Como já aqui tínhamos afirmado, este Verão
seria, em termos políticos, bem quente, não só pelos fogos rurais, que viraram
há muito uma rentável actividade económica, mas sobretudo pelos acontecimentos
políticos e outros casos de responsabilidade do governo, cujo chefe prometera
até nem gozar férias, o que se provou não ser bem verdade – este ano não houve
a afamada silly season. Os problemas com os exames de acesso ao ensino superior
mantiveram-se, apenas se falou menos deles e mais das piscinas e tanques do
ministro da Administração Interna, sob intenso ataque por parte da imprensa
ligada ao oligarca Mário Ferreira e do partido do quarto pastorinho. Compraram-se
3 fragatas por 3 mil milhões de euros, enquanto há dois anos a Itália adquiriu
os mesmos navios por 750 mil euros cada, as grossas comissões deverão ser para
os piratas. Ficamos a saber que a receita do IRC afundou 600 euros em 2025 em
relação ao ano interior, mas em contrapartida os cinco maiores bancos tiveram
lucros de 2,4 mil milhões de euros no primeiro semestre do ano. Em Portugal os
ricos não pagam impostos, será efeito das ondas de calor?
Os portugueses estão todos ricos e não
sabiam
Afinal, estamos todos ricos mas não sabíamos. Montenegro
vem dizer, sem se desmanchar a rir – embora o esgar sardónico, estilo joker,
nunca deixe de estar presente – que o número de cidadãos que aufere 3000 euros
ou mais duplicou desde que é primeiro-ministro. Claro que se referia ao salário
médio líquido de políticos, chefes e gestores de topo que terá disparado mais
de 17%; no entanto, “esqueceu-se” de esclarecer que a inflação devorou grande
parte do aumento dos salários médios em 2026, e já há sectores a perder poder
de compra. Enfiou no mesmo saco todos os salários e fez uma média sem
especificar quantos são os trabalhadores que mais ganham e quantos os que se
encontram no fundo da tabela salarial. Com o cabaz de compras a aumentar
continuamente, a realidade é bem diferente: o salário real da maior parte dos
trabalhadores assalariados tem diminuído e a pobreza geral aumentado.
Pela boca do primeiro-ministro somos
informados que as últimas semanas não foram conturbadas pela simples razão de
que o governo que lidera “trabalha todos os dias, 24 horas por dia, sete dias
por semana”, pedindo uma reflexão à comunicação social sobre as suas
prioridades, ou seja, uma imprensa ainda colaboradora – para candidato e Trump
português nem estará nada mal. Enquanto o PSD brindava na festa do Pontal, soube-se
também que 33,1% dos portugueses nem uma semana de férias fora de casa conseguem
pagar, mas quase simultaneamente ficou-se a saber que a secretária de Estado do
Ensino Superior recebe subsídio de alojamento para viver em Lisboa apesar de
ter património imobiliário em Paris (só 1,1 milhões de euros), em Aveiro e
Braga.
Talvez para tornar a época estival mais
interessante, o governo entendeu entrar no capital da REN, adquirindo ao
multimilionário galego Amancio Ortega a sua quota de 13% por 327 milhões, isto
é, 55 milhões a cima do valor de mercado – melhor que um prémio oferecido por
um governo que decididamente tira ao povo para dar aos (muito) ricos, ainda por
cima estrangeiros. A justificação não se fez esperar: “é um bom investimento
financeiro” que “salvaguarda interesse estratégico” do país. Fica-se sem se
perceber porque é “interesse estratégico” em 2026 e não o foi em 2014 quando o
governo igualmente do PSD e CDS, liderado por Passos Coelho, entendeu
desfazer-se dos últimos 11% da REN, ainda em posse do estado, por 157 milhões
de euros. E Montenegro não ficou por aqui, não conteve o impulso de lançar mais
uma mentira: o regresso do estado à REN vai ter efeito sobre o preço da luz.
Está-se mesmo a ver, não tá-se!
O grande capital financeiro prepara-se para abocanhar o dinheiro das reformas dos trabalhadores
Como cereja sobre o bolo e já em faze terminal
da dita silly season, o governo entendeu tirar da gaveta, e onde estivera cerca
de um mês e ter custado 75 mil euros, o estudo sobre a Segurança Social,
denominado de forma enganosa “Reformar as Pensões em Portugal: Por um Sistema
Sustentável, Adequado e Justo”. Relatório realizado por um grupo de patifes
(não há outro adjectivo para qualificar correctamente), escolhidos a dedo,
dirigido por um economista militante do PSD e ligado às empresas privadas de
seguros e a associação de gestores privados de pensões, que logo enxergou um
défice no sistema superior a 1,94 mil milhões de euros. Uma habilidade resultante
de querer juntar a Segurança Social, com um superavit de mais de 6,7 mil
milhões de euros, com a CGA, fechada a novas inscrições desde 2006, que o
Estado-patrão tem sistematicamente descapitalizado por não fazer ao longo de
décadas os descontos a que é obrigado como qualquer patrão.
O grupo de iluminados – onde pontifica uma
ex-deputado da IL e todos os restantes membros são do PSD ou saídos dos gabinetes
ministeriais – não se limitou a verificar a sustentabilidade ou não do sistema
de pensões, para logo avançar com propostas para o reformar – um sistema que
desde há muito é cobiçado por todas a sorte de especuladores financeiros, desde
bancos e fundos de investimento a a grandes seguradoras, um bolo apetitoso que
ultrapassa os 49 mil milhões de euros. É mesmo muita fruta para ficar nas mãos
do estado e dos trabalhadores. As propostas não deixam dúvidas sobre as
verdadeiras intenções de privatização da Segurança Social, contas individuais
virtuais para os trabalhadores, planos complementares profissionais de
inscrição automática, flexibilização da idade de reforma e substituição
de anos de contribuições por densidade contributiva efetiva, etc..
Indubitavelmente, que estamos perante uma operação em larga escala e sem
disfarces de transferência de uma riqueza inaudita criada pelo trabalho para o
grande capital, e o governo de Montenegro/PSD/CDS é o instrumento para a
operação.
Relembrar que o dito relatório, com mais de
600 páginas para mostrar que é um trabalho profundo e fundamentado, esteve
guardado no gabinete da ministra Ramalho, a do Trabalho (ou será do Capital?),
que foi, juntamente com o governo, implacavelmente derrotada na questão da
Reforma Laboral, mas que prometeu voltar à carga em melhor oportunidade. A
tentativa de privatizar a segurança social é a outra parte da cruzada contra o trabalho.
Esta obra da trafulhice foi encomendada em início de 2025, ou seja, estamos
perante uma manobra perfeitamente planeada e com intenção bem definida, não
acontece por acaso. Bem orquestrada e com plano B, como as reacções foram negativas, quer por parte dos
partidos da oposição, incluindo a extrema-direita, quer por forças sociais, o
governo fez de imediato marcha atrás. O “dossier está fechado” (ministro dixit),
a reforma estrutural da Segurança Social não será para esta legislatura, será
para a próxima e após eleições onde a questão será discutida – mais uma
rematada mentira. Será tão debatida em campanha eleitoral como foi o pacote laboral,
ou seja, zero de discussão, total ocultação.
O governo de piratas deve ser derrubado na
rua
Este mês de Agosto, o poviléu teve a surpresa
de saber, pela boca do grande líder, que o seu partido é "popular", é
"do povo" e é “de todos", quer "de quem nasce em condições
mais favoráveis mas também de quem tem de passar por mais barreiras porque não
teve essa facilidade", em suma. é de "de gente de trabalho". Mais
populismo do que isto, será difícil encontrar, o que contrasta com os factos: o povo vê os preços dos alimentos a subir
acima da média da zona euro, e em Julho, Portugal só foi superado por Chipre e
Luxemburgo na inflação alimentar. Assim como os juros da casa a subir para
3,135%, o défice da balança comercial a aumentar quase 20% para 18 mil milhões
de euros, ou a dívida global do país, excepto bancos, a crescer para 894,0 mil
milhões de euros no final do primeiro semestre, ou seja, 282,7% do PIB,
refletindo um crescimento do endividamento superior ao do PIB, sendo o
endividamento privado superior ao do público, 158,2% contra 124,5%. Melhor dizendo,
os portugueses estão cada vez mais pobres, não serão todos, mais os
trabalhadores e idosos, os tais pensionistas que Montenegro planeia roubar-lhes
os últimos rendimentos de uma vida.
A par da privatização da Segurança Social, a
da Saúde, com o desmantelamento do SNS, vai de vento em popa: foi criado o
primeiro centro de saúde gerido por privados, mas financiado pelo Estado (assim
qualquer burro pode ser empresário de sucesso), a Unidade de Saúde Familiar
(USF) de São Pedro da Cadeira, em Torres Vedras; a Ministra da Saúde admite
aplicar taxa a quem recusar vaga nos cuidados continuados, em vez de
defender mais camas na rede ou criar uma rede pública; ficou-se a saber que mais
de 26 mil doentes críticos não foram socorridos com meios adequados em 2025;
este ano, talvez para melhorar os números anteriores, os trabalhadores
denunciam “retirada de 100 ambulâncias” do dispositivo do INEM; foi também
notícia que os dados oficiais do INEM indicam que 60 bebés nasceram em
ambulâncias em Portugal, em 2025, o que representou mais do dobro dos 28
registados em 2024; os tempos de espera nas urgências dos hospitais públicos voltam
a subir e ultrapassam as 11 horas, estamos no Verão!; até Maio, o SNS fez menos
19 mil operações do que no mesmo período de 2025, os hospitais justificam com
novas regras na cirurgia adicional e falta de médicos. Entretanto, os lucros
dos hospitais privados subiram 9,5% em 2025, atingindo um máximo histórico de
2.790 milhões de euros, e este ano ainda vai ser melhor.
O governo Montenegro/PSD/CDS ainda agita a bandeira de eleições antecipadas como chantagem sobre os partidos da oposição, nomeadamente o ambíguo PS, caso o Orçamento de estado para 2027 seja chumbado. A extrema-direita já colocou a barreira, aprova se a idade da aposentação baixar para os 65 anos ou para quem acumule 40 anos de descontos, o PS coloca como linha vermelha a privatização da Segurança Social como é apresentada. Entretanto, o “especialista” do relatório desaconselha o referido abaixamento para os 65 anos bem como o governo andar por aí a dar bónus aos reformados, como engodo para caçar o voto. Se a proposta de Orçamento apresentada pelo governo for chumbada estreitará a margem de manobra de Montenegro, a situação não será fácil, o que poderá ser uma oportunidade para os trabalhadores apresentarem as suas propostas, concretamente repudiar a intenção de privatização dos dinheiros que são seus, fruto de uma vida de trabalho e de descontos, e aumento geral dos salários e reformas. Manifestações amplas, juntando trabalhadores no activo, aposentados e jovens, devem ser convocadas, a exemplo do que aconteceu em relação ao pacote laboral, e chumbar na rua os planos sinistros do grande capital, agora apresentados pelo seu comité de funcionários de turno – o governo de piratas Montenegro.






