Em vez de enfrentarem o capitalismo, largos
sectores da esquerda refugiaram-se no idealismo abstracto, dando prioridade aos
debates morais e estéticos em detrimento das necessidades materiais da classe
operária.
Por Javier Guijarro
A Esquerda Ausente: Crise, Sociedade do
Espetáculo, Guerra (2014) é uma das obras mais
incisivas do filósofo italiano Domenico Losurdo, um texto que desvenda as
contradições e os desafios da esquerda contemporânea num mundo dominado pelo
espetáculo mediático e pela dinâmica do poder global. Com o seu característico
rigor histórico e analítico, Losurdo examina como a esquerda perdeu a sua
capacidade transformadora, presa numa dinâmica que a afasta das lutas concretas
e a condena à irrelevância.
Escrito numa época de crise económica mundial
e de ascensão dos movimentos reaccionários, "A Esquerda Ausente" parte
de uma observação crítica: a esquerda, sobretudo a esquerda ocidental,
abandonou o seu papel histórico de força de mudança social. Losurdo defende
que, em vez de confrontar o capitalismo e as estruturas de poder, amplos
sectores da esquerda refugiaram-se no idealismo abstracto, dando prioridade aos
debates morais e estéticos em detrimento da práxis política. Esta
"ausência" não é apenas ideológica, mas também estratégica, deixando
um vazio que os discursos populistas e conservadores conseguiram explorar.
O livro estrutura-se em torno de três temas
principais: a crise da esquerda, a influência da "sociedade do
espectáculo" (termo que Losurdo vai buscar a Guy Debord) e o impacto das
guerras imperialistas no panorama político mundial. Através destes temas, o
autor oferece um diagnóstico implacável, mas também propõe caminhos para
recuperar o potencial revolucionário da esquerda.
A crise da esquerda
Losurdo identifica várias razões para a
"ausência" da esquerda. Uma delas é a sua incapacidade de adaptação
às novas formas de dominação capitalista. Em vez de articular um projecto
político coerente, a esquerda fragmentou-se em sectarismo e adoptou posições
que rejeitam qualquer engajamento com as realidades do poder. Este purismo,
segundo Losurdo, manifesta-se numa obsessão em manter a pureza ideológica, que
impede alianças estratégicas ou a participação em lutas concretas.
Além disso, o autor critica a desconexão da
esquerda com as classes trabalhadoras. Enquanto os movimentos populares
históricos se baseavam na organização de massas, a esquerda contemporânea caiu
num elitismo intelectual, mais preocupada com os debates académicos do que com
as necessidades materiais da maioria. Esta negligência permitiu à direita
capitalizar o descontentamento popular, como se verificou na ascensão dos
movimentos populistas de direita.
A sociedade do espetáculo
Inspirado por Debord, Losurdo analisa a forma
como a "sociedade do espectáculo" transformou a política num palco de
representações vazias. Os media, controlados por grandes corporações, reduzem
os debates políticos a narrativas simplistas e sensacionalistas, distanciando a
esquerda de uma análise profunda das estruturas de poder.
Neste contexto, a esquerda sucumbiu à tentação
de competir no terreno do espectáculo, adoptando estratégias de comunicação
superficiais em vez de construir um discurso contra-hegemónico sólido. Losurdo
aponta ainda como esta espetacularização afetou a percepção das lutas sociais.
As causas políticas tornam-se produtos mediáticos, despojados do seu conteúdo
transformador. Isto leva a uma esquerda que, em vez de se mobilizar, apenas
reage às agendas impostas pelos governantes.
Guerra e imperialismo
Um terceiro pilar da análise de Losurdo é o
papel das guerras imperialistas na reconfiguração da ordem global. O autor
critica a cumplicidade, por vezes inconsciente, de sectores da esquerda com as
narrativas imperialistas, sobretudo no que diz respeito a intervenções
militares justificadas sob o pretexto dos "direitos humanos". Losurdo
defende que esta aceitação acrítica das guerras ocidentais reflecte uma perda
de perspectiva histórica e uma falha em reconhecer a forma como o imperialismo
perpetua a desigualdade global.
O filósofo italiano também liga estas
dinâmicas com a marginalização dos movimentos anti-imperialistas. Embora a
esquerda deva estar na vanguarda da resistência contra o neocolonialismo, a sua
ausência nesta arena permitiu que outras forças ocupassem este espaço, muitas
vezes com resultados ambíguos.
Propostas
Apesar do tom crítico, "A
Esquerda Ausente" não é um livro derrotista. Losurdo propõe que a
esquerda recupere a sua capacidade de análise histórico-materialista, abandone
o purismo e construa alianças amplas que respondam às necessidades concretas
das classes trabalhadoras. Isto implica superar a fragmentação, reestruturar um
projeto anticapitalista e anti-imperialista e retomar o contacto com as
realidades sociais.
A crítica de Losurdo ao espetáculo mediático
ressoa numa era dominada pelas redes sociais, onde a política é frequentemente
reduzida a gestos simbólicos. A sua ênfase no anti-imperialismo convida também
à reflexão sobre o papel da esquerda face aos actuais conflitos globais.
"A Esquerda Ausente" é uma obra provocadora que desafia a esquerda a olhar-se ao
espelho e a confrontar as suas próprias limitações. Domenico Losurdo, com a sua
erudição e empenho político, oferece uma análise que combina teoria e prática,
convidando os leitores a repensar o papel da esquerda num mundo em crise.
Este livro não é apenas um diagnóstico dos
males da esquerda, mas também um apelo à ação para recuperar a sua relevância
histórica. Para quem procura compreender a dinâmica do poder e as
possibilidades de mudança social, "A Esquerda Ausente" é
uma leitura essencial.








