irão, contando com o apoio precioso da base das Lajes nos Açores, utilização essa permitida pelo governo português de Montenegro/PSD/Chega e à revelia do tratado existente. Este só permite a utilização a forças da Nato/Otan e não a ataques unilaterais levados a cabo pela super-potência atlântica. O governo da república portuguesa assumiu uma posição muito semelhante àquela que mantem em relação à guerra da Ucrânia, completa subserviência e vassalagem desprezando os interesses do povo deste país.

A consequência imediata desta guerra no Médio Oriente é o aumento brutal do preço dos combustíveis, especialmente do gasóleo, a partir já de amanhã, e que deverá continuar pelos próximos tempos; a que se juntará a subida das taxas de juros, também já aventadas, e do preço todos os bens de primeira necessidade, com o dos alimentos em primeira linha. Anunciam a fome e a miséria a breve prazo. Não devemos ter dúvidas, a participação dos países da União Europeia nas guerras em curso, e do genocídio do povo palestiniano em particular, é concreto e objectivo, ultrapassa em muito a mera conivência táctica.

Foi confrangedor a tentativa do ministro dos negócios Estrangeiros para justificar o injustificável, de não ter havido violação do acordo das Lajes e de a utilização ter sido autorizada presumivelmente por decreto do governo depois do início da agressão. Mais tarde, veio a saber-se que antes do dia do início das hostilidades a base já tinha sido usada por aviões que participavam nas operações por sete vezes, e não por duas ou três. Na mesma linha de subserviência descarada, Montenegro já tinha condenado as respostas retaliatórias do Irão contra as bases imperiais nos diversos países do Golfo, omitindo a causa dessas respostas, mentindo abertamente ao afirmar que “Portugal não acompanhou ação militar dos EUA e Israel”.

E o primeiro-ministro foi mais longe ainda na falta de vergonha e cobardia política, apontando que “o regime dos EUA nas Lajes vem do Governo PS”. Ora, será do início da década de 1990, ao tempo do último governo do PSD/Cavaco Silva, que Portugal deixou de receber contrapartidas financeiras pelo aluguer da base, com a alegação do fim da Guerra Fria e da entrada na UE, passando a vigorar “a cooperação com a Nato”. E é bom relembrar que foi recentemente que passou a haver atrasos no pagamento dos salários dos trabalhadores portugueses daquela base, sem que o governo pressionasse sequer a administração norte-americano e apesar das queixas dos próprios trabalhadores.

A posição dos vassalos é a de joelhos quando não é na horizontal, fraca e cobarde perante os poderosos e arrogante e cruel em relação ao povo e aos trabalhadores. Quanto aos aumentos dos bens essenciais que se avizinham e que irão suceder-se em cadeia, o governo deveria proibi-los de imediato e tabelar os preços dos bens alimentares, combustíveis e energia, para já, e não obedecer à ganância da oligarquia indígena. Não se percebe a razão dos aumentos dos combustíveis agora, se foram obtidos a partir da refinação e crude que foi comprado há cerca de dois meses a preços bem inferiores aos actuais.

Se a Galp teve no ano passado lucros record de mais de mil e 150 milhões de euros, um acréscimo de 20% em relação ao ano de 2024, então, este ano, os lucros irão disparar muito para além dos 100% se o preço do brent for atirado para os 150 euros o barril. É o fartar vilanagem que igualmente se observa nos bancos, que em 2025 tiveram “apenas” lucros de mais de 5 mil milhões de euros, cerca de metade (2579) só em comissões, ou seja, mais de 14,5 milhões de euros por dia. Um novo record. E, é bom lembrar, que beneficiam da benesse de somente uma parte desses lucros estar sujeita a impostos.

A riqueza flui segundo um sistema de vasos comunicantes, do trabalho para o capital. Se a oligarquia enriquece, a massa dos trabalhadores empobrece, e empobrece pelos salários baixos, pelos aumentos que estão longe de acompanhar a subida, que agora será galopante, do custo de vida. Situação esta que o governo pretende agravar mais ainda com as medidas do dito “pacote laboral”, que, se vier a ser aprovado, será a mais completa desgraça e miséria para o povo português em geral, e não exclusivamente para os trabalhadores assalariados. Esperamos que a posição do novo presidente da República, que tomará posse amanhã, seja de oposição activa.

António José Seguro irá substituir o beato e monárquico Marcelo, que ficará na História como a personagem que mais degradou a função de “mais elevado magistrado da Nação”. Pelas manobras e intrigas engendradas, pelo carácter dúplice e velhaco, pela falta de coragem e verticalidade políticas, esta aventesma nem para presidente de junta de freguesia ou de associação de bairro servia. A par da tristeza do aumento dos combustíveis, fica a alegria de vermo-nos livres de tão execranda figura. Fazemos votos de que Seguro ponha travão às maquinações do governo Montenegro/PSD/Chega e seja um escudo contra as provocações e investidas do partido da extrema-direita.

O governo ao serviço dos interesses da oligarquia indígena, e empunhando as bandeiras da extrema-direita, diz ao que vem só pelo facto do que acontece com muitos dos seus membros, ministros e secretários de estado. Alguns deles, com habitação em Lisboa, declararam residência na província a fim de receber ajudas de transporte e subsídio de alojamento no montante de 724 euros, isentos de imposto. Quantia que muitos trabalhadores portugueses não recebem ao fim de um mês de duro e penosos trabalho, já para não mencionar que a maioria dos pensionistas pouco mais recebem do que metade daquele dinheiro. São “somente” dezanove ministros e secretários de Estado que pediram aquele apoio. Coitadinhos ficariam na pobreza se o não recebessem, e, então, o que dizer do ministro da Agricultura (que entende que os planos de protecção da natureza não devem estorvar os investimentos dos empresários sem escrúpulos), que tem duas casas na capital e 43.660 euros em rendimentos prediais?

Portugal está entre os países da União Europeia com menor poder de compra e maior subida na habitação, segundo dados recentes da Prodata, com certeza que não são os ministros e secretários de estado deste governo!

Montenegro diz que defende a atuação do Governo no conflito com Irão, não gagueja e não tem papas na língua, como sói dizer-se, e assegura que “o uso das Lajes não violou direito internacional”. Em relação aos poderosos do mundo agacha-se, mas perante os problemas dos cidadãos, por exemplo, quanto ao acesso aos cuidados de saúde, torna-se prepotente e desumano:

mais de metade dos utentes morreram à espera de vaga em cuidados paliativos em 2024; as urgências de obstetrícia e ginecologia do Barreiro vão encerrar, um erro estratégico e injusto, na opinião do autarca de Alcochete; a Direção Executiva do SNS trava o aumento de consultas e cirurgias nos hospitais em 2026 devido às "restrições orçamentais", os gestores hospitalares já avisaram: "as listas de espera vão agravar-se"; médico, acusado de dar prioridade no SNS a mais de 1600 utentes encaminhados do privado, não foi expulso com justa causa do público; a devolução do Hospital de Santo Tirso à Misericórdia teve revés, mas é para avançar.

Montenegro irá, quase de certeza, ser condecorado pela Confederação Internacional das Misericórdias, como aconteceu com Passos Coelho em 2015. Não deixa de ser interessante saber que o futuro líder da extrema-direita quer que o primeiro-ministro fale menos e trabalhe mais… os portugueses.

Para se avaliar da verdadeira situação do país (o país que trabalha e não dos acionistas dos bancos e da corja de privilegiados que desgovernam Portugal), devemos referir que o endividamento das famílias, empresas e administração pública aumentou 28,9 mil milhões de euros, para 851,3 mil milhões de euros em 2025, um outro record. No entanto, a imprensa de referência arvora em arco com o slogan “Endividamento da economia caiu para 277,9% do PIB em 2025”. Não caiu, levantou-se, e vai levantar-se ainda mais se houver recessão económica, como se prevê, se a guerra criminosa lançada pelo Império e pelo regime de apartheid de Israel continuar; o que é bem provável e por tempo que ninguém conseguirá calcular.

A juntar à situação mais geral, há que salientar que muitos cidadãos e empresas ainda estão à espera das ajudas do governo para fazer frente aos prejuízos resultantes da tempestade, e já lá vai bem mais de um mês. Há ainda alguns milhares de portugueses sem telecomunicações, centenas de famílias sem um tecto onde habitar, muitas centenas de quilómetros de estradas por reparar, canais de rega por reconstruir e milhões de árvores por recolher. Os prejuízos da tempestade podem chegar aos seis mil milhões de euros. Em cima disto tudo, vem a guerra que Montenegro acarinha subservientemente.

Decididamente, os tempos que se avizinham são deveras sombrios… serão também de luta por outro modelo de mundo social e económico.

domingo, 1 de março de 2026

A catástrofe europeia e as suas Cassandras

Andrea Zhok

Para remediar a catástrofe que recebemos, a mesma classe dominante que a criou empurra-nos a remediá-la alimentando os ventos da guerra

Na mitologia grega, Cassandra, irmã de Heitor, era dotada de habilidades divinatórias, mas Apolo a condenou a permanecer anónima.

Hoje, e já há algum tempo, na Europa, a compreensão dos processos em curso não exige poderes proféticos divinos. Basta ter uma boa formação histórica e política e não se deixar atordoar diariamente pelos narcóticos dos meios de comunicação (muito menos das redes 'sociais').

A Europa de hoje está cheia de Cassandras que gozam do duvidoso privilégio de ver continuamente, em retrospectiva, que tinham razão, enquanto aqueles que estavam completamente errados continuam a pendurar medalhas no peito, impassíveis pelos seus próprios fracassos.

Portanto, ouvir o chanceler alemão Merz levantar a voz contra o Estado-providência alemão que ainda existe e pedir sacrifícios para alimentar uma nova corrida armamentista é quase reconfortante para todos aqueles (e há muitos) que se lembram da Alemanha de Schaüble, Alemanha, que deu palestras no sul da Europa (carinhosamente conhecido pela sigla PIGS - porcos em inglês, sigla para Portugal, Itália, Grécia e Espanha) sobre a produtividade e a moralidade, ao mesmo tempo que utiliza a influência de um euro artificialmente subvalorizado para impulsionar as suas próprias exportações.

A Alemanha, que literalmente destruiu a Grécia entre 2011 e 2016 (vingando-se de 1945), explicou que simplesmente não era possível ajudar a solvência da Grécia porque teria sido um caso de «risco moral».

A Alemanha, segundo uma longa tradição, apresentava-se como virtuosa, frugal, produtiva, constitutivamente superior e destinada apenas por um destino cínico e cruel, que a tinha visto como uma perdedora na Segunda Guerra Mundial, a um papel coadjuvante no mundo.

E qual foi o modelo económico que o génio alemão propôs como sabedoria económica e virtude moral? Simples: apostar tudo numa balança comercial positiva, num excedente de exportação constante.

E quais foram as chaves para o sucesso dessa estratégia?

Ainda mais simples: 1) baixos custos energéticos (com fornecimentos provenientes da Rússia), 2) compressão salarial (em parte no seu próprio mercado interno, mas especialmente entre os seus próprios subcontratantes, como a Itália), e finalmente 3) a referida subavaliação do euro (uma moeda comum cujo valor era a média dos países menos desenvolvidos industrialmente).

Esta engenhosa estratégia económica foi um exemplo clássico de empobrecimento do vizinho: uma política económica que aposta tudo no empobrecimento relativo dos vizinhos.

Hoje, a Alemanha, depois de ter entrado em recessão em 2023 e 2024, fecha 2025 com dolorosos +0,2%, com um setor industrial em contração contínua, tanto cíclico quanto moderno.

Ora, quando há anos atrás houve tentativas de explicar (incluindo através de documentos públicos, campanhas de assinatura, etc.) que uma estratégia que empobreceu o mercado interno da Europa para conquistar mercados através das exportações não era apenas socialmente injusta mas também fundamentalmente idiota, penso que todos nos lembramos de como a nossa servil imprensa abraçou entusiasticamente o cliché alemão, exigindo austeridade, exigindo uma redução do «perímetro do State», exigindo insegurança laboral generalizada como estímulo de «produtividade».

Hoje, quando a Europa liderada pela Alemanha perdeu o sector energético em que se baseava, cortando laços com a Rússia (claro, por razões de moralidade superior, como é sabido); hoje, quando o desastre alemão arrasta consigo a Europa (novamente, um desastre duradouro), uma Europa privada de um mercado interno capaz de sustentar a produção; hoje, quando a União Europeia conseguiu o feito notável de combinar uma política de exploração das classes trabalhadoras com uma política implacável em relação aos países em dificuldade, e ao mesmo tempo perder para o seu próprio grande capital, hoje seria o momento de se dar a satisfação de ter sempre tido razão.

Mas esta satisfação é-nos negada, porque para remediar a catástrofe que recebemos, a mesma classe dominante que a criou empurra-nos a remediá-la alimentando os ventos da guerra.

Nenhum membro do establishment ocidental está mais concentrado do que a UE liderada pela Alemanha em impedir qualquer tentativa de paz; nenhum está mais dedicado a preparar uma futura guerra com palavras e ações.

Na Odisseia e na Oresteia, Cassandra foi feita refém por Agamenon, ela previu ao rei a catástrofe que a aguardava (a conspiração de Clitemnestra), mas, mais uma vez, ela permaneceu inédita.

E desta vez ele pereceu na catástrofe subsequente.

Lamento dizê-lo, mas prever todos os desastres sem derrubar o poder que os gere é inútil.

Fonte

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Mais do mesmo, que admiração?

Relembrar a privatização da EDP pelo governo de Passos Coelho/PSD associado a CDS/Paulo Portas, processo que passou por várias fases terminando em 2011 com a abertura à participação maioritária do estado chinês.

Depois de assentar a poeira das manifestações de indignação na imprensa séria e na blogosfera provocadas pelas nomeações para o conselho de supervisão da EDP de seis caciques políticos dos partidos do governo, não temos muito mais para dizer: é mais do mesmo e está na lógica deste capitalismo provinciano à beira mar plantado. Sempre assim foi em todos os governos constitucionais, e até mesmo antes; está no seguimento da velha tradição, se formos dar uma olhadela à história do reino não se descobre nada de diferente: durante o antigo regime, na monarquia constitucional, na primeira república e no fascismo; e na democracia de Abril, nem o PS de Soares nem o PSD de Cavaco fez coisa diversa. Qual a admiração então, no governo mais reaccionário depois do governo de Marcelo Caetano (quanto a esta questão já estamos a colocar algumas reticências…), destas nomeações ou de, em seis meses, este governo ter dado emprego, em média, a mais boys do que o governo anterior do PS nos dois primeiros anos?

Outra pretensa admiração prende-se com o facto destas aves raras terem sido nomeadas pelos novos patrões chineses já que estes desconheceriam aparentemente estes figurões ou do novo patrão ser o próprio estado chinês, um regime aparentemente “comunista” mas que mais não é que o poder instituído de uma burguesia de estado, gerindo uma economia abertamente capitalista. Só na aparência é que haverá contradição, porque esta realidade também se encontra dentro da lógica: o capitalismo de estado convive com o capitalismo privado e até lhe serve de suporte, e para a nossa burguesia rentista é-lhe indiferente quem é que compra as empresas do Estado desde que pague em dinheiro vivo e este entre nos bolsos certos.

A EDP foi vendida a preço de saldo, a seguir irá a REN e a PT e quase de certeza que os chulos a nomear pelo governo, para estas empresas depois de privatizadas, não deixarão de ser caras conhecidas, confirmando as palavras do Catroga quanto, na sua opinião, às razões da escolha da sua pessoa: uma cara (e chulo) “conhecida”. Como já deveriam ser conhecidas do governo chinês as restantes caras: Cardona (que foi ministra sem saber ler nem escrever e foi responsável pela pior reforma feita na Justiça), Paulo Teixeira Pinto (que foi corrido do BCP/Millenium com uma reforma mensal de 35 mil euros e uma indemnização de 10 milhões de euros), Rocha Vieira (ex-governador de Macau), Braga de Macedo (ex-ministro de Cavaco e agora financia com dinheiros públicos as exposições artísticas da filha)... isto não é uma lista de órgãos societários, é a lista de agradecimentos de Passos Coelho – como alguém diz – e a pouca vergonha é tal que até o antigo patrão de Passos, Ilídio Pinho, foi contratado.

Enquanto os rendimentos dos portugueses irão cair em 10 % neste período de crise, considerado pelo Banco de Portugal entre 2011-2013 – que será bem à vontade mais do dobro, com o consumo privado a cair em 12% e o de bens duradouros em 40% –, os caciques do costume, os apparatchik do regime ligados aos partido do governo, irão arrecadar indevidamente muitos milhares de euros por mês, numa verdadeira afronta ao povo e aos trabalhadores portugueses (Catroga à pensão milionária de cerca de 10 mil euros acrescentará um ordenado mensal de 45 mil euros, a multiplicar 14 , e a esta gente não são cortados os dois subsídios, é só fazer as contas – uma verdadeira ladroagem!).

Para além das “caras conhecidas” que são os papás, os filhos não degeneraram e saem aos seus. Ao que se sabe, e mais haverá, fazem parte dos quadros da PT os filhos/as de: Teixeira dos Santos, António Guterres, Jorge Sampaio, Marcelo Rebelo de Sousa, Edite Estrela, Jorge Jardim Gonçalves, Otelo Saraiva de Carvalho, Irmão de Pedro Santana Lopes. Estão também nos quadros da empresa, ou da subsidiária TMN, os filhos de: João de Deus Pinheiro, Briosa e Gala, Jaime Gama, José Lamego, Luís Todo Bom, Álvaro Amaro, Manuel Frexes, Isabel Damasceno. E para efeitos de "pareceres jurídicos" a PT recorre habitualmente aos serviços de alguns papás: Freitas do Amaral, Vasco Vieira de Almeida, Galvão Telles. Ao contrário de algumas dezenas de milhar de jovens licenciados, estes filhos família (da mãe) não precisaram de emigrar e não foi graças às suas elevadas qualidade ou notas de curso que arranjaram os bons empregos e… para toda a vida, se o caldo (social) não se entornar.

As soluções que o sistema capitalista tem para a crise é sobrecarregar os trabalhadores assalariados com mais impostos, menos salários, mais dias de trabalho, mais despedimentos, mais precariedade, enquanto aumenta os lucros dos capitalistas e os proventos e mordomias dos seus homens de mão. Na Europa, onde o capitalismo parece ter completado o ciclo, nada mais há a esperar quanto a benefícios para quem trabalha; ou seja, dentro do sistema capitalista não há saídas da crise favoráveis, mesmo que a prazo, ao povo que trabalha. Um dias destes, o seu derrube radical será um facto incontornável e poderá acontecer quando menos se esperar, será quando o proletariado e o povo decidirem.

18 de Janeiro 2012

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

O país das calamidades e o presidente "moderado"

 

Pelas costuras - HenriCartoon

Passadas três semanas de temporal, depois de se realizarem a segunda volta das eleições presidenciais e de terem votado os cidadãos que o não puderam fazer a 8 de Fevereiro, ficamos a saber que: parte do país ainda se encontra paralisado, cerca de 40 mil pessoas ainda não possuem energia eléctrica; as cheias dos rios ainda demorarão cerca de um mês a desaparecer, e se não chover ainda mais; a reconstrução dos bens destruídos terão de esperar mais de uma ano, segundo opinião do governo, mas na nossa opinião muitos ficarão por resolver, à semelhança dos incêndios de 2025, cujos lesados, na sua maioria (mais de seis mil, 63%), ainda estão à espera dos apoios financeiros prometidos pelo governo; o buraco da A1, o principal eixo rodoviário do país, irá demorar muitas semanas, ou meses, a ser reparado, obrigando o trânsito a ser desviado por dentro de Coimbra ou por atalhos que estão a prejudicar tanto empresas como cidadãos.

Assistimos a um país preso por arames, que não ficará muito melhor depois dos investimentos prometidos e aplicados, porque tudo será feito na lógica do enriquecimento de alguns e não no benefício de todos. Neste país completamente à deriva, sem planos de ordenamento ou de emergência a nível nacional e em termos práticos, não somente em papel, sem alternativas para fornecimento rápido de energia e telecomunicações ou de transportes rodoviários ou ferroviários, ou para reconstrução rápida das habitações, confirmou-se que metade do eleitorado remeteu-se à abstenção (52,37%, incluindo votos brancos e nulos) e cerca de um terço optou por um presidente da República “moderado”, cultor da “estabilidade”, que não levante muitos problemas ao governo, que, aproveitando as calamidades, irá reforçar o poder da oligarquia e dos bancos, à custa do empobrecimento do povo português e da proletarização da dita “classe média”.

O buraco da A1 é bem o espelho do país

O buraco da A1, cuja reparação ficará em alguns milhões e sem prazo de finalização certo, acabará por ser custeado pelos dinheiros públicos e não pela concessionária que, se agora assumiu a obra, não quererá de maneira alguma ver os lucros dos acionistas prejudicados. As borlas nas portagens das auto-estradas nas regiões afectadas pelo temporal depressa terminaram e s será o governo a indemnizar o “benefício”. A E-Redes ainda não terminou a reposição da electricidade em toda a rede e irá demorar mais de um mês que o faça; entretanto, as populações desesperam. Como desesperam muitas famílias sem um tecto onde possam abrigar-se sem saberem quando e como o governo, ou as autarquias, lhe arranjará uma habitação minimamente condigna. Muitas famílias bem como muitos pequenos empresários não estão dispostos, nem possuem condições para o fazer, em endividar-se ainda mais com os bancos. Porque os dinheiros prometidos são sob a forma de empréstimos, os bancos esfregam as mãos de contentes, a calamidade para eles é mais um maná. Representarão mais uma transferência de riqueza do trabalho para o capital financeiro.

Ao mesmo tempo, o governo de Montenegro/PSD/Chega deu uma borla tributária aos grandes senhorios que passaram a pagar 10% de IRS, em vez de 28%, fazendo cair a receita fiscal em mais 300 milhões de euros e cujo objectivo propalado seria “controlar” o preço das rendas; ora, o efeito será exactamente o oposto, segundo Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO). Portugal possui o 4.º preço mais caro do gás na Europa. O preço do cabaz de alimentos tem vindo a subir de forma consecutiva desde o final de 2025, atingindo máximos recorde em Fevereiro de 2026, com o valor a superar os 253 euros. O temporal será justificação, à semelhança da pandemia e da guerra na Ucrânia, para um maior aumento da inflação em Portugal. A produção automóvel em Portugal desceu 7,8% em Janeiro, face ao mesmo mês de 2025. Segundo o INE, as exportações de bens caíram 0,7% e as importações 2,7% em Dezembro de 2025. A economia nacional engasga-se.

Os prejuízos na agricultura irão no caminho de mil milhões de euros e o ministro da Economia aponta para mais de quatro mil milhões no conjunto da actividade económica. No entanto, o governo já avisou: quem tiver dívidas ao fisco ou à segurança social, nem que seja de 1 euro, não tem direito aos apoios prometidos, repetimos, “prometidos”. Em relação aos trabalhadores abrangidos pelo lay-off simplificado nas empresas afectadas, o governo recuou e veio dizer que vão receber apenas dois terços do salário bruto até ao triplo do salário mínimo nacional (até 2.760 euros) e não 100%, o restante será pago pelas empresas. Percebe-se a intenção, as principais empresas beneficiadas serão as grandes, enquanto as pequenas ficarão mais próximas da falência – o CEO do BCP deixa o aviso: “se as empresas não regressam rapidamente (à normalidade) são excluídas” da procura global, ou seja, deixam de existir.

Na saúde: há mais cidadãos sem médicos de família e à espera de consulta e cirurgia, assim como a produção assistencial estagnou. Já falta dinheiro nos hospitais para comprar medicamentos e mal começou o ano – doentes oncológicos denunciam falta de medicamentos no Hospital de Braga; entretanto, foi anunciada a abertura do Hospital Central do Algarve para 2031 e a concessão aos privados será decidida no fim de 2027. As urgências de Ginecologia e Obstetrícia continuam a encerrar aos fins de semana no SNS, enquanto as companhias de seguro vão engordando encaminhando os partos para os hospitais privados. A artificial falta de resposta na região de Lisboa obrigou SNS a encaminhar 362 grávidas para o privado, nos últimos dois anos e meio, com recurso à convenção que integra os hospitais CUF, Luz e Lusíadas, que, se foi mais intensa durante as obras na maternidade do Hospital Santa Maria, a dita “solução” irá manter-se “por segurança”… dos lucros do lóbi do negócio da doença.

O panorama para os próximos três anos, ou seja, o que falta do mandato do governo, será mais do que sombrio, um outro temporal se aproxima para quem trabalha. A demissão da ministra da Administração Interna revela as fragilidades do governo Montenegro/PSD/Chega.

A calamidade como resultado e instrumento de corrupção

O presidente da APA recusou esclarecer a intervenção da Navigator na obra do Mondego, nomeadamente, no que refere ao contrato, ou outro procedimento público, que permite àquela empresa do grupo Altri – proprietário do canal CM/TV e Now (Medialivre) – fazer intervenções num sistema cuja gestão é de inteira responsabilidade da própria APA. O silêncio poderá denunciar relações algo obscuras, já que a bomba que está a funcionar é para levar água às fábricas de pasta de papel. Deve-se esclarecer que o verdadeiro objectivo da regularização do rio Mondego era o benefício destas empresas e não propriamente a irrigação dos campos, razão pela qual estas obras de irrigação nunca foram concluídas. Nos entrementes, foi notícia que o irmão do chefe de gabinete de Montenegro – jovem de 25 anos, com grande experiência profissional e de vida como se pode calcular – foi nomeado consultor coordenador no Governo, Grupo de Trabalho para a Reforma do Estado, indo auferir um salário mensal de 4 mil e 400 euros e cujo curriculum se resume a estagiar há um ano na EDP Renováveis em Madrid.

O país acabou de saber que o governo Montenegro/PSD/Chega gastou cerca de 20 mil euros de dinheiro público, no passado Dezembro, para ter futebol premium na residência oficial do primeiro-ministro; ao que parece uma despesa perfeitamente conforme com as dificuldades que o povo português está a passar neste momento, especialmente, o que reside e trabalha nas regiões afectadas. Não é a quantia em si mas o que representa em termos simbólicos, declaradamente que o que atormenta a mente de Montenegro não é o bem-estar de quem trabalha mas os privilégios e o gozo pessoal dos governantes que, no final de contas, vivem à custa de quem os elegeu. Depois, venham queixar-se que o populismo está aí a medrar a olhos vistos. Isto pouco tempo depois de o Parlamento ter aprovado a lei que proíbe o livre acesso de crianças e jovens a plataformas online e redes sociais, com os votos favoráveis do PSD, PS, PAN e JPP, como a saúde mental da nossa juventude estivesse na preocupação daquela gente – a idade do utilizador terá de ser confirmada através do sistema Chave Móvel Digital. A realidade é outra, o governo, com a colaboração activa dos partidos alapados em S. Bento, prepara a censura sobre todos os cidadãos, seguindo os mesmos passos da legislação já aprovada em Bruxelas.

A corrupção e o favorecimento são mais que evidentes quando se trata de negócios com os interesses privados. O contrato de exploração que foi feito, em 2019, entre o governo de PS/António Costa e a cadeia de hotéis SANA para a recuperação do antigo Quartel da Graça em hotel de luxo – como Lisboa tivesses falta de hotéis! –, não foi cumprido pela empresa. As instalações encontram-se neste momento abandonadas e em degradação cada vez mais evidente; a população do bairro quer travar o projecto e dar outros usos ao edifício, no entanto, nem o governo denuncia o contrato e executa judicialmente a empresa, nem a autarquia, câmara ou junta de freguesia, se mexe. E bem falta faz mais habitação na cidade de Lisboa. Entretanto, o Ministério Público abriu novo inquérito sobre casa de Montenegro, haverá suspeitas de fraude fiscal. Será manobra de distração para desviar as atenções da inépcia do governo e de outros casos escandalosos, como por exemplo as trafulhices do BES, com Ricardo Salgado, que jamais irá para a prisão, a gozar com a cara dos portugueses, e já lá vão mais de 10 anos. E, quanto a corrupção e justiça branda para com os poderosos, parece que o pedófilo e agente da Mossad/CIA Epstein ponderara mudar-se para Portugal em 2014. E por que seria logo para Portugal?!

Algumas interrogações sobre o país preso por arames

Muita coisa há em Portugal para mudar. Por que carga de água o Sistema de Proteção Civil não está pensado para se articular com as Forças Armadas? Por que razão, mais de metade (63%) dos lesados dos incêndios continua à espera dos apoios prometidos em 2025? O que leva que muitos (68,2% ) dos nossos jovens legitimem violência no namoro? Por que Portugal (empresas e governo) só destrói emprego entre os mais jovens e nunca houve tantos trabalhadores com mais de 65 anos? Por que razões a grande maioria das construções neste país não respeita os requisitos de boa construção, incluindo anti-sísmicos, e muitas delas (cerca de 60 mil) são construídas em leitos de cheia? Qual a razão da E-Redes manter enterradas somente 20% das linhas de alta tensão, enquanto a média da UE é exactamente o oposto, 80% enterradas e 20% aéreas? Quando é que o governo conclui as obras de irrigação dos campos do Baixo Mondego e obriga as celuloses a deixarem de poluir o país e acaba com a eucalipalização? Os rios precisam de ser desassoreados e as encostas arborizados, o governo possui algum plano ou intenção para o fazer? Para quando o corpo único de bombeiros a nível nacional e público, com um só comando, e a aquisição de meios aéreos e sua gestão pelo estado/governo para combate a incêndios? A ministra da Administração Interna demitiu-se, ou obrigaram a demitir-se, protegeu o chefe e o grupo, quanto tempo durará o governo Montenegro/PSD/Chega?

E mais perguntas se poderiam fazer, não caberiam nesta página.

O resultado das eleições presidenciais e a regionalização

 O pequeno vencedor - Vasco Gargalo

Em relação aos resultados das eleições presidenciais, pouca coisa haverá acrescentar ao que já dissemos em crónicas anteriores. Metade dos portugueses entendeu não votar e da outra metade que votou em alguém dois terços escolheram o candidato das meias tintas, da dita “moderação”, da “picha mole”, como se diz popularmente. Depressa se ficará a saber qual o rumo que tomará logo que o governo apresente o seu pacote laboral, agora com algumas arestas limadas, uma versão mais suave. Comprova-se que o partido da extrema-direita serviu como um espantalho para assustar uma parte da pequena-burguesia e levá-la a votar no candidato politicamente correcto. Apesar de estar longe de ser o líder de todo o campo da direita, o 4º pastorinho conseguiu mesmo assim um excelente resultado, que lhe poderá facilitar a vencer umas próximas eleições legislativas, muito provavelmente antecipadas.

O ministro das Finanças já veio dizer ao populacho que tem de haver uma opção, ou aumentar a despesa para cobrir os prejuízos dos vendavais e das cheias e, para que isso não afecte o sacro-santo equilíbrio das contas públicas, terá de fazer sacrifícios; ou, então, não se poderá ocorrer a tudo porque o caminho deixado pela folga orçamental é muito estreito. Será o preparar da opinião pública para as políticas de austeridade que a oligarquia, mancomunada com Bruxelas e ao serviço dos bancos, se prepara para lançar sobre a cabeça do povo português. Se o plano do governo de fazer aprovar em Bruxelas um PRR à portuguesa, o já famigerado PTRR, deixará sempre metade das coisas por fazer, porque parte será gasto pelas clientelas políticas, nunca no interesse do povo, mas no final terá de ser pago por este. A dívida soberana irá aumentar desmesuradamente, contando também com a dívida para fazer face ao aumento das despesas com a guerra, dita “defesa”. Os próximos tempos serão duros e tudo se perfila para que este governo não chegue ao fim do mandato.

Uma questão que forçosamente virá para cima da mesa, já que agora foi aventada com a dificuldade na resposta pronta e eficaz aos temporais, é a questão da regionalização. A maior parte dos partidos são a favor, desde a esquerda à direita, porque entendem que o país é muito grande e que são os autarcas que se encontram mais próximos das populações, e por essa razão, estarão mais aptos a solucionar os problemas. Escamoteia-se que se os problemas não são resolvidos é por uma simples questão da natureza da política que é defendida, e não por desconhecimento dos problemas que afligem mais o cidadão comum. Ilude-se outro facto que é a da corrupção, e é precisamente no poder local que existe mais corrupção, mais compadrios, mais nepotismo e mais impunidade quanto aos crimes e tropelias cometidas. Basta lembrar-nos do soba Alberto João da região das bananas da Madeira.

Com a regionalização irão replicar-se mais meia dúzia Madeiras das bananas no país, com mais poderes intermédios, mais tachos e mais mordomias e um aumento significativo de burocratas e políticos de carreira. Qual será a posição do novo presidente da República sobre o tema, a resposta não será difícil. O país tenderá para a fragmentação, será o esbater do sentido de nacionalidade, muito de agrado de Bruxelas e do grande capital financeiro, que assim melhor poderá invadir e extrair as riquezas locais, o lítio irá ser um bom exemplo. Assistiremos à Europa das regiões, já programada e em movimento, e uma maior integração do nosso país na Espanha, que, é bom lembrar, faz parte do pelotão da frente da Europa a duas velocidades, tão ao gosto de Ursula von der Leyen.

Repetimos, neste país das calamidades, as maiores são sem dúvida os governos e a oligarquia reinante, os tempos que se advinham são deveras sombrios.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

D. Marcelo, O Rei Presidente

A propósito da eleição de Marcelo no primeiro mandato e o que poderia acontecer (2016). Daqui a um mês sai do Palácio de Belém e não deixa saudades, foi o presidente mais hipócrita e safado que a República teve.  

O afilhado do último presidente do conselho de ministros do fascismo, na sua tomada de posse como o 20º presidente da República Portuguesa, eleito por cerca de um quarto do eleitorado nacional, quis ser diferente ao romper com o dito protocolo, teve um concerto por artistas conceituados da nossa praça, incluindo o da canção que manda “foder”, foi popularucho, abriu as portas do Palácio onde deu beijinhos a rodos e, ainda antes, deslocou-se à cidade "geradora de elites", onde teve um "banho de multidão” (cerca de 200 pessoas), foi bem recebido pelo povo do Bairro do Cerco, moradia de gente que vive do rendimento mínimo, pobre em tudo, irá em breve a Roma ver o Papa, passará por Madrid onde beijará a mão de Filipe VI de Espanha e VII de Portugal, aliás, o chefe de estado mais importante que teve a honra de assistir à não menos importante cerimónia, para além, como é óbvio, do emissário pessoal da fürher, o "amigo" Juncker. E já disse, ou alguém por ele, já não nos lembramos bem, que quer ser como o presidente-rei Sidónio.

Também há alguém disse na imprensa de referência, ou coisa semelhante (a nossa confusão é grande com tanto mediatismo), que "começa uma nova fase da democracia portuguesa" – segundo nós, deve ser a fase final. E, para fazer jus às palavras do presidente da Comissão Europeia, o homem é "o homem certo no local certo", mas por outras razões; para além das que perpassaram pela cabeça do luxemburguês, amigo das multinacionais e outros notáveis cidadãos especialistas em branqueamento de capitais e de fuga ao fisco.

Não sabemos se foi gafe ou intencional que o jornal da direita espanhola tenha anunciado a tomada de posse do novo presidente português, pelo menos devido ao local de nascimento, "Marcelo Caetano". Contudo, não deixa de ser estranho atendendo a que os nuestros hermanos andam bem informados sobre o que se passa nesta “piolheira” à beira-mar plantada, para utilizar um termo tão caro ao monarca português que teve o azar de apanhar uma fatal indigestão quando regressava de férias. O homem é "patriota", por isso quer imitar o Sidónio (fazemos votos que o não imite em tudo), razão pela qual querer comemorar o Dia da Raça, perdão, o Dia de Portugal, em Paris.

O Silva de Boliqueime deixa-nos alguma mágoa, perdemos um labrego que, embora sendo uma figura sinistra e de alguma tristeza, fazia-nos rir, antes deveria ter sido substituído pelo pateta de Rans, assim ficaria mais explícita a imagem do país no estrangeiro. No entanto, este Caetano, perdão!, Marcelo, é bem possível, que nos venha ainda a divertir, apesar de esperarmos coisas mais graves do que aquelas que o patego algarvio nos ofereceu, um pouco à semelhança das anedotas que se contavam por toda a Lisboa sobre a rainha francesa D. Amélia, pessoa também muito popular.

Depois deste mandato, esperemos pelo segundo e veremos um apoio ainda mais encarniçado à formação de um governo de direita pura e dura que venha substituir o actual PS/Costa. Como igualmente alguém já afirmou (somos pouco originais), o Portugal (das nossas elites) é isto: "Fugiu de Alcácer Quibir, El-Rei Rei D. Sebastião, E uma lenda nasceu, Entre a bruma do passado, Chamam-lhe o desejado, Pois que nunca mais voltou, El-Rei D. Sebastião". Voltou a monarquia, nem que seja por já termos um Filipe.

Marcelo (ainda não tem o "I" porque é o primeiro, os reis são só numerados a partir do segundo) é um homem de Fé, vai todos os domingos à missa, fez questão de incluir na cerimónia de tomada de posse uma performance com os representantes de todas as correntes religiosas em Portugal, nem sabíamos que havia tantas (dezoito!), e de tolerância. Não é por acaso que irá ser construída uma nova mesquita em Lisboa, no bairro popular da Mouraria, o que poderá levar ao regresso do projecto da nova Sé-Catedral de Lisboa para o alto do parque Eduardo VII, tão acalentado por João Soares quando presidente da câmara da capital.

Fé, Tolerância e Mediatismo, as três virtudes cardeais ou teologais, farão do novo ocupante do palácio de Belém, lembra-nos o local de nascimento do outro salvador, a pessoa indicada, ou seja, o homem certo no local certo" para gerar "consensos" à esquerda e à direita, à frente e a atrás, e instituir a "estabilidade" tão necessária ao regime, num verdadeiro espírito, não verbalizado, social-democrata. Social-democracia, sempre! – como já dizia o outro que foi eleito por 95% do seu eleitorado.

Na verdade, começou um outro período da democracia portuguesa, há um presidente eleito pelas televisões, levado ao colo por toda a imprensa falada e escrita de referência; toda ela, por sinal, propriedade de grandes grupos económicos, que velam para o regresso ao fascismo seja coisa certa e útil, claro que nada de golpes militares, somente um fascismozito soft, tipo democracia musculada, onde as eleições são feitas não para o Parlamento mas para o cargo do presidente (conselho de ministros ou da dita república, tanto faz) que, por sua vez, nomeia os ministros e quem os secretaria pelo tempo que achar necessário.

Ah! houve quem, num jornal da provinciana cidade lusa Atenas, tenha já defendido alteração da Constituição para que vigore um regime presidencialista, com eleições de apenas de sete em sete anos; mas o homem que foi eleito em Janeiro passado já jurou, não sabemos se foi com os pés, que irá respeitar a Constituição da República. Quem é que irá duvidar?!

13 de Março 2016

(Publicado em osbarbaros)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Tempestades que destroem o povo e o governo ausente

Após a tempestade que assolou o país, principalmente o centro e parte da região de Lisboa e Setúbal, na noite do dia 27 para 28, faz agora uma semana, a reação do governo e, em particular de alguns ministros com responsabilidades mais directas, foram no mínimo de indiferença e de desprezo pelas preocupações e dificuldades das populações afectadas. Não houve uma resposta pronta, imediata e expedita para fazer frente à tragédia. O primeiro-ministro manteve-se em silêncio durante mais de 24 horas, enquanto o presidente beato Marcelo foi dar uma volta até Roma para beijar o Papa e convidá-lo a visitar o país em 2027, sabendo ele que em Março terá de passar o testemunho ao sucessor. A ministra da Administração Interna apareceu ao terceiro dia da desgraça, tendo referido que tinha estado a trabalhar em "contexto de invisibilidade", enquanto o ministro Leitão Amaro quis mostrar-se ao telefone em vídeo de promoção pessoal e de propaganda ao governo. Veio-se agora a saber que o Comandante Nacional da Proteção Civil, Mário Silvestre, estava em Bruxelas, onde permaneceu durante três dias. Depois da aparição, a ministra do MAI não teve rebuço em proferir mais uma bojarda: “não sei o que falhou” sobre atraso no apoio às populações. E por fim, o ministro da Economia lançou o vómito de “as famílias se governem com o último ordenado para as obras mais urgentes”. Podemos afirmar, sem grande margem de erro, que este governo de Montenegro/PSD/CDS é uma autêntica nódoa, que não sai com simples água e detergente.

“O estado falhou”, logo ninguém é responsável

Fala o governo em processo de “aprendizagem” e avisa que “situação vai continuar”, mas costuma-se dizer que burro velho vale mais matá-lo do que ensiná-lo. E este governo é velho sem emenda pelas políticas que coloca em prática e jamais conseguirá aprender, porque também não é do seu interesse aprender com o passado. Houve várias catástrofes na sua vigência, apagão que atingiu o país durante quase oito horas e incêndios tremendos no Verão passado, que parece nada lhe ensinaram. Para não falar de outras calamidades acontecidas em mandatos de PS/Costa. Falhou uma actuação pronta e eficaz e, fundamentalmente coordenada por comando único, com um gabinete de crise a funcionar junto das populações atingidas sob a direcção política de um ministro com competência e perfil para a missão. Falharam as telecomunicações, o Siresp mais uma vez foi abaixo, um negócio de mais de 700 milhões de euros que passou por ministros do PSD e do PS, muita gerente terá enriquecido, e continua a ser gerido por empresa privada, mais interessada no lucro. Ainda estamos à espera da concretização da promessa da e-Redes de enterrar as principais linhas de alta tensão, feita durante a tragédia do grande incêndio de Pedrógão Grande, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos de 2017. Esta obra não foi realizada porque obrigaria a investimento de muitos milhões de euros e ia estragar o balanço das contas.

Passados cinco dias é que o governo activou o Plano Nacional de Emergência de Proteção Civil (PNEPC) e a situação de calamidade foi prolongada até o dia 8 de Fevereiro. Mas só depois de perceber que a devastação tinha sido grande, principalmente nos distritos de Leiria, Coimbra e Santarém e que a situação de tempestade iria prolongar-se. Depois de a destruição ser indisfarçável, de mais de meio milhão de casas sem electricidade e água, concelhos inteiros sem telecomunicações e de muitas famílias terem ficado pura e simplesmente sem tecto é que Montenegro se dignou colocar os coturnos em terra para desejar, de forma atabalhoada, pêsames às famílias de pessoas mortas, cujo número já se eleva a uma dezena. E o ministro Pinto Luz lá admitiu que o “Estado falhou”, em vez de reconhecer que quem falhou foi o governo, porque é ele que gere o “Estado”. O conceito de “Estado” é demasiado abstracto e amplo, onde cabe muita coisa e ninguém é responsável. Perante as críticas, Montenegro puxa da arrogância, como é seu timbre, e dispara: “estamos concentrados em resolver problemas e não responder a críticas”. Chuta parta canto, como se diz na gíria e a culpa, mais uma vez, irá morrer solteira.

Devemos salientar que, passado uma semana após a tempestade de 28 de Janeiro, ainda há cerca de 120 mil casas sem electricidade, e só no dia de ontem, ou seja, seis dias depois que o hospital e centros de saúde de Leiria voltaram à atividade normal. A e-Redes afirma que a reposição total do serviço de distribuição de electricidade levará ainda muito tempo, possivelmente para o fim do mês, e sem garantia de não haver cortes e instabilidade depois dessa data. Não se consta que esta empresa, de capitais privados e maioritariamente estrangeiros (State Grid of China 25,0%, Pontegadea (Amancio Ortega) 12,0%, Lazard Asset Management 7,7%, Fidelidade 5,3%, Red Eléctrica Corporación S.A. 5,0%, Ações próprias 0,6%, capital disperso 44,4%), vá indemnizar as empresas e os cidadãos lesados pela tempestade. Parece que a e-Redes se tem escudado na dificuldade de fazer deslocar as equipas ao terreno porque as viaturas, que são eléctricas, não possuem autonomia suficiente para o fazer. De certeza, que não haverá situação mais caricata do que esta.

O povo ajuda o povo

São 69 concelhos em situação de calamidade e representam 17% da população portuguesa, não é coisa pouca. É o voluntariado de elementos do povo que surge no terreno em substituição dos ministros e dos burocratas da dita “Protecção Civil”, que ainda não se resolveu (à hora em que redigimos estas linhas) acionar o Mecanismo de Solidariedade da União Europeia, que rapidamente nos forneceria meios fundamentais, como geradores, que seriam colocadas directamente nos locais. O governo entende que não é da sua competência “sobrepor-se” ao parecer técnico, descartando assim a sua responsabilidade se as coisas vierem a falhar. São os cidadãos anónimos, muitos provenientes de outras regiões do país que se deslocaram para os conselhos destruídos, munidos de pás e vassouras, que estão a proceder às limpezas e à reconstrução dos telhados, sem esperar nada em troca. Enquanto os militares e agentes das policias não fazem o trabalho que lhes cumpre, é o povo que procede ao serviço de guarda das casas e dos bens e a câmara da Batalha teve de contratar três seguranças privados para guardar os geradores e o combustível da acção dos ladrões e gente oportunista que se aproveita da infelicidade alheia. Só muito tarde que a tropa foi requisitada, depois de a Protecção Civil ter solicitado quatro militares nos primeiros dias e do ignorante e inapto ministro da Defesa, mais uns oficiais de gravata e sapatos engraxados, ter posado para os órgãos de comunicação social.

A ver se compra a opinião pública, o governo veio prometer um fundo de apoio de 2,5 mil milhões de euros, mas maioritariamente linhas de crédito que para as empresas de menor dimensão só irão agravar a situação de dificuldade financeira. Mas o que é bom para uns é mau para outros, será um maná para os bancos. Para a reconstrução de habitações de particulares destinam-se uns míseros 10 mil euros, que não chegarão para reconstruir um anexo ou até substituir um telhado na totalidade. Para estes últimos o governo prometeu criar uma plataforma online para inscrição, que deverá estar disponível entre hoje e amanhã. O que não deixa de ser hilariante, sabendo-se que há muitos concelhos onde a electricidade ainda não foi resposta na totalidade e nem se sabe quando haverá rede de telemóvel. Muitas das pessoas afectadas são idosos sem conhecimento de informática ou familiarização no uso de meios eletrónicos. Quanto aos apoios às empresas, empresários de Santarém, Leiria e Coimbra pedem apoios a fundo perdido e consideram que “estamos a colocar um penso rápido na ferida”, na medida em que as empresas de construção de Leiria suspenderam obras para ajudar vítimas da tempestade. O governo não coloca a hipótese de decretar a requisição civil das grandes empresas de construção civil, pagando-lhes depois o trabalho efectuado, já que elas ganham muitos milhões de euros à conta de obras realizados para o Estado.

Os desastres naturais servem a estratégia capitalista

Depois da promessa de mundos e fundos, o ministro da Economia, Castro Almeida, sugeriu que as famílias afetadas utilizassem o seu último ordenado para as reparações urgentes, em expressão chocante de desprezo pelas famílias mais pobres e que na prática pouco ou nada irão receber. Mesmo as companhias de seguros tudo farão para não desapertar muito os cordões à bolsa e esperarão alguma compensação por parte do governo. As empresas concessionárias das auto-estradas dispuseram-se a dar umas borlas durante uma semana, mas com certeza que irão ser compensadas pelo erário público. Não se viu as grandes superfícies de venda a retalho, Sonae, Gerónimo Martins, por exemplo, a chegarem-se à frente no apoio às populações com a entrega de cabazes de alimentos. As calamidades naturais são mais um meio de enriquecer as grandes empresas enquanto se liquidam as pequenas.

À semelhança da pandemia, as grandes empresas serão recapitalizadas e os trabalhadores, com os lay-off e desemprego, ficarão mais pobres. Em relação aos materiais de construção, estes irão encarecer bastante, havendo já notícia de telhas a tornarem-se “mais caras que ouro”. E quanto a geradores, praticamente já não existem no mercado e os pouco que ainda se encontram já estão ao dobro do preço. É o próprio primeiro-ministro Montenegro que admite que recuperação das zonas afetadas pela tempestade Kristin poderá levar anos, isto é, virão mais uns milhões de Bruxelas, que depois o povo paga com língua de palmo, para as grandes empresas, nomeadamente para as que financiam as campanhas eleitorais do PSD.

É o grande capital financeiro internacional que o diz. O McKinsey Global Institute afirma que “um quarto do país está atualmente exposto a riscos climáticos, como cheias, incêndios florestais e seca, o que abrange cerca de 7% da população portuguesa”; que Portugal só investe cerca de “200 milhões de dólares (171 milhões de euros) anuais em medidas de adaptação às alterações climáticas, o que corresponde a 43% do valor necessário para se proteger contra fenómenos meteorológicos extremos”. Por outra palavras, temos as “alterações climáticas”, como nunca tivesse havido tempestades e, cheias ou incêndios em Portugal, como pretexto e meio de fazer negócio e lucro. Como se comprova. a desgraça do povo tem de ser fonte de lucro para os bancos, razão pela qual os governos que temos tido a desgovernar o país nada têm aprendido. Não há interesse.

Tal como nos incêndios no Verão passado - "O Estado da Nação" por Vasco Gargalo

Prevenir antes do que remediar (mal) depois

A estratégia de menorizar as consequências dos desastres naturais são mais que conhecidas e estudas. A montante, respeitar o ordenamento do território, proibir a construção em locais de cheia, selecionar os materiais mais adequados à construção, bem como defender as regras anti-sísmicas em regiões situadas em falhas tectónicas, reflorestação com espécies autóctones que facilitem a retenção de água nos solos e no ar, boa gestão da floresta, reservatórios para a água em excesso do Inverno que sirva para o Verão. Em um só dia as barragens foram obrigadas a descarregar uma quantidade de água suficiente para o consumo da cidade de Lisboa durante três anos. A jusante, criar unidades específicas de crise no seio das forças armadas. Parece que esta nunca foi ideia que passasse pelas cabeças dos nossos ministros e muito menos acabar com as associações privadas de bombeiros. Organizar um corpo único de bombeiros sob um só comando a nível nacional e inteiramente profissionalizado. Equipar as autarquias locais com meios, incluindo geradores e outros equipamentos, para enfrentar calamidades deste género, não esquecendo recursos financeiros suficientes. Instruir as populações sobre o que fazer nestas situações. E muito mais haverá a ter em conta, desde que se ouça quem sabe e quem anda no terreno. Desde sempre que os políticos e os governantes se habituaram a olhar o povo de cima do cavalo. E um dia destes isto tem de acabar.

Imagem: Fonte

domingo, 1 de fevereiro de 2026

O regicídio: Alfredo Costa e Buíça: heróis ou criminosos?

Nem todas as mortes possuem o mesmo peso, elas valem pelo significado que têm para as pessoas queridas ou para a classe social a que pertencem e cujos interesses se encontram subordinadas. Os matadores do rei D. Carlos e do príncipe herdeiro são criminosos para os partidários da monarquia e dos defensores das actuais classes possidentes e respectivo status quo, mas heróis para os partidários da república nos princípios do século XX e das classes submetidas à exploração, à tirania e à injustiça de todos os tempos e independentemente da nacionalidade. Heróis ou criminosos, uma questão de classe.

Em 31 de Janeiro de 1891 rebentou no Porto o primeiro movimento revolucionário republicano, que foi violentamente reprimido pelo regime monárquico – acontecimento que foi pobremente relembrado pelos actuais democratas e republicanos, que se esquecem de que a democracia, com as liberdades e direitos individuais que eles tanto incensam, a devem a esses primeiros lutadores que sacrificaram a própria vida por um ideal; os monárquicos afadigam-se na tarefa de revisão da história e não enjeitam a provocação. A morte do rei e do herdeiro do trono possui um significado político e simboliza o estertor de um regime retrógrado, corrupto, responsável pelo atraso do país (o mais atrasado da Europa) e profundamente desprezado pelo povo; o monarca era uma personagem inútil, corrupto e cioso dos seus privilégios e cujo modo de vida era, juntamente com a família, delapidar o erário público que nunca era suficiente para satisfazer os apetites de quem, no dizer de Aquilino, “ primava na guitarra, nos touros, na caça, tudo geórgica e santo ripanço”.

João Franco, o odiado primeiro-ministro nomeado pelo rei, governou em ditadura, rasgou a Carta Constitucional, reprimiu ferozmente trabalhadores, republicanos e até sectores dissidentes da monarquia, encheu as prisões e sobrelotou os navios com desterrados para o exílio das colónias, os assassínios de opositores e de trabalhadores em greve era acontecimento corrente no reinado de D. Carlos. O monarca não poderia deixar de ser responsabilizado pela situação em que o país se encontrava, com a agravante da obsessão – e é bom salientar – de encontrar sempre expediente em sacar mais dinheiro ao erário público a fim de fazer face aos gastos crescentes da sua vida ociosa e demais elementos da corte, onde primava a corrupção e o deboche. Tanto o rei como a rainha eram tristemente famosos, sendo objecto de inúmeras anedotas e da chacota do reino, pelas aventuras amorosas, não escondendo D. Amélia os seus apetites sexuais vorazes, que não olhavam a sexo, o que constituía um escândalo, para mais, naqueles tempos e numa sociedade fechada e ainda muito ruralizada.

É deprimente assistir-se ao espectáculo ridículo dos cronistas do reino contemporâneos, tipo Rui Ramos, que se esfalfam em apresentar o rei D. Carlos como o “primeiro chefe de estado” português do século XX, como se isso lhe conferisse alguma importância particular, como um “homem bom”, um “amante da Constituição”, que mais não passam de tremendas falsidades facilmente desmascaradas pelos factos; o discurso agora desenvolvido de que teria sido um “grande artista”, um “amante das ciências” e da “vida do mar” são enfeites para justificar a sua vida ociosa e de desprezo para com o povo, que lhe retribuía na mesma moeda, ilustrado nas palavras que proferia sempre que regressava de viagem no iate real, pago com o sangue e suor do povo: “Lá voltamos nós outra vez para a piolheira!”. Portugal era – e é bom repeti-lo – o país mais atrasado da Europa em termos económicos e culturais e as “reformas” não se destinavam, como alguém querer comparar agora à política “reformista” de Sócrates, em modernizar o país, mas para obrigar o povo a fazer mais sacrifícios a fim de pagar a bancarrota crónica das finanças públicas.

A notícia da morte do último monarca português foi aplaudida pela maioria do povo, como bem relata o correspondente do “Jornal de Frankfurt” a propósito de um lojista que teve a ousadia de colocar no seu estabelecimento uma bandeira monárquica como forma de luto pela morte do rei: “Desde que tive conhecimento do sucedido, pus a bandeira a meia-haste. Mas imediatamente os meus clientes e as pessoas das minhas relações acorreram a interpelar-me sobre se eu tinha perdido o juízo ou se queria liquidar as minhas amizades. Perguntei-lhes se eles não achavam que as pessoas, de qualquer maneira, experimentavam um sentimento de comiseração. Você, meu caro senhor, não pode imaginar as coisas que eu ouvi! Não tive outro remédio senão esconder a bandeirinha”.

Manuel Buíça e Alfredo Costa

O povo escondia o seu pesar pela morte de um indivíduo pelo qual não possuía qualquer estima, substituindo-o pelo regozijo, tal como o faziam muitos socialistas nos parlamentos por essa Europa republicana fora. Para a classe operária e para o povo, nomeadamente de Lisboa, a vida do monarca odiado não teve qualquer peso. Mas a morte de Manuel Buíça e de Alfredo Costa já teve, eles sacrificaram a vida para apressar o fim de um regime execrado. A romagem aos túmulos dos denominados regicidas foi feita ininterruptamente até 1940 e só foi interrompida pela destruição dos mesmos a mando do regime fascista. Salazar temia pela vida e relembrar os heróis da república era um mau exemplo, exactamente como pensam os actuais políticos burgueses e, como não pôde deixar de afirmar o palhaço pretendente a uma coisa não existe, que atentados contra chefes de Estado não são bons exemplos. Se os actuais políticos temem pela vida é porque são capazes de sentirem também a consciência pesada.

Erguer uma estátua ao último monarca português é uma provocação vil que bem demonstra a natureza de carácter da classe política nacional mais ligada ao poder, cada vez mais igual aos seus congéneres monárquicos e sintoma da degenerescência do actual regime político. Porta aberta para que, mais dia, menos dia, em outra homenagem semelhante, os mesmos políticos com Cavaco à frente venham a erguer uma estátua ao velho ditador de Santa Comba que, como querem fazer crer os nosso revisores da história, até teria sido boa pessoa se não fossem as más companhias que o rodeavam, tal como o seu antecessor monárquico.

A única coisa que nos merece referência em relação à morte de D. Carlos é que a violência exercida foi insuficiente, sofreu do espírito de conspiração que predominava na época, deveria ter-se estendido a toda a classe de políticos, que o rodeavam e o vieram substituir, e ser exercida pelas massas, numa consequente revolução socialista que substituísse a monarquia por uma república operária a exemplo da Revolução Bolchevique. A revolução republicana de 1910 não derrubou os alicerces do Antigo Regime e o resultado não se fez esperar, dezasseis anos depois instalou-se o fascismo salazarista, numa versão modernizada da monarquia do século XIX, e ao que agora se assiste por força na integração na União Europeia deveria ter acontecido no princípio do século passado. Ficamos parados um século a contemplar a História.

Coimbra, 03 de Fevereiro de 2008

Imagem de destaque: Monumento funerário erguido a Alfredo Costa e Manuel Buíça que foi destruído por Salazar em 1940 e que urge reerguer em memória de quem sacrificou a vida pela liberdade e pela democracia. Cada classe tem os seus heróis e estes, mesmo que as suas acções não tivessem sido as mais adequadas ou eficazes, são indubitavelmente heróis populares.

Bibliografia: "D. Carlos I, Rei de Portugal", Jean Pailler. Bertrand Editora, 2005.

Fonte