Quando se preparava o Orçamento de Estado de 2013, onde se previa o corte dos subsídios de férias e de Natal, e o líder da oposição, António José Seguro, avançava com a sua “abstenção violenta”, antevíamos que a única saída era o derrube do governo do Coelho de Massamá/PSD/CDS e a expulsão da Troika de Portugal. Como isso não aconteceu, o povo português sofreu austeridade inaudita e rápido e violento empobrecimento. Parece que, 14 anos depois, não se aprendeu nada e a história vai repetir-se, só que agora será bem pior.
Sempre que o senhor Coelho de Massamá diz que
não vai mexer nos impostos, logo a seguir são anunciadas novas medidas de
austeridade e entre as quais um novo aumento de impostos é incluindo: o aumento
da Taxa Social Única de 11% para 18% e para sempre é um imposto já que não há
retorno para o trabalhador, hipoteticamente através de maiores subsídios
sociais ou reformas, e mostra à evidência que o estado (o governo é o seu
executivo) se vai locupletar com dinheiros que não são seus mas dos
trabalhadores.
Os partidos do governo desde que começaram a
governar contra o que tinham prometido antes das eleições (o PSD chumbou o PEC4
na base de que a austeridade “não podia incidir sempre no aumento de impostos e
no corte de rendimento”) perderam qualquer legitimidade para se manter no
poder; agora, ao afrontar o poder judicial, continuando a insistir no corte dos
13º e 14º salários dos trabalhadores da administração pública, este governo
passa a uma situação de ilegalidade. São duas razões mais que suficientes para
a sua destituição, que deverá ser feita por força do descontentamento expresso
na rua.
Estas últimas medidas que se consubstanciam no
confisco de parte substancial dos rendimentos dos trabalhadores, por força da
imposição do memorando assinado com a troika mas também pelo ajuste de contas
por parte dos banqueiros ressabiados, devem merecer o maior repúdio e combate
por parte dos trabalhadores e do povo português, luta esta que deve centrar-se
nos locais de trabalho e na rua. As palavras de ordem deverão manter-se: derrube
imediato deste governo fascista, expulsão da troika e não
pagamento de uma dívida que não é do povo português.
É mais um imposto, 18% de TSU a retirar do
rendimento dos trabalhadores mais outros 18%, que embora pagos pelos patrões
também são extorquidos aos trabalhadores, são dinheiros que o patrão-estado,
através do seu mais celerado e torcionário executivo desde o 25 de Abril, irá
dispor a seu belo prazer. É uma medida que se enquadra numa guerra mais geral
entre o capital e o trabalho e que, até ao momento, está a ser levada a melhor
pelo primeiro. E destina-se a satisfazer o apetite dos agiotas financeiros internacionais,
assumindo a forma de um tributo de vassalagem, e a garantir a sobrevivência dos
capitalistas nacionais que não podem cortar a relação e o caracter de
subsidiários.
A subida do imposto TSU para os trabalhadores,
e a correspondente redução para os patrões, representa um aumento de 2700
milhões de euros hipoteticamente para Segurança Social, mas que na verdade
irão, embora por vias travessas, para os bolsos dos grandes capitalistas, tal
como está acontecer com os fundos de pensões dos bancários, e um aumento de
2200 milhões de euros nos lucros dos mesmos de sempre, Belmiros de Azevedo,
Soares dos Santos, Ricardos Salgados, etc., e para os grupos multinacionais que
aqui exploram e para outros que o governo pretende atrair com esta medida e com
a redução brutal dos salários nominais e outros aliciantes constantes no novo
Código do Trabalho.
O imbecil político que chefia o comité de
negócios do grande capital, nacional e estrangeiro, parecendo desconhecer o
verdadeiro e real papel que está a desempenhar, teve a desfaçatez de dizer que
este novo imposto e a continuação do esbulho dos trabalhadores públicos,
reformados e pensionistas, em mais de 15 % do seu rendimento, é um passo
necessário e incontornável para “corrigir erros do passado” e que a coisa “não
fica assim”. Com estas afirmações o senhor Coelho está a dar um passo
necessário e incontornável para o descrédito não só do governo, dos políticos
que têm governado o país desde o 25 de Abril a favor do capitalismo, mas de
todo o regime democrático burguês. Está também a colocar o problema no seu
verdadeiro contexto, trata-se de que a questão é política e não só económica.
Para poder continuar a mesma política de
austeridade, seja mais a favor dos amos germano-imperialistas ou dos amos
indígenas, este regime já não irá servir porque os trabalhadores e o povo
português não irão deixar que os continuem a enganar. A monarquia
constitucional acabou com o regicídio e a implantação da I República, e esta
terminou com um golpe militar e o assassínio de alguns dos seus dirigentes mais
emblemáticos porque ficou sem apoio popular, na medida em que atraiçoou as
esperanças que os operários lhe tinham depositado com o seu sacrifício no dia 5
de Outubro de 1910, do mesmo modo este regime de democracia de opereta irá
acabar da mesma forma, violenta. O que virá logo a seguir, não sabemos, mas
seja o que for não nos deverá meter medo e será sempre a expressão da
intensificação da luta de classes.
É com medo do resultado desta luta que há
ainda uma gente (que se considera do campo da esquerda ou da extrema-esquerda,
não se sabendo ao certo o que isso é, tal a confusão ideológica e a falta de
objectivos políticos) que insiste em fazer manifestações para “ inverter o
caminho e forçar o Governo a abandonar a política da austeridade cleptomaníaca”,
em vez de defender o derrube do governo, iludindo assim a
natureza política deste governo/comité de negócios do capital.
Este governo será descartável ainda mais
depressa pelos banqueiros e merceeiros nacionais logo que se mostre ineficaz na
aplicação das medidas necessárias e incontornáveis para salvação da burguesia
parasitária indígena, contudo estas medidas ao levar ao extremo a exploração
dos trabalhadores assalariados e à ruina rápida de outros estratos da população
trabalhadora irão apressar exactamente o que pretende evitar, o fim do
capitalismo nacional; este já de si periclitante pela dependência em relação ao
grande capital europeu e internacional dos nossos inefáveis Soares dos Santos e
Ricardos Salgados.
Torna-se inútil o esforço dos nossos
profissionais da contestação compulsivos em querer continuar a defender o seu
“socialismo democrático” que mais não é que o capitalismo sem defeitos. Mas,
infelizmente, com ou sem defeitos, o capitalismo luso está em muito maus
lençóis e logo que os que nada têm a perder, excepto as grilhetas, entrem em
cena, sem os intermediários encartadas, a questão será apenas de tempo.
Enveredar para o campo da via judicial, como pretendem os bem-comportados da nossa terra, por a decisão governamental constituir uma “afronta ao Tribunal Constitucional”, pelo facto de ser uma “decisão judicial que não é respeitada”, não deixa de ter interesse, mas é um erro esperar que daqui venha a solução para o roubo a que nós, trabalhadores, estamos a ser sujeitos. Pior ainda é esperar que o senhor Silva, conhecido PR da terra, faça uma “fiscalização preventiva” do OE de 2013, que irá ser aprovado em Novembro próximo, pela simples razão de que o senhor Silva faz parte do problema e não da solução. Mais curioso é ouvir da boca do chefe oficial da oposição que “não fomos nem seremos cúmplices do governo”, preparando-se para mais uma “abstenção violenta” ao OE.
Este aparente desprezo pela decisão do Tribunal Constitucional quanto à putativa inconstitucionalidade do roubo dos 13º e 14º subsídios aos trabalhadores e reformados revela que o poder político se concentra no governo e que os restantes ditos “poderes da República” pouco ou nada valem, e quando se ouve algum magistrado perorar contra a “medida inconstitucional” é porque lhe sai do bolso e não por uma questão de atentado ao poder de que é investido pela força da lei. A lei, à semelhança do tal “Estado de Direito”, é moldável consoante os interesses da burguesia e revela que esta democracia é somente uma democracia q.b. para o cidadão comum.
Por outro lado, quando sai da boca do soba da
Madeira mais uma boutade do género “os partidos do regime estão
esgotados” deve-nos pôr atentos porque o homem é desbocado e geralmente diz os
que outros dirigentes burgueses pensam mas não ousam dizer. Cada vez menos os
cidadãos se revêm nos partidos do sistema, e partidos do sistema são quase
todos eles, para não dizer todos. O governo de esquerda capaz de aplicar um
programa, que responda minimamente aos anseios dos trabalhadores neste tempo de
grave crise económica capitalista, terá de incluir necessariamente
individualidades que pelo seu perfil representem e defendam outras correntes de
opinião e o conjunto dos interesses das diversas camadas da população trabalhadora.
Jamais poderá ser mais um governo da alternância (ou de alterne) PS.
Mas antes que isto aconteça, o derrube deste
governo fascista PSD/PS impõe-se em termos imediatos, ainda antes da discussão
do OE-2013. Não há remodelação que lhe valha, apesar dos esforços mediáticos do
“professor Martelo”, que já decretou a “ruptura psicológica” entre o
primeiro-ministro e o povo, novas eleições são necessárias. Outra realidade se
impõe como incontornável, por muito que custe aos nossos bloquistas, trotsyquistas,
socialistas e afins, o inimigo dos trabalhadores e da juventude sem emprego e
sem futuro não é só a “austeridade”, decretada por este governo, mas o
capitalismo, que deve ser destruído antes que nos destrua, a nós.
Outra realidade que parece ter escapado, pelo
menos até agora, aos nossos reformadores do capitalismo, é que a dita
“violência social” não foi agora instalada com as medidas recentemente
anunciadas e a incluir no OE-2013, mas há muito que ela existe. Se a luta de
classes está a intensificar-se à medida que as políticas de austeridade estão a
ser aplicadas (e que “não ficarão por aqui”, este ano ainda haverá mais),
contudo, trava-se uma verdadeira guerra civil entre o trabalho e o capital.
Este regime de democracia burguesa mais não foi que uma trégua e, como trégua,
é passageiro, não demorará muito que o confronto seja em campo aberto e sem
terceiras vias e falsos profetas a empatar.
11 de de Setembro 2012

