segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

O país das calamidades e o presidente "moderado"

 

Pelas costuras - HenriCartoon

Passadas três semanas de temporal, depois de se realizarem a segunda volta das eleições presidenciais e de terem votado os cidadãos que o não puderam fazer a 8 de Fevereiro, ficamos a saber que: parte do país ainda se encontra paralisado, cerca de 40 mil pessoas ainda não possuem energia eléctrica; as cheias dos rios ainda demorarão cerca de um mês a desaparecer, e se não chover ainda mais; a reconstrução dos bens destruídos terão de esperar mais de uma ano, segundo opinião do governo, mas na nossa opinião muitos ficarão por resolver, à semelhança dos incêndios de 2025, cujos lesados, na sua maioria (mais de seis mil, 63%), ainda estão à espera dos apoios financeiros prometidos pelo governo; o buraco da A1, o principal eixo rodoviário do país, irá demorar muitas semanas, ou meses, a ser reparado, obrigando o trânsito a ser desviado por dentro de Coimbra ou por atalhos que estão a prejudicar tanto empresas como cidadãos.

Assistimos a um país preso por arames, que não ficará muito melhor depois dos investimentos prometidos e aplicados, porque tudo será feito na lógica do enriquecimento de alguns e não no benefício de todos. Neste país completamente à deriva, sem planos de ordenamento ou de emergência a nível nacional e em termos práticos, não somente em papel, sem alternativas para fornecimento rápido de energia e telecomunicações ou de transportes rodoviários ou ferroviários, ou para reconstrução rápida das habitações, confirmou-se que metade do eleitorado remeteu-se à abstenção (52,37%, incluindo votos brancos e nulos) e cerca de um terço optou por um presidente da República “moderado”, cultor da “estabilidade”, que não levante muitos problemas ao governo, que, aproveitando as calamidades, irá reforçar o poder da oligarquia e dos bancos, à custa do empobrecimento do povo português e da proletarização da dita “classe média”.

O buraco da A1 é bem o espelho do país

O buraco da A1, cuja reparação ficará em alguns milhões e sem prazo de finalização certo, acabará por ser custeado pelos dinheiros públicos e não pela concessionária que, se agora assumiu a obra, não quererá de maneira alguma ver os lucros dos acionistas prejudicados. As borlas nas portagens das auto-estradas nas regiões afectadas pelo temporal depressa terminaram e s será o governo a indemnizar o “benefício”. A E-Redes ainda não terminou a reposição da electricidade em toda a rede e irá demorar mais de um mês que o faça; entretanto, as populações desesperam. Como desesperam muitas famílias sem um tecto onde possam abrigar-se sem saberem quando e como o governo, ou as autarquias, lhe arranjará uma habitação minimamente condigna. Muitas famílias bem como muitos pequenos empresários não estão dispostos, nem possuem condições para o fazer, em endividar-se ainda mais com os bancos. Porque os dinheiros prometidos são sob a forma de empréstimos, os bancos esfregam as mãos de contentes, a calamidade para eles é mais um maná. Representarão mais uma transferência de riqueza do trabalho para o capital financeiro.

Ao mesmo tempo, o governo de Montenegro/PSD/Chega deu uma borla tributária aos grandes senhorios que passaram a pagar 10% de IRS, em vez de 28%, fazendo cair a receita fiscal em mais 300 milhões de euros e cujo objectivo propalado seria “controlar” o preço das rendas; ora, o efeito será exactamente o oposto, segundo Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO). Portugal possui o 4.º preço mais caro do gás na Europa. O preço do cabaz de alimentos tem vindo a subir de forma consecutiva desde o final de 2025, atingindo máximos recorde em Fevereiro de 2026, com o valor a superar os 253 euros. O temporal será justificação, à semelhança da pandemia e da guerra na Ucrânia, para um maior aumento da inflação em Portugal. A produção automóvel em Portugal desceu 7,8% em Janeiro, face ao mesmo mês de 2025. Segundo o INE, as exportações de bens caíram 0,7% e as importações 2,7% em Dezembro de 2025. A economia nacional engasga-se.

Os prejuízos na agricultura irão no caminho de mil milhões de euros e o ministro da Economia aponta para mais de quatro mil milhões no conjunto da actividade económica. No entanto, o governo já avisou: quem tiver dívidas ao fisco ou à segurança social, nem que seja de 1 euro, não tem direito aos apoios prometidos, repetimos, “prometidos”. Em relação aos trabalhadores abrangidos pelo lay-off simplificado nas empresas afectadas, o governo recuou e veio dizer que vão receber apenas dois terços do salário bruto até ao triplo do salário mínimo nacional (até 2.760 euros) e não 100%, o restante será pago pelas empresas. Percebe-se a intenção, as principais empresas beneficiadas serão as grandes, enquanto as pequenas ficarão mais próximas da falência – o CEO do BCP deixa o aviso: “se as empresas não regressam rapidamente (à normalidade) são excluídas” da procura global, ou seja, deixam de existir.

Na saúde: há mais cidadãos sem médicos de família e à espera de consulta e cirurgia, assim como a produção assistencial estagnou. Já falta dinheiro nos hospitais para comprar medicamentos e mal começou o ano – doentes oncológicos denunciam falta de medicamentos no Hospital de Braga; entretanto, foi anunciada a abertura do Hospital Central do Algarve para 2031 e a concessão aos privados será decidida no fim de 2027. As urgências de Ginecologia e Obstetrícia continuam a encerrar aos fins de semana no SNS, enquanto as companhias de seguro vão engordando encaminhando os partos para os hospitais privados. A artificial falta de resposta na região de Lisboa obrigou SNS a encaminhar 362 grávidas para o privado, nos últimos dois anos e meio, com recurso à convenção que integra os hospitais CUF, Luz e Lusíadas, que, se foi mais intensa durante as obras na maternidade do Hospital Santa Maria, a dita “solução” irá manter-se “por segurança”… dos lucros do lóbi do negócio da doença.

O panorama para os próximos três anos, ou seja, o que falta do mandato do governo, será mais do que sombrio, um outro temporal se aproxima para quem trabalha. A demissão da ministra da Administração Interna revela as fragilidades do governo Montenegro/PSD/Chega.

A calamidade como resultado e instrumento de corrupção

O presidente da APA recusou esclarecer a intervenção da Navigator na obra do Mondego, nomeadamente, no que refere ao contrato, ou outro procedimento público, que permite àquela empresa do grupo Altri – proprietário do canal CM/TV e Now (Medialivre) – fazer intervenções num sistema cuja gestão é de inteira responsabilidade da própria APA. O silêncio poderá denunciar relações algo obscuras, já que a bomba que está a funcionar é para levar água às fábricas de pasta de papel. Deve-se esclarecer que o verdadeiro objectivo da regularização do rio Mondego era o benefício destas empresas e não propriamente a irrigação dos campos, razão pela qual estas obras de irrigação nunca foram concluídas. Nos entrementes, foi notícia que o irmão do chefe de gabinete de Montenegro – jovem de 25 anos, com grande experiência profissional e de vida como se pode calcular – foi nomeado consultor coordenador no Governo, Grupo de Trabalho para a Reforma do Estado, indo auferir um salário mensal de 4 mil e 400 euros e cujo curriculum se resume a estagiar há um ano na EDP Renováveis em Madrid.

O país acabou de saber que o governo Montenegro/PSD/Chega gastou cerca de 20 mil euros de dinheiro público, no passado Dezembro, para ter futebol premium na residência oficial do primeiro-ministro; ao que parece uma despesa perfeitamente conforme com as dificuldades que o povo português está a passar neste momento, especialmente, o que reside e trabalha nas regiões afectadas. Não é a quantia em si mas o que representa em termos simbólicos, declaradamente que o que atormenta a mente de Montenegro não é o bem-estar de quem trabalha mas os privilégios e o gozo pessoal dos governantes que, no final de contas, vivem à custa de quem os elegeu. Depois, venham queixar-se que o populismo está aí a medrar a olhos vistos. Isto pouco tempo depois de o Parlamento ter aprovado a lei que proíbe o livre acesso de crianças e jovens a plataformas online e redes sociais, com os votos favoráveis do PSD, PS, PAN e JPP, como a saúde mental da nossa juventude estivesse na preocupação daquela gente – a idade do utilizador terá de ser confirmada através do sistema Chave Móvel Digital. A realidade é outra, o governo, com a colaboração activa dos partidos alapados em S. Bento, prepara a censura sobre todos os cidadãos, seguindo os mesmos passos da legislação já aprovada em Bruxelas.

A corrupção e o favorecimento são mais que evidentes quando se trata de negócios com os interesses privados. O contrato de exploração que foi feito, em 2019, entre o governo de PS/António Costa e a cadeia de hotéis SANA para a recuperação do antigo Quartel da Graça em hotel de luxo – como Lisboa tivesses falta de hotéis! –, não foi cumprido pela empresa. As instalações encontram-se neste momento abandonadas e em degradação cada vez mais evidente; a população do bairro quer travar o projecto e dar outros usos ao edifício, no entanto, nem o governo denuncia o contrato e executa judicialmente a empresa, nem a autarquia, câmara ou junta de freguesia, se mexe. E bem falta faz mais habitação na cidade de Lisboa. Entretanto, o Ministério Público abriu novo inquérito sobre casa de Montenegro, haverá suspeitas de fraude fiscal. Será manobra de distração para desviar as atenções da inépcia do governo e de outros casos escandalosos, como por exemplo as trafulhices do BES, com Ricardo Salgado, que jamais irá para a prisão, a gozar com a cara dos portugueses, e já lá vão mais de 10 anos. E, quanto a corrupção e justiça branda para com os poderosos, parece que o pedófilo e agente da Mossad/CIA Epstein ponderara mudar-se para Portugal em 2014. E por que seria logo para Portugal?!

Algumas interrogações sobre o país preso por arames

Muita coisa há em Portugal para mudar. Por que carga de água o Sistema de Proteção Civil não está pensado para se articular com as Forças Armadas? Por que razão, mais de metade (63%) dos lesados dos incêndios continua à espera dos apoios prometidos em 2025? O que leva que muitos (68,2% ) dos nossos jovens legitimem violência no namoro? Por que Portugal (empresas e governo) só destrói emprego entre os mais jovens e nunca houve tantos trabalhadores com mais de 65 anos? Por que razões a grande maioria das construções neste país não respeita os requisitos de boa construção, incluindo anti-sísmicos, e muitas delas (cerca de 60 mil) são construídas em leitos de cheia? Qual a razão da E-Redes manter enterradas somente 20% das linhas de alta tensão, enquanto a média da UE é exactamente o oposto, 80% enterradas e 20% aéreas? Quando é que o governo conclui as obras de irrigação dos campos do Baixo Mondego e obriga as celuloses a deixarem de poluir o país e acaba com a eucalipalização? Os rios precisam de ser desassoreados e as encostas arborizados, o governo possui algum plano ou intenção para o fazer? Para quando o corpo único de bombeiros a nível nacional e público, com um só comando, e a aquisição de meios aéreos e sua gestão pelo estado/governo para combate a incêndios? A ministra da Administração Interna demitiu-se, ou obrigaram a demitir-se, protegeu o chefe e o grupo, quanto tempo durará o governo Montenegro/PSD/Chega?

E mais perguntas se poderiam fazer, não caberiam nesta página.

O resultado das eleições presidenciais e a regionalização

 O pequeno vencedor - Vasco Gargalo

Em relação aos resultados das eleições presidenciais, pouca coisa haverá acrescentar ao que já dissemos em crónicas anteriores. Metade dos portugueses entendeu não votar e da outra metade que votou em alguém dois terços escolheram o candidato das meias tintas, da dita “moderação”, da “picha mole”, como se diz popularmente. Depressa se ficará a saber qual o rumo que tomará logo que o governo apresente o seu pacote laboral, agora com algumas arestas limadas, uma versão mais suave. Comprova-se que o partido da extrema-direita serviu como um espantalho para assustar uma parte da pequena-burguesia e levá-la a votar no candidato politicamente correcto. Apesar de estar longe de ser o líder de todo o campo da direita, o 4º pastorinho conseguiu mesmo assim um excelente resultado, que lhe poderá facilitar a vencer umas próximas eleições legislativas, muito provavelmente antecipadas.

O ministro das Finanças já veio dizer ao populacho que tem de haver uma opção, ou aumentar a despesa para cobrir os prejuízos dos vendavais e das cheias e, para que isso não afecte o sacro-santo equilíbrio das contas públicas, terá de fazer sacrifícios; ou, então, não se poderá ocorrer a tudo porque o caminho deixado pela folga orçamental é muito estreito. Será o preparar da opinião pública para as políticas de austeridade que a oligarquia, mancomunada com Bruxelas e ao serviço dos bancos, se prepara para lançar sobre a cabeça do povo português. Se o plano do governo de fazer aprovar em Bruxelas um PRR à portuguesa, o já famigerado PTRR, deixará sempre metade das coisas por fazer, porque parte será gasto pelas clientelas políticas, nunca no interesse do povo, mas no final terá de ser pago por este. A dívida soberana irá aumentar desmesuradamente, contando também com a dívida para fazer face ao aumento das despesas com a guerra, dita “defesa”. Os próximos tempos serão duros e tudo se perfila para que este governo não chegue ao fim do mandato.

Uma questão que forçosamente virá para cima da mesa, já que agora foi aventada com a dificuldade na resposta pronta e eficaz aos temporais, é a questão da regionalização. A maior parte dos partidos são a favor, desde a esquerda à direita, porque entendem que o país é muito grande e que são os autarcas que se encontram mais próximos das populações, e por essa razão, estarão mais aptos a solucionar os problemas. Escamoteia-se que se os problemas não são resolvidos é por uma simples questão da natureza da política que é defendida, e não por desconhecimento dos problemas que afligem mais o cidadão comum. Ilude-se outro facto que é a da corrupção, e é precisamente no poder local que existe mais corrupção, mais compadrios, mais nepotismo e mais impunidade quanto aos crimes e tropelias cometidas. Basta lembrar-nos do soba Alberto João da região das bananas da Madeira.

Com a regionalização irão replicar-se mais meia dúzia Madeiras das bananas no país, com mais poderes intermédios, mais tachos e mais mordomias e um aumento significativo de burocratas e políticos de carreira. Qual será a posição do novo presidente da República sobre o tema, a resposta não será difícil. O país tenderá para a fragmentação, será o esbater do sentido de nacionalidade, muito de agrado de Bruxelas e do grande capital financeiro, que assim melhor poderá invadir e extrair as riquezas locais, o lítio irá ser um bom exemplo. Assistiremos à Europa das regiões, já programada e em movimento, e uma maior integração do nosso país na Espanha, que, é bom lembrar, faz parte do pelotão da frente da Europa a duas velocidades, tão ao gosto de Ursula von der Leyen.

Repetimos, neste país das calamidades, as maiores são sem dúvida os governos e a oligarquia reinante, os tempos que se advinham são deveras sombrios.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

D. Marcelo, O Rei Presidente

A propósito da eleição de Marcelo no primeiro mandato e o que poderia acontecer (2016). Daqui a um mês sai do Palácio de Belém e não deixa saudades, foi o presidente mais hipócrita e safado que a República teve.  

O afilhado do último presidente do conselho de ministros do fascismo, na sua tomada de posse como o 20º presidente da República Portuguesa, eleito por cerca de um quarto do eleitorado nacional, quis ser diferente ao romper com o dito protocolo, teve um concerto por artistas conceituados da nossa praça, incluindo o da canção que manda “foder”, foi popularucho, abriu as portas do Palácio onde deu beijinhos a rodos e, ainda antes, deslocou-se à cidade "geradora de elites", onde teve um "banho de multidão” (cerca de 200 pessoas), foi bem recebido pelo povo do Bairro do Cerco, moradia de gente que vive do rendimento mínimo, pobre em tudo, irá em breve a Roma ver o Papa, passará por Madrid onde beijará a mão de Filipe VI de Espanha e VII de Portugal, aliás, o chefe de estado mais importante que teve a honra de assistir à não menos importante cerimónia, para além, como é óbvio, do emissário pessoal da fürher, o "amigo" Juncker. E já disse, ou alguém por ele, já não nos lembramos bem, que quer ser como o presidente-rei Sidónio.

Também há alguém disse na imprensa de referência, ou coisa semelhante (a nossa confusão é grande com tanto mediatismo), que "começa uma nova fase da democracia portuguesa" – segundo nós, deve ser a fase final. E, para fazer jus às palavras do presidente da Comissão Europeia, o homem é "o homem certo no local certo", mas por outras razões; para além das que perpassaram pela cabeça do luxemburguês, amigo das multinacionais e outros notáveis cidadãos especialistas em branqueamento de capitais e de fuga ao fisco.

Não sabemos se foi gafe ou intencional que o jornal da direita espanhola tenha anunciado a tomada de posse do novo presidente português, pelo menos devido ao local de nascimento, "Marcelo Caetano". Contudo, não deixa de ser estranho atendendo a que os nuestros hermanos andam bem informados sobre o que se passa nesta “piolheira” à beira-mar plantada, para utilizar um termo tão caro ao monarca português que teve o azar de apanhar uma fatal indigestão quando regressava de férias. O homem é "patriota", por isso quer imitar o Sidónio (fazemos votos que o não imite em tudo), razão pela qual querer comemorar o Dia da Raça, perdão, o Dia de Portugal, em Paris.

O Silva de Boliqueime deixa-nos alguma mágoa, perdemos um labrego que, embora sendo uma figura sinistra e de alguma tristeza, fazia-nos rir, antes deveria ter sido substituído pelo pateta de Rans, assim ficaria mais explícita a imagem do país no estrangeiro. No entanto, este Caetano, perdão!, Marcelo, é bem possível, que nos venha ainda a divertir, apesar de esperarmos coisas mais graves do que aquelas que o patego algarvio nos ofereceu, um pouco à semelhança das anedotas que se contavam por toda a Lisboa sobre a rainha francesa D. Amélia, pessoa também muito popular.

Depois deste mandato, esperemos pelo segundo e veremos um apoio ainda mais encarniçado à formação de um governo de direita pura e dura que venha substituir o actual PS/Costa. Como igualmente alguém já afirmou (somos pouco originais), o Portugal (das nossas elites) é isto: "Fugiu de Alcácer Quibir, El-Rei Rei D. Sebastião, E uma lenda nasceu, Entre a bruma do passado, Chamam-lhe o desejado, Pois que nunca mais voltou, El-Rei D. Sebastião". Voltou a monarquia, nem que seja por já termos um Filipe.

Marcelo (ainda não tem o "I" porque é o primeiro, os reis são só numerados a partir do segundo) é um homem de Fé, vai todos os domingos à missa, fez questão de incluir na cerimónia de tomada de posse uma performance com os representantes de todas as correntes religiosas em Portugal, nem sabíamos que havia tantas (dezoito!), e de tolerância. Não é por acaso que irá ser construída uma nova mesquita em Lisboa, no bairro popular da Mouraria, o que poderá levar ao regresso do projecto da nova Sé-Catedral de Lisboa para o alto do parque Eduardo VII, tão acalentado por João Soares quando presidente da câmara da capital.

Fé, Tolerância e Mediatismo, as três virtudes cardeais ou teologais, farão do novo ocupante do palácio de Belém, lembra-nos o local de nascimento do outro salvador, a pessoa indicada, ou seja, o homem certo no local certo" para gerar "consensos" à esquerda e à direita, à frente e a atrás, e instituir a "estabilidade" tão necessária ao regime, num verdadeiro espírito, não verbalizado, social-democrata. Social-democracia, sempre! – como já dizia o outro que foi eleito por 95% do seu eleitorado.

Na verdade, começou um outro período da democracia portuguesa, há um presidente eleito pelas televisões, levado ao colo por toda a imprensa falada e escrita de referência; toda ela, por sinal, propriedade de grandes grupos económicos, que velam para o regresso ao fascismo seja coisa certa e útil, claro que nada de golpes militares, somente um fascismozito soft, tipo democracia musculada, onde as eleições são feitas não para o Parlamento mas para o cargo do presidente (conselho de ministros ou da dita república, tanto faz) que, por sua vez, nomeia os ministros e quem os secretaria pelo tempo que achar necessário.

Ah! houve quem, num jornal da provinciana cidade lusa Atenas, tenha já defendido alteração da Constituição para que vigore um regime presidencialista, com eleições de apenas de sete em sete anos; mas o homem que foi eleito em Janeiro passado já jurou, não sabemos se foi com os pés, que irá respeitar a Constituição da República. Quem é que irá duvidar?!

13 de Março 2016

(Publicado em osbarbaros)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Tempestades que destroem o povo e o governo ausente

Após a tempestade que assolou o país, principalmente o centro e parte da região de Lisboa e Setúbal, na noite do dia 27 para 28, faz agora uma semana, a reação do governo e, em particular de alguns ministros com responsabilidades mais directas, foram no mínimo de indiferença e de desprezo pelas preocupações e dificuldades das populações afectadas. Não houve uma resposta pronta, imediata e expedita para fazer frente à tragédia. O primeiro-ministro manteve-se em silêncio durante mais de 24 horas, enquanto o presidente beato Marcelo foi dar uma volta até Roma para beijar o Papa e convidá-lo a visitar o país em 2027, sabendo ele que em Março terá de passar o testemunho ao sucessor. A ministra da Administração Interna apareceu ao terceiro dia da desgraça, tendo referido que tinha estado a trabalhar em "contexto de invisibilidade", enquanto o ministro Leitão Amaro quis mostrar-se ao telefone em vídeo de promoção pessoal e de propaganda ao governo. Veio-se agora a saber que o Comandante Nacional da Proteção Civil, Mário Silvestre, estava em Bruxelas, onde permaneceu durante três dias. Depois da aparição, a ministra do MAI não teve rebuço em proferir mais uma bojarda: “não sei o que falhou” sobre atraso no apoio às populações. E por fim, o ministro da Economia lançou o vómito de “as famílias se governem com o último ordenado para as obras mais urgentes”. Podemos afirmar, sem grande margem de erro, que este governo de Montenegro/PSD/CDS é uma autêntica nódoa, que não sai com simples água e detergente.

“O estado falhou”, logo ninguém é responsável

Fala o governo em processo de “aprendizagem” e avisa que “situação vai continuar”, mas costuma-se dizer que burro velho vale mais matá-lo do que ensiná-lo. E este governo é velho sem emenda pelas políticas que coloca em prática e jamais conseguirá aprender, porque também não é do seu interesse aprender com o passado. Houve várias catástrofes na sua vigência, apagão que atingiu o país durante quase oito horas e incêndios tremendos no Verão passado, que parece nada lhe ensinaram. Para não falar de outras calamidades acontecidas em mandatos de PS/Costa. Falhou uma actuação pronta e eficaz e, fundamentalmente coordenada por comando único, com um gabinete de crise a funcionar junto das populações atingidas sob a direcção política de um ministro com competência e perfil para a missão. Falharam as telecomunicações, o Siresp mais uma vez foi abaixo, um negócio de mais de 700 milhões de euros que passou por ministros do PSD e do PS, muita gerente terá enriquecido, e continua a ser gerido por empresa privada, mais interessada no lucro. Ainda estamos à espera da concretização da promessa da e-Redes de enterrar as principais linhas de alta tensão, feita durante a tragédia do grande incêndio de Pedrógão Grande, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos de 2017. Esta obra não foi realizada porque obrigaria a investimento de muitos milhões de euros e ia estragar o balanço das contas.

Passados cinco dias é que o governo activou o Plano Nacional de Emergência de Proteção Civil (PNEPC) e a situação de calamidade foi prolongada até o dia 8 de Fevereiro. Mas só depois de perceber que a devastação tinha sido grande, principalmente nos distritos de Leiria, Coimbra e Santarém e que a situação de tempestade iria prolongar-se. Depois de a destruição ser indisfarçável, de mais de meio milhão de casas sem electricidade e água, concelhos inteiros sem telecomunicações e de muitas famílias terem ficado pura e simplesmente sem tecto é que Montenegro se dignou colocar os coturnos em terra para desejar, de forma atabalhoada, pêsames às famílias de pessoas mortas, cujo número já se eleva a uma dezena. E o ministro Pinto Luz lá admitiu que o “Estado falhou”, em vez de reconhecer que quem falhou foi o governo, porque é ele que gere o “Estado”. O conceito de “Estado” é demasiado abstracto e amplo, onde cabe muita coisa e ninguém é responsável. Perante as críticas, Montenegro puxa da arrogância, como é seu timbre, e dispara: “estamos concentrados em resolver problemas e não responder a críticas”. Chuta parta canto, como se diz na gíria e a culpa, mais uma vez, irá morrer solteira.

Devemos salientar que, passado uma semana após a tempestade de 28 de Janeiro, ainda há cerca de 120 mil casas sem electricidade, e só no dia de ontem, ou seja, seis dias depois que o hospital e centros de saúde de Leiria voltaram à atividade normal. A e-Redes afirma que a reposição total do serviço de distribuição de electricidade levará ainda muito tempo, possivelmente para o fim do mês, e sem garantia de não haver cortes e instabilidade depois dessa data. Não se consta que esta empresa, de capitais privados e maioritariamente estrangeiros (State Grid of China 25,0%, Pontegadea (Amancio Ortega) 12,0%, Lazard Asset Management 7,7%, Fidelidade 5,3%, Red Eléctrica Corporación S.A. 5,0%, Ações próprias 0,6%, capital disperso 44,4%), vá indemnizar as empresas e os cidadãos lesados pela tempestade. Parece que a e-Redes se tem escudado na dificuldade de fazer deslocar as equipas ao terreno porque as viaturas, que são eléctricas, não possuem autonomia suficiente para o fazer. De certeza, que não haverá situação mais caricata do que esta.

O povo ajuda o povo

São 69 concelhos em situação de calamidade e representam 17% da população portuguesa, não é coisa pouca. É o voluntariado de elementos do povo que surge no terreno em substituição dos ministros e dos burocratas da dita “Protecção Civil”, que ainda não se resolveu (à hora em que redigimos estas linhas) acionar o Mecanismo de Solidariedade da União Europeia, que rapidamente nos forneceria meios fundamentais, como geradores, que seriam colocadas directamente nos locais. O governo entende que não é da sua competência “sobrepor-se” ao parecer técnico, descartando assim a sua responsabilidade se as coisas vierem a falhar. São os cidadãos anónimos, muitos provenientes de outras regiões do país que se deslocaram para os conselhos destruídos, munidos de pás e vassouras, que estão a proceder às limpezas e à reconstrução dos telhados, sem esperar nada em troca. Enquanto os militares e agentes das policias não fazem o trabalho que lhes cumpre, é o povo que procede ao serviço de guarda das casas e dos bens e a câmara da Batalha teve de contratar três seguranças privados para guardar os geradores e o combustível da acção dos ladrões e gente oportunista que se aproveita da infelicidade alheia. Só muito tarde que a tropa foi requisitada, depois de a Protecção Civil ter solicitado quatro militares nos primeiros dias e do ignorante e inapto ministro da Defesa, mais uns oficiais de gravata e sapatos engraxados, ter posado para os órgãos de comunicação social.

A ver se compra a opinião pública, o governo veio prometer um fundo de apoio de 2,5 mil milhões de euros, mas maioritariamente linhas de crédito que para as empresas de menor dimensão só irão agravar a situação de dificuldade financeira. Mas o que é bom para uns é mau para outros, será um maná para os bancos. Para a reconstrução de habitações de particulares destinam-se uns míseros 10 mil euros, que não chegarão para reconstruir um anexo ou até substituir um telhado na totalidade. Para estes últimos o governo prometeu criar uma plataforma online para inscrição, que deverá estar disponível entre hoje e amanhã. O que não deixa de ser hilariante, sabendo-se que há muitos concelhos onde a electricidade ainda não foi resposta na totalidade e nem se sabe quando haverá rede de telemóvel. Muitas das pessoas afectadas são idosos sem conhecimento de informática ou familiarização no uso de meios eletrónicos. Quanto aos apoios às empresas, empresários de Santarém, Leiria e Coimbra pedem apoios a fundo perdido e consideram que “estamos a colocar um penso rápido na ferida”, na medida em que as empresas de construção de Leiria suspenderam obras para ajudar vítimas da tempestade. O governo não coloca a hipótese de decretar a requisição civil das grandes empresas de construção civil, pagando-lhes depois o trabalho efectuado, já que elas ganham muitos milhões de euros à conta de obras realizados para o Estado.

Os desastres naturais servem a estratégia capitalista

Depois da promessa de mundos e fundos, o ministro da Economia, Castro Almeida, sugeriu que as famílias afetadas utilizassem o seu último ordenado para as reparações urgentes, em expressão chocante de desprezo pelas famílias mais pobres e que na prática pouco ou nada irão receber. Mesmo as companhias de seguros tudo farão para não desapertar muito os cordões à bolsa e esperarão alguma compensação por parte do governo. As empresas concessionárias das auto-estradas dispuseram-se a dar umas borlas durante uma semana, mas com certeza que irão ser compensadas pelo erário público. Não se viu as grandes superfícies de venda a retalho, Sonae, Gerónimo Martins, por exemplo, a chegarem-se à frente no apoio às populações com a entrega de cabazes de alimentos. As calamidades naturais são mais um meio de enriquecer as grandes empresas enquanto se liquidam as pequenas.

À semelhança da pandemia, as grandes empresas serão recapitalizadas e os trabalhadores, com os lay-off e desemprego, ficarão mais pobres. Em relação aos materiais de construção, estes irão encarecer bastante, havendo já notícia de telhas a tornarem-se “mais caras que ouro”. E quanto a geradores, praticamente já não existem no mercado e os pouco que ainda se encontram já estão ao dobro do preço. É o próprio primeiro-ministro Montenegro que admite que recuperação das zonas afetadas pela tempestade Kristin poderá levar anos, isto é, virão mais uns milhões de Bruxelas, que depois o povo paga com língua de palmo, para as grandes empresas, nomeadamente para as que financiam as campanhas eleitorais do PSD.

É o grande capital financeiro internacional que o diz. O McKinsey Global Institute afirma que “um quarto do país está atualmente exposto a riscos climáticos, como cheias, incêndios florestais e seca, o que abrange cerca de 7% da população portuguesa”; que Portugal só investe cerca de “200 milhões de dólares (171 milhões de euros) anuais em medidas de adaptação às alterações climáticas, o que corresponde a 43% do valor necessário para se proteger contra fenómenos meteorológicos extremos”. Por outra palavras, temos as “alterações climáticas”, como nunca tivesse havido tempestades e, cheias ou incêndios em Portugal, como pretexto e meio de fazer negócio e lucro. Como se comprova. a desgraça do povo tem de ser fonte de lucro para os bancos, razão pela qual os governos que temos tido a desgovernar o país nada têm aprendido. Não há interesse.

Tal como nos incêndios no Verão passado - "O Estado da Nação" por Vasco Gargalo

Prevenir antes do que remediar (mal) depois

A estratégia de menorizar as consequências dos desastres naturais são mais que conhecidas e estudas. A montante, respeitar o ordenamento do território, proibir a construção em locais de cheia, selecionar os materiais mais adequados à construção, bem como defender as regras anti-sísmicas em regiões situadas em falhas tectónicas, reflorestação com espécies autóctones que facilitem a retenção de água nos solos e no ar, boa gestão da floresta, reservatórios para a água em excesso do Inverno que sirva para o Verão. Em um só dia as barragens foram obrigadas a descarregar uma quantidade de água suficiente para o consumo da cidade de Lisboa durante três anos. A jusante, criar unidades específicas de crise no seio das forças armadas. Parece que esta nunca foi ideia que passasse pelas cabeças dos nossos ministros e muito menos acabar com as associações privadas de bombeiros. Organizar um corpo único de bombeiros sob um só comando a nível nacional e inteiramente profissionalizado. Equipar as autarquias locais com meios, incluindo geradores e outros equipamentos, para enfrentar calamidades deste género, não esquecendo recursos financeiros suficientes. Instruir as populações sobre o que fazer nestas situações. E muito mais haverá a ter em conta, desde que se ouça quem sabe e quem anda no terreno. Desde sempre que os políticos e os governantes se habituaram a olhar o povo de cima do cavalo. E um dia destes isto tem de acabar.

Imagem: Fonte

domingo, 1 de fevereiro de 2026

O regicídio: Alfredo Costa e Buíça: heróis ou criminosos?

Nem todas as mortes possuem o mesmo peso, elas valem pelo significado que têm para as pessoas queridas ou para a classe social a que pertencem e cujos interesses se encontram subordinadas. Os matadores do rei D. Carlos e do príncipe herdeiro são criminosos para os partidários da monarquia e dos defensores das actuais classes possidentes e respectivo status quo, mas heróis para os partidários da república nos princípios do século XX e das classes submetidas à exploração, à tirania e à injustiça de todos os tempos e independentemente da nacionalidade. Heróis ou criminosos, uma questão de classe.

Em 31 de Janeiro de 1891 rebentou no Porto o primeiro movimento revolucionário republicano, que foi violentamente reprimido pelo regime monárquico – acontecimento que foi pobremente relembrado pelos actuais democratas e republicanos, que se esquecem de que a democracia, com as liberdades e direitos individuais que eles tanto incensam, a devem a esses primeiros lutadores que sacrificaram a própria vida por um ideal; os monárquicos afadigam-se na tarefa de revisão da história e não enjeitam a provocação. A morte do rei e do herdeiro do trono possui um significado político e simboliza o estertor de um regime retrógrado, corrupto, responsável pelo atraso do país (o mais atrasado da Europa) e profundamente desprezado pelo povo; o monarca era uma personagem inútil, corrupto e cioso dos seus privilégios e cujo modo de vida era, juntamente com a família, delapidar o erário público que nunca era suficiente para satisfazer os apetites de quem, no dizer de Aquilino, “ primava na guitarra, nos touros, na caça, tudo geórgica e santo ripanço”.

João Franco, o odiado primeiro-ministro nomeado pelo rei, governou em ditadura, rasgou a Carta Constitucional, reprimiu ferozmente trabalhadores, republicanos e até sectores dissidentes da monarquia, encheu as prisões e sobrelotou os navios com desterrados para o exílio das colónias, os assassínios de opositores e de trabalhadores em greve era acontecimento corrente no reinado de D. Carlos. O monarca não poderia deixar de ser responsabilizado pela situação em que o país se encontrava, com a agravante da obsessão – e é bom salientar – de encontrar sempre expediente em sacar mais dinheiro ao erário público a fim de fazer face aos gastos crescentes da sua vida ociosa e demais elementos da corte, onde primava a corrupção e o deboche. Tanto o rei como a rainha eram tristemente famosos, sendo objecto de inúmeras anedotas e da chacota do reino, pelas aventuras amorosas, não escondendo D. Amélia os seus apetites sexuais vorazes, que não olhavam a sexo, o que constituía um escândalo, para mais, naqueles tempos e numa sociedade fechada e ainda muito ruralizada.

É deprimente assistir-se ao espectáculo ridículo dos cronistas do reino contemporâneos, tipo Rui Ramos, que se esfalfam em apresentar o rei D. Carlos como o “primeiro chefe de estado” português do século XX, como se isso lhe conferisse alguma importância particular, como um “homem bom”, um “amante da Constituição”, que mais não passam de tremendas falsidades facilmente desmascaradas pelos factos; o discurso agora desenvolvido de que teria sido um “grande artista”, um “amante das ciências” e da “vida do mar” são enfeites para justificar a sua vida ociosa e de desprezo para com o povo, que lhe retribuía na mesma moeda, ilustrado nas palavras que proferia sempre que regressava de viagem no iate real, pago com o sangue e suor do povo: “Lá voltamos nós outra vez para a piolheira!”. Portugal era – e é bom repeti-lo – o país mais atrasado da Europa em termos económicos e culturais e as “reformas” não se destinavam, como alguém querer comparar agora à política “reformista” de Sócrates, em modernizar o país, mas para obrigar o povo a fazer mais sacrifícios a fim de pagar a bancarrota crónica das finanças públicas.

A notícia da morte do último monarca português foi aplaudida pela maioria do povo, como bem relata o correspondente do “Jornal de Frankfurt” a propósito de um lojista que teve a ousadia de colocar no seu estabelecimento uma bandeira monárquica como forma de luto pela morte do rei: “Desde que tive conhecimento do sucedido, pus a bandeira a meia-haste. Mas imediatamente os meus clientes e as pessoas das minhas relações acorreram a interpelar-me sobre se eu tinha perdido o juízo ou se queria liquidar as minhas amizades. Perguntei-lhes se eles não achavam que as pessoas, de qualquer maneira, experimentavam um sentimento de comiseração. Você, meu caro senhor, não pode imaginar as coisas que eu ouvi! Não tive outro remédio senão esconder a bandeirinha”.

Manuel Buíça e Alfredo Costa

O povo escondia o seu pesar pela morte de um indivíduo pelo qual não possuía qualquer estima, substituindo-o pelo regozijo, tal como o faziam muitos socialistas nos parlamentos por essa Europa republicana fora. Para a classe operária e para o povo, nomeadamente de Lisboa, a vida do monarca odiado não teve qualquer peso. Mas a morte de Manuel Buíça e de Alfredo Costa já teve, eles sacrificaram a vida para apressar o fim de um regime execrado. A romagem aos túmulos dos denominados regicidas foi feita ininterruptamente até 1940 e só foi interrompida pela destruição dos mesmos a mando do regime fascista. Salazar temia pela vida e relembrar os heróis da república era um mau exemplo, exactamente como pensam os actuais políticos burgueses e, como não pôde deixar de afirmar o palhaço pretendente a uma coisa não existe, que atentados contra chefes de Estado não são bons exemplos. Se os actuais políticos temem pela vida é porque são capazes de sentirem também a consciência pesada.

Erguer uma estátua ao último monarca português é uma provocação vil que bem demonstra a natureza de carácter da classe política nacional mais ligada ao poder, cada vez mais igual aos seus congéneres monárquicos e sintoma da degenerescência do actual regime político. Porta aberta para que, mais dia, menos dia, em outra homenagem semelhante, os mesmos políticos com Cavaco à frente venham a erguer uma estátua ao velho ditador de Santa Comba que, como querem fazer crer os nosso revisores da história, até teria sido boa pessoa se não fossem as más companhias que o rodeavam, tal como o seu antecessor monárquico.

A única coisa que nos merece referência em relação à morte de D. Carlos é que a violência exercida foi insuficiente, sofreu do espírito de conspiração que predominava na época, deveria ter-se estendido a toda a classe de políticos, que o rodeavam e o vieram substituir, e ser exercida pelas massas, numa consequente revolução socialista que substituísse a monarquia por uma república operária a exemplo da Revolução Bolchevique. A revolução republicana de 1910 não derrubou os alicerces do Antigo Regime e o resultado não se fez esperar, dezasseis anos depois instalou-se o fascismo salazarista, numa versão modernizada da monarquia do século XIX, e ao que agora se assiste por força na integração na União Europeia deveria ter acontecido no princípio do século passado. Ficamos parados um século a contemplar a História.

Coimbra, 03 de Fevereiro de 2008

Imagem de destaque: Monumento funerário erguido a Alfredo Costa e Manuel Buíça que foi destruído por Salazar em 1940 e que urge reerguer em memória de quem sacrificou a vida pela liberdade e pela democracia. Cada classe tem os seus heróis e estes, mesmo que as suas acções não tivessem sido as mais adequadas ou eficazes, são indubitavelmente heróis populares.

Bibliografia: "D. Carlos I, Rei de Portugal", Jean Pailler. Bertrand Editora, 2005.

Fonte

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A democracia de Abril e a impunidade da PIDE

Dois casos: Rosa Casaco e Casimiro Monteiro 

1. Um assassino que morreu de velhice!

O assassino e ex-inspector da PIDE Rosa Casaco morreu em paz com 91 anos (gozaria de uma abastada reforma por “serviços à Pátria”?), entrava e saía livremente no país ainda com o mandado de prisão em vigor porque tinha sido “condenado” a oito anos de prisão pelo assassinato do general Humberto Delegado e da sua secretária Arajaryr.

A partir de 2002 o Supremo Tribunal de Justiça tinha decretado a extinção dos mandados por extinção dos processos em que tinha sido condenado à revelia pelo Tribunal Militar em plena democracia de Abril. Andou fugido (ou a viajar) por Brasil e Espanha, escreveu livros, deu entrevistas a dois jornais de referência, que terão pago bom dinheiro, “Expresso” e “Independente”, deixou-se fotografar junto à Torre de Belém, em 1998, gozou da maior impunidade. Desculpou Salazar pelo assassínio do general Humberto Delgado atribuindo a responsabilidade à própria PIDE. Riu-se desta democracia de opereta.

Quem foi António Rosa Casaco?

A sua ficha profissional diz que nasceu a 1 de Março de 1915, ao que parece na povoação de Rossio, concelho de Abrantes. Começou como empregado comercial, trocando o lugar por um melhor remunerado de agente da PIDE em 12 de Janeiro de 1937. As habilitações literárias não o favoreciam, não passando de “lateiro” na tropa, onde conseguiu ficar até concluir o 2º curso das Escolas Regimentais, que pouco valia. Em 1950, apesar de toda a experiência adquirida em treze anos de pide tentou o concurso para chefe de brigada, tendo reprovado. Mas ia apresentando bom serviço na benemérita instituição que o recebeu, descarregando as frustrações e o ódio sobre as vítimas que lhe iam parar às mãos, daí as observações que constam da sua ficha: «Combativo, mas pouco expedito». Mais tarde, alguém acrescentará: «Educado, inteligente e dedicado, e de toda a confiança» (1).

Rosa Casaco, quando foi entrevistado pelo jornal "Expresso", em 1998.

Outras notas curiosas: andou no serviço do correio diplomático Lisboa-Madrid; morava no Bairro do Restelo, na Rua Pedro Escobar, onde decerto não faltariam elementos para determinar como os 37 anos de inspector da PIDE foram materialmente frutuosos. Mal eclode a “revolução” na madrugada do dia de 25 de Abril, o pide Rosa Casaco, bem avisado e sabendo do que se iria passar, colocou-se logo ao “fresco”, nunca se sentou no “mocho” a fim de responder pelos seus crimes, nem as autoridades “revolucionárias” vigentes na década de setenta, nem os governos posteriores do PSD e do PS, se preocuparam em levar os criminosos do fascismo a julgamento e castigo pelos crimes nefandos praticados contra o povo. A razão? Alguns dos democratas pós-25 de Abril, alcandorados ao poder, foram coniventes com o fascismo, alguns inclusivamente terão sido informadores da PIDE, outros choraram que a PIDE tivesse desaparecido (lembremo-nos da polémica suscitada por Francisco Sousa Tavares ao acusar os juízes do Tribunal Militar de quererem a PIDE para lhes proteger as costas), pelo menos, formalmente.

Um regime democrático que desculpa e branqueia as atrocidades de um regime ditatorial dificilmente poderá ser credível, e a elite que aí se encontra no poder é conivente e, dessa forma, também historicamente responsável pelas atrocidades perpetradas pela velha elite. Esconder a História é preparar o terreno para futuros e maiores crimes.

(Dados retirados de Dossier PIDE - Os Horrores e Crimes de uma "Polícia", ed. APR, Lisboa. 1974)

2. Casimiro Monteiro uma "besta de força"

Casimiro Monteiro, o pide que terá apertado o gatilho contra o general Humberto Delgado e a sua secretária, em 13 de Fevereiro de 1965, assassinando-os a mando de Salazar

Casimiro Emérito Rosa Teles Jordão Monteiro era um homem «muito grande, muito largo, era uma besta de força». Ingressa em 1933, no Seminário de Goa, que abandona ao fim de um ano.

Alista-se, então, no Exército Português, mas acaba por desertar. Vai para Itália, entra para a Legião Estrangeira e parte para a Guerra Civil de Espanha, onde se torna famoso pela ferocidade. No início da Segunda Guerra Mundial alista-se como voluntário na Divisão Azul alemã. Participa na invasão da Rússia. «Combateu na guerra civil espanhola e esteve na Rússia durante a Segunda Guerra Mundial», garante Óscar Cardoso (1).

Desbaratada a Divisão Azul, deserta e atravessa a Europa. Em Outubro de 1943, é detido e interrogado pela contra-espionagem inglesa. Comprovada a veracidade das suas declarações, os ingleses enviam-no para os comandos. Incorporado no 8° Exército de Montgomery, combate as tropas de Rommel. E participa na invasão de Itália, sendo gravemente ferido.

Em 1945, é talhante em Londres. Ao mesmo tempo, é informador da Scotland Yard e membro duma quadrilha de assaltantes de ourivesarias. Num dos assaltos é assassinado um dos empregados da ourivesaria. Casimiro Monteiro é procurado pela Scotland Yard, que lhe atribui o crime. E é perseguido, também, pelos membros da sua quadrilha, que tinham sabido da sua qualidade de informador. Descoberto por estes é espancado e retalhado à navalha.

Acaba por fugir para a Índia Portuguesa. Em 1956, é agente de 1ª classe da Polícia Especial, sendo louvado pela sua participação numa operação de que resultou a apreensão de uma enorme quantidade de armas roubadas. Em 1958, o jornal português “A Voz de Chaves” notícia a presença na terra do célebre «Leopardo», chefe de brigada em Goa , «herói das campanhas da Europa e da Africa, solerte detective dos terroristas no território português».

Entretanto, um colega de Goa, amante da sua mulher, denuncia-o como assaltante de ourivesarias em Inglaterra apresentando como prova um cofre, ainda com algumas jóias. É detido, primeiro na Trafaria, logo depois na cadeia do Porto. Os territórios portugueses da Índia foram, entretanto, anexados, pelo que muitas provas desapareceram. Monteiro comparece a julgamento, em Dezembro de 1963, no Tribunal Militar de Santa Clara. Vinha acusado de homicídio, extorsão, rapto, violação de mulheres, sevícias. Mas é absolvido.

Casimiro Monteiro terá, então, sido recrutado por Hermes de Oliveira que, em consonância com Franco Nogueira, pretende organizar a resistência armada na antiga colónia. Recebe quatrocentos contos a título de prémio, além duma remuneração normal e de ajudas de custo. Já na Índia, no âmbito da «Operação Mamasté», Monteiro, ao que parece depois de assassinar o amante de sua mulher, põe umas bombas. Só que, desmantelada a sua rede, tem de fugir, regressando a Lisboa. «Já depois da queda da Índia Portuguesa, ele esteve envolvido com a resistência portuguesa naquele território», afirma Cardoso.

Regressado a Lisboa, e convidado para chefe de brigada da PIDE, embora não preencha os requisitos para tal, pois não possui o 5° ano dos liceus nem tem o certificado de registo criminal limpo. No entanto, diz-se que por interferência do próprio Salazar, acaba sendo admitido. É apadrinhado por Barbieri Cardoso, sendo colocado na Divisão de Informação.

A sua primeira acção terá sido o fabrico da bomba para o Esperança , navio com pavilhão panamiano, que se dizia seguir para a Tanzânia com armas para a FRELIMO. Óscar Cardoso assevera que Monteiro era «um grande especialista em explosivos». De resto, o próprio Casimiro Monteiro, no relatório que faz sobre o «Caso Angoche», refere a sua larga experiência com explosivos.

Depois, com o nome de Washede Kundamal Milpuri, passaporte retido pela PIDE em Lisboa, a um cidadão inglês de origem paquistanesa, viaja para Espanha, ao encontro do general Humberto Delgado, a quem teria assassinado a tiro.

Vai então para Lourenço Marques, onde a sua colocação é assinalada no Boletim Oficial. Aí prepara a encomenda armadilhada que mata Eduardo Mondlane, presidente da FRELIMO, ao que parece a mando do subdirector de António Vaz. «O Casimiro Monteiro era um bulldog. Dizia-se-lhe faz e fazia» - comenta Óscar Cardoso.

Em Moçambique, Casimiro Monteiro organiza e chefia uma brigada de operações especiais, brigada que fazia razia nos africanos suspeitos de apoio à FRELIMO. Aliás, o próprio Óscar Cardoso garante que Monteiro entrava nos acampamentos e «resolvia as coisas à catanada» . Seria promovido a subinspector.

No dia 24 de Abril, segundo um vizinho, Casimiro Monteiro e a família retiraram-se precipitadamente para a África do Sul. Óscar Cardoso diz tê-lo ali encontrado, em Richards Bay, a viver miseravelmente e quase cego. Usava o nome falso de José Hernandez e sobrevivia graças ao apoio da polícia sul-africana. Garante ter ele morrido.

E ainda:

(1) Óscar Cardoso – Foi inspector da PIDE, criou os Flechas (corpo de comandos constituído por naturais negros das ex-colónias), foi preso após o 25 de Abril e condenado a pena mínima, é libertado em Maio de 1976. Treinou a RENAMO como oficial do exército sul-africano, na década de setenta e oitenta do século passado. E passou a receber uma pensão vitalícia, a partir de 1992, por “serviços distintos prestados à Pátria” (atribuída por Cavaco Silva). Houve um tempo em que se desdobrou em entrevistas a jornais e televisões. Na impunidade.

(Dalila Cabrita Mateus, “A PIDE-DGS na Guerra Colonial 1961-1974. Editora Terramar. Lisboa, 2004.)

 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Os resultados eleitorais: nova volta, nova corrida

  

O Senhor Seguro de Si - Henricartoon

Como se esperava, terá de haver segunda volta, segunda corrida na caça ao voto do cidadão, para se saber quem é o sucessor de Marcelo no cargo de Presidente da República Portuguesa. Como também era previsível, o líder da extrema-direita fascista seria um dos apurados. No entanto e apesar da promoção nos últimos dias da campanha e do avanço das sondagens a seu favor, a vitória de Seguro não era certa e sabida, esperava-se alguma surpresa que contrariasse as previsões, avançadas e construídas quer pelas empresas de opinião quer pelos media mainstream pertencentes à oligarquia. O terceiro candidato quase que surpreendia, não fosse a notícia de um putativo caso de assédio sexual, estas coisas não são por acaso e surgem sempre na altura mais adequada. Ganhou o fascista político, foi arredado fascista económico, e para Seguro nada está seguro, embora a aposta é torná-lo PR, Enquanto ao quarto pastorinho é transformá-lo em salvador (do capitalismo nacional) alcandorando-o, caso fosse PR isso não seria possível, a primeiro-ministro após o fim precoce do governo Montenegro/PSD/CDS.

A extrema-direita surge como o papão da pequena-burguesia para se votar no candidato politicamente correcto. Logo que se soube dos resultados, ainda a contagem dos votos não estava encerrada, logo os líderes da esquerda institucional, PCP, Bloco e Livre, anunciam o apoio a Seguro, e o objectivo é explícito, para que o líder fascista não seja eleito; isto é, votar no mal menor e engolir alguns sapos, coisa que também não é inédita. Algo parecido se passa no campo da direita democrática, ou dita, com figuras importantes do PSD a confirmar o apoio ao candidato da “moderação. Os mandatários da candidatura de Mendes e de Cotrim e o líder da bancada parlamentar do IL foram os primeiros; seguiu-se Cavaco Silva, o considerado ideólogo do PSD e da dita direita. O que terá arrefecido a euforia do pastorinho como o grande vencedor e, assim, líder do campo de toda a direita contra o “socialismo”, e terá entalado ainda mais Montenegro que não usa, nem se espera, anunciar sobre quem votará no próximo dia 8 de Fevereiro.

Montenegro, se declara apoio a Seguro, hostilizará o chefe da extrema-direita e este chumbará o “pacote laboral”, apesar de aquele ser o melhor PR para fazer promulgar todas as leis, incluindo as piores para o povo português. Se manifesta apoio ao candidato do seu coração, e ideologia, irá dividir ainda mais o campo do centrão e reconhecer o “iluminado” como o líder incontestado de toda a direita. É o imbróglio para ao actual primeiro-ministro que está bem longe de chegar ao fim do mandato. Adivinha-se que nem o mandato de Seguro, se for mesmo eleito, porque não há certeza de nada, embora  as sondagens antes do dia 18 darem-lhe vitória na segunda volta com vantagem de 20%, nem o governo navegará em águas calmas de paz social ou de bom desempenho da economia nacional.

Montenegro falou no “governo de estabilidade”, agora na Assembleia da República, e Seguro prometeu uma “Presidência de estabilidade”, demasiada estabilidade. Optimismo a mais, quando o governo promete que não desiste do pacote laboral e a CGTP se prepara para novas formas de luta. Não somente os trabalhadores assalariados, mas igualmente os agricultores se mobilizam para a luta, já que o acordo UE/Mercosul provocará inevitavelmente a ruína de uma boa parte deles, por força da entrada livre de produtos da América Latina mais baratos mas de pior qualidade. Os produtores nacionais e europeus de gado, cereais e de vinho serão os principais a serem afectados. Bruxelas já anunciou que quer cortar mil milhões de euros na PAC (Política Agrícola Comum) para Portugal que, ocupando o penúltimo lugar da tabela, será dos mais penalizados. O comércio está na mira da crise, parece estar a ser afectado por menor procura, reflexo de perda de poder de compra dos portugueses , com os proprietários de restaurantes a queixarem-se (quem na chora não mama) levando o governo a prometer até 60 mil euros por empresa, sendo até 30% a fundo perdido, com a medida a entrar em vigor já em Fevereiro. Como já dissemos, se 2025 foi um mau ano   para o povo português, 2026 será bem pior.

Quanto aos resultados das eleições em si, confirma-se o que afirmamos em  texto  anterior. Os media, como especial destaque para as televisões, e as sondagens por si encomendadas, formataram opinião e determinaram em grande medida a intenção de voto de uma parte substancial do universo eleitoral. Cerca de 30% dos votantes decidiram "em cima da hora" e 14% fizeram-no no próprio dia da eleição, e destes indecisos 38% votaram em Seguro. E, em termos sociais, Seguro ganhou entre os eleitores com mais instrução e no eleitorado feminino que, por sua vez, foi aquele que esteve mais indeciso; venceu também entre o eleitorado de meia idade e mais idoso. O fascista liberal parece que venceu entre o eleitorado mais jovem, parte dele roubado ao fascista político e que, fica-se com a ideia, não tivesses sido o escândalo e a campanha durasse mais uns dias muito provavelmente teria ficado em segundo lugar. Entretanto, o pastorinho ganhou principalmente entre o eleitorado com menor formação académica.

Em resumo, Seguro ganha no eleitorado mais pequena-burguesia e que viveu ou se lembra ainda do 25 de Abril e como era o país em 24 de Abril; a juventude urbana que não tem confiança no futuro, e por ventura almeja algum tacho, apostou no neo-liberalismo; e trabalhadores assalariados sem formação específica, os mais explorados, deixaram-se seduzir pelo canto de sereia de que se sente o “escolhido” para “salvar a pátria”. Os candidatos, apresentados pelos ditos “pequenos partidos” de esquerda, não conseguiram fixar o eleitorado do partido e, por exemplo, o truão Vieira quase que alcançava António Filipe. O candidato do Livre, levado ao colo pelas televisões, talvez com o intuito do partido poder a vir a substituir o BE e fazer sombra ao PCP, foi um completo desastre. Não terão direito à comparticipação do estado nas despesas, o que não deixa de ser um desastre financeiro para além do político. Em próximas eleições pensarão duas vezes antes de apresentarem candidato.

Independentemente do resultado do próximo dia 8 de Fevereiro, o espectro partidário está a mudar, e já mudou, e daqui para a frente não será o mesmo. O bipartidarismo estará a dar as últimas e a esquerda terá de se reformular não só em termos de organização, mas principalmente em termos de estratégia política e de ideologia. Social-democratas, verdadeiros ou de fantasia, temos cá demais e para este peditório a classe dos operários e do povo trabalhador já deu. À medida que a luta de classes se desenvolve, o “centrão” tende a desaparecer e ficam os extremos, os campos clarificam-se. Não estamos em tempos de moderação, basta olhar um pouco pelo que se passa no mundo.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Presidenciais e outras coisas mais

Dizem que estas eleições são as mais renhidas e com resultados mais incertos desde há cinquenta anos, porque a três dias do acto eleitoral as sondagens e as tracking poll dão três ou quatro candidatos na margem da  possibilidade de qualquer um deles poder ganhar, embora sempre com a necessidade de se ir a uma segunda volta. Este empate técnico nas intenções de voto pode ser entendido como resultado da manipulação levada ao extremo por parte dos principais media mainstream e pela mediocridade e cinzentismo dos principais presidenciáveis do sistema. Não está fácil, pelo menos é o que parece, encontrar antecipadamente o sucessor do monárquico e beato Marcelo.

Este talvez o pior Presidente da República pós-25 de Abril, homem que mais denegriu e rebaixou a função de que foi investido, urdindo na sombra a intriga e a conspiração, descredibilizando e demitindo governos ao mesmo tempo que promovia os de sua confiança política, metendo cunhas para os amigos e promovendo compadrios, transformou o cargo e a República em arenas de exibicionismos e populismos, em sentido claro de transformação do regime em algo mais consentâneo com o seu carácter de fascista reciclado. Quem for eleito será ainda pior e terá como missão colocar o epitáfio no regime democrático parlamentar burguês, instituído pela Constituição de 1976 no rescaldo do 25 de Novembro de 1975.

Umas eleições feitas por sondagens

As sondagens mais recentes mostram que a intenção de voto neste momento aponta para empate entre Seguro, André Ventura e Cotrim, outras substituem Seguro por Marques Mendes, qualquer um deles poderá ganhar e passar à segunda volta sempre acompanhado pelo quarto pastorinho que irá perder, definitivamente, o homem não está talhado para PR, mais para primeiro-ministro a seguir à queda provocada deste governo Montenegro. Este será o projecto da oligarquia, ou de uma parte mais substancial, que ainda aposta nos partidos tradicionais, mais concretamente, nos dois partidos do bloco central de interesses, o famigerado “centrão”. E, fatalmente, teremos o Mendes ou o Seguro como sucessor do rei Marcelo. Qualquer um deles servirá bem para fazer os fretes e assinar de cruz todas as medidas apresentadas pelo governo do PSD/Montenegro.

No entanto, não há unanimidade nem certezas, há quem considere que aqueles dois partidos estarão em fim de vida, com o prazo prestes a expirar, e aposte já em outros menos “moderados”, dispostos a impor à força, se necessário à força do porrete, as medidas que o grande capital exige para aumentar os lucros. Para tal urge escolher um PR mais resoluto e determinado nas suas decisões; ora, um militar será a pessoa mais indicada. A promoção precoce do almirante das picas, que não hesitou em encurtar a carreira profissional para se disponibilizar para o cargo, e que logo surgiu no topo das sondagens, apresentado como acima dos partidos, dava como certa a sua eleição. E talvez isso até venha a acontecer.

As nossas elites, e parte substancial da dita “classe média”, nutrem uma especial e antiga simpatia por personalidades fortes, fardadas e com medalhas compradas na Feira da Ladra ainda melhor, que transmitam autoridade e respeito, coisas estranhas ao comentador televisivo Marcelo. Um paizinho da Nação, que seja transversal às classes sociais e que possa gerar consensos, nem que para isso se utilize as botas cardadas, é o ideal nesta altura do campeonato da luta de classes. É em tempo de crise estrutural e prolongada do sistema capitalista, sem solução imediata à vista se não a guerra, que este perfil melhor completa um governo dirigido por um primeiro-ministro semelhante e com a missão específica de carregar sobre o povo uma nova onda de austeridade.

Nesta mesma linha de pensamento se terá de perceber que, jamais e em tempo algum, uma mulher será Presidente da República neste país, mesmo que seja pessoa conservadora e até católica (lembremo-nos de Lurdes Pintassilgo) tal é a misoginia da oligarquia e da classe que nela mais se revê. Nem falaremos sequer de um PR homossexual, cujo alvitre já foi feito com a hipótese de Paulo Portas se apresentar como candidato, ou de um primeiro-ministro. Paulo Rangel foi afastado da liderança do PSD porque seria inconcebível vê-lo a liderar o governo de Portugal. O mesmo se poderá pensar de um ex-operário ou ex-sindicalista, a exemplo de Lula no Brasil, o que, por sua vez, seria quase uma heresia. Nestas eleições, há candidatos escolhidos pela oligarquia, há os que fazem o papel de idiotas úteis, os restantes candidatos, e os figurantes, que são os cidadãos votantes.

Um jogo viciado logo à partida

Neste sentido de direitização da governação e do regime, em recta final do prazo de validade nesta democracia do faz de conta, teremos de também entender por que razão os onze candidatos não são iguais, há uns mais iguais do que outros. Antes do início oficial da campanha as televisões promoveram debates entre os candidatos apoiados pelos partidos e mais o almirante, que acaba por ser apoiado pelos descontentes dentro dos dois principais partidos da governação; os restantes ficaram de fora. E agora em plena campanha os media estabeleceram de imediato uma divisão, os candidatos com mais hipóteses e os sem hipótese nenhuma de serem eleitos presidente. O jogo está viciado logo à partida. Como os próprios boletins de voto, que em vez de terem apenas os candidatos que vão à disputa tem mais três que foram eliminados, aumentando a confusão entre o eleitorado, nomeadamente, os emigrantes que pouco ou nada conhecem sobre o que se passa aqui na piolheira. Já era tempo de substituir o papel pelo voto electrónico, menos sujeito à adulteração, bem como à actualização dos cadernos eleitorais.

A desigualdade nos financiamentos é mais que flagrante e determina à partida quem é que possui mais probabilidade de ganhar a competição; muito à semelhança dos próprios partidos, quem tem dinheiro ganha, quem não tem é eliminado.  Prevê-se que os candidatos venham a gastar uns 4,9 milhões de euros, mais 3,8 milhões do que foi gasto nas presidenciais de 2021. Só o Mendes pensa despender 1,32 milhões de euros, seguido de Seguro com 1,13 milhões. O ex-almirante prevê um gasto de cerca de 1 milhão de euros e o quarto pastorinho aí uns 900 mil euros. Pergunta-se: quem é que financia os candidatos do sistema? Sabemos que Cavaco foi financiado pelo BES e pela família Espírito Santo, Marcelo não precisou, antes de ser já o era, foi vendido como sabonete pelas televisões; agora, quem é que está por detrás desta gente? Não se sabe, porque a lei da protecção de dados não permite que a identidade dos beneméritos e desinteressados doadores seja conhecida. Fica, mais uma vez, evidente que a transparência não é uma virtude desta dita “democracia”.

Mas indo aos candidatos, aos principais considerados elegíveis, que são cinco, parece que os restantes não passam de figurantes, constata-se que são todos gente acomodada ao sistema, todos defendem, por exemplo, “menos peso do Estado na economia”, ou seja, menos saúde, menos educação, menos segurança social, e, em contrapartida, mais dinheiro para a guerra, mais financiamento para as empresas, menos impostos para os patrões e mais impostos, principalmente indirectos, para o povo e os trabalhadores; sobretudo, mais lucros para os bancos. Todos eles antes e durante a campanha pouco esclareceram ou elucidam sobre as principais linhas que os governos deverão seguir para o desenvolvimento do país e para o bem-estar dos portugueses. Não apresentam nem definem estratégias, ficam por apontamentos parciais. Expressam bem que não querem ser estadistas, apenas meros funcionários de turno, relações públicas das corporações e poderes fácticos que, na sombra, manda nisto tudo.

As televisões, e os media mainstream em geral, pouco se preocupam com as ideias dos candidatos, se não tiverem ideias tanto melhor, centram antes o foco nas subidas e descidas na bolsa da cotação das putativas intenções de voto, que são miserável e grosseiramente manipuladas para condicionar e dirigir o sentido de voto dos eleitores, especialmente dos mais despolitizados e que ainda emprenham pelo que vêem e ouvem nas televisões, no próximo domingo, dia 18 de Dezembro. O que mais lhes interessa são os ditos “factos”, os sítios que visitam, os escândalos, género “assédio sexual” de Cotrim, do que vivem, o que comem e o que bebem (muitos deles até são empresários do turismo), a roupa que vestem e os apoios de outras figuras do regime que possam vir a ter. Passou moda, ao que parece, reivindicar o apoio de Montenegro, por parte dos candidatos mais à direita, e quem é que vota e em quem numa segunda volta. Resumido e concluído, podemos afirmar, sem exagero, que são muitos candidatos mas resumem-se a um só.

Entre os candidatos podemos dizer que existe um pouco de tudo, os que se assumem como funcionários do regime e do sistema – são coisas diferentes para quem não saiba – e os que aproveitam a ocasião para segurar eleitorado dos partidos que os apoiam, os que sempre gostaram de protagonismos e aspiram a outras andanças, e há os palhaços, uns por vocação, outros por puro oportunismo, como acontece com o fascista que se veste de D. Afonso Henrique. No global de todos o mais sério ainda será o artista e cantor, do “Conan, O Homem Rã” ou “O Patrão é um Cabrão”, que se aproveita para vender mais uns discos e dizer umas verdades através da ironia sobre as misérias do regime. A decadência do regime é obviamente indisfarçável.

No dia seguinte estará tudo na mesma

Voltamos ao início desta pequena crónica, estamos a três dias da votação para o cargo do “mais alto dignatário” da República, para o povo que trabalha, tanto faz que seja: o almirante herói da vacinação contra a Covid, autoritário e pouco amigo do estado de direito, habilidoso quanto à progressão na carreira militar e acusado de corrupção quanto à vacinação de médicos não prioritários; o (in)Seguro, que compactuou com todas as medidas de austeridade lançadas pelo governo de Passos Coelho/Portas/PSD/CDS contra o povo no tempo da troika; o Mendes, envolvido em nepotismo, compadrio e negócios que prejudicaram o estado e moço de recados de Marcelo; o Cotrim, homem de mão dos negócios do grande capital e agora acusado de assédio sexual; ou o chefe da extrema-direita, que não quer ser PR e anda a enganar o seu próprio eleitorado, apenas aspira a ser um salazarzito; porque nada mudará. 

Estas eleições já são uma rotina, um triste fado que vamos suportando, sabendo de antemão que no dia seguinte o mundo estará na mesma. No que concerne aos problemas e defesa dos interesses dos trabalhadores terão de ser estes, e todos nós que vivemos dos rendimentos da venda da nossa força de trabalho, a ter de encontrar alternativas que revolucionem. A abstenção também é uma forma de dizer não.

Imagem: Vai formoso e bem Seguro - Henricartoon