Estamos no vigésimo primeiro (21º) dia de
manifestações e de protestos pela defesa do direito à habitação e contra a
carestia de vida em Portugal. Começaram com a acampada no Porto e uma semana
depois estenderam-se à capital e às principais cidades do país, incluindo as
ilhas da Madeira e dos Açores – este alargamento dos protestos e da revolta, inicialmente
por parte maioritariamente dos jovens e posteriormente de largos sectores do
povo, e a sua persistência provocam o pânico entre o governo e a oligarquia que
este representa. Razão pela qual o governo de Montenegro/PSD recorreu
apressadamente ao uso do bastão mal o descontentamento despontou na rua. A
oligarquia tem um pavor de morte ao povo na rua.
O movimento pelo direito à habitação não
começou agora
Este movimento não começa nestes últimos dias
e não pode ser considerado um mero contágio de algo semelhante que está a
acontecer por essa Europa fora, Espanha, França, Grécia, Itália, Albânia, Alemanha,
mas um fenómeno social com raízes profundas no país, sintoma de uma realidade bem
sentida por grande parte do povo trabalhador. Relembrar que a primeira grande
manifestação nacional pelo direito à habitação em Portugal, promovida pelo
movimento “Casa para Viver”, realizou-se no primeiro dia de Abril de 2023, ainda
em governo de maioria absoluta do PS e chefiado por António Costa. Governo que
não revogou a Lei “Cristas” (Lei n.º 31/2012) que desregulou o mercado da
habitação e que agora, com Montenegro/PSD, será continuada com a nova lei,
conhecida já pela “lei dos despejos”, caso venha a ser aprovada. PS e PSD são
as duas faces da miséria do povo português.
Enquanto os governos do PS usam mais o
instrumento da cenoura para desmobilizar e comprar a paz social, o PSD é mais
impaciente e recorre de imediato à repressão pura e dura. É o que tem
acontecido desde o primeiro dia da luta pelo direito à habitação, não hesitou
em recorrer a uma lei de 1974 (Decreto-Lei n.º 406/74, de 29 de Agosto) criada
logo após o 25 de Abril para prevenir as então apelidadas greves e
manifestações “selvagens”, que pudessem colocar em perigo a nova ordem que se estava
a iniciar – havia o temor de os trabalhadores na rua exigissem não uma democracia
de aparência, mas um regime socialista onde quem trabalha decide dos seus
destinos. Relembrar que a PIDE foi extinta por exigência do povo na rua e não
por intenção programática do MFA. O PSD no governo já se pode ufanar da PSP ter
provocado mais de cinco dezenas de feridos, alguns com alguma gravidade, e
cerca de uma centena de detidos, que o Ministério Público tem medo de acusar e
levar a julgamento, porque corre o risco de ser ele próprio o condenado.
A oligarquia está em pânico
As forças policiais têm actuado abertamente
contra a lei da Constituição da República, cingem-se a uma lei claramente
anti-constitucional, que o PGR recusa levar ao escrutínio do Tribunal Constitucional,
ele lá sabe porquê, e apenas aconselha que a lei seja revista em sede do
Parlamento. Se a lei de 1974 não está ferida de alguma inconstitucionalidade,
qual a razão de ser levada ao juízo parlamentar? Os próprios agentes polícias
têm medo do povo, por que razão actuam com o rosto coberto, se a “lei das burcas”
até proíbe tal indumentária, e não andam identificados, como recomenda a
própria IGAI? A sanha repressiva policial tem feito com que os protestos sejam
agora contra as próprias polícias e tenham aumentado de dimensão e de
determinação. Por que é que o primeiro-ministro Montenegro andou escondido mais
de uma semana, mandando os moleques Bugalho e Amaro vir a público dar satisfações
perante os media e o povo português?
Para defender o chefe, saltou para o palco o
ministro ex-director da PJ, tão contestado pela extrema-direita pelas
ilegalidades cometidas enquanto polícia, disponibilizando-se a servir de
almofada protectora de Montenegro. Assumiu a responsabilidade de ter ordenado à
polícia carregar sobre os manifestantes pacíficos e ordeiros, embora
diabolizados quer por governo que pelos media mainstream, depois de afirmar que
não viu repressão, somente “um bastão”; mais tarde reconhece que não teria sido
exacto nas palavras. Esta gente, ministros e polícias devem sofrer de alguma
fobia ou psicose, odeiam tendas, apesar de terem sido usadas pelos próprios polícias
nas suas reivindicações, não gostam de jovens, tenham ou não piercings ou
cabelo pintado de azul ou laranja, perseguem-nos depois de dispersarem, como
aconteceu com alguns manifestantes que foram seguidos do Rossio até à Graça, em
Lisboa. Nesta gente parece que há raiva e ódio contra o povo que trabalha, espancam
por impulso e prazer. A pedagogia de que fala o ministro Neves é a do bastão.
Enquanto os polícias andavam a correr atrás dos
jovens, o presidente da república Seguro, mas pelos vistos pouco seguro,
manteve um prudente silêncio e só depois de um coro lhe ir cantar à porta é que
resolveu vir a público tentar justificar-se da sua mudez. Não convenceu, foi um
discurso redondo, semelhante à figura, melhor estivesse calado e usasse colocar
o dedo no nariz de Montenegro. Convocou especialistas e construtores, senhorios
e inquilinos, os partidos com assento parlamentar e terá chegado á conclusão
que ninguém se entende e se há culpa não é dele porque não tem as funções executivas
ou legislativas. Em conclusão, não o aborreçam. Perante esta posição
gelatinosa, a PSP não esteve de modas e publicou um vídeo nas redes sociais para
justificar que a intervenção foi adequada e proporcional, colocando assim em
causa a afirmação presidencial de “não gostei do que vi”. Seguro deveria não
gostar é do que não faz e devia actuar segundo as expectativas de muitos
portugueses que nele votaram. Mais de um milhar de juristas e trabalhadores da
justiça já se pronunciaram, contra brutalidade policial e em defesa do direito
à manifestação e das liberdades democráticas, em carta dirigida à Presidência
da República.
A luta pela habitação, contra a carestia de
vida e a guerra é global
Na Europa ocidental os protestos são contra a
carestia de vida, o preço incomportável dos combustíveis, a habitação
inacessível à grande maioria dos jovens, que sentem o seu futuro hipotecado, e a
grande parte dos trabalhadores assalariados, idosos e pobres. E, cada vez mais,
contra a guerra. O apoio dos governos dos países da Nato e da União Europeia à
guerra na Ucrânia, o desvio de muitos milhares de milhões de euros da saúde,
educação, segurança social, serviços públicos em geral, para a indústria do
armamento, intensificou os protestos e a revolta. Disseminou-os e, mais cedo ou
mais tarde, irão derrubar esses governos da austeridade, do militarismo e da
guerra. O governo de Montenegro/PSD/CDS não será excepção, não chegará ao fim
do mandato. Não consegue, nem conseguirá, explicar aos cidadãos os cortes
orçamentais na saúde (porque metade será para pagar serviços aos privados), na
educação e na cultura e os milhões que destina para a guerra – este ano serão
230 milhões de euros para a clique corrupta instalada em Kiev. Mas se há
dinheiro para a guerra contra a Rússia, entretanto falta para a habitação para
o povo.
Montenegro tem o desplante de afirmar que a “habitação
não se constrói num estalar de dedos”. No entanto, o investimento em habitação
pública vai cair para 0,3% do PIB após o PRR, sabendo-se que só 2% da habitação
é do domínio público em Portugal, a percentagem mais baixa de toda a União
Europeia. Ficou-se a saber que a fatia do imobiliário na mão dos 10% mais ricos
subiu para 40%, uma subida de cerca de 15% em 15 anos, enquanto a da metade
mais pobre caiu quase um quarto. E também se soube que os políticos que estão a
mudar leis do arrendamento são donos de mais de mil imóveis. São os membros do
Governo e os deputados do PSD, Chega, IL e CDS-PP que detêm 1039 imóveis.
Vários são senhorios, outros são investidores do sector imobiliário, com
participações em dezenas de empresas. Quase 13% dos contribuintes, ou seja,
cerca de 800 mil são senhorios, constatando-se assim que o desenvolvimento económico
do país se baseou na construção civil, e não nos sectores produtivos da
indústria e da agricultura, fazendo proliferar a corrupção e o nepotismo. Parte
da classe dominante e até da própria classe media é rentista, vive
essencialmente da renda. O país estagnou dentro da União Europeia, com a agravante
de ter sido obrigado a adoptar o marco alemão como moeda, embora com outra
denominação.
Portugal foi o país da UE onde os preços das
casas mais subiram desde 2020, entre 2020 e 2025 houve um aumento de 41,5% nos
preços da habitação, o maior incremento entre os 18 países da União Europeia
que apresentaram subidas. E tanto o governo como as câmaras municipais pouco ou
nada fizeram para contrair esta tendência, bem pelo contrário. Por exemplo, a câmara
de Lisboa vai alienar dez fogos, em Dezembro, e deverá arrecadar quase 60
milhões de euros, imóveis esses que poderiam dar 500 casas para o povo. A especulação
é para continuar, o mercado é para os imigrantes endinheirados, para os bancos
ou para os fundos de investimento e não para quem trabalha ou para os jovens. Estes
não têm dinheiro para rendas “moderadas” de 2300 euros, nem para apartamentos a
5 mil euros o metro quadrado, porque a realidade se impõe: a dívida das
famílias, empresas e Estado subiu para 893 mil milhões, no passado mês de Agosto.
Diz o o Luís, mas o Neves, a “falta de habitação toca a todos”. Mas com
excepção dos ministros, de muitos deputados e dos especuladores, esqueceu-se de
dizer.
A crise económica fará colapsar a União
Europeia
A economia de mercado encontra-se em crise
profunda na União Europeia, daí a necessidade guerra para restabelecer o equilíbrio
dos lucros. Com a guerra combate-se o desemprego, a contestação social e muito
haverá para reconstruir, fazendo exponenciar a acumulação capitalista e os
lucros dos banqueiros. O PIB da Zona Euro abrandou para 0,4% no terceiro
trimestre e Portugal ficou abaixo da média. A economia nacional trava a fundo
no terceiro trimestre ao crescer 0,2%. A inflação acelera em Outubro pelo
terceiro mês consecutivo para 3,8%, a variação mais alta de aumento dos preços
desde Maio de 2023. As poupanças das famílias recuam para amortecer aumento do
custo de vida. E o ministro da Economia reconhece o "enorme atraso"
no rendimento dos portugueses, não dizendo que ele, o seu governo e o partido
são também responsáveis pelo facto. Nos primeiros dez meses deste ano, pelo
menos 1200 famílias foram despejadas. A Critical Software, empresa modelo
de Coimbra, deverá terminar 2026 com menos 200 trabalhadores do que no início
do ano, uma redução de 13%, e para o ano prevê mais redução do quadro de
pessoal devido ao impacto da inteligência artificial. No entanto, a Galp
alcança lucros recorde de 1.494 milhões de euros até Setembro, cerca de mais 300
milhões do que em todo o ano passado. E a milionária ministra do Trabalho, com
um riqueza declarada de mais de 5 milhões de euros, considera que o aumento de
50 euros no salário mínimo nacional até será muito, atendendo ao país em que
vivemos.
Com os ricos a ficaram cada vez mais ricos e
os pobres mais pobres, a justiça junta-se à festa das desigualdades sociais. Passados
18 anos desde a falência fraudulenta do BPN e depois do processo ter estado a aboborar
mais de 2 anos no tribunal, a dita “Justiça” considera a prescrição de todos os
factos e arquiva o processo contra Arlindo de Carvalho, ex-ministro da Saúde de
Cavaco Silva, e do resto da quadrilha. O povo português ainda está a pagar o
prejuízo que vai em 5,9 mil milhões de euros, segundo estimativa do Tribunal de
Contas, mas que na realidade andará pelo dobro dessa quantia. Relembrar que o
ex-ministro livrou-se de seis anos de prisão em troca de ter pagado ao estado
uma indemnização que terá sido cerca de um terço dos 60 milhões de euros que
meteu ao bolso. E em processo mais recente, o oligarca dos barcos do Douro foi
absolvido da acusação de fraude fiscal qualificada na venda do navio Atlântida
a empresa maltesa, embora o juiz não tenha acreditado que o dito “empresário”
não soubesse de benefícios fiscais de Malta e quase de certeza que o negócio
terá sido simulado. Viva o 25 de Abril que, pelos factos, não foi feito para os
trabalhadores e o povo português!
A situação da maioria do povo é de tal maneira calamitosa que, em recente sondagem feita pela SIC/Expresso, 90% dos eleitores que confiaram em Montenegro não encontram melhorias no resultado da governação. A habitação e o custo de vida, por exemplo, pioraram para 97% dos portugueses que se deixaram enganar. Assim, o PS está à frente de Chega e AD, com 23% de intenções diretas de voto, dois pontos percentuais acima do Chega, e três acima da AD. E a procissão do agravamento das condições de vida ainda vai no adro, bem como a contestação social a esta política celerada. Mais manifestações acontecerão, assim como mais greves, e greves gerais, que poderão acontecer em coordenação com os trabalhadores e os povos de Espanha, apesar da relutância dos sindicatos nacionais e nacionalistas que ainda vêm com alguma relutância o exercício do internacionalismo proletário. A União Europeia teve o condão de, ao mesmo tempo que generaliza as suas políticas de austeridade e de belicismo, espalha pelos povos europeus as lutas que a farão colapsar.
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