quarta-feira, 22 de abril de 2026

«Por que, mais cedo ou mais tarde, o capitalismo precisa de GUERRA»

Andrea Zhok

O professor de Filosofia Moral da Universidade de Milão faz parte do debate sobre guerra e rearmamento com uma leitura muito crítica do capitalismo. De acordo com a análise de Andrea Zhok, o mercado livre requer crescimento contínuo para sobreviver. Quando o crescimento pára, o sistema entra em crise. E soluções tradicionais – inovação tecnológica, exploração da força de trabalho, expansão dos mercados – já não são suficientes. Nessa perspectiva, argumenta Zhok, a guerra se torna a proporção extrema, oferecendo ao sistema econômico um mecanismo de destruição, reconstrução e controle social.

1. A essência do capitalismo

A ligação entre capitalismo e guerra não é acidental, mas estrutural, rigorosa. Embora a literatura autopromocional do liberalismo sempre tenha tentado explicar que o capitalismo, traduzido como «sweet commerce», era um caminho preferencial para a pacificação internacional, na realidade esta sempre foi uma clara falsidade. E isto não acontece porque o comércio não possa ser um viático de paz – pode ser –, mas porque a essência do capitalismo NÃO é o comércio, que é apenas um dos seus aspectos possíveis.

A essência do capitalismo consiste em um e apenas um ponto. É um sistema social idealmente sem cabeça, isto é, idealmente desprovido de orientação política, mas guiado por um único imperativo categórico: o aumento do capital a cada ciclo de produção. O coração ideal do capitalismo é a necessidade de o capital ceder, ou seja, aumentar o próprio capital. A liderança deste processo não está confiada à política –, muito menos à política democrática –, mas aos detentores de capital, aos sujeitos que encarnam as necessidades das finanças.

É importante entender que o ponto crucial para o sistema não é que «tem mais e mais capital» em um sentido objetivo, ou seja, que a quantidade de dinheiro aumenta cada vez mais; momentaneamente também pode contrair. A questão é que deve haver sempre a perspectiva geral de um aumento do capital disponível. Na ausência desta perspectiva –, por exemplo, numa condição contínua de «steady state» da economia, o capitalismo – deixa de existir como sistema social, porque o «autopilot» representado pela procura de saídas para investimentos desaparece. 

O ponto deve ser entendido primorosamente em termos de PODER. No capitalismo, uma certa classe detém o poder e o mantém como a pessoa encarregada da gestão do capital para o crescimento. Se a perspectiva de crescimento desaparecer, o resultado é tecnicamente REVOLUCIONÁRIO, no sentido específico em que a classe que detém o poder deve cedê-lo a outros –, por exemplo, a um guia político impulsionado por princípios orientadores ou ideias, como tem sido mais ou menos sempre na história (perspectivas religiosas, perspectivas nacionais, visões históricas). O capitalismo é o primeiro e único sistema de vida na história humana que não procura encarnar nenhum ideal e que não tende a ir em nenhuma direção específica. Uma discussão interessante sobre o nexo entre capitalismo e niilismo se abriria aqui, mas queremos nos concentrar em outro ponto.

2. A tendência da taxa de lucro «drop»

Implícita na natureza do sistema está uma tendência examinada pela primeira vez por Karl Marx sob o nome de tendência da taxa de lucro «fall». Este é um processo intuitivo. Por um lado, como vimos, o sistema exige uma busca constante de crescimento, transformando capital em investimento gerando mais capital. Por outro lado, a concorrência interna dentro do sistema tende a saturar todas as opções para aumentar o capital, realizando-as. Quanto mais eficiente for a concorrência, mais rápida será a saturação dos locais para abrir espaço. Isto significa que com o tempo o sistema capitalista gera estruturalmente um problema de sobrevivência para o próprio sistema. 

O capital disponível está constantemente aumentando e está procurando empregos produtivos «», ou seja, capazes de gerar interesse. O crescimento do capital está ligado ao crescimento das perspectivas de crescimento futuro do capital, num mecanismo de autoperpetuação. É com base neste mecanismo que nos encontramos em situações como a anterior à crise do subprime, quando a capitalização nos mercados financeiros globais era 14 vezes superior ao PIB mundial. Este mecanismo produz a tendência constante para bolhas especulativas «». E esse mesmo mecanismo produz a tendência às chamadas crises de superprodução «», expressão comum, mas imprópria, pois dá a impressão de que há excesso de produto disponível, enquanto o problema é que há muito produto apenas comparado à média capacidade de comprá-lo. 

Constantemente, fatalmente, o sistema capitalista se vê diante de crises geradas por essa tendência: massas crescentes de capital estão pressionando para serem bem aproveitadas, em um processo exponencial, enquanto as capacidades de crescimento são sempre limitadas. Para que uma crise se faça sentir, não há necessidade de parar o crescimento, desde que fique aquém da crescente procura de margens. Quando isso acontece, o capital – ou seja, os detentores de capital ou seus gerentes – começam a ficar cada vez mais agitados, porque sua própria sobrevivência como detentores de poder está comprometida. 

3. A busca frenética por soluções

Quando a compressão de margens se aproxima, abre-se a busca frenética por soluções. Na versão autopromocional do capitalismo, a principal solução seria a revolução tecnológica «», ou seja, a criação de uma nova perspectiva promissora de geração de lucro através da inovação tecnológica. A tecnologia é realmente um fator que aumenta a produção e a produtividade. Se também aumenta as margens de lucro é uma questão mais complexa, porque não basta que haja mais produto para que o capital aumente, mas é preciso que haja mais produto COMPRADO. 

Isto significa que as margens só podem realmente crescer na presença de uma revolução tecnológica se o aumento da produtividade também tiver repercussões num aumento geral do poder de compra (salários), o que não é tão óbvio. Mas mesmo onde isso acontece, «revoluções tecnológicas» capazes de aumentar a produtividade e as margens não são tão comuns. Muitas vezes o que se apresenta como uma revolução tecnológica «» é largamente sobrevalorizado na sua capacidade de produzir riqueza e acaba por ser apenas uma reorientação dos investimentos que gera uma bolha especulativa. 

Enquanto se espera por quaisquer revoluções tecnológicas que reabram a esfera das margens, a segunda direcção em que se procura uma solução para recuperar as margens de lucro é a pressão sobre a força de trabalho. Esta pressão pode manifestar-se na compressão salarial e de muitas outras formas que aumentam a área de exploração do trabalho. A redução direta dos salários nominais é uma forma seguida apenas em casos excepcionais; mais frequentes e mais fáceis de gerir são a incapacidade de recuperar a inflação, a flexibilização «do trabalho para reduzir o tempo de inatividade », a rigorização «» das condições de trabalho, a alienação da força de trabalho, etc. 

Este horizonte de pressão tem dois problemas. Por um lado espalha o descontentamento, com a possibilidade de que isso leve a protestos, tumultos, etc. Por outro lado, a pressão sobre a força de trabalho, especialmente no tamanho dos salários, reduz o poder de compra médio e, portanto, corre o perigo de iniciar uma espiral recessiva (baixas de vendas, lucros mais baixos, maior pressão sobre a massa salarial para recuperar margens, consequente redução nas vendas de produtos, e assim por diante).

Uma forma colateral de conquista de margem ocorre com as racionalizações «» do sistema de produção, que está conceitualmente a meio caminho entre a inovação tecnológica e a exploração da força de trabalho. «racionalizações» são reorganizações que, por assim dizer, arquivam as «ineficiências» relevantes do sistema. Esta dimensão reorganizadora repercute-se, de facto, quase sempre num agravamento das condições de trabalho, que se torna cada vez mais dependente das necessidades impessoais dos mecanismos do capital.

Um horizonte final de soluções surge quando a esfera do comércio externo entra na equação. Embora em princípio os pontos anteriores esgotem os locais onde as margens de lucro podem crescer, tendo de facto em consideração a esfera estrangeira, as mesmas oportunidades de lucro multiplicam-se devido às diferenças entre países. Em vez de um aumento tecnológico interno, você pode ter acesso a um aumento tecnológico estrangeiro através do comércio. Em vez de uma compressão da força de trabalho nacional, você pode ter acesso a mão de obra estrangeira barata, etc.

4. O declínio do lucro

A fase actual da curta e sangrenta história do capitalismo que estamos a viver caracteriza-se pela natureza menos progressiva de todas as maiores perspectivas de lucro. Sempre haverá espaço para «revoluções tecnológicas», mas não com uma frequência que possa acompanhar massas de capital infinitamente crescentes pressionando para serem lucradas. Sempre haverá espaço para uma maior compressão da força de trabalho, mas o risco de criar condições de tumulto ou reduzir o poder de compra generalizado estabelece limites claros. Quanto ao processo de globalização, atingiu os seus limites e iniciou um processo de relativo recuo; a possibilidade de encontrar oportunidades estrangeiras completamente diferentes e que melhorem em comparação com as internas foi drasticamente reduzida (devemos pensar que quanto mais as cadeias de produção se estendem, mais frágeis são e mais custos de transação adicionais podem aparecer). 

A crise do subprime (2007-2008) marcou um primeiro ponto de viragem, afastando todo o sistema financeiro mundial do colapso. Para sair daquela crise, foram usadas duas alavancas. Por um lado, a uma elevada pressão na esfera do trabalho, com perda de poder de compra e agravamento das condições de trabalho em todo o mundo. Por outro lado, ao aumento das dívidas públicas –, que por sua vez constituem um constrangimento indirecto imposto às cidadanias e à força de trabalho, e são apresentadas como um encargo a compensar. 

A crise da Covid (2020-2021) marcou um segundo ponto de viragem, com características não muito diferentes da crise do subprime. Também aqui os resultados da crise foram uma perda média de poder económico das classes trabalhadoras e um aumento das dívidas públicas. 

Tanto na crise do subprime como na crise da Covid, o sistema aceitou uma redução geral temporária nas capitalizações globais, a fim de reabrir novas áreas de lucro. Globalmente, o sistema financeiro emergiu de ambas as crises com uma posição comparativamente mais forte do que a população que vive dos seus empregos. O aumento das dívidas públicas é de fato uma transferência de dinheiro da disponibilidade de cidadania média para os cupons dos detentores de capital. 

Deve-se notar que, para desarmar os espaços de protesto e oposição entre trabalho e capital, o capitalismo contemporâneo tem empurrado com todas as suas forças para criar co-interesse em alguns estratos da população, ricos mas longe de contar qualquer coisa no nível do poder capitalista. poder. Ao forçar as pessoas a adquirirem pensões privadas, apólices de seguro remuneradas, empurrando-as a utilizar poupanças em alguma forma de títulos governamentais, elas tentam (e conseguem) criar uma camada de população que se sente parte em causa na sorte do grande capital. Estes estratos populacionais servem como zona tampão, reduzindo a vontade média de se voltar contra os mecanismos de capital. 

A situação actual, especialmente no mundo ocidental, é, portanto, a actual. O grande capital precisa de aceder a outras áreas contínuas de lucro para sobreviver. As populações dos países ocidentais têm visto as suas condições de vida desgastarem-se, tanto estritamente em termos de poder de compra como em termos da sua capacidade de autodeterminação, encontrando-se cada vez mais vinculadas a uma multiplicidade de constrangimentos financeiros, laborais e legislativos, todos motivados pelas necessidades de «racionalização» do sistema. 

As chances de encontrar novas áreas de lucro no exterior diminuíram drasticamente, com o processo de globalização atingindo seus limites. Esta é a situação que os grandes detentores de capital enfrentam hoje. Na sua perspectiva, é urgente encontrar uma solução. Mas qual?

5. «Uma palavra assustadora e fascinante: guerra!» 

Quando, no cânone ocidental, surgem as guerras mundiais, ou seja, os dois maiores eventos de destruição da guerra na história da humanidade, elas costumam se apresentar sob a bandeira de alguns culpados bem definidos: o «nationalism» (particularmente alemão) para a Primeira Guerra Mundial, as «ditaduras» para a Segunda Guerra Mundial. Raramente se reflete que estes acontecimentos tenham como epicentro o ponto mais avançado de desenvolvimento do capitalismo mundial e que a Primeira Guerra Mundial ocorra no auge do primeiro processo de globalização capitalista da história.

Sem entrar aqui numa exegese das origens da Primeira Guerra Mundial, é contudo útil recordar como a fase que a precede e prepara pode ser perfeitamente enquadrada num quadro que somos capazes de reconhecer. A partir de cerca de 1872 iniciou-se uma fase de estagnação da economia europeia. Esta fase dá um impulso decisivo à procura de recursos e de mão-de-obra no estrangeiro, principalmente sob as formas do imperialismo e do colonialismo. 

Todos os principais momentos de crise internacional que se preparam para a Primeira Guerra Mundial, como o incidente de Fashoda (1898), são tensões no confronto internacional sobre a apropriação de áreas de exploração. O primeiro grande impulso para o rearmamento na Alemanha Wilhelmine vem para criar uma frota capaz de contestar o domínio dos mares (que é o domínio comercial) da Inglaterra. 

Mas por que diabos a guerra deveria representar um horizonte para resolver crises geradas pelo capital? A resposta é, neste ponto, bastante simples. A guerra representa uma solução ideal para crises de queda de «na taxa de lucro» sob quatro perfis principais.

Primeiro, a guerra apresenta-se como um impulso inegociável para investimentos maciços, que podem impulsionar uma indústria sem derramamento de sangue. Grandes ordens públicas em nome do «dever sagrado de defesa» podem conseguir extrair os mais recentes recursos publicamente disponíveis para despejá-los em ordens privadas.

Em segundo lugar, a guerra representa uma grande destruição dos recursos materiais, das infra-estruturas, dos seres humanos. Tudo isto, que do ponto de vista do intelecto humano comum é uma vergonha, do ponto de vista do horizonte de investimento é uma perspectiva magnífica. Na verdade, é um acontecimento que «recarrega o relógio da história económica», eliminando aquela saturação das perspectivas de investimento que ameaça a própria existência do capitalismo. Após grande destruição, as pradarias são reabertas para investimentos fáceis, que não precisam de nenhuma inovação tecnológica: estradas, ferrovias, aquedutos, casas e todos os serviços relacionados. Não é por acaso que já há algum tempo, enquanto está em curso uma guerra, do Iraque à Ucrânia, assistimos a uma corrida preliminar para obter ordens para uma futura reconstrução. A maior destruição de recursos de todos os tempos – Segunda Guerra Mundial – foi seguido pelo maior boom económico desde a Revolução Industrial.

Terceiro, os grandes detentores de capital, que é o capital financeiro, consolidam comparativamente o seu poder sobre o resto da sociedade. O dinheiro, tendo uma natureza virtual, permanece intocado por qualquer grande destruição material (desde que não seja uma aniquilação planetária). 

Em quarto e último lugar, a guerra congela e interrompe todos os processos de revolta potencial, todas manifestações de descontentamento vindas de baixo. A guerra é o mecanismo definitivo, o mais poderoso de todos, para «disciplinar massa», colocando-os numa condição de subordinação da qual não podem escapar, sob pena de serem identificados como cúmplices do «enemy».

Por todas estas razões, o horizonte de guerra, embora neste momento longe dos estados de espírito predominantes nas populações europeias, é uma perspectiva a ser levada extremamente a sério. Quando hoje alguns dizem – razoavelmente – que não existem premissas culturais e antropológicas para a sociedade europeia se dispor seriamente à guerra, gosto de lembrar quando – cheirando o humor das massas – Benito Mussolini passou em poucos anos do pacifismo socialista para o famoso encerramento de seu artigo sobre Povo da Itália, 15 de novembro de 1914: «O clamor é uma palavra que EU nunca teria proferido em tempos normais e que em vez disso levanto alto, com uma voz explicada, sem inibições, com certa fé, hoje: uma palavra temerosa e fascinante: guerra!». 

Imagem: Estrada “Praga”, pintura de 1920 de Otto Dix descrevendo soldados que foram mutilados durante a Primeira Guerra Mundial. Foto de Fred Romero. Licença CC BY 2.0.

Fonte

quarta-feira, 15 de abril de 2026

A Saúde em choque e o SNS em coma

A ministra da Saúde, a farmacêutica Ana Paula Martins, ou melhor dizendo, a comissária política para a área da Saúde em Portugal, é declarada  “esgotadíssima” pelos partidos da oposição e que se mantem no cargo por simples “teimosia” de Montenegro. Ela própria não deverá andar muito descansada não só pelos ataques a que é sujeita, mas pela quantidade de coisas e casos que não têm corrido lá muito bem, contrariando o discurso de que "o SNS está melhor", que, por sua vez, é o prosseguimento de um outro: "hoje o país está melhor e os portugueses também estão melhor".

O caso que levou ao estado de esgotamento político da ministra terá sido a tomada de posse do novo secretário de estado da Gestão de Saúde, o terceiro em menos de dois anos, por suspeita de ter favorecido um amigo na abertura de uma Unidade de Cirurgia Cardíaca no Hospital de Santo António, no Porto. O novo secretário, Francisco Catalão, foi orientado por Miranda Sarmento, a quem se refere como "amigo". Diz a imprensa que “Finanças ganham influência na Saúde”. Como se constata, as nomeações são feitas na base do nepotismo, esta não deixa de ser uma das marcas do governo PSD/CDS/Montenegro.

Este caso sucede-se a um outro no mesmo hospital, em que o director de serviço de cirurgia, Eurico Castro Alves, está sob suspeita de ter recebido indevidamente cerca de 179 mil euros entre 2021 e 2025, por cirurgias realizadas fora do horário normal para recuperação de listas de espera. Quanto a esta questão das listas de espera, a Direção Executiva do SNS ignorou a proposta para reduzir tempos de espera para consultas nos hospitais, apresentada pelo SINACC (Grupo de Trabalho do Sistema Nacional de Acesso a Consultas e Cirurgias) e tenha feito exactamente o contrário, aprovou novos tempos de resposta mais longos para consultas de especialidade. Mais, o tempo de espera para cirurgias mais graves duplicou. Fica-se assim a perceber as verdadeiras razões para a existência de listas de espera no SNS.

Todas as medidas decididas por esta ministra já “esgotada”, e pelo governo de que faz parte, são no sentido de não resolver os problemas de que enferma o SNS, mas sim agravá-los, argumentado que tudo se está a fazer para o salvar da morte anunciada. Hoje, dia 15 de Abril, abriu o segundo centro regional de urgências de obstetrícia e ginecologia, na Península de Setúbal, hospitais de Almada e Setúbal, com a argumentação falaciosa de “escassez de profissionais e instabilidade nas escalas de urgência” – o primeiro centro regional foi no Hospital de Loures. Ambos ilustram a política de encerrar o público para favorecer o privado que, desta forma, vê aumentar a sua clientela. Só que as mulheres de menores rendimentos económicos continuarão a percorrer dezenas e centenas de quilómetros, como tem acontecido até agora, e os partos em ambulâncias não irão diminuir.

Em relação aos partos ocorridos em ambulâncias, na estrada ou à porta dos hospitais, quando não no meio da rua, tivemos de ouvir algumas bojardas vomitadas quer pela ministra, quer pelo anterior bastonário da Ordem dos Médicos, agora vice da bancada parlamentar do PSD. Este último lançou fel pela boca, culpou as grávidas pelo aumento do número de partos em ambulância por se atrasarem no pedido de socorro. E, mais ainda, o aumento de listas de espera na Saúde significa, no seu embotado entendimento, “mais confiança no Serviço Nacional de Saúde”. A ministra não se coibiu de defender que o parto ocorrido no parque de estacionamento do Hospital de Santa Maria só “reforça a necessidade da urgência regional da Península de Setúbal”. Gente sem alma que diz cuidar da saúde e bem-estar dos portugueses, mas cujas preocupações e interesses estão bem longe do que apregoam.

As estatísticas quanto ao estado de saúde e aos meios disponíveis pelo estado/governo falam por si:

- O número de mortos provocados por acidentes nas localidades aumentou depois da pandemia, segundo a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), “Portugal tem o perfil de mortalidade urbana mais elevado da União Europeia”;

- Menos de um quinto dos idosos portugueses dizem ser saudáveis – é o terceiro pior resultado da União Europeia;

- Número de utentes no SNS cresce na última década, mas acesso a médico de família deteriora-se desde 2019 - 10,7 milhões inscritos nos centros de saúde, quase 1,6 milhões sem médico de família;

- Serviço Nacional de Saúde pagou 249 milhões de euros a médicos tarefeiros, agravando 37 milhões de euros em 2025 – não integrar estes médicos nos quadros do SNS só contribui para degradação da qualidade dos cuidados prestado;

- Mudança no imposto sobre o tabaco tira 150 milhões ao Serviço Nacional de Saúde;

- Doze unidades do SNS ficaram sem fundos para assumirem despesas logo em Fevereiro - Orçamentos curtos e alteração na base de cálculo dos fundos destinados ao SNS estão a colocar pressão sobre as unidades de saúde, o ministério da Saúde diz que a situação é "normal";

- Proposta para curso de Medicina na Universidade de Évora foi novamente chumbada – a Ordem dos Médicos não quer que se formem muitos médicos para não fazerem concorrência uns aos outros;

- Os preços dos medicamentos vão "inevitavelmente" subir, avisam as farmacêuticas – prepara-se a opinião pública sobre a fatalidade que irá agravar ainda mais a situação, nomeadamente, de muitos idosos e pensionistas que já agora possuem dificuldade em adquirir os seus medicamentos;

- O FMI defende que a aposta na Defesa pode levar a cortes brutais em Saúde, Educação e apoios sociais – é a cereja no topo do bolo.

Entretanto, os lóbis privados da saúde regozijam com o bom andamento do negócio e com as ajudas prestimosas do estado/governo de Montenegro:

- As entidades privadas asseguram anualmente 150 milhões de exames complementares de diagnóstico e terapêutica e outros cuidados de saúde especializados;

- A Trofa Saúde, que emprega mais de três mil pessoas e detém atualmente 25 hospitais e clínicas em Portugal, entra num shopping da Sonae;

- Lusíadas Saúde investe 30 milhões em hospital na Grande Lisboa e cria 500 empregos;

- Hospitais privados investem valor recorde e aumentam atividade em 2025: mais de dez milhões de consultas, 1,46 milhões episódios de urgências e quase 284 mil cirurgias - resultado do inquérito aos associados da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada (APHP); 

- Hospitais privados batem recorde nos partos realizados: "As maternidades dos três grandes grupos - CUF, Luz e Lusíadas - cada uma fez mais de quatro mil partos, em 2024, tornando-se nas maiores maternidades do país, a procura por esta atividade tem crescido de forma sustentada, entre 8 a 9% nos últimos seis anos;

- Despesa com Ozempic sobe 258% em cinco anos e metade terá sido usada para perda de peso, revela Polícia Judiciária;

- Saúde: Setor privado concentra 75% das 1440 queixas registadas no primeiro trimestre do ano – o que confirma que a qualidade dos cuidados prestados pelo privado é bem inferior à dos prestados pelo SNS.

O governo, contrariando as declarações optimistas da ministra, é obrigado a reconhecer a realidade: Governo "não vai conseguir" atribuir médico de família a todos até 2027. É que esta também não é sua intenção, a verdadeira intenção é contratualizar com o privado os centros de saúde, são as ditas “unidades de saúde familiar (USF-C) com gestão privada ou social”. Os concursos arrancam nas regiões com menor cobertura de médicos de família e o governo prevê gastar cerca de 70 milhões de euros ao longo de cinco anos, financiando 20 destas unidades. O privado sempre a facturar, enquanto o SNS definha, agora com os privados dentro do SNS - de “serviço” passará a “sistema”.

O país está cada vez mais endividado, embora com a dívida privada a superar a dívida pública, o que faz com que as verbas disponibilizadas para a Saúde (SNS) tenderão a diminuir em termos relativos. Com guerra ou sem guerra, com o aumento da percentagem do PIB atribuído à Defesa ou não, o investimento para a Saúde derivará sempre pela promoção dos negócios dos lóbis privados. Decididamente, e a mando de Bruxelas, a saúde transformou-se em negócio, como qualquer outra actividade económica, com a dupla exploração dos trabalhadores portugueses e simultânea degradação das suas já débeis condições de bem-estar físico e mental. 

A ilustração de como são tratadas estas questões de saúde e sua gestão, não deixamos de chamar a atenção para o facto de se encontrar à frente da Cruz Vermelha Portuguesa, como vice-presidente, um oficial general aposentado que, em comentário televisivo, não teve engulhos em defender o lançamento de três bombas nucleares sobre o povo do Irão, no conflito que o opõe aquele país à maior potência nuclear do mundo, EUA, e à sua filial no Médio Oriente, o estado de Israel, também potência nuclear. 

Para se afirmar sem hesitação: Estamos entregues a criminosos!

Imagem in Expresso

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Civilização versus arrogância… Quando a força cega ameaça uma nação de criadores da mente humana

O Irão não é apenas um país moderno que só pode ser lido à luz dos equilíbrios do momento. É uma extensão histórica que remonta a milhares de anos, desde o legado Aqueménida associado ao nome Ciro, o Grande, até o acúmulo persa ao longo dos tempos.

Por Elhamy El-Meligy*

O problema com a declaração de Donald Trump não é apenas que ela é rude ou arrogante, mas que é chocantemente ignorante. Quando o Presidente dos Estados Unidos ameaça devolver o Irão à "Era da Pedra", não está a expressar a confiança de uma potência que se conhece, mas sim uma incapacidade de compreender o que significam as civilizações quando transcendem a era dos Estados, e quando tornam-se parte da consciência humana e não apenas um alvo num ecrã de guerra.

E nisto reside o grave paradoxo: um homem que fala em nome do país mais poderoso do mundo numa linguagem primitiva e destrutiva, enfrentando um país que não é resumido por um mapa militar ou por um sistema político actual, mas que se estende ao longo do tempo. como um dos blocos civilizacionais mais antigos e profundos da região.

Uma civilização mais antiga que a retórica da guerra

O Irã, ou a Pérsia em seu sentido civilizacional mais amplo, não é apenas um estado moderno que pode ser lido apenas à luz dos equilíbrios do momento. É uma extensão histórica que remonta a milhares de anos, desde o legado aquemênida associado ao nome Ciro, o Grande, até a acumulação persa que através dos tempos antigos, medievais e modernos permaneceu presente na organização, símbolo, língua e cultura.

Assim, a referência ao Cilindro de Ciro não parece ser apenas um regresso arqueológico ao passado, mas sim uma recordação do significado de que há povos que não iniciam a sua história a partir do seu sistema actual, mas sim a partir de uma profundidade cultural que precede países sucessivos e permanece mais duradouro do que eles.

De Ciro à língua viva

No entanto, a civilização não é apenas pedras, estátuas e antiguidades preservadas em museus, mas sim uma capacidade de permanecer em significado. A Antiga Pérsia não era apenas uma autoridade em expansão, mas sim um espaço civilizacional que deixou o seu impacto na administração, no símbolo e no significado, depois o Islão veio e não engoliu esse legado, mas antes o fundiu novamente num novo ciclo civilizacional em que o persa participou, não como um resquício de um passado extinto, mas como uma língua que participa na construção de um novo mundo islâmico. Conseqüentemente, falar sobre a literatura persa, o pensamento persa e o espírito persa passa a falar sobre um dos principais afluentes que deságua no rio da civilização islâmica, e não sobre uma margem adjacente a ele de longe.

Quando a poesia e a razão coexistem

Neste contexto, não é possível ignorar nomes específicos, não como um adorno cultural, mas como evidência viva da profundidade da contribuição persa. Omar Khayyam, por exemplo, é chamado aqui não apenas como poeta do Rubaiyat, mas também como imagem de uma civilização que não separa o sentido estético da mente científica; Um poeta, matemático e astrônomo ao mesmo tempo.

Ibn Sina está presente não só como um grande médico e filósofo, mas também como uma das principais pontes sobre as quais a filosofia e a medicina atravessaram do mundo islâmico para a Europa. Então Jalal al-Din al-Rumi chega a apontar que o persa não era apenas uma língua nacional, mas sim uma língua que carregava um significado espiritual universal e expandia ao máximo o horizonte da experiência sufi no Islã.

Khorasan: Fábrica da Mente Islâmica

Mas o quadro não está completo apenas com literatura, filosofia e espírito. Quando nos aproximamos da estrutura da própria mente islâmica, descobrimos que a contribuição persa-khorasani não foi adicional ou secundária, mas sim fundamental em mais de um dos seus capítulos principais.

Khorasan e seus arredores não eram apenas regiões periféricas do Estado Islâmico, mas sim, desde os primeiros séculos, eles se transformaram em enormes centros para a produção de ciência e conhecimento. Bukhara, Nishapur, Tus, Merv e Samarcanda não eram estações à margem, mas sim centros de atração para estudiosos, viajantes e estudantes do conhecimento, e contribuíram fortemente para codificar a Sunnah, formular doutrinas, desenvolver o debate teológico, e expandindo os horizontes da filosofia e do sufismo.

Portanto, a observação de Ibn Khaldun sobre o domínio dos persas em carregar conhecimento no Islã não foi uma declaração construtiva ou um elogio à Pérsia, mas sim um diagnóstico de toda uma estrutura civilizacional na qual os ambientes persa e Khorasani floresceram como uma das maiores fontes de conhecimento no Islã.

De Al-Bukhari a Al-Ghazali

Na vanguarda desta série de conhecimento está o Imam Muhammad bin Ismail Al-Bukhari, cuja importância não se limitou à recolha de hadith, mas contribuiu para estabelecer a mentalidade de escrutínio e documentação que se tornou parte integrante da estrutura do conhecimento islâmico. Com ele, o hadith não é mais apenas narrações dispersas, mas tornou-se uma ciência com condições estritas em sua cadeia de transmissão, regras para ferimentos e modificações e uma consciência aguçada da diferença entre o que é aceitável e o que é rejeitado.

Depois vêm Al-Tirmidhi, Al-Nasa'i, e Abu Dawud, não como apêndices do nome de Al-Bukhari, mas sim como pilares que participaram na construção do grande tesouro sunita, a partir do qual se formaram amplas percepções da Sunnah, jurisprudência, imitação, e raciocínio controlador. Do hadith passamos para a jurisprudência e a teologia, onde o Imam das Duas Mesquitas Sagradas Al-Juwayni e depois Abu Hamid Al-Ghazali aparecem como outras testemunhas de que Khorasan não era uma franja, mas sim um dos laboratórios básicos em que as ferramentas da mente teórica sunita foram formadas. Al-ghazali, em particular, não é apenas um nome no registro dos estudiosos, mas um momento crucial na história intelectual islâmica: um jurista, teólogo, sufi e crítico da filosofia ao mesmo tempo Ele reorganizou a relação entre razão e transmissão, entre a Sharia e o espírito, e entre o significado aparente da religião e seus propósitos morais.

Em seguida, a cena é completada com Al-Farabi e Ibn Sina, por um lado, e Al-Rumi, por outro. Aqui não estamos falando apenas de narradores e estudiosos de hadith, mas sim de mentes que expandiram o horizonte do Islã para áreas de lógica, prova e contemplação da existência, depois para poesia, intuição, amor e consciência. Nesse sentido, a mente islâmica que os persas contribuíram para formular não era uma mente puramente jurisprudencial ou filosófica, mas sim uma mente complexa, sabendo construir um argumento, como escrutinar o texto e como restaurar o interior humano ao mesmo tempo.

O que a agressão quer apagar?

Portanto, toda esta convocação está agora a ganhar importância. Quando Trump ameaça o Irã na linguagem da "Idade da Pedra", ele não está apenas ameaçando um país contemporâneo, mas está falando com uma ignorância grosseira sobre um país que contribuiu, ao longo de sua longa história, para construir uma parte significativa da mente islâmica que ainda está viva na consciência de centenas de milhões de muçulmanos. De Ciro a Khayyam, de Ibn Sina a Rumi, e de Al-Bukhari a Al-Ghazali, deparamo-nos com uma contribuição que não pode ser apagada da memória islâmica, excepto através da eliminação de parte do próprio Islão civilizacional.

Portanto, defender a verdade dessa contribuição não é um viés nacionalista estreito, mas sim uma defesa da sinceridade da história diante de uma simplificação brutal que vê nas nações nada além de bombardear mapas e alvos militares. As civilizações não podem ser lidas do cano de um canhão, nem podem ser resumidas por uma frase passageira de ódio, mesmo que venha da boca do presidente do país mais poderoso do mundo. Daí que se abra a porta à questão que constituirá o foco da segunda parte: O que revela este discurso brutal, com toda a sua grosseria e ameaça civilizacional, sobre a própria crise do poder americano?

*Escritor e jornalista egípcio.

Fonte

segunda-feira, 30 de março de 2026

Choque petrolífero nos bolsos dos cidadãos

Governo de Montenegro veio anunciar com pompa e circunstância um pacote de 150 milhões por mês de apoios para os combustíveis, que mais não são que subsídios ao consumo e que não mexem na questão dos preços base dos mesmos e nem dos principais produtos alimentares – em situação de emergência, os preços de todos os bens essenciais à vida dos cidadãos portugueses deveriam ser tabelados. A política governamental terá como último e (mal) disfarçado objectivo aumentar o fluir da riqueza do trabalho para o capital, com a alegação do "terceiro choque petrolífero", já aventado pela ministra do Ambiente. Choque que será sobretudo nas algibeiras do cidadão comum e que consubstanciará a política da extrema-direita, beneficiando da conciliação “responsável” do terceiro partido com assento no Palácio de S. Bento.

Com o choque energético Portugal irá ao fundo

O maior fundo de investimentos do mundo, a BlackRock, prevê “recessão global” com petróleo a 150 dólares, e há outras fontes financeiras bem colocadas que prevêem 180 a 200 euros o barril do Brent. Ora, caso essas previsões se concretizem, o que podemos prever são privações de toda a ordem desde os combustíveis aos alimentos – “vai faltar combustível antes de haver escassez de petróleo” é o alarido dos media mainstream –, desde as matérias primas a muitos produtos manufacturados importados, devido à quebra das cadeias de abastecimento, e a fome será uma realidade em Portugal. A revolta poderá estar ao virar da esquina. Ao choque petrolífero poderá suceder muitos choques revolucionários.

Passaram-se dois meses sobre a destruição do centro do país pela tempestade Kristin e as pessoas que viram os seus bens destruídos, casas e empresas, ainda estão à espera das ditas “ajudas” governamentais, com o ministro da Economia a escudar-se na inépcia dos municípios e estes com a falta de meios humanos para a fiscalização dos processos. O ministro da tutela mais uma vez promete a conclusão de todos o processo de avaliação e de indemnização dos danos em Junho; contudo, não terá referido de que ano. Apenas 5% dos sinistros da tempestade foram indemnizados pelas seguradoras. Se estiver correcta a avaliação feita pelo governo de que os prejuízos totais rondarão por 6 mil milhões, então, muita gente ficará a ver navios, à semelhança do que aconteceu com os incêndios de Pedrógão no tempo do governo de PS/Costa.

Em cima da crise do capitalismo nacional junta-se a crise energética actual. Prevê-se que Portugal se arrisca a crescer somente 0,8% e vir a ter brevemente uma inflação nos 4,7%, num cenário severo da guerra do Irão, o que parece vir a acontecer com a escalada provocada pelos EUA com a intenção de colocar tropas no terreno para reabrir o estreito de Ormuz. De nada terá valido o ministro das Finanças ter vindo ufanar-se do pretenso “brilharete” de excedente de 0,7% nas contas públicas. Pelos vistos, o PSD segue as pisadas do PS com as putativas “contas certas” de inteiro agrado de Bruxelas, mas que só revela que o governo deixou de investir, quer no estado social quer na economia, desagradando por sua vez aos cidadãos portugueses. Escondem que as “contas certas” são um garrote ao desenvolvimento do país para não fazer concorrência aos países mais ricos da União. Era tempo de se equacionar a saída da União Europeia e ainda antes de ela implodir.

A política de Montenegro é o programa da extrema-direita

Montenegro disse que o artigo de Cavaco Silva no Expresso “caiu como uma luva” nas decisões do Governo, assumindo-se como lídimo sucessor da agora múmia política na senda das reformas do estado. Reformas que mais não são do que a transformação capitalista de toda a sociedade e não apenas da máquina administrativa ou do tecido empresarial. Cavaco nos seus 10 anos de consulado destruiu grande parte do aparelho produtivo nacional, desde as pescas à indústria e passando pela agricultura, tornou o ensino mais elitista, deu início à degradação do SNS, degradou e hierarquizou as carreiras profissionais dentro da Função Pública, e desceu os salários reais no geral. Agora o discípulo quer terminar a obra, destruir de vez o SNS e a Escola Pública e terceirizar aos privados todas ou quase todas as funções de carácter social do estado.

Enquanto o governo espanhol, por exemplo, irá proibir os despejos e congelar as rendas como medidas de emergência perante o agravamento das condições de vida dos cidadão com a presente crise energética, o governo português decretou exactamente o contrário: a aceleração dos despejos, a especulação das rendas e do imobiliário – Portugal registou um aumento recorde nos preços da habitação, com uma subida de 17,6% em 2025, sendo um dos maiores aumentos na União Europeia. Como é natural, os proprietários aplaudem as medidas e os inquilinos falam em “ataque aos mais fracos”; o que não deixa de ser a realidade dos factos. E veio o Barrabás do ministro da Habitação mandar a atoarda de que “estado gere mal o património imobiliário”, defendendo a entrega do património imobiliário público às autarquias e, como seria de esperar, aos privados e às IPSS, ou seja, à igreja católica, que nem sequer paga impostos do imenso património que possui. Este imbecil passa um atestado de incompetência a ele próprio e ao governo de que faz parte na medida em que é o governo que gere, e é, o “estado” de que fala.

O patronato está ansioso, e não esconde a pressa, de ver aprovado quanto antes a nova legislação sobre o trabalho, tornando a exploração dos trabalhadores mais fácil e mais barata – “Não há razão para não haver acordo” na Concertação Social sobre lei laboral, diz o presidente da CAP; "Portugal está um bocadinho cansado" das negociações sobre as alterações à lei laboral, afirma o presidente da CIP, que se arvora em porta voz do país; Confederação dos Agricultores sobre mau tempo: “Onde está o apoio no terreno? É preciso ir ao OE”; "Ou Governo dá mais dinheiro às empresas, ou empresas, a prazo, vão ter que reduzir serviço ou deixar de o prestar", avisa a ANTROP. E o governo dispõe-se a satisfazer as demandas da oligarquia, falta saber se será com o apoio mais activo do partido da extrema-direita ou do PS.

As medidas apresentadas pelo PS no seu Congresso agora realizado de “IVA zero” sobre os produtos alimentares não fará parar a subida dos preços e muito menos baixá-los, porque será absorvido pelos retalhistas, aumentando assim os seus lucros já de si exorbitantes. Os lucros da Sonae aumentam para 247 milhões com vendas recorde em 2025 e a Jerónimo Martins com lucros de quase 650 milhões de euros, que já veio dizer que está a avaliar o impacto do aumento dos combustíveis, o que significa que irá proceder a um aumento generalizado dos produtos que vende. Salientar que estas duas empresas nacionais possuem a sede na Holanda onde pagam impostos mais baixos. A resposta do governo em situação de emergência, que é aquela que está a iniciar-se neste momento, situação de crise grave e prolongada, deveria ser a de obrigar estas empresas a deslocarem para território nacional as suas sedes, e, em caso de recusa, proceder à sua nacionalização.

O programa é claro: a “CIP exige aceleração da implementação do Relatório Draghi”. A burguesa nacional, através das suas organizações corporativas, não está com meias palavras, quer que em Portugal o governo de Montenegro/PSD/Chega ponha em prática o programa do grande capital financeiro, ou seja, dos bancos, que consiste na desregulamentação de tudo o que diga respeito à economia, à sociedade e ao estado que possa impedir de alguma forma a rápida acumulação e concentração da riqueza. Pretende-se um sistema económico ultra-liberal, muito semelhante ao que Javier Milei está a fazer na Argentina, e que será dirigido politicamente, caso haja necessidade, por um regime mais autoritário e repressivo das liberdades e dos direitos dos cidadãos. Ora, tudo indica que a elite se está a precaver se as coisas não correrem lá muito bem em termos de “democracia”.

A fascização da democracia de Abril

No ano em que se celebram os cinquenta anos da Constituição da República Portuguesa, o chefe da extrema-direita já declarou que se compromete a iniciar o processo de revisão constitucional "até final do ano" – há que mudar o regime político. A disputa na escolha dos juízes para o Tribunal Constitucional faz já parte desse processo de fascização da actual democracia parlamentar. O PS sente-se marginalizado, prefere que a escolha seja feita só a dois como tem acontecido até aqui, mas o problema é que ele é o terceiro partido com representação parlamentar, ficando com menor margem de manobra mas pouco disposto a aceitar a nova realidade. Não sabemos o que irá suceder, mas eventualmente poderá até haver um acordo a três, com o PS a conciliar com a extrema-direita – não nos esqueçamos que o partido da extrema-direita, constituído fundamentalmente por ex-bombistas, pedófilos, criminosos de delito comum, foi uma criação de António Costa.

Ao mesmo tempo, assiste-se à degradação do funcionamento da dita “casa da democracia”, com as arruaças constantes dos neo-fascistas aí acoitados. Constata-se igualmente a degradação da democracia interna do mesmo órgão de poder, com a intimidação de deputados que ousam afrontar o bando de arruaceiros. Primeiro, foi a deputada do PS, Eva Cruzeiro, que chamou de racista o deputado da extrema-direita que vociferou: "vai para a tua terra", que é repreendida em relatório, aprovado pelos votos da bancada do próprio PS. Deputados que terão sido chamados a atenção pela direção do partido e que agora querem corrigir o sentido de voto, o que não deixa de ser caricato. Agora, é a segunda figura da nação, o presidente da Assembleia da República, que tem conciliado e defendido as provocações fascistas, a pedir inquérito a afirmações de deputada Isabel Moreira, após queixa de Hugo Soares, por associar votos do PSD, Chega e CDS à morte de Gisberta, no debate dos diplomas sobre mudança de género. Alteração legislativa esta que representa a aprovação de visões retrógradas e discriminatórias sobre a questão de mudança de género.

O sector mais reaccionário da sociedade portuguesa, com o apoio ou mesmo iniciativa da igreja católica, recomeçou com a campanha de reverter a legislação sobre a interrupção voluntária da gravidez (IVG), começando com manifestações no mesmo dia de outras que já estavam programadas contra a política do governo sobre a habitação – não é por acaso. De forma inesperada, houve alguém que lançou uma garrafa com gasolina e uma mecha, que não estava acesa, sobre a manifestação religiosa de direita em Lisboa e em local que não permitia uma fuga ao perpetrador do alegado “ataque terrorista”, evidenciando uma encenação para a vitimização dos organizadores e uma maior notoriedade da causa. Logo, as reacções estridentes não se fizeram esperar, desde os ideólogos do fascismo moderado no jornal do grande capital “Observador” até ao chefe da bancada parlamentar do CDS, o antigo secretário de estado responsável pela fuga de mais de 10 mil milhões de euros para off-shores, que não se coibiu de falar em “acto terrorista”, acompanhado pelos partido de toda a direita, e até o ministro da Administração Interna, ex-director da PJ, afinou pelo mesmo diapasão. Ainda nos encontramos à espera do comentário do líder do CDS sobre a notícia de primeira página do JN: “Mercenários ligados ao CDS contratados para matar padre Max há 50 anos”.

Acabou o tempo dos partidos de meias tintas 

O PS acabou de realizar o seu congresso onde a actual direcção viu reforçadas as suas posições, que, em resumo, são mais do mesmo do já apresentado pelo PSD. Ambos se conjugam em querer bem gerir os negócios e os interesses da oligarquia nacional e não desagradar a Bruxelas. Diz o presidente do partido, que sucedeu a ele próprio: o PS "deve continuar a demonstrar querer ser parte das soluções e não apenas parte da crítica". Quais soluções, as soluções para o “país”, como diz? Mas qual país, o do trabalho ou o do capital, é que em Portugal há e sempre houve dois países?! Os ditos “socialistas” sentem-se traídos com o Chega e ameaçam que a “exclusão do PS em acordo trará consequências”. Será que irão para a rua como aconteceu no Verão Quente de 1975, com manifestação na Fonte Luminosa em Lisboa? Não nos parece. E a posição na Assembleia da República com a discussão e aprovação do “pacote laboral” irá demonstrar que o PS está com o PSD, está com a oligarquia. Carneiro está apostado em “pressionar o Montenegro a governar melhor”, será a muleta do governo, já que está de acordo com a dita reforma da administração pública, jamais ganhará umas eleições legislativas em Portugal. Será descartável.

À medida que a luta de classe se intensifica, os partidos das meias tintas, típicos da pequena-burguesia, tenderão a desaparecer, ficando frente a frente as duas principais classes da sociedade, a burguesia e o proletariado. Os tempos que se avizinha são de tempestades e choques revolucionários.

terça-feira, 24 de março de 2026

Gaza: Com as bibliotecas em ruínas, os palestinianos lutam por preservar a memória histórica

Por Eman Abu Zayed

Desde a eclosão da guerra de Israel na Faixa de Gaza em 2023, a destruição não se limitou a casas e infraestrutura pública. Também se estendeu ao patrimônio cultural e intelectual, já que bibliotecas e arquivos em todo o enclave sofreram grandes ataques e perdas significativas. Relatórios de organizações académicas e de direitos humanos indicam que mais de 87 bibliotecas públicas e arquivos em Gaza foram parcial ou completamente destruídos, resultando na perda de centenas de milhares de livros, documentos e manuscritos raros que constituem uma parte essencial da cultura palestiniana e memória histórica.

Enquanto isso, os visitantes da biblioteca desapareceram gradualmente dos espaços públicos. Os hábitos de leitura mudaram para casas, abrigos para deslocados e plataformas digitais, à medida que as pessoas tentavam preservar as suas práticas culturais no meio de uma guerra que devastou o território e perturbou a vida quotidiana.

A Universidade Islâmica de Gaza: 1,5 milhão de livros bombardeados

Diante dos restos da Universidade Islâmica de Gaza, o investigador Riyad Al-Saawi analisa o que resta de uma instituição de 50 anos, —, uma das maiores e mais antigas universidades de Gaza. Desde a sua criação, as bibliotecas da universidade serviram como alguns dos mais importantes repositórios culturais e acadêmicos da Strip, abrigando mais de 1,5 milhão de livros cobrindo uma ampla gama de disciplinas, desde literatura, história e filosofia até ciência e tecnologia. Eles também continham revistas acadêmicas, documentos raros e manuscritos históricos que refletiam a profundidade da herança intelectual palestina. As longas filas de prateleiras e o ambiente tranquilo de estudo fizeram da biblioteca um refúgio para pesquisadores e estudantes, que passavam horas lendo referências, consultando estudos e escrevendo seus trabalhos em silêncio.

Al-Saawi olha para o espaço vazio onde antes ficavam as prateleiras e reflete sobre a magnitude da perda. “Vim hoje em busca da biblioteca onde passei anos escrevendo minha pesquisa,” diz ele, sua voz carregando choque e tristeza. “Já continha mais de 1,5 milhão de livros, mas não encontrei nenhum vestígio disso.” Cada canto da biblioteca já havia testemunhado momentos de descoberta e aprendizado; cada prateleira carregava conhecimento que se acumulou ao longo de décadas. Hoje, foi substituído pelo silêncio e pelo vazio —, uma ausência que reflete tanto a destruição quanto a resiliência.

Salvando uma biblioteca pessoal dos escombros

Em outro lugar na mesma paisagem de perda, Noaman Al-Hilu, um homem que se aproxima dos 60 anos, está sentado entre os escombros de sua casa destruída. Curvando-se lentamente sobre os detritos, ele peneira a poeira e o concreto quebrado em busca de algo diferente dos destroços circundantes: seus livros.

Ao longo de quase quatro décadas, Al-Hilu construiu uma pequena biblioteca pessoal em sua casa, coletando títulos um por um em livrarias, feiras de livros e mercados de segunda mão. Para ele, não eram simplesmente livros, mas um arquivo pessoal que o acompanhava durante anos de leitura e aprendizagem.

Tirando um volume coberto de poeira debaixo dos escombros, ele cuidadosamente o escova. Em uma voz marcada tanto pela tristeza quanto pela determinação, ele explica que o que resta hoje são apenas fragmentos da biblioteca particular que ele passou anos montando. Junto com sua família, diz ele, ele está tentando salvar quaisquer livros que ainda possam ser recuperados das ruínas — não apenas para mantê-los, mas para passar alguns deles para seus netos como uma lembrança de uma época em que os livros já encheram o casa.

Na superfície, a cena parece simples: um homem idoso nas ruínas de uma casa. No entanto, em todo o seu contexto, parece que o próprio tempo está a escavar as pedras em busca da sua memória perdida.

Biblioteca de Córdoba: Vendendo livros em meio a deslocamentos e guerras

No bairro de Al-Nasr, no norte de Gaza, um jovem chamado Ramzi administrava uma pequena livraria conhecida como Biblioteca de Córdoba há mais de 20 anos. A loja era um local modesto que oferecia obras religiosas, culturais e históricas ao lado de romances e livros infantis.

Quando a guerra começou em outubro de 2023 e ondas de deslocamento se espalharam pela Faixa de Gaza, Ramzi foi forçado a mudar sua livraria várias vezes. Ele se mudou do norte de Gaza para Deir al-Balah e, mais tarde, para Rafah, carregando sempre os livros consigo para preservar o que restava de sua coleção e continuar seu trabalho.

Apesar da guerra e do cerco, Ramzi continuou vendendo livros on-line, respondendo aos leitores que continuavam encomendando títulos mesmo em condições extremamente difíceis. Para ele, o trabalho não era meramente uma fonte de renda mas também um esforço para preservar a presença de livros na vida das pessoas durante um tempo de deslocamento e destruição.

Biblioteca Samir Mansour: A perda de um importante marco cultural

A Biblioteca Samir Mansour há muito é considerada uma das instituições culturais mais proeminentes de Gaza. Fundada pelo professor Samir Mansour, a biblioteca se expandiu ao longo dos anos em várias filiais em toda a Strip, tornando-se um destino chave para estudantes, pesquisadores e leitores.

Sua filial localizada perto da Universidade Islâmica de Gaza era particularmente conhecida entre os estudantes universitários, que frequentemente a visitavam para comprar obras acadêmicas e literárias. As prateleiras continham uma ampla gama de títulos que cobriam literatura, filosofia, política, história e obras traduzidas.

A guerra, porém, não poupou esta instituição cultural. A biblioteca sofreu grandes danos e milhares de livros coletados ao longo de muitos anos foram destruídos. Mansour explica que a perda não foi apenas financeira, mas também cultural, já que muitos dos livros que queimaram eram edições raras ou títulos que os leitores esperavam muito para obter.

Em meio à escassez de combustível e à intensificação do bloqueio, alguns moradores às vezes recorriam à queima de livros simplesmente para acender fogueiras para cozinhar —, uma imagem que reflete a profundidade da crise humanitária na Faixa. Ainda assim, Mansour insiste que a ideia da biblioteca em si não pode ser destruída, e que a cultura literária e acadêmica de Gaza perdurará apesar da devastação das instituições culturais da região.

Leitura como ato de resiliência

A história das bibliotecas de Gaza não é apenas um detalhe passageiro do tempo de guerra. Reflete uma relação profunda entre pessoas e livros numa sociedade que há muito valoriza o conhecimento. Antes e durante a guerra, estudantes universitários, jovens e até crianças visitavam regularmente bibliotecas para emprestar livros e ler, demonstrando a força da cultura da leitura em Gaza.

Durante longos períodos em que a Internet foi cortada durante a guerra, muitas pessoas regressaram aos livros como forma de passar o tempo e recuperar um sentido de vida normal, apesar das dificuldades circundantes.

Em Gaza, um livro nunca foi apenas mais um item numa prateleira —, é uma janela para o resto do mundo numa cidade sob bloqueio. Enquanto algumas famílias deslocadas carregavam seus livros com eles, e outras tentavam resgatá-los de debaixo dos escombros, a leitura continuou a ser um ato de resiliência cultural. Em uma cidade exausta pela guerra, reabrir uma livraria ou ler um livro pode parecer simples. No entanto, para muitos em Gaza, continua a ser a prova de que a vida cultural não desapareceu e que a relação entre pessoas e livros continua apesar de tudo o que a Faixa suportou.

Eman Abu Zayed é um escritor e jornalista de Gaza que acredita no poder das palavras para mudar a realidade.

Original 

segunda-feira, 16 de março de 2026

A vergonha da Europa

 Giorgio Agamben

Zdzislaw Beksinski 

Um país foi atacado sem qualquer motivo real e de forma traiçoeira, enquanto se fingia negociar, assassinando seu líder espiritual. A Comunidade Europeia — ou aquela organização ilegítima que leva esse nome — não só deixou de condenar uma violação flagrante do direito internacional, cometida por dois países que parecem ter perdido toda a consciência e responsabilidade, como também ordenou ao povo iraniano que cessasse a sua defesa.

5 de março de 2026

*

Estado e terror

Que tipo de Estado é esse que, ignorando toda a legalidade, assassina ou sequestra metodicamente os líderes de Estados que declara arbitrariamente inimigos? E isso acontece com a aprovação ou o silêncio constrangido dos países europeus. Significa que vivemos numa época em que o Estado abandonou suas máscaras legais e agora age segundo sua verdadeira natureza, que é, em última análise, o terror. É provável, porém, que essa situação extrema seja literalmente assim, que o abandono das máscaras coincida com o fim da forma estatal, sem a qual uma nova política será impossível.

2 de março de 2026

*

Chefes de Estado e Assassinos

Pela primeira vez na história, vemos o chefe de um Estado autoproclamado civilizado falando abertamente como um assassino, dizendo sobre o líder religioso de um país que atacou: "Vamos matá-lo", e sobre os habitantes desse país: "Vamos massacrá-los". Nem Hitler nem Stalin jamais falaram assim. E, no entanto, este homem não só não é acusado e deposto, como os chefes de Estado das chamadas democracias ocidentais o aprovam, aceitando implicitamente que os políticos hoje se expressem publicamente de uma maneira que talvez nem mesmo os assassinos ousem fazer entre si.

10 de março de 2026

Fonte 

domingo, 8 de março de 2026

No protetorado da subserviência e do desastre

Desenho publicado no FB

Passou uma semana sobre o início da agressão em larga escala e não provocada dos EUA/Israel à República Islâmica do Irão, contando com o apoio precioso da base das Lajes nos Açores, utilização essa permitida pelo governo português de Montenegro/PSD/Chega e à revelia do tratado existente. Este só permite a utilização a forças da Nato/Otan e não a ataques unilaterais levados a cabo pela super-potência atlântica. O governo da república portuguesa assumiu uma posição muito semelhante àquela que mantem em relação à guerra da Ucrânia, completa subserviência e vassalagem desprezando os interesses do povo deste país.

A consequência imediata desta guerra no Médio Oriente é o aumento brutal do preço dos combustíveis, especialmente do gasóleo, a partir já de amanhã, e que deverá continuar pelos próximos tempos; a que se juntará a subida das taxas de juros, também já aventadas, e do preço todos os bens de primeira necessidade, com o dos alimentos em primeira linha. Anunciam a fome e a miséria a breve prazo. Não devemos ter dúvidas, a participação dos países da União Europeia nas guerras em curso, e do genocídio do povo palestiniano em particular, é concreto e objectivo, ultrapassa em muito a mera conivência táctica.

Foi confrangedor a tentativa do ministro dos negócios Estrangeiros para justificar o injustificável, de não ter havido violação do acordo das Lajes e de a utilização ter sido autorizada presumivelmente por decreto do governo depois do início da agressão. Mais tarde, veio a saber-se que antes do dia do início das hostilidades a base já tinha sido usada por aviões que participavam nas operações por sete vezes, e não por duas ou três. Na mesma linha de subserviência descarada, Montenegro já tinha condenado as respostas retaliatórias do Irão contra as bases imperiais nos diversos países do Golfo, omitindo a causa dessas respostas, mentindo abertamente ao afirmar que “Portugal não acompanhou ação militar dos EUA e Israel”.

E o primeiro-ministro foi mais longe ainda na falta de vergonha e cobardia política, apontando que “o regime dos EUA nas Lajes vem do Governo PS”. Ora, será do início da década de 1990, ao tempo do último governo do PSD/Cavaco Silva, que Portugal deixou de receber contrapartidas financeiras pelo aluguer da base, com a alegação do fim da Guerra Fria e da entrada na UE, passando a vigorar “a cooperação com a Nato”. E é bom relembrar que foi recentemente que passou a haver atrasos no pagamento dos salários dos trabalhadores portugueses daquela base, sem que o governo pressionasse sequer a administração norte-americano e apesar das queixas dos próprios trabalhadores.

A posição dos vassalos é a de joelhos quando não é na horizontal, fraca e cobarde perante os poderosos e arrogante e cruel em relação ao povo e aos trabalhadores. Quanto aos aumentos dos bens essenciais que se avizinham e que irão suceder-se em cadeia, o governo deveria proibi-los de imediato e tabelar os preços dos bens alimentares, combustíveis e energia, para já, e não obedecer à ganância da oligarquia indígena. Não se percebe a razão dos aumentos dos combustíveis agora, se foram obtidos a partir da refinação e crude que foi comprado há cerca de dois meses a preços bem inferiores aos actuais.

Se a Galp teve no ano passado lucros record de mais de mil e 150 milhões de euros, um acréscimo de 20% em relação ao ano de 2024, então, este ano, os lucros irão disparar muito para além dos 100% se o preço do brent for atirado para os 150 euros o barril. É o fartar vilanagem que igualmente se observa nos bancos, que em 2025 tiveram “apenas” lucros de mais de 5 mil milhões de euros, cerca de metade (2579) só em comissões, ou seja, mais de 14,5 milhões de euros por dia. Um novo record. E, é bom lembrar, que beneficiam da benesse de somente uma parte desses lucros estar sujeita a impostos.

A riqueza flui segundo um sistema de vasos comunicantes, do trabalho para o capital. Se a oligarquia enriquece, a massa dos trabalhadores empobrece, e empobrece pelos salários baixos, pelos aumentos que estão longe de acompanhar a subida, que agora será galopante, do custo de vida. Situação esta que o governo pretende agravar mais ainda com as medidas do dito “pacote laboral”, que, se vier a ser aprovado, será a mais completa desgraça e miséria para o povo português em geral, e não exclusivamente para os trabalhadores assalariados. Esperamos que a posição do novo presidente da República, que tomará posse amanhã, seja de oposição activa.

António José Seguro irá substituir o beato e monárquico Marcelo, que ficará na História como a personagem que mais degradou a função de “mais elevado magistrado da Nação”. Pelas manobras e intrigas engendradas, pelo carácter dúplice e velhaco, pela falta de coragem e verticalidade políticas, esta aventesma nem para presidente de junta de freguesia ou de associação de bairro servia. A par da tristeza do aumento dos combustíveis, fica a alegria de vermo-nos livres de tão execranda figura. Fazemos votos de que Seguro ponha travão às maquinações do governo Montenegro/PSD/Chega e seja um escudo contra as provocações e investidas do partido da extrema-direita.

O governo ao serviço dos interesses da oligarquia indígena, e empunhando as bandeiras da extrema-direita, diz ao que vem só pelo facto do que acontece com muitos dos seus membros, ministros e secretários de estado. Alguns deles, com habitação em Lisboa, declararam residência na província a fim de receber ajudas de transporte e subsídio de alojamento no montante de 724 euros, isentos de imposto. Quantia que muitos trabalhadores portugueses não recebem ao fim de um mês de duro e penosos trabalho, já para não mencionar que a maioria dos pensionistas pouco mais recebem do que metade daquele dinheiro. São “somente” dezanove ministros e secretários de Estado que pediram aquele apoio. Coitadinhos ficariam na pobreza se o não recebessem, e, então, o que dizer do ministro da Agricultura (que entende que os planos de protecção da natureza não devem estorvar os investimentos dos empresários sem escrúpulos), que tem duas casas na capital e 43.660 euros em rendimentos prediais?

Portugal está entre os países da União Europeia com menor poder de compra e maior subida na habitação, segundo dados recentes da Prodata, com certeza que não são os ministros e secretários de estado deste governo!

Montenegro diz que defende a atuação do Governo no conflito com Irão, não gagueja e não tem papas na língua, como sói dizer-se, e assegura que “o uso das Lajes não violou direito internacional”. Em relação aos poderosos do mundo agacha-se, mas perante os problemas dos cidadãos, por exemplo, quanto ao acesso aos cuidados de saúde, torna-se prepotente e desumano:

mais de metade dos utentes morreram à espera de vaga em cuidados paliativos em 2024; as urgências de obstetrícia e ginecologia do Barreiro vão encerrar, um erro estratégico e injusto, na opinião do autarca de Alcochete; a Direção Executiva do SNS trava o aumento de consultas e cirurgias nos hospitais em 2026 devido às "restrições orçamentais", os gestores hospitalares já avisaram: "as listas de espera vão agravar-se"; médico, acusado de dar prioridade no SNS a mais de 1600 utentes encaminhados do privado, não foi expulso com justa causa do público; a devolução do Hospital de Santo Tirso à Misericórdia teve revés, mas é para avançar.

Montenegro irá, quase de certeza, ser condecorado pela Confederação Internacional das Misericórdias, como aconteceu com Passos Coelho em 2015. Não deixa de ser interessante saber que o futuro líder da extrema-direita quer que o primeiro-ministro fale menos e trabalhe mais… os portugueses.

Para se avaliar da verdadeira situação do país (o país que trabalha e não dos acionistas dos bancos e da corja de privilegiados que desgovernam Portugal), devemos referir que o endividamento das famílias, empresas e administração pública aumentou 28,9 mil milhões de euros, para 851,3 mil milhões de euros em 2025, um outro record. No entanto, a imprensa de referência arvora em arco com o slogan “Endividamento da economia caiu para 277,9% do PIB em 2025”. Não caiu, levantou-se, e vai levantar-se ainda mais se houver recessão económica, como se prevê, se a guerra criminosa lançada pelo Império e pelo regime de apartheid de Israel continuar; o que é bem provável e por tempo que ninguém conseguirá calcular.

A juntar à situação mais geral, há que salientar que muitos cidadãos e empresas ainda estão à espera das ajudas do governo para fazer frente aos prejuízos resultantes da tempestade, e já lá vai bem mais de um mês. Há ainda alguns milhares de portugueses sem telecomunicações, centenas de famílias sem um tecto onde habitar, muitas centenas de quilómetros de estradas por reparar, canais de rega por reconstruir e milhões de árvores por recolher. Os prejuízos da tempestade podem chegar aos seis mil milhões de euros. Em cima disto tudo, vem a guerra que Montenegro acarinha subservientemente.

Decididamente, os tempos que se avizinham são deveras sombrios… serão também de luta por outro modelo de mundo social e económico.