quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Assembleia da República mais pequena mas com gente mais gorda

Quando António José Seguro, líder do PS e da oposição ao governo de Passos Coelho/Paulo Portas/PSD/CDS, apresentou a proposta de diminuição do número de deputados na Assembleia da República, talvez para controlo da dita “casa da democracia” pelos dois partidos do arco da governação. Estávamos em 2012 e ainda não era certo se o governo aguentaria até ao fim do mandato, atendendo às contradições no seu seio, que levaram à “demissão irreversível” de Portas, e às medidas de austeridade impostas pela troika. Perspectivava-se na altura o surgimento de um governo de “Salvação Nacional”, tal como Seguro já defendeu, caso o então PR Cavaco Silva interviesse com a dissolução do Parlamento.

O inefável Seguro (pouco), alegado chefe da também alegada oposição, tirou um coelho da cartola para melhorar a democracia em Portugal e, presume-se, combater ou pelo menos aligeirar a austeridade lançada sobre o povo português, não exactamente sobre “todos” os portugueses: reduza-se o número de deputados! Esta história de melhorar a qualidade da democracia portuguesa por via da redução do número de deputados, proposta apresentada por parte daqueles que mais a têm abandalhado e se têm aproveitado do regime para encher os bolsos e os lucros dos capitalistas, é velha e relha e só tem um objectivo: reforçar o controlo e o poder por parte dos partidos do arco do poder, ou seja, restringir ainda mais a parca e reles democracia parlamentar burguesa.

Esta proposta é de agrado e bem acolhida pela extrema-direita, também denominada “direita radical” por alguns dirigentes laranjas, acoitada no PSD e que o PS como capacho de todos dá aval. Se vier a vingar teremos um Parlamento só constituído por deputados dos dois partidos de alterne que, de imediato, irão aumentar os seus escandalosos vencimentos e prebendas, fazendo disparar o orçamento parlamentar que vai em cerca de 100 milhões de euros (95 394 581 euros, sendo 2 093 650 para pagamento de subsídios de férias e de Natal ao pessoal) e, consequência inevitável e também decorrente das políticas que sempre defenderem, afastarem-se ainda mais do povo que dizem defender, mas que jamais deixaram de calcar a pés juntos desde o primeiro dia que, pela primeira vez, foram eleitos em 1976.

Se o orçamento da Assembleia da República não tem deixado de aumentar desde 1976, assim como o da Presidência da República que, desde a mesma altura, aumentou só 150 vezes, deve-se não ao número de deputados que, comparado com outros países europeus com a mesma população e com regime parlamentares semelhantes, até não são muitos, a questão coloca-se no montante dos salários, partindo do principio que tal gente está a vender a sua força de trabalho, o que também não é verdade, e das demais prebendas que podem levar a que um deputado em regime de exclusividade possa enfiar nos bolsos todos os meses cerca de 5 000 euros. Cinco mil euros! Mais de 10 vezes o salário mínimo nacional, e muitos trabalhadores, nomeadamente jovens recém-licenciados, nem isso ganham!

A despesa é grande porque esta gente não merece o que ganha, porque o que fazem não é em prole do povo português que os elegeu com o seu voto, mas no interesse das grandes empresas e dos bancos a que muitos deles se encontram ligados através de vários meios, entre eles, o que tem chocado a opinião pública, os grandes escritórios de advogados. Se um deputado da República auferisse o salário médio de um trabalhador, mesmo da Função Pública, que anda pelos 900 euros ilíquidos, e perdesse as regalias do género de reforma vitalícia após 12 anos de parasitismo, quase de certeza que haveria menos candidatos à AR com a profissão de advogado, engenheiro ou com “dr” mesmo feito nas “Novas Oportunidades” do Sócrates ou das “equivalências” do Relvas.

Esta proposta, agora relembrada pelo PS, levanta outra questão: qual tem sido o papel da AR desde 1976 até ao momento presente? Ora, e os factos provam-no à evidência, o papel dos deputados tem sido o de apoiar as propostas das direcções dos seus partidos e nomeadamente dizer ámen às políticas dos seus governos quando os seus partidos estão no poder executivo. E qualquer voz que ouse discordar, por muito ligeira que seja essa discordância, é de imediato silenciada, ou pior ainda, o próprio deputado discordante arrepia caminho para não perder o tacho. Não há lugar para discordância, o Parlamento não tem servido para denunciar o que vai mal no reino, mas para apoiar e reafirmar a política dos partidos do arco do poder. Mesmo os partidos da dita “oposição radical”, que nunca foram governo após 1976, não ousam colocar em causa o regime porque ser deputado sabe bem e é uma fonte de rendimento para o partido.

Resumindo, o Parlamento é um moinho de palavras ocas que serve para iludir os trabalhadores de que há democracia porque de tantos em tantos anos colocam na urna um papelinho com a indicação do partido que lhes parece ir resolver os problemas, só quando dão pelo logro não têm maneira de o pôr de lá para fora. No acto eleitoral repete-se a ilusão e a demagogia, reforçada pelo aparelho de alienação da opinião pública que são todos os media, principalmente as televisões, propriedade de grandes grupos económicos ou directamente controlados pelo partido do governo.

Este regime de democracia parlamentar tem sido o meio mais eficaz de enganar os trabalhadores de molde a convencê-los a deixarem-se explorar voluntaria e, de preferência, alegremente. Todos os grandes assuntos e medidas são acordadas e decididas nos bastidores, entre os dois partidos de alterne e segundo as instruções dos seu amos, os capitalistas – a espera dos deputados, já em outra legislatura, pela presença do merceeiro Belmiro de Azevedo é mais que simbólica.

Mas os tempos estão a mudar, os trabalhadores e o povo estão a ir vezes demais à rua a fim de expressar a sua revolta contra as políticas celeradas deste governo cripto-fascista e, o que mais incomoda e atemoriza a classe dominante e os seus políticos, expressar a sua raiva contra estes partidos que sempre estiveram no governo e que são os principais responsáveis pelo estado de miséria a que chegamos e de venda do país a uma Europa dos capitalistas chefiada por Alemanha hegemonista e ao imperialismo representado pelo FMI.

Perante os tempos difíceis que se avizinham, para os trabalhadores mas também para a burguesia e os seus partidos, o PS está a pôr as barbas de molho, antecipando uma reforma que contraria o que apregoa, mas que visa salvaguardar a sua sobrevivência. Não se sabe ainda ao certo se este governo odiado será substituído por um governo de “salvação nacional” (do capitalismo e da burguesia nacional), como se esforça um bastonário da Ordem dos Advogados (que também não é por acaso), ou se o senhor Silva irá dissolver o Parlamento e convocar eleições antecipadas; decisão que não será antes da aprovação do Orçamento para 2013, documento importante para a burguesia garantir a espoliação do povo português para o ano que vem e que tem de ser aprovado a todo o custo.

Com um governo de “salvação nacional” até 2015, quando se deveria realizar o próximo sufrágio legislativo, a democracia ficará suspensa durante este tempo todo e não apenas por seis meses como aventara a cacique do PSD, Ferreira Leite. Durante este tempo, não muito diferente como agora acontece, o governo irá governar em ditadura, como aconteceu com os governos de João Franco nos últimos tempos da monarquia; ou seja, sem necessidade do Parlamento, embora este continue de portas abertas e com os representantes da Nação, alegres e contentes, a enfiar nos bolsos os vencimentos e as prebendas e a garantir o futuro com pornográficas reformas vitalícias. A fraqueza deste regime parlamentar burguês está bem patente neste governo, eleito com o voto de pouco mais de 2 milhões de portugueses, beneficiando de um apoio maioritário parlamentar, no entanto, já tem os dias contados a menos de metade do período de vida previsto e correndo o risco de cair na rua. Pela singela razão de que tem governado contra os interesses do povo trabalhador.

O PS ao levantar a questão do número de deputados pensa que está acautelar a sua sobrevivência, mas está apenas a abreviar o seu tempo de vida; aliás, o seu prazo de validade que há muito expirou, lá vai o tempo do “socialismo com democracia”, em oposição aos PC´s de inspiração ex-URSS, que seriam socialismo com autoritarismo. Daí igualmente o seu envolvimento no recente Congresso das Alternativas, com o propósito de se remaquilhar. O PS está condenado a seguir o caminho trilhado por um PS italiano ou, mais recentemente, do grego PASOK, pela simples razão que sempre governaram e sempre defenderam políticas contra os trabalhadores e o povo.

O PS como partido típico da pequena burguesia, usualmente utilizado ou para aplicar as políticas do grande capital ou de escada por parte de alguns partidos que se arvoram do comunismo para se alcandorarem ao aparelho de estado burguês, está condenado a desaparecer nem que seja pela perda da sua base social, a tão famigerada e indefinida “classe média”, que graças a estas políticas de austeridade está em processo rápido de proletarização. Esta proletarização mais não é que o resultado da transformação capitalista da economia e da sociedade, processo que se acelerou graças à nossa entrada na então CEE e que, agora com União Europeia dos bancos e dos estados, está ser levado ao extremo com a transformação de países formalmente independentes em colónias do IV Reich e do imperialismo.

Devemos estar a assistir ao toque de finados do regime saído da quartelada de Abril, motivo de preocupação, mas não de desespero, porque há uma saída para os que trabalham e produzem, e essa saída foi mostrada pelo proletariado parisiense há pouco mais de 140 anos.

PS: “Os partidos da oposição acusaram, esta quarta-feira, o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, de "desrespeitar" a Assembleia da República por adiar sucessivamente a sua comparência perante a comissão parlamentar do Orçamento. "Pela terceira vez em menos de um mês, [Vítor Gaspar] revelou ser um ministro em fuga", disse Pedro Filipe Soares, deputado do Bloco de Esquerda, durante uma audiência parlamentar ao secretário de Estado Luís Morais Sarmento.” (da imprensa). Para quê prestar declarações a um órgão que nada manda, mas sim prestar vassalagem a Bruxelas/Merkel: "Não bastava o ministro das Finanças ter entregado em Bruxelas para aprovação preliminar tudo aquilo que hoje, pelos vistos, vai anunciar ao país", disse o deputado do PCP, Honório Novo.

09 de Outubro 2012

Fonte

sexta-feira, 31 de julho de 2026

O Património Genético Português

 Por Luísa Pereira e Filipa M. Ribeiro

As influências de África e do Mediterrâneo: escravas, mouras e judias

A escala temporal das inferências genéticas está limitada pela taxa de mutação. O facto de a taxa de mutação ser muito baixa é benéfico a nível individual porque a mutação pode ser patológica. No que diz respeito à Genética Populacional, a baixa taxa de mutação faz com que seja possível inferir, com maior segurança, um passado longínquo. É muito mais difícil elaborar conclusões seguras quanto à História recente, pois as linhagens têm de ter tempo para acumular diversidade de modo a serem datáveis. Esta limitação condiciona muito as conclusões que se podem tirar a nível genético de migrações recentes para a população portuguesa. E estas conclusões são tanto mais difíceis quanto mais próximas geneticamente são as populações de origem e de destino das migrações.

Os primeiros estudos de diversidade genética feminina na Europa pareciam apontar para uma diminuição da diversidade desde o Centro-Sudeste, primeira base das duas grandes migrações a partir do Próximo Oriente, em direcção ao Norte e Oeste. Todavia, contrariamente ao que seria esperado pela sua posição limítrofe, Portugal apresenta uma elevada diversidade genética para a componente feminina.

A percentagem de linhagens neolíticas é realmente baixa e, na componente paleolítica, uma elevadíssima percentagem é representada pelo haplogrupo H. Recentemente, mostrou-se que, longe de ser pouco diverso, este haplogrupo H tinha de facto duas linhagens recentes que surgiram na Ibéria e se expandiram para o resto da Europa após o Último Máximo Glaciar, como se referiu no capítulo 4. Contudo, a contribuir para a elevada diversidade mitocondrial de Portugal estão algumas linhagens, numa frequência mensurável, que são vestigiais no resto da Europa. Esta quase ausência no resto da Europa atesta a não contribuição da rota Centro-Sudeste para Norte e Oeste, percorridas pelos paleolíticos e neolíticos, para a sua dispersão. Isto significa que terão sido outras as migrações responsáveis pela integração destas linhagens no património genético português.

As linhagens subsarianas

Relato de um estrangeiro que visitou Évora, em 1535:

Um cavalheiro quando sai no seu cavalo leva dois escravos à frente, um terceiro transporta as rédeas, um quarto está disponível para escovar o cavalo e outros escravos levam o chapéu, a capa, os chinelos, as escovas de roupa e o pente do senhor.

(Traduzido de The Slave Trade. The history of the Atlantic slave trade 1440-1870, de Hugh Thomas)

Uma parte dessas linhagens pertence aos haplogrupos cuja distribuição está limitada à África subsariana ou a descendentes de escravos no Novo Mundo. Em Portugal continental, a frequência destas linhagens atinge 3% no Norte, 6% no Centro e 11% no Sul. Quando se compara a diversidade destas linhagens entre si, elas são muito divergentes, isto é, não se identifica qualquer linhagem que tenha rido já tempo para acumular diversidade em Portugal. Estes dados parecem apontar para uma entrada recente deste grupo de linhagens no nosso país.

A entrada de escravos subsarianos e norte-africanos na Europa está documentada desde o período romano e também durante o domínio islâmico. Para os subsarianos, porém, os números registados eram insignificantes quando comparados com os valores após os Descobrimentos. Os registos históricos relatam a vinda de escravos subsarianos para a metrópole, com a expansão quinhentista, desde 1440 até pelo menos 1761. O primeiro desembarque de escravos negros, 235 indivíduos de Arguin, na Mauritânia, traficados por portugueses, ocorreu em Lagos, em 1444.

Em 1761, Portugal foi um dos primeiros países a abolir a escravatura, apesar de continuar o tráfico de escravos para as suas colónias. A partir dessa data, foi proibida a entrada de escravos na metrópole, excepto se estes vinham com os seus «senhores» de outros pontos do império. A abolição total da escravatura efectuada por portugueses só ocorreu em 1869. A entrada de escravos em Portugal foi uma das mais elevadas para um país da Europa, tendo representado a maior fasquia nos cerca de 200 000 escravos traficados entre 1450 e 1900 para esta região do mundo. O grande grosso do aporte de escravos feito pelas potências europeias dirigiu-se para os respectivos impérios a serem formados, no Novo Mundo e nas Índias, e não para a Europa, representando aquela fracção uns meros 1,8% dos censos de 11 328 000 escravos traficados (valores que muitas outras estimativas consideram mínimos).

Em Portugal, a inusitada percentagem de escravos chegou a atingir 10% da população do Sul do País em meados do século XVI: em 1550, dos 100 000 habitantes de Lisboa, 10 000 eram escravos, e o resto do País teria cerca de 40 000 escravos residentes; em 1620, Lisboa tinha ainda 10 000 escravos, representando 6% da então população de 165 000 habitantes e, provavelmente, um décimo da população do Algarve seria de escravos. Possuir um escravo era uma marca de distinção. Os escravos desempenhavam as mais variadíssimas tarefas e profissões: desde estivadores a construtores, empregados em hospitais e mosteiros, empregados domésticos, ou meramente decorativos. É deveras curioso que a percentagem de linhagens femininas subsarianas observadas actualmente no Sul de Portugal ronde 11%.

Distribuição das linhagens mitocondriais subsarianas (cinzento-claro) e norte-africanas (cinzento-escuro) em Portugal

Os dados genéticos também são compatíveis para a maior frequência dessas linhagens em Portugal do que no resto da Europa. Só para comparação, as frequências para a Espanha rondam 1% (3% na Galiza e na Catalunha, 2% em Leão e na Andaluzia; 0% em Castela e no País Basco).

A origem dos escravos em África era essencialmente a costa oeste, com o Congo/Angola a dominar uns 23% dos 13 000 000 de escravos exportados; sendo 15% de cada um dos seguintes locais: Senegâmbia/Serra Leoa, Costa dos Escravos e Benim/Calabar; e 12% da Costa do Ouro (Ashanti). De Moçambique, único posto da costa Leste, explorado pelos Portugueses a partir de 1643 quando perderam postos importantes em Angola para os Holandeses, saíram 1 000 000 de escravos (8%). Geneticamente, é possível distinguir na maior parte dos casos a origem das linhagens femininas subsarianas entre costa oeste e costa leste. E das linhagens subsarianas observadas em Portugal, a extensa maioria tem proveniência na costa oeste, como seria de esperar.

 Frequência das linhagens U6 (valores superiores) e subsarianas (valores inferiores) nas diversas regiões da Península Ibérica (adaptado de Pereira et al., 2005)

Alguns «senhores» em Portugal libertavam os seus escra­vos quando no leito da morte. Outros seduziam os escravos, apesar de ser proibido, e libertavam as crianças resultantes, podendo mesmo legitimá-las. Contudo, tal não devia acon­tecer em todos os casos, porque a procriação das escravas chegou a ser incentivada e aproveitada em termos comer­ciais em meados do século XVI. Alguns autores afirmam que todos os tipos de relacionamento eram tidos com escravos negros, chegando algumas mulheres brancas a tê-los como amantes. Contudo, o facto é que, no património genético português, as linhagens masculinas subsarianas existem ape­nas em frequências residuais (0,5-0,7%). Se ocorreram cru­zamentos de mulher portuguesa e homem escravo, estes realizaram-se numa percentagem muitíssimo inferior ao cru­zamento oposto de homem português com mulher escrava. O enviesamento da presença de linhagens subsarianas nos patrimónios genéticos portugueses feminino e masculino deve ser o resultado de enviesamento no tipo de cruzamen­tos mistos. É de excluir como causa uma diferente propor­ção do género dos escravos trazidos para Portugal, porque tal não está registado.

A diáspora subsariana

No que diz respeito à colonização da Madeira e dos Açores, os registos históricos apontam para uma maior fre­quência de escravos na Madeira, onde a introdução da pro­dução da cana-de-açúcar se tinha revelado um sucesso. Um juiz espanhol refere, em 1518, o exemplo de uma viúva da Madeira que possuía 800 escravos. Já em 1552 (a coloni­zação da Madeira e de Porto Santo começou em 1420), 10% da população era constituída por escravos, que se foram tornando subsequentemente proprietários. Nos Açores, cuja colonização começou em 1432, feita essencialmente por migrantes de Portugal continental e da Madeira, a propor­ção de escravos nunca atingiu proporções tão elevadas.

A nível genético verificou-se que a proporção de linha­gens femininas subsarianas rondava os 13% na Madeira e uns meros 3% nos Açores. A nível do património genético masculino, as linhagens subsarianas eram residuais, como acontecia no continente.

Continua

Imagem de destaque: Peditório de Nossa Senhora da Atalaia, de Sketches of Portuguese Life, 1826.

(O Património Genético Português – A história humana preservada nos genes. Luísa Pereira e Filipa M. Ribeiro. Gradiva, 2009).

sexta-feira, 24 de julho de 2026

O Verão quente de 2026

Parece que este ano de 2026 não haverá a tão falada silly season, a estação da parvalheira política; bem pelo contrário, tudo indica que será um Verão bem divertido e quente que até o primeiro-ministro nem sequer vai a banhos, ao contrário do que aconteceu no ano passado, tendo sido fortemente criticado porque o país ardia, e nem ao futebol. A tarefa principal vai ser a de segurar os ministros contestados pela oposição e pelos cidadãos indignados devido ao que aconteceu, e ainda está a acontecer, com os exames nacionais; o caos que Montenegro nega, pelo facto de ele e “todos (estarem) focados na missão” reformista, de desmantelamento do que ainda resta do estado social e de empobrecimento de uma larga faixa dos cidadãos portugueses, incluindo a própria classe média que lhe deu a vitória nas eleições legislativas.

Os ministros contestados, almofadas protectoras de Montenegro

A extrema-direita encontra-se na primeira fila na cruzada pela demissão do ministro da Administração Interna, o governo recusa comentar o caso, com o ministro Adjunto e da Reforma do Estado a garantir que todos os ministros estão "focados na sua missão" e na reforma do estado. O líder do partido neo-fascista com representação parlamentar contra-ataca, exige a criação de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) e assedia o PR Seguro, em digressão turística por Cabo Verde, a pressionar o governo no sentido da demissão do seu inimigo de estimação, o ex-polícia que ousou desmontar a argumentação demagógica de que o hipotético aumento da criminalidade estaria ligado à imigração. O ministro do atrelado, das obras do amigo empreiteiro e da falha da declaração de rendimentos, colocou-se a jeito e será o saco de boxe em lugar de Montenegro; o mesmo acontece com o ministro, “melhor credenciado”, da Educação. O PS promete outra comissão de inquérito mas para os exames. Comissões não faltarão e já com resultados pré-anunciados, como todas as que foram criadas até hoje na “casa da democracia”.

Tem sido moda fazer sondagens a torto e a direito, com os resultados a servirem de orientação para as política quer do governo quer dos partidos. Foi assim com a mudança de posição do partido da extrema-direita em relação ao pacote laboral, é agora em relação à actuação do ministro Fernando Alexandre, ou às explicações dadas pelo ministro Luís Neves, e ao apoio aos três principais partidos em termos eleitorais, com o PS a surgir em primeiro lugar e a AD a ser atirada para o terceiro lugar. Quase de certeza que haverá remodelação do governo ainda antes do final do Verão, ou seja, em princípio de Setembro; será uma remodelação parcial atendendo aos números de ministros cuja actuação é contestada em termos populares ou de sondagens. Perdem-se os anéis para salvar os dedos, ou seja, Montenegro, que nos parece não estar neste momento interessado em provocar eleições antecipadas, embora vontade não lhe falte, já que as sondagens mostram que os eleitores querem que o mandato seja levado até ao fim.

O governo é todo ele um corpo canceroso, todo ele deve ser demitido. A ministra da Saúde ficará, está a fazer um excelente trabalho no desmantelamento do SNS e na privatização de uma grande parte dos cuidados de saúde. A ministra do Trabalho tem lugar cativo já que não desiste de fazer aprovar o pacote laboral, se não for a bem irá a mal, e tem o apoio da generalidade das associações patronais. E o ministro das Infraestruturas e Habitação estará de pedra e cal, apesar das acusações que lhe estão a ser feitas de ter beneficiado a cadeia internacional de hotéis Hilton com claro prejuízo dos bens públicos aquando vice-presidente da câmara de Cascais. E o próprio Montenegro ainda não se livrou do caso Spinumviva, a empresa que construiu para receber as luvas dos favores que fazia aos oligarcas da cor. Os estudantes em manifestação exigem a demissão do ministro, mas a palavra de ordem será a de demissão de todo o governo.

Os ministros estão "focados na sua missão" e na reforma do estado; pois estão. Embora não queiram assumir as suas responsabilidades. Quanto aos exames a culpa do caos foi atribuída aos agrafadores, aos professores, aos directores da escola e o primeiro-ministro sentenciou que “não há nenhum caos nos exames em Portugal”. No entanto, será difícil imaginar maior trapalhada e tudo acontece, e ainda vamos a meio do processo: alunos que ficam sem nota porque as provas desaparecem, alunos com a nova nota “suspenso”, provas com falta de folhas ou com folhas trocadas, perguntas mal formuladas, mais de 26 mil provas afectadas por erros, cerca de 8.900 pedidos de reapreciação de provas (+ 43% face a 2025), candidaturas ao ensino superior em queda, 45% abaixo do ano passado (14.191 contra 11.432), criada época extraordinária de exames nacionais em Setembro, etc… O ministro lá “admitiu” os erros, alguém lhe terá dito para o fazer, mas recusa alterar calendário de acesso ao ensino superior, apesar dos reitores se manifestarem disponíveis para adiar o calendário. A teimosia denota burrice e, sobretudo, que há uma missão a cumprir: dar cabo de vez com a Escola Pública, à semelhança do SNS.

Os serviços públicos são desmantelados, são destruídos, o ministro gabou-se de que a redução dos funcionários do Ministério da educação, assim como a destruição de alguns serviços essenciais e experientes, com os resultados agora conhecidos, são uma coisa boa. Pois são, e os privados agradecem. Depois de ter contratado uma empresa de amigos do partido para a criação da plataforma para a digitalização das provas, Blat - Creative Powerhouse, por ajuste directo, o ministério da educação contratou os serviços da Deloitte Technology para presumivelmente ajudar à resolução dos problemas da digitalização das provas, classificação e divulgação das notas dos exames, por um montante 701.100 euros. Quatro meses antes, outro contrato já tinha sido celebrado com a mesma empresa no valor aproximado de 1,5 milhões de euros, também ao abrigo do mesmo acordo-quadro da ESPAP (Entidade de Serviços Partilhados da Administração Pública). Tal como na saúde, fecha-se o púbico, beneficia-se o privado e o que se “poupa” entrega-se a empresas privadas, e se foram estrangeiras tanto melhor. Os dinheiros públicos são drenados para o capital, e o povo paga a dobrar. Nesta questão, como em tantas outras, o PS é igual ao PSD: «o Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) adjudicou, na última década, 11,35 milhões de euros a um conjunto de empresas através de 126 contratos registados no portal BASE».

Tirar aos trabalhadores e aos pobres para dar aos ricos

É esta drenagem, em sistema de vasos comunicantes, de riqueza produzida pelos trabalhadores, e arrecadada nos cofres públicos, para os bolsos da oligarquia e das grandes empresas estrangeiras, nomeadamente os bancos, que tem ajudado, entre outros factores, a empobrecer o povo português. O endividamento do sector público subiu 2,9 mil milhões, em Maio último, e o do setor privado aumentou ainda mais, 3,6 mil milhões, tendo o endividamento global da economia ascendido a um novo record, 883,2 mil milhões de euros. Ganha o grande capital, paga o povo. E como diz a imprensa mainstream: «dívida pública dá trambolhão, Portugal paga 9, 25 mil milhões aos credores» este ano. E a IGCP (Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública) ainda terá de reembolsar mais 5 mil milhões à troika até final do ano. Estaremos quase uma vida inteira a pagar um empréstimo que não precisávamos e que nos foi imposto por Bruxelas para salvar os principais bancos europeus que eram “demasiado grandes” para falir. Não se sabe quando acabará a escravidão da dívida soberana.

Em Portugal, a banca está de boa saúde. Os lucros sobem há cinco anos e em 2025 superaram 6,317 mil milhões de euros, batido um novo record – segundo dados fornecidos pelo Banco de Portugal. O crédito da casa atingiu os 110 mil milhões de euros no final do ano passado, aproximando-se dos níveis pré-troika, o que explica em parte o maior endividamento das famílias registado em Maio. A Brisa Concessão Rodoviária aumentou os lucros para 356,8 milhões de euros em 2025, mas, não estando contente, exige ao estado uma compensação financeira de 1.122,5 milhões de euros; quando o ramo se mostra verde carrega-se. No final de 2025, Autoridade Tributária e Aduaneira (AT) tinha 17.504 milhões de euros por cobrar, dos quais 8484 milhões dizem respeito a dívida suspensa, isto é, considerada incobrável ou de difícil recuperação. Mas a carteira global de dívida tributária é superior, atingiu 27.949 milhões de euros no final do ano passado, mais 2,6% do que em 2024. Dinheiros que ficarão nos bolsos das grandes empresas que, pelos vistos, são imunes a cobranças coercivas, ao contrário do comum dos mortais cidadãos.

Mas o grande capital é insaciável e jamais ficará satisfeito. O ministro das Finanças já deixou o aviso à populaça: a Nato/Otan exige que se cumpra a meta dos 5% do PIB em gastos com a defesa (guerra) e será necessário aumentar ou criar novos impostos. Os bancos esfregam as mãos de satisfação. E o governo acaba de contratar a aquisição de três novas fragatas, possivelmente para a pesca da sardinha, à empresa italiana Fincantieri pelo montante de 3,9 mil milhões de euros, ao abrigo do programa SAFE (Security Action for Europe); dívida que não contará para o défice público segundo Bruxelas. Mas terá de ser paga e com juros pelos mesmos de sempre. 

E quanto ao Orçamento de Estado para 2027, que o PS se prepara para aprovar a troco de algumas contrapartidas, Bruxelas já veio dizer que quer medidas “restritivas”, já sabemos que serão para a saúde, a educação, segurança social, e por aí fora, para a compra de material de guerra já não há quaisquer restrições. Não haverá imposto sobre lucros excessivos das empresas especuladores, exemplo petrolíferas, nem haverá, ao contrário do que o governo prometera e já que também não há eleições, mais descida de IRS ou suplemento às pensões. Há sim menos apoios à amamentação e à parentalidade, alegando a ministra que a despesa seria "incomportável", como se fosse ela a pagar do próprio bolso e não dos dinheiros públicos, e o Subsídio de Mérito Cultural diminuiu ou foi eliminado para muitos artistas. A cultura não é prioridade para o governo, o povo deve ser estúpido e ignorante, e se a população do país diminuir, como se prevê, cerca de 70%, não será problema, há muita gente e a eugenia é bem vinda.

Governo que não funciona ao serviço de quem trabalha deve ser extirpado

A economia está em crise, e será esta que decidirá em última estância a sorte do governo Montenegro/PSD/CDS. Exportações recuaram 0,2% e importações cresceram 3,5% até ao mês de Maio. Aproveitando o descalabro do abastecimento de água no concelho de Almada pela gestão da câmara socialista, Bruxelas anuncia que quer a água mais cara em Portugal e lança críticas à gestão dos municípios, sugerindo claramente que essa gestão deve ser entregue a empresas privadas. Para o capital tudo é mercadoria, tudo é susceptível de gerar lucro. O povo deve ser esmifrado até ao tutano e, pela lógica, não deve protestar porque a culpa é dele. E é neste sentido que todas as medidas do governo são elaboradas e postas em prática: quanto à habitação foram aprovadas medidas que facilitam os despejos e o dito “subsídio social” da renda mais não passa que um incentivo à especulação por parte dos senhorios. O governo criou um grupo de trabalho para ver da venda dos activos ainda na posse do estado, são 17 empresas cuja venda das participações será feita por 10 reis de mel coado. Os governos do PSD/CDS sempre tiveram uma febre privatizadora, mais do que o PS, talvez na proporção da avidez de enriquecimento pessoal dos seus membros constituintes. A drenagem da riqueza não poderá afrouxar.

O SNS estiola, as urgências continuam a fechar, apesar da reforma maravilhosa das urgência regionais; os partos continuam a acontecer nas ambulâncias, no entanto já não são notícia; o INEM tem falta de viaturas mas vai alugando aos privados umas poucas, a reforma recente é para isso mesmo; as pessoas esperam pelo socorro deitadas no chão por horas; o governo não quer pagar aos médicos tarefeiros nem aos médicos que fazem actos médicos fora das horas de serviço, o que por si só não deixa de ser uma vigarice inventada pelos próprios; o governo vai vender o Hospital da Cruz Vermelha, em vez de o aproveitar para cuidados continuados, por exemplo; os partos são feitos maioritariamente por cesariana, o que é mais lucrativo e exige menos investimento por parte dos privados, em vez de sala de partos há uma de pequena cirurgia; metade do Alentejo é controlado por um único grupo privado da saúde (doença), o Hospital da Luz vai distribuir pelos acionistas 44,9 milhões de euros dos 237,8 milhões de euros de reservas disponíveis para distribuir – um enorme mealheiro para os negociantes da doença.

A corrupção e o endurecimento do aparelho repressivo sobre quem trabalha evoluem. Os bairros pobres são considerados “problemáticos” pelas forças policiais. «Compilação de dezenas de zonas urbanas sensíveis (ZUS) mostra que policiamento se foca em comunidades guetizadas. Por ordem do tribunal, GNR identificou bairros. PSP esconde lista e critérios». (da imprensa). Assim como «a normalização de discursos xenófobos e o crescimento da extrema-direita estão a tornar Portugal um ambiente mais hostil, alerta o Relatório sobre o Espaço Cívico (Civic Space Report) 2026». Continuando: «Violações da privacidade dos dados, repressão policial abusiva de protestos pacíficos, falta de financiamento das organizações e aumento da extrema-direita são alguns dos alertas de um relatório sobre o espaço público português». Assim se percebe a actual sanha do partido do 4º pastorinho e dele próprio contra o ministro da Administração Interna, talvez temam não só as palavras mas alguma reforma mais democratizante das forças policiais. E para terminar não é despiciendo anotar que «13 anos depois, estado indemnizou a família de MC Snake, morto por polícia». São 110 mil euros, reparação já aprovada no último governo do PS/Costa, veio tarde mas veio; contudo, prescreveu o processo disciplinar contra o agente da PSP Nuno Rodrigues Moreira condenado por homicídio negligente. A justiça mais uma vez mostrou ser uma justiça de classe.

Os estudantes e os professores reclamam a demissão do ministro da Educação, mas a maioria do povo português exige a demissão de todo o governo, na justa medida de que é um tumor maligno que deve ser extirpado.

(Imagem: Manifestação de estudantes e professores em frente do Ministério da Educação, "Observador")

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Domenico Losurdo, a esquerda ausente e a sua perda de capacidade transformadora

Em vez de enfrentarem o capitalismo, largos sectores da esquerda refugiaram-se no idealismo abstracto, dando prioridade aos debates morais e estéticos em detrimento das necessidades materiais da classe operária.

Por Javier Guijarro

A Esquerda Ausente: Crise, Sociedade do Espetáculo, Guerra (2014) é uma das obras mais incisivas do filósofo italiano Domenico Losurdo, um texto que desvenda as contradições e os desafios da esquerda contemporânea num mundo dominado pelo espetáculo mediático e pela dinâmica do poder global. Com o seu característico rigor histórico e analítico, Losurdo examina como a esquerda perdeu a sua capacidade transformadora, presa numa dinâmica que a afasta das lutas concretas e a condena à irrelevância.

Escrito numa época de crise económica mundial e de ascensão dos movimentos reaccionários, "A Esquerda Ausente" parte de uma observação crítica: a esquerda, sobretudo a esquerda ocidental, abandonou o seu papel histórico de força de mudança social. Losurdo defende que, em vez de confrontar o capitalismo e as estruturas de poder, amplos sectores da esquerda refugiaram-se no idealismo abstracto, dando prioridade aos debates morais e estéticos em detrimento da práxis política. Esta "ausência" não é apenas ideológica, mas também estratégica, deixando um vazio que os discursos populistas e conservadores conseguiram explorar.

O livro estrutura-se em torno de três temas principais: a crise da esquerda, a influência da "sociedade do espectáculo" (termo que Losurdo vai buscar a Guy Debord) e o impacto das guerras imperialistas no panorama político mundial. Através destes temas, o autor oferece um diagnóstico implacável, mas também propõe caminhos para recuperar o potencial revolucionário da esquerda.

A crise da esquerda

Losurdo identifica várias razões para a "ausência" da esquerda. Uma delas é a sua incapacidade de adaptação às novas formas de dominação capitalista. Em vez de articular um projecto político coerente, a esquerda fragmentou-se em sectarismo e adoptou posições que rejeitam qualquer engajamento com as realidades do poder. Este purismo, segundo Losurdo, manifesta-se numa obsessão em manter a pureza ideológica, que impede alianças estratégicas ou a participação em lutas concretas.

Além disso, o autor critica a desconexão da esquerda com as classes trabalhadoras. Enquanto os movimentos populares históricos se baseavam na organização de massas, a esquerda contemporânea caiu num elitismo intelectual, mais preocupada com os debates académicos do que com as necessidades materiais da maioria. Esta negligência permitiu à direita capitalizar o descontentamento popular, como se verificou na ascensão dos movimentos populistas de direita.

A sociedade do espetáculo

Inspirado por Debord, Losurdo analisa a forma como a "sociedade do espectáculo" transformou a política num palco de representações vazias. Os media, controlados por grandes corporações, reduzem os debates políticos a narrativas simplistas e sensacionalistas, distanciando a esquerda de uma análise profunda das estruturas de poder.

Neste contexto, a esquerda sucumbiu à tentação de competir no terreno do espectáculo, adoptando estratégias de comunicação superficiais em vez de construir um discurso contra-hegemónico sólido. Losurdo aponta ainda como esta espetacularização afetou a percepção das lutas sociais. As causas políticas tornam-se produtos mediáticos, despojados do seu conteúdo transformador. Isto leva a uma esquerda que, em vez de se mobilizar, apenas reage às agendas impostas pelos governantes.

Guerra e imperialismo

Um terceiro pilar da análise de Losurdo é o papel das guerras imperialistas na reconfiguração da ordem global. O autor critica a cumplicidade, por vezes inconsciente, de sectores da esquerda com as narrativas imperialistas, sobretudo no que diz respeito a intervenções militares justificadas sob o pretexto dos "direitos humanos". Losurdo defende que esta aceitação acrítica das guerras ocidentais reflecte uma perda de perspectiva histórica e uma falha em reconhecer a forma como o imperialismo perpetua a desigualdade global.

O filósofo italiano também liga estas dinâmicas com a marginalização dos movimentos anti-imperialistas. Embora a esquerda deva estar na vanguarda da resistência contra o neocolonialismo, a sua ausência nesta arena permitiu que outras forças ocupassem este espaço, muitas vezes com resultados ambíguos.

Propostas

Apesar do tom crítico, "A Esquerda Ausente" não é um livro derrotista. Losurdo propõe que a esquerda recupere a sua capacidade de análise histórico-materialista, abandone o purismo e construa alianças amplas que respondam às necessidades concretas das classes trabalhadoras. Isto implica superar a fragmentação, reestruturar um projeto anticapitalista e anti-imperialista e retomar o contacto com as realidades sociais.

A crítica de Losurdo ao espetáculo mediático ressoa numa era dominada pelas redes sociais, onde a política é frequentemente reduzida a gestos simbólicos. A sua ênfase no anti-imperialismo convida também à reflexão sobre o papel da esquerda face aos actuais conflitos globais.

"A Esquerda Ausente" é uma obra provocadora que desafia a esquerda a olhar-se ao espelho e a confrontar as suas próprias limitações. Domenico Losurdo, com a sua erudição e empenho político, oferece uma análise que combina teoria e prática, convidando os leitores a repensar o papel da esquerda num mundo em crise.

Este livro não é apenas um diagnóstico dos males da esquerda, mas também um apelo à ação para recuperar a sua relevância histórica. Para quem procura compreender a dinâmica do poder e as possibilidades de mudança social, "A Esquerda Ausente" é uma leitura essencial.

Fonte

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Sobre o colapso moral do Ocidente

Por Andrea Zhok

Em Milão, tal como em Londres, pode construir a sociedade mais classista, gentrificada, oligárquica e excludente, ao mesmo tempo que prega gentilmente a aceitação e a inclusão.

O Ocidente é um conceito estranho, recente e espúrio. Por "Ocidente", referimo-nos, na verdade, a uma configuração cultural que emergiu com a unificação global da Europa política e, a partir de 1931, passaria a chamar-se "Commonwealth" (parte do Império Britânico).

Esta configuração atinge a sua unidade sob a bandeira do capitalismo financeiro, a partir da sua emergência hegemónica nas últimas décadas do século XX.

O Ocidente nada tem a ver com a Europa cultural, cujas raízes são greco-latinas e cristãs.

O Ocidente é a personificação de uma política de poder económico e militar que nasceu na Era dos Impérios, culminou nas duas guerras mundiais e retomou o governo global em meados da década de 1970.

Infelizmente, mesmo na Europa, a ideia de que "nós somos o Ocidente" tornou-se senso comum.

A Europa histórica, por exemplo, sempre manteve laços estruturais fundamentais com o Oriente, tanto próximo como distante (Eurásia), enquanto o Ocidente se percebe como intrinsecamente hostil ao Oriente. Assim, a Europa cultural está evidentemente em continuidade com a Rússia, enquanto que para o Ocidente, a Rússia é completamente diferente.

Esta premissa serve para ilustrar uma preocupação séria e de longo prazo que não posso conter.

A preocupação prende-se com o facto de o Ocidente, moldado pela estrutura mental e prática do capitalismo financeiro, ter desenraizado a alma dos povos europeus.

A cultura e a espiritualidade europeias, esse extraordinário florescimento que se estende de Sófocles a Beethoven, de Dante a Marx, de Tácito a Monteverdi, de Miguel Ângelo a Bach, etc., etc., são as primeiras vítimas da cultura ocidental, uma cultura utilitária, instrumental, abismalmente mesquinha, que só compreende a beleza da arte, dos territórios, das tradições se for um "activo" que pode ser transformado em "dinheiro".

Aprendemos a aceitar esta medida de cada valor como um preço, e de cada preço como uma margem de lucro.

A nossa sociedade, a nossa educação, as nossas comunidades foram forçadas a aceitar estas equivalências destrutivas. E fizeram-no porque prometeram preservar o estatuto de poder, a predominância e a hegemonia material do Ocidente sobre o resto do mundo.

Embora muitas pessoas tenham tentado, com algum sucesso, opor-se a esta desertificação, ela enraizou-se em instituições, academias e escolas. Aqueles que desejam resistir a este empobrecimento devem fazê-lo clandestinamente, como resistência individual, pagando um preço pessoal, enquanto tudo o resto — financiamento, programas, benefícios — caminha no sentido oposto.

Mas hoje chegamos ao fim da estrada, ao ponto de viragem.

A desertificação da alma pelo Ocidente moldou uma das classes dominantes moralmente mais infames da história. Antes da ascensão da mentalidade ocidental, há cerca de um século e meio, havia, sem dúvida, tiranos mais sanguinários do que os líderes ocidentais de hoje, mas nenhum modo de vida era tão cínico.

O Ocidente não mata nem extermina por ódio, conquista, convicção ou para dar o exemplo, nem sequer por um genuíno sentido de superioridade.

Não, o Ocidente mata porque é cada vez mais difícil perceber a distinção de valor entre a vida e a morte como relevante. Porque é, na sua essência, uma cultura de morte no sentido fundamental de que não reconhece uma diferença essencial de valor entre a vitalidade de uma conta bancária e a de uma criança, entre a de um algoritmo e a de um cãozinho.

O Ocidente de hoje, cujo paradigma são actualmente as classes dominantes americana e israelita, mas igualmente bem representado pela imundície servil que fala em nome da União Europeia, está a atingir níveis de abjecção antes raramente vistos.

Já não se trata de "duplo padrão".

É um compromisso diário com a mentira ilimitada, com a aceitação franca de que cada declaração, cada palavra, cada pensamento só conta pelos efeitos que pode produzir em termos de poder monetário.

Pode dizer qualquer coisa e o oposto de tudo. Pode negar as provas e depois negar que as negou. As promessas e os tratados podem ser quebrados.

Pode conduzir uma negociação e, entretanto, tentar matar a pessoa com quem estava a negociar e, depois, protestar com seriedade, dizendo que a outra pessoa não quer negociar mais.

As informações oficiais podem ser manipuladas 24 horas por dia, 7 dias por semana, e depois podem ser exigidas punições exemplares para contrariar o poder manipulador da cabeleireira Pina nas redes sociais.

Em Milão, tal como em Londres, pode construir a sociedade mais classista, gentrificada, oligárquica e excludente, ao mesmo tempo que prega gentilmente a aceitação e a inclusão.

Pode assistir ao genocídio em direto no palco mundial durante dois anos e explicar que é autodefesa.

Etc. etc.

Bem, o meu problema, para além do desgosto com tudo o que está a acontecer, é a consciência de que não conseguiremos escapar à condenação histórica desta obscenidade espiritual.

Participaremos mesmo que não tenhamos aprovado nada pessoalmente, mesmo que tenhamos contestado de todas as formas possíveis.

Vamos envolver-nos porque essa depravação é o Ocidente, e nós aceitamos esse rótulo. Aprendemos a considerar-nos ocidentais, e o mundo percebe-nos como tal.

Quando tivermos de pagar a conta de sete oitavos do planeta — e que ninguém se iluda a pensar que isso não vai acontecer — será incrivelmente difícil, talvez impossível, explicar que a grande cultura europeia milenar nada tem em comum com o deserto niilista do Ocidente contemporâneo.

Tal como no período imediatamente a seguir à Segunda Guerra Mundial muitas pessoas não conseguiam ouvir alemão — a língua de Goethe e Mozart — sem sentir repulsa (alguns dos menos jovens certamente se lembrarão disso), assim também, embora de uma forma muito mais radical, isso acontecerá com tudo o que cheire, certo ou errado, ao Ocidente.

Afinal, se estudar Dante, Cervantes ou Shakespeare nos levou a duas guerras mundiais e depois ao niilismo absoluto, que lição deveria o mundo aprender desta tradição?

Este raciocínio, na sua crueza, pode parecer-nos irracional apenas porque estamos habituados a ser sempre aqueles que julgam e nunca aqueles que são julgados.

Perder a hegemonia global é agora fatal e, longe de ser um problema, será uma bênção.

Mas a perda de respeito e compreensão por tudo o que definiu a longa história da Europa já ocorreu, em parte devido à regressão interna, e o golpe final poderá ser desferido em breve. Perder a alma é muito mais grave do que perder o poder.

ariannaeditrice.it 

terça-feira, 7 de julho de 2026

O país arde, caos nos exames, saúde desfalece e o Luís vai à bola

Quando o país está em dificuldades, incêndios quase descontrolados, este ano a área ardida atinge já os 30 mil e 155 hectares, com 4 mil e 592 incêndios registados até agora, o pior segundo ano da década e ainda nos encontramos no princípio do Verão, o primeiro-ministro Montenegro vai ver o futebol ao Canadá, para dar sorte à selecção “nacional portuguesa”, como dizem os jornalistas avençados, e fazer do futebol (um dos 3 f’s de Salazar) um meio de se promover a ele e ao governo. Faz lembrar outra ocasião semelhante ocorrida no ano passado, o país ardia de lés-a-lés e o chefe do governo encontrava-se na festa do partido no Pontal, Algarve. Mas não só o país está a ser destruído pelos fogos rurais, a escola pública vai queimando lentamente com o caos da correção do exames nacionais, que este ano o ministro da tutela, o mais habilitado para o cargo segundo outras doutas opiniões, entendeu que as provas deveriam ser digitalizadas por uma empresa contratada por ajuste directo e cuja identidade teima em esconder – a culpa do atraso das correcções é dos professores e se algum cidadão se sentir prejudicado que reclame que o “estado irá ressarcir”. Assim vai o estado do país e do governo, que urge ser demitido, mergulhado no calor dos incêndios criminosos, na confusão e na incompetência. Como aconteceu com a discussão e votação do “pacote laboral”, o Luís esteve ausente em Bruxelas, porque sabia que o chumbo era mais do que certo, agora o Luís vai à bola (por três vezes) e não está cá.

Quando o país arde, caos na Escola Pública e liquidação do SNS

Em relação ao atraso da correcção dos exames, que poderá vir a ser o caso do ano devido á inépcia do governo, tudo tem acontecido. Ao contrário da promessa do ministro da Educação, ainda há professores à espera de provas e com problemas na plataforma de classificação; amanhã a plataforma estará fora de serviço. As datas para afixação dos resultados das provas e dos exames da segunda fase foram adiadas. O ministro teima em esconder a entidade responsável pelo sistema digital, sabendo-se que este negócio rende às empresas privadas contratadas por ajuste directo mais de sete milhões de euros – deve-se perguntar quais serão as comissões e quem as recebe? Mais de 5 mil pais já assinaram petição para anular exames nacionais e o ministro foge quando um grupo de pais se aproxima a fim de saber quais as causas e medidas para resolver a questão. São as provas enfiadas em envelopes amontoadas em prateleiras em armazém, denotando o desprezo do governo para com os alunos da escola pública. E de forma displicente, o ministro ainda tem a lata de afirmar que "se família demonstrar que houve prejuízo, o Estado deve ressarcir". O “Estado”, neste caso, são os dinheiros públicos de todos nós, se houver alguém que tiver de ressarcir que seja ele e o governo a que pertence. O ministro não serve pela simples razão de que todo o governo não presta.

O que se passa com a falta de água no concelho de Almada é bem revelador da política praticada em muitas autarquias deste país; neste concelho é protagonizada pelo PS, poderia ser pelo PSD. E diz um pouco também da situação do SNS: “Centro de Saúde da Costa da Caparica fechou hoje por falta de água”. Ao mesmo tempo, a ministra da saúde, ou melhor, a comissária política para a liquidação do SNS diz ser "muito difícil" manter atual rede de 168 urgências do país, e mais ainda, hospitais com urgências fechadas vão sofrer cortes no financiamento. Enquanto fecha o público prolifera o privado, incluindo a medicina curativa tipo banha da cobra: há 54 clínicas a promover-se como “medicina integrativa” sem qualquer controlo do estado e já ganharam mais de um milhão de euros em fundos europeus. Quanto às PPP para ULS, os privados, conhecendo as fragilidades do SNS, esticam a corda, a Lusíadas Saúde admite nova PPP só com modelo melhorado, ou seja, com mais dinheiro. As farmácias vão receber 7,9 milhões de euros por participarem na vacinação contra gripe e covid-19. O SNS fechou 2025 com mais utentes, mais pessoas sem médico de família e défice acima de mil milhões – que novidade, é tirar do público para dar ao privado!

Um momento de viragem para a pobreza

Diz o chefe da bancada parlamentar do PSD que o país vive "um momento de viragem", viragem miraculosa, mas virtual, no seu débil entendimento, porque o país real, o que trabalha e não o que defende acerrimamente a reforma laboral, está bem pior. Quatro em cada dez portugueses dizem que o custo de vida para as famílias está pior do que há um ano e 63% acreditam que continuará a piorar até ao final do ano. Se o número de milionários (o país do governo) cresceu em Portugal em 2025, o cidadão português mediano está a empobrecer continuamente desde a pandemia, 2020. Portugal reflecte o que se passa a nível mundial, onde apenas 1,5% da população controla quase metade do património global, ao mesmo tempo que a riqueza mediana recuou na maioria dos países. Indubitavelmente, que o povo português está mais pobre e os ricos cada vez mais ricos. É disto que o governo e Hugo Soares, para quem Montenegro é o “amuleto da sorte”, podem gabar-se.

Montenegro garante que “Portugal está a construir um modelo de baixos impostos”, mas para as grandes empresas e especuladores financeiros. Soube-se que “as transferências de capitais de clientes com contas bancárias em Portugal para instituições financeiras localizadas em paraísos fiscais aumentaram 16,4% (1.325 milhões de euros) em 2025, para 9.400 milhões de euros, com a Suíça como primeiro destino dos fluxos, segundo estatísticas do fisco” (da imprensa). Foram 9.629 pessoas em nome individual e 8.615 empresas e outras pessoas coletivas que expatriaram riqueza produzida pelo povo trabalhador em Portugal, não foram reinvestidos cá e nem terão pagado os impostos devidos, relembrar que muitas empresas nacionais possuem a sede em outros pontos da União Europeia. Há livre circulação de capitais, de pessoas, incluindo trabalhadores, é que não. Estamos na Europa do capital, não é também por acaso que os “portugueses são os segundos mais pessimistas na União Europeia com evolução da qualidade de vida - Eurobarómetro”.

Enquanto o Fórum BCE chega à conclusão de que a “imigração traz mais produtividade às economias”, melhor dizendo, Portugal continuará a ser um país com base em baixos salários (e baixos impostos para o Capital, segundo Montenegro), os preços das casas disparam 17,8% só num ano. Pela lógica, os salários deveriam ter um aumento semelhante no mesmo período de tempo, mas não é o que acontece, o fluir da riqueza faz-se sempre do Trabalho para o Capital. Enquanto os novos ricos compram 146 carros de luxo por dia, a Porsche foi a marca de luxo mais vendida em Junho, com 85 automóveis matriculados, dados de Junho da ACAP, o “PIB per capita em paridades de poder de compra (PPC) de Portugal em percentagem da União Europeia (UE) é de 77,0% da UE em 2025, surgindo assim na 22ª posição” (da imprensa). Bastante abaixo dos 81,3% nos dados originais da Comissão Europeia (CE), valores corrigidos por estudo de 2025 da FEP Faculdade de Economia e Gestão da Universidade do Porto. Ou seja, há uma grande fraude quanto à “convergência portuguesa”, somos o 6º país mais pobre da UE.

Governo de Montenegro/PSD/CDS agente de negócios do Capital

Em Maio, a dívida pública aumenta para 288,7 mil milhões, segundo o Banco de Portugal, crescimento em parte graças á burguesia rentista que vive dos negócios com o estado. O presidente da Associação Portuguesa das Concessionárias de Autoestradas e Pontes, Manuel Melo Ramos, não esteve com meias palavras: “Já chega de abolições de portagens, senão vamos dar cabo do sistema”. Vale dar cabo dos dinheiros públicos é a lógica desta gente, que não quer ver os privilégios e os lucros tocados. Esta burguesia ociosa fica bem representada, por exemplo, na família Berardo: o comendador confrontado em sede da comissão parlamentar de inquérito com as dívidas à CGD, ao BCP e ao então Banco Espírito Santo, que ascendiam a 1 mil e 027 milhões de euros, declarou que não tinha dívidas e apenas possuía em seu nome uma garagem, agora soube-se que a mulher faleceu deixando uma fortuna de 140 milhões de euros que serão herdados pelos filhos e netos. Mais palavras para quê, é uma família portuguesa!

No mesmo sentido se deve entender a privatização da CP, depois do governo do PS ter investido 1,8 mil milhões de euros na aquisição de novos comboios - CP “fatiada” em quatro: Governo prepara subconcessão de linhas suburbanas. Cascais, Sintra-Azambuja, Sado e o conjunto das linhas suburbanas do Porto deverão ser exploradas por privados, mas sob a marca CP (da imprensa). Quanto à TAP, tudo indica que será a alemã Lufthansa a ficar com o bolo por inteiro, tendo já iniciado a construção de uma fábrica em Santa Maria da Feira. Para quem tivesse ainda algumas dúvidas, o antigo chairman da transportadora aérea, Miguel Frasquilho, é claro: "a TAP é uma empresa apetecível, vai trazer valor a quem se tornar acionista". Se não fosse “apetecível”, ou seja, geradora de grandes e garantidos lucros ficaria na posse do estado. O PSD nunca conseguiu esconder a sua febre privatizadora, lembremo-nos do governo de Passos Coelho que foi “além da Troika”. A seguir será a Segurança Social (SS) a ser entregue aos privados, bancos, seguradoras, fundos de investimento, de preferência estrangeiros. A ministra do Capital (não do Trabalho), que não desiste do “pacote laboral”, dará a conhecer o relatório para a sustentabilidade da SS dentro em breve.

Quando o governo e os bombeiros falham, é o povo que toma a iniciativa no combate aos incêndios.

Vários ministros já mostraram sobejamente que são uma fraude, da Saúde, do Trabalho, da Educação, pela simples razão de que o governo que integram também é uma fraude – um engano onde muitos eleitores portugueses caíram, mas caíram porque quiseram, os avisos eram muitos e visíveis – e liderado por um político sempre de riso sardónico para encobrir uma grande falta de seriedade e de coragem política. Este governo terá se ser demitido, nem que seja para bem da saúde pública do povo português. O PR Seguro terá alguma coisa a dizer sobre a urgência do assunto ou os trabalhadores terão de vir de novo para a rua?

Imagem de destaque: na net

segunda-feira, 29 de junho de 2026

O governo da demência

 

Giorgio Agamben

Como explicar o facto — aparentemente verdadeiramente inexplicável — de a nação que até há pouco tempo dominava o mundo ter sido, na última década, e continuar a ser governada por um presidente tecnicamente demente? Talvez a única resposta possível seja a de que os Estados Unidos se encontram numa situação histórica para a qual apenas a demência é adequada. Quando um país atinge o estádio final de desintegração espiritual, as decisões racionais para enfrentar a crise já não estão ao seu alcance. Resta apenas acelerar o colapso — agora inevitável — por quaisquer meios necessários, e a demência, seja ela real ou fingida, é certamente o instrumento de governo mais adequado a este fim.

Como súbdita leal dos Estados Unidos, a Europa também se está a autodestruir e, tal como o seu senhor, parece estar a mergulhar na demência. Resta saber, nos próximos anos, se certos Estados europeus conseguirão parar à beira do abismo ou se mergulharão nele juntamente com aquela entidade deplorável e ilegítima conhecida como Comunidade Europeia.

15 de junho de 2026

*

A Gramática do Ocidente

Num ensaio de 1942, Louis Renou afirmou que "na base do pensamento indiano residem linhas de raciocínio de natureza gramatical". As três categorias em que a filosofia indiana divide toda a realidade — substância, qualidade e ação — derivam, indiscutivelmente, da análise gramatical da linguagem: substantivo, adjetivo e verbo. De facto, a gramática do sânscrito de Pāini e o comentário de Patañjali são anteriores à maioria dos textos filosóficos indianos.

Poder-se-á perguntar até que ponto isto se aplica também à filosofia grega que fundamenta a nossa própria cultura. Esta hipótese parece entrar em conflito com a tradição que atribui a descoberta das classes gramaticais — e, consequentemente, a invenção da gramática — a Platão e Aristóteles. No entanto, este conflito aparente dissipa-se e desaparece assim que compreendemos a implicação: a de que, para se tornarem filósofos, Platão e Aristóteles tiveram, antes, de ser gramáticos.

Do início ao fim, o Ocidente é uma civilização gramatical; fez da análise da língua — e da sua estruturação numa gramática — o fundamento do seu conhecimento do mundo e do seu domínio sobre a natureza. A ciência, que se tornou a religião do Ocidente, pressupõe — como qualquer religião — um mundo nomeado no qual a ontologia (o facto de o ser ser articulado e ordenado através da linguagem) se divide em regiões distintas, cada uma abordada por um ramo específico da ciência. Por outras palavras, o destino do Ocidente inscreve-se na gramática indo-europeia — com os seus casos e as ligações lógico-sintácticas de dependência hierárquica através das quais articula o seu pensamento juntamente com a sua linguagem. É por isso que — talvez ao voltarmos o olhar para a China, uma cultura que não analisou nem estruturou a sua linguagem numa gramática, mas que a vê como uma série de monossílabos desprovidos de articulação gramatical — possamos encontrar não necessariamente um novo modo de pensamento, mas pelo menos uma saída para o destino sombrio a que a análise lógica da linguagem (ensinada a nós na escola primária, e não sem razão) nos condenou irremediavelmente, tudo isto sem que sequer nos apercebêssemos.

20 de abril de 2026

Imagem: Rapto de Europa por Zeus disfarçado de touro pintura mural de Pompeia

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