Crónica escrita aquando da saída formal do FMI de Portugal após as medidas de austeridade e de empobrecimento do povo português impostas pelo governo pafioso de Passos Coelho/Portas/PSD/CDS, que foi “além da Troika”! Com Montenegro e os mesmos partidos no governo e depois de Passos Coelho vir criticar a falta de "espírito reformista" do correligionário, a situação que nos espera será não só semelhante mas bem pior à vivida há mais de 10 anos.
O povo português está a passar fome, são 2
milhões de portugueses que vivem na pobreza e na miséria, eufemisticamente
falando, “em risco de pobreza”, mais de 120 mil crianças passam fome se não
tiverem apoio social, fornecido maioritariamente pela Igreja e pelo Banco
Alimentar com o dinheiro dos contribuintes, uma maneira fácil e saloia de fazer
caridadezinha com o dinheiro dos outros, enquanto se mantem e se escondem as
razões da pobreza e da exploração; número aquele que aumentou nos anos da crise
em cerca de 35 mil crianças.
No entanto, o governo embandeira em arco com a
“retoma económica” em base do aumento das exportações e com os dados do Banco
de Portugal que apontam para um aumento do consumo interno, fazendo com que o
PIB dispare ainda este ano para os 1,4%, ou 2%, segundo as novas regras de
contabilização, fazendo com que o senhor Coelho de Massamá, perante o tarefeiro
de serviço da SIC/Balsemão, disparasse mais uma das suas boutades: “a seu
tempo”, os portugueses avaliarão “o resultado que garante o melhor para o seu
futuro”. Um resultado que não merece confiança do FMI que sairá formalmente de
Portugal só em 1 de Janeiro de 2015, até lá irá exercer uma “vigilância
reforçada” a fim de se certificar que os cortes nos salários dos trabalhadores
públicos e nas pensões serão aprovados e aplicados de forma definitiva,
iludindo as objecções do Tribunal Constitucional.
Estas é que são a tão propalada “reforma do
Estado”, com a concomitante privatização de todos os serviços e empresas ainda
nas mãos do Estado; até às eleições de 2015 será a privatização a todo o vapor.
Este mês de Abril, quando se comemoram os 40 anos da dita “Revolução dos
Cravos”, os reformados e pensionistas, que já tinham as reformas congeladas
e/ou diminuídas desde o tempo do governo Sócrates/PS passaram a sofrer um corte
brutal que se pretende que seja de vez, juntando-se aos pobres que, em três anos
de crise, vêm a sua alimentação e os seus cuidados básicos de vida a
degradar-se, num país que importa cerca de 70% dos bens necessários à sua
alimentação; um país, no dizer de um agricultor em recente manifestação, que
não tem soberania alimentar, não tem soberania política. A seu tempo, o povo
português irá lançar pela borda fora este governo de ladrões, esperamos que o
mais breve possível, já ontem era tarde!
A partir de 2010, a quantidade de alimentos
disponíveis para cada cidadão português sofreu uma redução acentuada, com a
carne de bovino e de suíno a atingir os valores mais baixos da última década,
enquanto subiu a carne de frango, que passou a fonte principal de proteínas
para uma larga faixa do povo português, assim como desceu o consumo de produtos
lacticínios, ovos, fruta e pescado, fazendo com que a fome seja de quantidade e
de qualidade dos alimentos disponíveis, com a mais que certa degradação do estado
de saúde do povo português. Situação agravada com o recurso a alimentos com
mais gordura animal e outras fontes energéticas não proteicas, o que faz com
que o INE tenha registado um aumento do aporte calórico de cada cidadão
português, cujo resultado a médio e longo prazo será o disparar de doenças do
foro cardio-vascular e, por força de uma menor vitalidade e defesas
imunológicas do organismo, ao aumento de doenças infecto-contagiosas.
Nestes números incluir-se-ão as mais de 120
mil crianças já lançadas na subnutrição e os idosos que passarão a receber
pensões, já de si miseráveis, que não darão sequer para a sobrevivência mais
básica. Não esquecer que são mais de 165 mil pensionistas afectadas pelos
recentes cortes, e que a esmagadora maioria dos pensionistas está no escalão
entre 253,99 e 419,21 euros, ou seja, 1.177.965 reformados, segundo números de
2012; e todas as pensões, incluindo a de sobrevivência, estão congeladas desde
2010, e só o primeiro escalão das pensões mínimas da Segurança Social (246,36
euros) tem sido aumentado, cujo último aumento foi de 9 cêntimos por dia!
A estes cidadãos a viver na miséria irão
juntar-se mais uns outros largos milhares, serão pequenos agricultores que irão
ser lançados na ruína imediata devido à medida do governo em obrigar a que se
colectem e comecem a passar facturas pela venda da sua pequena produção, sendo
obrigados ao pagamento do IVA, IRC e prestação para a Segurança Social. O
número de portugueses a viver na pobreza e até na maior das misérias irá,
dentro em breve e no meio do regozijo do governo quanto ao “milagre económico”,
ultrapassar bem à vontade os 50% da população.
Para que a miséria seja certa e segura, o FMI
ficará fisicamente em Portugal, como se de colónia se tratasse, para ter a
certeza que as tais “reformas do Estado” irão ser aplicadas e aplicadas de
forma sólida e duradoura, isto é, privatizar tudo que seja privatizável, cortar
salários, que não ficarão pelo sector público, o privado também irá apanhar por
medida grossa, e as pensões independentemente do montante ou da natureza. E, ao
contrário dos números apontados pelo INE/Governo, o desemprego não irá diminuir,
irá aumentar porque será a forma de manter a pressão sobre os baixos salários e
por constituir uma consequência inevitável da destruição das pequenas empresas,
sejam elas na área da agricultura ou da indústria e mesmo dos serviços.
A recessão económica existe e irá agravar-se
porque é o resultado da própria natureza do capitalismo e porque estas medidas
de austeridade se, por um lado, pretendem salvar os lucros dos grandes
capitalistas, com os banqueiros à frente, vão, pelo outro, reforçar a ruína dos
pequenos capitalistas, aumentando, na sua lógica natural, a concentração
capitalista. Está na natureza do capitalismo, e não há volta a dar enquanto não
acabarem os seus dias. A tranquilidade do FMI é a tranquilidade dos banqueiros
que não confiam nem no governo, nem na dita “economia nacional”, e muito menos
no povo português, cuja paciência irá um dia destes esgotar-se. Os dias de
cólera e de revolta não tardarão, apesar do circo eleitoral que já teve o seu
início com estas eleições para o Parlamento Europeu e que a burguesia irá
tentar manter até ao Verão de 2015.
Os 40 anos de Abril dos Cravos irão ser
comemorados com o país ocupado por potências estrangeiras, FMI/EUA e
UE/Alemanha, como se de uma colónia se tratasse, gerida por um comité de
lacaios e de corruptos que, continuamente, espezinham e humilham o povo
português. Gente que se assume abertamente como os filhos do fascismo, para
quem o 25 de Abril nem chega a ser “evolução”, quanto mais “revolução”; para quem
a figura mais simbólica do 25 de Abril é o sinistro general Spínola, que nem
chega a ser um dissidente do fascismo, como aconteceu com um Pinto Balsemão e
Cia, todos eles reciclados em democratas da undécima hora, mostrando bem que o
que temos agora é um regime em deslize gradual para fascismo brando, em versão
doméstica de sidonismo de ocasião.
Se os partidos da dita oposição fossem
partidos verdadeiramente amantes da democracia e com um pouco de coragem, ou
por outras palavras, com “eles” no devido sítio, não compareciam na Assembleia
da República no dia 25, indo juntar-se às comemorações levadas a cabo pela
Associação 25 de Abril no Largo do Carmo. Mas, facto iniludível e que ilustra
bem o que é na realidade este regime de democracia parlamentar burguesa, é o
governo ter-se mantido no poder durante este tempo todo, apesar da perda de
grande parte da sua base eleitoral, por conivência de todos os partidos da
putativa oposição. No dia 25 de Abril, os partidos do governo deveriam ficar a
falar sozinhos.
22 de Abril 2014




