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terça-feira, 7 de julho de 2026

O país arde, caos nos exames, saúde desfalece e o Luís vai à bola

Quando o país está em dificuldades, incêndios quase descontrolados, este ano a área ardida atinge já os 30 mil e 155 hectares, com 4 mil e 592 incêndios registados até agora, o pior segundo ano da década e ainda nos encontramos no princípio do Verão, o primeiro-ministro Montenegro vai ver o futebol ao Canadá, para dar sorte à selecção “nacional portuguesa”, como dizem os jornalistas avençados, e fazer do futebol (um dos 3 f’s de Salazar) um meio de se promover a ele e ao governo. Faz lembrar outra ocasião semelhante ocorrida no ano passado, o país ardia de lés-a-lés e o chefe do governo encontrava-se na festa do partido no Pontal, Algarve. Mas não só o país está a ser destruído pelos fogos rurais, a escola pública vai queimando lentamente com o caos da correção do exames nacionais, que este ano o ministro da tutela, o mais habilitado para o cargo segundo outras doutas opiniões, entendeu que as provas deveriam ser digitalizadas por uma empresa contratada por ajuste directo e cuja identidade teima em esconder – a culpa do atraso das correcções é dos professores e se algum cidadão se sentir prejudicado que reclame que o “estado irá ressarcir”. Assim vai o estado do país e do governo, que urge ser demitido, mergulhado no calor dos incêndios criminosos, na confusão e na incompetência. Como aconteceu com a discussão e votação do “pacote laboral”, o Luís esteve ausente em Bruxelas, porque sabia que o chumbo era mais do que certo, agora o Luís vai à bola (por três vezes) e não está cá.

Quando o país arde, caos na Escola Pública e liquidação do SNS

Em relação ao atraso da correcção dos exames, que poderá vir a ser o caso do ano devido á inépcia do governo, tudo tem acontecido. Ao contrário da promessa do ministro da Educação, ainda há professores à espera de provas e com problemas na plataforma de classificação; amanhã a plataforma estará fora de serviço. As datas para afixação dos resultados das provas e dos exames da segunda fase foram adiadas. O ministro teima em esconder a entidade responsável pelo sistema digital, sabendo-se que este negócio rende às empresas privadas contratadas por ajuste directo mais de sete milhões de euros – deve-se perguntar quais serão as comissões e quem as recebe? Mais de 5 mil pais já assinaram petição para anular exames nacionais e o ministro foge quando um grupo de pais se aproxima a fim de saber quais as causas e medidas para resolver a questão. São as provas enfiadas em envelopes amontoadas em prateleiras em armazém, denotando o desprezo do governo para com os alunos da escola pública. E de forma displicente, o ministro ainda tem a lata de afirmar que "se família demonstrar que houve prejuízo, o Estado deve ressarcir". O “Estado”, neste caso, são os dinheiros públicos de todos nós, se houver alguém que tiver de ressarcir que seja ele e o governo a que pertence. O ministro não serve pela simples razão de que todo o governo não presta.

O que se passa com a falta de água no concelho de Almada é bem revelador da política praticada em muitas autarquias deste país; neste concelho é protagonizada pelo PS, poderia ser pelo PSD. E diz um pouco também da situação do SNS: “Centro de Saúde da Costa da Caparica fechou hoje por falta de água”. Ao mesmo tempo, a ministra da saúde, ou melhor, a comissária política para a liquidação do SNS diz ser "muito difícil" manter atual rede de 168 urgências do país, e mais ainda, hospitais com urgências fechadas vão sofrer cortes no financiamento. Enquanto fecha o público prolifera o privado, incluindo a medicina curativa tipo banha da cobra: há 54 clínicas a promover-se como “medicina integrativa” sem qualquer controlo do estado e já ganharam mais de um milhão de euros em fundos europeus. Quanto às PPP para ULS, os privados, conhecendo as fragilidades do SNS, esticam a corda, a Lusíadas Saúde admite nova PPP só com modelo melhorado, ou seja, com mais dinheiro. As farmácias vão receber 7,9 milhões de euros por participarem na vacinação contra gripe e covid-19. O SNS fechou 2025 com mais utentes, mais pessoas sem médico de família e défice acima de mil milhões – que novidade, é tirar do público para dar ao privado!

Um momento de viragem para a pobreza

Diz o chefe da bancada parlamentar do PSD que o país vive "um momento de viragem", viragem miraculosa, mas virtual, no seu débil entendimento, porque o país real, o que trabalha e não o que defende acerrimamente a reforma laboral, está bem pior. Quatro em cada dez portugueses dizem que o custo de vida para as famílias está pior do que há um ano e 63% acreditam que continuará a piorar até ao final do ano. Se o número de milionários (o país do governo) cresceu em Portugal em 2025, o cidadão português mediano está a empobrecer continuamente desde a pandemia, 2020. Portugal reflecte o que se passa a nível mundial, onde apenas 1,5% da população controla quase metade do património global, ao mesmo tempo que a riqueza mediana recuou na maioria dos países. Indubitavelmente, que o povo português está mais pobre e os ricos cada vez mais ricos. É disto que o governo e Hugo Soares, para quem Montenegro é o “amuleto da sorte”, podem gabar-se.

Montenegro garante que “Portugal está a construir um modelo de baixos impostos”, mas para as grandes empresas e especuladores financeiros. Soube-se que “as transferências de capitais de clientes com contas bancárias em Portugal para instituições financeiras localizadas em paraísos fiscais aumentaram 16,4% (1.325 milhões de euros) em 2025, para 9.400 milhões de euros, com a Suíça como primeiro destino dos fluxos, segundo estatísticas do fisco” (da imprensa). Foram 9.629 pessoas em nome individual e 8.615 empresas e outras pessoas coletivas que expatriaram riqueza produzida pelo povo trabalhador em Portugal, não foram reinvestidos cá e nem terão pagado os impostos devidos, relembrar que muitas empresas nacionais possuem a sede em outros pontos da União Europeia. Há livre circulação de capitais, de pessoas, incluindo trabalhadores, é que não. Estamos na Europa do capital, não é também por acaso que os “portugueses são os segundos mais pessimistas na União Europeia com evolução da qualidade de vida - Eurobarómetro”.

Enquanto o Fórum BCE chega à conclusão de que a “imigração traz mais produtividade às economias”, melhor dizendo, Portugal continuará a ser um país com base em baixos salários (e baixos impostos para o Capital, segundo Montenegro), os preços das casas disparam 17,8% só num ano. Pela lógica, os salários deveriam ter um aumento semelhante no mesmo período de tempo, mas não é o que acontece, o fluir da riqueza faz-se sempre do Trabalho para o Capital. Enquanto os novos ricos compram 146 carros de luxo por dia, a Porsche foi a marca de luxo mais vendida em Junho, com 85 automóveis matriculados, dados de Junho da ACAP, o “PIB per capita em paridades de poder de compra (PPC) de Portugal em percentagem da União Europeia (UE) é de 77,0% da UE em 2025, surgindo assim na 22ª posição” (da imprensa). Bastante abaixo dos 81,3% nos dados originais da Comissão Europeia (CE), valores corrigidos por estudo de 2025 da FEP Faculdade de Economia e Gestão da Universidade do Porto. Ou seja, há uma grande fraude quanto à “convergência portuguesa”, somos o 6º país mais pobre da UE.

Governo de Montenegro/PSD/CDS agente de negócios do Capital

Em Maio, a dívida pública aumenta para 288,7 mil milhões, segundo o Banco de Portugal, crescimento em parte graças á burguesia rentista que vive dos negócios com o estado. O presidente da Associação Portuguesa das Concessionárias de Autoestradas e Pontes, Manuel Melo Ramos, não esteve com meias palavras: “Já chega de abolições de portagens, senão vamos dar cabo do sistema”. Vale dar cabo dos dinheiros públicos é a lógica desta gente, que não quer ver os privilégios e os lucros tocados. Esta burguesia ociosa fica bem representada, por exemplo, na família Berardo: o comendador confrontado em sede da comissão parlamentar de inquérito com as dívidas à CGD, ao BCP e ao então Banco Espírito Santo, que ascendiam a 1 mil e 027 milhões de euros, declarou que não tinha dívidas e apenas possuía em seu nome uma garagem, agora soube-se que a mulher faleceu deixando uma fortuna de 140 milhões de euros que serão herdados pelos filhos e netos. Mais palavras para quê, é uma família portuguesa!

No mesmo sentido se deve entender a privatização da CP, depois do governo do PS ter investido 1,8 mil milhões de euros na aquisição de novos comboios - CP “fatiada” em quatro: Governo prepara subconcessão de linhas suburbanas. Cascais, Sintra-Azambuja, Sado e o conjunto das linhas suburbanas do Porto deverão ser exploradas por privados, mas sob a marca CP (da imprensa). Quanto à TAP, tudo indica que será a alemã Lufthansa a ficar com o bolo por inteiro, tendo já iniciado a construção de uma fábrica em Santa Maria da Feira. Para quem tivesse ainda algumas dúvidas, o antigo chairman da transportadora aérea, Miguel Frasquilho, é claro: "a TAP é uma empresa apetecível, vai trazer valor a quem se tornar acionista". Se não fosse “apetecível”, ou seja, geradora de grandes e garantidos lucros ficaria na posse do estado. O PSD nunca conseguiu esconder a sua febre privatizadora, lembremo-nos do governo de Passos Coelho que foi “além da Troika”. A seguir será a Segurança Social (SS) a ser entregue aos privados, bancos, seguradoras, fundos de investimento, de preferência estrangeiros. A ministra do Capital (não do Trabalho), que não desiste do “pacote laboral”, dará a conhecer o relatório para a sustentabilidade da SS dentro em breve.

Quando o governo e os bombeiros falham, é o povo que toma a iniciativa no combate aos incêndios.

Vários ministros já mostraram sobejamente que são uma fraude, da Saúde, do Trabalho, da Educação, pela simples razão de que o governo que integram também é uma fraude – um engano onde muitos eleitores portugueses caíram, mas caíram porque quiseram, os avisos eram muitos e visíveis – e liderado por um político sempre de riso sardónico para encobrir uma grande falta de seriedade e de coragem política. Este governo terá se ser demitido, nem que seja para bem da saúde pública do povo português. O PR Seguro terá alguma coisa a dizer sobre a urgência do assunto ou os trabalhadores terão de vir de novo para a rua?

Imagem de destaque: na net

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

A política de terra queimada

O país está a arder há cerca de um mês de forma ininterrupta, com os incêndios a alastrarem de concelho para concelho, atingindo profundamente as regiões norte e centro do interior, abandonadas e desprezadas pelos governos, numa estratégia deliberada de transformação da agricultura e agora da floresta em termos de industrialização capitalista. Enquanto o país profundo é destruído pelas chamas, o governo, Montenegro e Marcelo passam o tempo em remansosas férias como nada se passasse e só quando morre um elemento do povo no ataque ao fogo que o chefe do governo despertou para a realidade, interrompendo o descanso. E em aberta manobra oportunista, sentindo talvez a consciência pesada, aparece no funeral do bombeiro, o segundo cidadão a morrer nesta tragédia anualmente repetida, tendo recebido a reacção de uma cidadã destemida que lhe gritou que ali, na Covilhã, não era bem-vindo ("O sr. não é bem vindo nesta cidade!!!"). Na sombra de Montenegro, Marcelo vai a funerais e envia os seus hipócritas pêsames e, ambiguamente, não se sabendo se a desculpar ou a denegrir, pede alguma benevolência para a presumível falta de experiência da ministra da Administração Interna, que, e ao contrário do que aconteceu com a sua antecessora em 2017, ainda não foi demitida. Por bem menos, Marcelo demitiu o governo PS/Costa, mais razão tem para repudiar este governo, que deve ser demitido pelo futuro PR, já que a lei não permite que este o faça por se encontrar em fim de mandato. Fica-se com a sensação que estamos perante mais uma estratégia deliberada do que a uma falta de competência governativa.

O desprezo pelo povo é marca do governo

As populações afectadas pelos incêndios, com tudo destruído, casa, produções agrícolas e animais, fruto de uma vida de trabalho, encontram-se completamente abandonadas. Reclamam mais meios para combater os incêndios, com dias e dias e até semanas de desespero e cansaço, o primeiro ministro vem, com a lata de que sempre desprezou quem trabalha, falar que "estamos todos muito esgotados, são dias e dias de sofrimento" e que terão sido dias "como não há registo". Entretanto, a ministra que não se demite recusa responder a perguntas em conferência de imprensa, declarando arrogantemente “vamos embora”, ao mesmo tempo que vira as costas a jornalistas e a todos que assistiam à intervenção televisiva. Esta é a postura típica de quem nunca se preocupou com os problemas e o sentir do povo português e cuja missão se centra mais em responder aos interesses e exigências das elites e de quem em Bruxelas traça as directivas que o governo terá de seguir.

Enquanto Portugal se apresenta como o país da União Europeia com maior percentagem de território ardido, indo já em 222 mil hectares perdidos pelos incêndios, valor que ultrapassará rapidamente o registado em 2017, o ano dos grandes fogos de Pedrógão Grande, e que fez correr e saltar Marcelo no ataque ao governo de Costa/PS, ao contrário do que agora sucede, os patrões nacionais exigem discutir o Orçamento do Estado para 2026 com o ministro das Finanças. Reivindicam o pagamento de menos impostos, benefícios fiscais na generalidade, facilidades para despedimentos; e o governo dá à Volkswagen/AutoEuropa 30 milhões de euros como “incentivo” pela produção de carro eléctrico em 2027. Estes dinheiros poderiam ser investidos com melhor proveito na reflorestação do país em espécies resistentes ao fogo e no apoio aos pequenos agricultores e produtores florestais.

Portugal assiste de forma passiva e impotente à morte de bombeiros e de simples cidadãos; este ano, infelizmente, já vamos em três mortes, um ferido grave e mais de uma dezena de feridos. Tal é a negligência das autoridades e descontrolo da gestão do combate que o carro de bombeiros que capotou no combate ao fogo e esteve uma hora e 20 minutos à espera de socorro. É previsível que venham a ocorrer mais acidentes e mais vítimas, na continuação da série funesta de 257 bombeiros que morreram em serviço nos últimos 45 anos. O ano mais trágico foi 1985, quando 19 operacionais morreram durante o combate a um incêndio florestal. Esta política de depredação do factor humano generaliza-se pela sociedade, com grávidas a darem á luz em ambulâncias ou simplesmente à beira da estrada, graças á política de encerramento das urgências e dos próprios serviços de obstetrícia e ginecologia no SNS, para benefício do negócio privado da saúde, na realidade, da doença.

O país transformado em imensa fogueira

O incêndio que começou no Piódão, concelho de Arganil, que lavra desde o dia 13, continua ativo, com os eucaliptos e pinheiros bravos como combustível inesgotável, será "muito provavelmente" o maior de sempre em Portugal, com uma área ardida de mais de 60 mil hectares. Para além de Arganil, Sabugal, Mirandela, Montalegre e Carrazeda de Ansiães, mobilizam cerca de 3000 operacionais. E em um só dia, a proteção civil registou 59 novos focos de incêndio, com cinco fogos mais preocupantes. O fogo está descontrolado e teve que ser o povo, perante o desprezo do governo e restantes autoridades, a arregaçar as mangas e ser ele próprio a dar combate às chamas: "Começámos a fazer turnos", os “populares foram os bombeiros em Moimenta da Beira”. “Estamos há uma semana e meia sem dormir”, desabafam na Pampilhosa da Serra onde o fogo ameaça aldeias. E vem o presidente da Turismo Centro de Portugal perorar que os “incêndios estão a ter um impacto muito grande no turismo da região...”. Lá se vai a galinha de ovos de oiro da economia nacional, como ficam as populações, isso pouco interessa, o turismo é mais importante.

Ardem casas de primeira e segunda habitação, queimam armazéns e anexos, são cremados animais e colheitas, «dói o coração aos produtores de castanha: “Já só resta esperança, tudo o resto morreu”», em «Cedovim não arderam só a capela e os andores: o sr. Ilídio perdeu o trabalho de uma vida», ao que parece Deus abandonou os seus crentes deixando que um lugar onde lhe prestam o culto tenha sido também devorado pelas chamas. Tudo está descontrolado, o fogo, a divindade e a dita “protecção civil” que é quem ordena para onde vão os bombeiros e se devem ou não usar os meios de combate, é o que a população denuncia, muitas das vezes nem os bombeiros aparecem. Os próprios “bombeiros denunciam falhas graves na coordenação dos incêndios”. Entretanto o SIRESP (Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança) apresenta falhas, tendo o governo de Montenegro prolongado até 30 de Novembro o prazo para a remodelação do referido sistema, que, relembremos, ficou em cerca de 700 milhões de euros. Para aqui há dinheiro que nunca mais acaba.

A região interior do distrito de Coimbra foi e continua a ser uma das mais afectadas pelos fogos, ainda bem nos lembramos do grande incêndio que rodeou a cidade de Coimbra aqui há alguns anos, agora é Arganil, onde uma família enfrentou o fogo com baldes de água, Oliveira do Hospital, Pampilhosa da Serra, onde as autoridades obrigaram á evacuação da aldeia de Covanca, e é a Serra da Lousã, com 13 aldeias evacuadas e com os moradores a lutarem para salvar as suas casas e a soltarem os veados para fugirem ao fogo. No entanto, em Mirandela, os idosos do lar da dita “Santa Casa da Misericórdia” não tiveram a mesma sorte dos veados da Serra da Lousã, foram deixados às chamas, desta vez com origem no interior do lar. A falta de condições de segurança, vigilância e alerta e meios de salvamento fez com que dos 89 idosos residentes tenham morrido seis e outros 25 tenham ficado feridos, cinco deles com gravidade. As elites desprezam os idosos, a dita “peste grisalha”, um encargo para a economia, segundo a Lagarde do BCE e do FMI e a ex-ministra do PSD Ferreira Leite, mas uma fonte de rendimento para a Igreja Católica. 

O «incêndio no Sabugal deixa um ferido em estado grave: tem “uma queimadura extensa” e está a ser avaliado no Hospital de São João». Na Pampilhosa da Serra: “Ardeu tudo em volta das casas, uma verdadeira noite de terror” e “no olho do furacão”! Populares e bombeiros combatem lado a lado o inferno das chamas na Pampilhosa da Serra. E «imigrantes, alimentaram bombeiros e apagaram chamas: “Só queremos retribuir”: no seu restaurante, Ganga Singh já ofereceu centenas de refeições, confessa ter sido bem recebido, com exceção de um "membro do Chega" local que já lhe terá apontado uma faca». O povo português os trabalhadores imigrantes não olham para as diferenças de cultura ou nacionalidade, interagem em espírito de solidariedade. Por outro lado, dois agentes da PSP são acusados de matar à pancada imigrante marroquino suspeito de ter provocado “distúrbios” ao furtar comida para matar a fome numa superfície comercial em Olhão. Como nem todos os imigrantes são iguais, o candidato Moedas à câmara municipal de Lisboa, para além de incluir na lista à assembleia municipal uma retinta agente da Mossad, anda de braço dado com o neo-nazi, líder da comunidade de imigrantes ucranianos que fugiram à guerra na Ucrânia, que aqui se encontram a expensas dos fundos europeus e que são pagos pelo povo português.

A política de não combate eficaz aos incêndios florestais é mais do que negligente, é intencional. O objectivo do governo PSD/Montenegro é seguir as instruções de Bruxelas quanto à destruição da pequena economia agrícola em beneficio do agro-negócio do eucalipto e da transição energética, fotovoltaicas e eólicas, no interior montanhoso do país, mas que já se observam na periferia norte da cidade de Coimbra, na saída para a A1. É transformar o país numa imensa mina a céu aberto para exploração do lítio e outros metais no interesse do grande capital estrangeiro. A norte ficam as minas e os eucaliptos, ao centro continuam os eucaliptos e as fotovoltaicas, e a sul as mesmas fotovoltaicas, onde precisamente há mais dias de sol, e a agricultura intensiva espoliadora de água. A população que emigre e não tenha filhos - a extinção de Portugal programada.

Família de aldeia em Arganil impossibilitada de sair de casa enfrentou incêndio com baldes de água (Lusa, 13 de Agosto)

Um governo corrupto e fascista deve ser demitido

Uma política de negócios na lógica e no interesse dos bancos, com lucros sempre a crescer, tendo os cinco maiores bancos em Portugal registado lucros de 2,6 mil milhões até Junho deste ano. Os acionistas das celuloses deverão continuar a enriquecer, bem como os proprietários da empresas que alugam os meios aéreos, que o governo nega a adquirir, para proveito de um João Maria Bravo, da empresa Helibravo, suspeito do cartel dos helicópteros e um dos principais financiadores do partido da extrema-direita, ou do cunhado do ministro Amaro que adquiriu a empresa Gesticopter Operation Unipessoal cerca de dois meses antes do familiar ter tomado posse como governante, tendo logo firmado com a Força Aérea um contrato de 20 milhões euros por ajuste directo. A corrupção é uma componente sempre presente nestes negócios, as comissões deverão ser fabulosas. 

Não há dinheiro para a compra de meios aéreos que tanta falta fazem, a própria ministra ainda antes da série interminável de incêndios ter começado foi peremptória: seriam “irrelevantes”. Agora, a ministra do Trabalho defende que "nem todas as pessoas querem ter um contrato de trabalho sem termo", até gostam de ser precárias, receberam salários miseráveis, e o governo de que faz parte aposta fortemente num “Código do Trabalho mais ágil para uma economia mais forte”, isto é, proceder a uma transferência inaudita de riqueza do trabalho para o capital. Não há dinheiro para adquirir ambulâncias ou para investir no SNS mas haverá para a guerra e para dar apoio ao conflito da Ucrânia, tendo o governo português já feito o pedido, não sabemos ainda em quantos milhões ou milhares de milhões de euros, ao Mecanismo de Assistência à Segurança para a Europa, o que fará disparar a dívida pública para níveis jamais atingidos, pior do que no tempo da troika. Esta é também uma política de terra queimada, onde o povo servirá de lenha para queimar. 

Estas serão razões mais que suficiente para que as forças democráticas do país, desde os trabalhadores, passando pelos partidos que se dizem de "esquerda", às populações afectadas pelos incêndios, exijam a demissão imediata do governo cada vez mais da extrema-direita PSD/Montenegro/Chega. Marcelo não atenderá à demanda, invocará razões de prazos, na medida em que as eleições presidenciais serão em Janeiro próximo, então, a rua será a única alternativa. Então, veremos da bazófia de Montenegro que, perante as críticas à sua passividade criminosa quanto ao combate aos fogos, diz estar pronto para o escrutínio. A fanfarronice esconde sempre a mais abjecta cobardia. 

Imagem: Luís Montenegro goza férias em agosto, com a Festa do Pontal pelo meio (JN)

terça-feira, 29 de julho de 2025

Portugal arde e a irrelevância ministerial

Os incêndios florestais tomaram mais uma vez conta de Portugal dando uma imagem muito semelhante àquela que acompanhou o início do consulado de António Costa e governos socialistas, uma imensa tragédia mais que conhecida e temida e que ninguém ousa ou tem interesses em evitar. No entanto, a ministra da dita “administração interna” não esconde a irritação pela insistência das perguntas dos jornalistas quanto à falta de meios aéreos para combate aos fogos, considerando-a “irrelevante”, e o outro responsável pela “defesa” formaliza a criação de um “grupo de trabalho” para desenvolver propostas para pedido formal de “assistência financeira”; ou seja, aumentar a dívida pública para adquirir mais material de guerra, não a uma hipotética e futura indústria nacional de defesa, mas aos EUA conforme ficou estipulado pelo recente acordo entre a União Europeia e o Império do outro lado do Atlântico. Vai-se comprar F-35 para a guerra e alugam-se, tarde e a más horas, helicópteros para combate aos incêndios e para o transporte de doentes. Como alguém disse em relação ao pavoroso incêndio a lavrar neste momento em Arouca: “Estamos num inferno quando podíamos estar no paraíso". Portugal a arder é mais do que uma metáfora.

A agenda do grande capital financeiro e da burguesia ultramontana

A política é condicionada pela economia, é a sua expressão a nível da gestão da coisa pública e o governo nunca deixa de ser o comité de negócios da oligarquia. Assim,  não é despiciendo relembrar que a dívida pública está a subir há seis meses seguidos e fixou novo recorde em Maio, é o segundo máximo absoluto consecutivo, graças sobretudo aos títulos de dívida e certificados de aforro – chegou aos 284,5 mil milhões de euros, ou seja, mais 3,7 mil milhões do que no mês anterior. Como também se deve salientar o que os tais “peritos do Bruegel” sugeriram a Bruxelas a criação de um novo imposto para pagar gastos militares. As exportações de bens diminuíram 1,3% no segundo trimestre do ano enquanto as importações subiram 6,4%, resultado do aumento do turismo e da alguma estagnação da produção nacional. O estado português acaba de financiar-se em 1.260 milhões de euros a longo prazo, mas pagando juros mais altos. Perante a situação de crise aguda iminente da economia - que corre sobre a crise crónica que é estrutural -, a elite encarregou o governo Montenegro/PSD/Chega a preparar um pacote de medidas que, logo que sejam passadas as eleições autárquicas e presidenciais, serão impostas a fogo e ferro e que superarão em muito as que foram aplicadas pelo programa de assistência da troika. Até lá, às eleições, alguns rebuçados irão adoçar a boca do eleitorado.

O programa político do governo Montenegro é, sem mínima margem para dúvidas, o programa do grande capital financeiro, representado por Bruxelas, e o do sector mais ultramontano e explorador da oligarquia nacional. Praticamente todos os órgãos da informação mainstream fizeram campanha pela vitória do PSD e, agora governo, é levado ao colo e, sem rebuço, deixaram de falar da empresa familiar do primeiro-ministro. Não é por acaso que o mais reaccionário deles todo lançou de imediato uma campanha de descredibilização do actual governador do Banco de Portugal quando Montenegro aventou a hipóteses de o reconduzir no cargo, a exemplo do que tem acontecido até aqui. A cartilha dos acionistas do “Observador” é exactamente a agenda política do governo. A promoção do ex-ministro “pastel de nata” do governo de Passos coelho para o cargo não é inocente, talvez já ninguém se recorde e a imprensa também não as vai recuperar, as palavras preferidas ainda há pouco tempo por Álvaro Santos Pereira, em entrevista ao “Expresso”: a “proteção dos despedimentos individuais deve sair da Constituição”. Ainda não tinha sido nomeado para governador do banco central e já defendia a realização de “reformas estruturais” e que a “revisão constitucional”, embora não fosse indispensável, iria “dar um impulso à competitividade”. Quanto às intenções deste homem de mão do grande capital financeiro internacional estamos conversados, o papel de agência do BCE por parte do Banco de Portugal sairá reforçado.

Com o governo e os instrumentos financeiros sob inteiro controlo de Bruxelas e da elite parasitária nacional a política não poderá ser outra se não intensificar a extorsão de mais-valia à força de trabalho nacional, onde os trabalhadores imigrantes são uma parte importante. Daí ser necessário reforçar outros instrumentos de controlo e de exploração do trabalho: restringir o direito à greve, ou simplesmente acabar com ele; “reformar” o código do trabalho, a fim de baixar ainda mais os salários reais, a existência de uma enorme mão-de-obra ilegal será um meio importante para baixar os salários em geral, fala-se já em não aumentar tanto o salário mínimo nacional; despedimentos mais baratos e mais fáceis, mais precarização. E se houver insubordinação social, haverá mais repressão e para este fim são necessários mais polícias: o governo acaba de dar posse a mais 439 novos agentes… para garantir “a liberdade e a segurança dos cidadãos”, referindo-se Montenegro mais aos cidadãos da classe que representa e defende do que aos cidadãos comuns, esses que se amanhem ou se matem uns aos outros. O governo joga com as estatísticas e fomenta falsas percepções sobre a questão da segurança, enquanto o número de crimes registados pelas autoridades diminuiu 1,3% nos últimos anos, as notícias sobre a delinquência subiram 130% nas primeiras páginas e noticiários dos media mainstream. Estes, juntamente com o governo, são os maiores fazedores de fake news.

Empobrecer o povo e dividir para reinar

Com o fundo de opinião pública moldado foi fácil ao governo alterar a lei de estrangeiros e a lei da nacionalidade de forma a restringir ainda mais a entrada da horda de bárbaros que tanto atormenta as boas consciências cristãs nacionais, apesar de aparentemente estarem eivadas de inconstitucionalidades. Em relação à primeira, o manhoso do Marcelo resolveu enviá-la para o Tribunal Constitucional e o mesmo deverá fazer em relação à segunda, lavará sim as mãos e o ónus ficará sobre o governo e ninguém o poderá acusar de estar a seguir a agenda da extrema-direita, como acontece de forma indisfarçável com Montenegro. Os responsáveis políticos de alguns dos países da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) não se fizeram esperar nos reparos a estas alterações legislativas e é muito provável caso elas avancem que haja retaliações, devemos lembrar que se há cerca de 60 mil imigrantes angolanos em Portugal, há mais de 120 mil portugueses emigrados em Angola. Se os países onde há emigrantes portugueses, com as suas famílias, fizeram o mesmo, então, serão mais de dois milhões portugueses a fazer adornar a fraca embarcação nacional. Estas leis servirão apenas para engrossar a mão-de-obra ilegal, mais vulnerável e mais explorável e impedir que ela se una aos trabalhadores portugueses em solidariedade internacionalista, o inimigo é comum: a burguesia e o seu sistema de exploração capitalista.

Os portugueses comuns, o povo, estão mais pobres. O número de famílias em dificuldades, muitas já se endividam para conseguir pagar a renda e despesas essenciais como as contas do supermercado, da água, luz e gás, apesar de manterem rendimentos fixos e trabalho a tempo inteiro, e quem lança o alerta é o Gabinete de Proteção Financeira da Deco, que geralmente peca por defeito. No entanto, há quase 250 mil casas vazias em Portugal fora do mercado de venda ou arrendamento, que poderiam ser usadas em termos imediatos para a resolução do grave problema da falta de habitação para a classe trabalhadora e até para parte da classe média. Ao todo são 723 mil casas vagas em Portugal, das quais 485 mil estão em condições de ser habitadas, e só metade deste número estão no mercado com o objectivo de manter a alta dos preços e impedir um abaixamento, o que faria diminuir os lucros exorbitantes arrecadados por toda a sorte de especuladores que pululam nesta área. Por outro lado, vem o actual líder do PS defender que o problema de “falta de habitação” se pode resolver com “construções modulares”, uma solução rápida para habitação no seu limitado entendimento, depois de ter visitado uma fábrica de produção daquele equipamento, escamoteando que o problema é antes do mais político e que basta colocar toda a habitação disponível actualmente no mercado, constituindo-se o estado em agente interventivo, para o problema ser resolvido.

Avanços da extrema direita em Portugal - Thiago Lucas

Os próximos tempos vão ser de luta

O governo Montenegro/PSD/Chega assume-se desde a primeira hora como agente de negócios da burguesia e dos interesses de Bruxelas, a destruição agora acelerada e em modo irreversível do SNS é o melhor exemplo desse papel. Os constantemente encerramentos das urgências pediátricas, obstetrícias e cirúrgicas de hospitais importantes e por fins de semana continuados e já por períodos mais longos revelam à evidência que se está proceder ao desmantelamento dos cuidados públicos de saúde substituindo-os pelos serviços privados, que simultaneamente são financiados pelo Orçamento Geral do Estado, daí as verbas destinadas a este sector serem as mais elevadas de sempre, enquanto que os cidadãos portugueses nunca tiveram tão maus serviços e tantas dificuldades em acedê-los. O que acontece no Hospital de Braga fala por si: ao longo de 15 anos, este hospital celebrou contratos de mais de 27 milhões de euros com uma empresa privada, pertencente ao director do serviço de oftalmologia Fernando Vaz, que, sabendo que o escândalo seria noticiado, pede a demissão dois dias antes. Entretanto o hospital não paga o dinheiro que deve aos médicos radiologistas do quadro por trabalho extraordinário que eles agora se recusam a fazer; e a assistência aos doentes que sofram AVC foi suspensa aos sábados e aos domingos e a partir das 20h nos dias da semana. É o outsourcing que Montenegro prometeu, e que a partir de agora será dominante quanto as despesas do estado. Não basta pedir a a demissão da comissária política da ministra da saúde, terá de ser de todo o governo e de toda a sua política que lhe é “recomendada” por Bruxelas.

A mesma política será seguida em todos os negócios com o estado, as tão famigeradas parecerias público-privadas estão de regresso com a construção das linhas do TGV; o outsourcing será para continuar e estender a quase todos os serviços que ainda são públicos, saúde, educação, escolas, creches e infantários, apoio à terceira idade e cuidados continuados, que já o são através das IPSS e continuarão. O combate aos incêndios florestais também é feita em outsourcing, transformando esta desgraça nacional em chorudo negócio; enquanto houver mata e eucaliptos para arder, drones para atear as chamas (o crime vai-se modernizando), Portugal será o país da Europa com mais área ardida e por incendiarismo. Haverá também mais comissões a circular por debaixo da mesma, daí a pressa da substituição do governo PS/Costa por este mais competente no uso do cacete (pelo menos é o que se espera); golpe presidencial levado a cabo, ao contrário do que muitos militantes do PS pensam, com a colaboração activa e interessada do próprio Costa. 

Ao mesmo tempo, a corrupção irá aumentar, porque é o óleo que lubrifica toda a engrenagem da economia capitalista nacional, coisa que a nossa inefável "esquerda" se esquece frequentemente. A contradição que o povo trabalhador tem de enfrentar não é bem entre a "democracia" e o "fascismo", porque estas duas formas de regime político são apenas duas maneiras distintas de gerir o capitalismo, mas entre capitalismo e socialismo/comunismo, entre poder político nas mãos da oligarquia e o mesmo poder nas mãos de quem trabalha e produz. A velha toupeira é incansável no seu lento e discreto trabalho, e uma nova esquerda terá de se erguer no lugar da velha, que desde há muito perdeu referências e apoio dos de baixo, passando o tempo na conciliação para se alcandorar a pequeno lugar na mesa do banquete da exploração. Os próximos tempos vão ser de luta, e de luta bem dura - o capitalismo terá de ser destruído.

Imagem de destaque: Portugal em chamas - Vasco Gargalo

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Portugal a arder… e alguma gente a enriquecer

terça-feira, 17 de setembro de 2024

Portugal a arder… e alguma gente a enriquecer

 

Enquanto se escrevem estas linhas, o balanço já é trágico: sete mortos, dos quais quatro bombeiros, e mais de 100 feridos, alguns deles graves, e os números não param de aumentar. Não há maneira de se aprender. Será incapacidade ou incúria dolosa? Se passarmos para números de incêndios, áreas ardidas e concelhos atingidos, então, teremos: mais de 10 mil hectares entre Porto e Aveiro (mais de 62 mil hectares desde Domingo); 125 novos incêndios que deflagraram em 12 horas, entre as 20 horas de ontem e as 8 de hoje; a intensidade dos incêndios nos distritos de Aveiro e Viseu a igualar a dos incêndios de 2001; mais de 100 concelhos a arder ou em risco sério e imediato de novas deflagrações. Em resposta política, o primeiro-ministro cancelou a agenda oficial e o congresso do partido foi adiado. Contudo, nem a oposição nem os órgãos de comunicação social vieram, para já, exigir a demissão da ministra da Administração Interna, que não se sabe por anda, e nem Marcelo foi ao terreno tirar a selfie do costume e à semelhança do que fez em Pedrógão. Quando estas linhas terminarem de ser escritas, com certeza, que a tragédia terá alastrado.

Estamos perante um problema que se vem arrastando de ano para ano e há mais de quarenta anos. Todos os anos assistimos a toda sorte de especialistas, comentadores, jornalistas tudólogos a perorar sobre as causas dos incêndios e respetivas mezinhas. E, quando chegam os políticos de serviço de turno ao governo, então, são as lamentações, os ditos sentidos pêsames aos familiares das pessoas que morreram e em relação às vítimas são as promessas rejuradas de que a situação não se irá repetir, as medidas e as indemnizações a haver serão prontas e certas.

Andamos nisto vai para quase há meio século, todos os anos a tragédia se repete, umas vezes com mais intensidade ou dimensão, outras vez mais moderada e pouco mediatizável, pairando no ar que a incompetência e a negligência campeiam e se tornaram, elas próprias, um problema da mesma dimensão. Nós vamos mais longe, tudo isto acontece porque há uma política consciente, live e deliberada para que as coisas sejam mesmo assim.

Quando foi o terrível incêndio de Pedrógão, levantou-se de imediato um imenso coro de indignação contra o governo PS e da sua aparente incapacidade de ter actuado de prontidão de molde a colocar fim ao incêndio e de não ter sabido prevenir a tragédia. Agora, depois da experiência passada e dos ensinamentos que se deveria ter tirado, a situação está a repetir-se, já com algumas mortes e dezenas de feridos, mas ninguém levanta a voz de protesto. Ficam pelo lamento e ninguém exige a demissão da ministra ou do governo no seu conjunto.

Parece que o incêndio até veio a calhar para o governo da AD, porque vai-se passar toda a semana a falar da desgraça em vez do Orçamento de estado 2025, e se vai ou não ser aprovado. A campanha para quem vai ser o melhor candidato a Belém, da mesma forma, ficou em banho-maria e para melhor oportunidade. As televisões já não falam da guerra na Ucrânia nem no genocídio que o governo sionista de Israel está a cometer contra o povo palestiniano. Muito se irá falar de incêndios florestais, mas nem uma única palavra sobre as razões verdadeira e reais de nada se ter feito para evitar a tragédia.

Jorge Paiva, biólogo e professor jubilado da Universidade de Coimbra, alertava há cerca de 20 anos, e alertou por mais do que uma vez, para o que se estava a passar em Portugal quanto a floresta e incêndios. A destruição da floresta primitiva que existia no território portugueses, que ocupava inclusivamente o Alentejo foi deliberada; primeiro, para diversos empreendimentos militares e económicos, exemplo, construção de naus para os descobrimentos; segundo, a sua substituição por espécies exóticas, pinheiro bravo no tempo do regime fascista, e eucalipto para a indústria das celuloses, na época actual; tanto uma como a outra espécie constituem os melhores combustíveis para a ignição e propagação dos fogos. A razão principal dos fogos florestais anuais é simples: a ganância e a política deliberada dos governos, de todos eles, em satisfazer a corrida desenfreada pelo lucro. Na verdadeira acepção da palavra, não temos “floresta”, porque espontânea e constituída por inúmeras espécies, mas “bosques”, monoculturas plantadas pela indústria do capital.

Ao mesmo tempo que se destrói a floresta, constrói-se no seu lugar uma mancha imensa e contínua de bosque, que, vendo bem, disponibiliza um magro lucro, embora fácil, e daí a sedução de muitos proprietários. Monocultura que, por sua vez, desertifica em termos humanos as nossas serras. Temos de reconhecer alguma razão, desta vez, aos activistas do Climáximo quando vêm acusar as celuloses, nomeadamente a Navigator e os governos pelos incêndios e pelas mortes resultantes. A poluição dos incêndios não será menor do que aquela que resulta da combustão dos combustíveis fósseis. Estamos lembrados que estas empresas, exemplo Celtejo/Altri, quando são condenadas por poluir apanham penas que se resumem a irrisórias multas, mantendo impunemente a poluição da água e do ar. A própria justiça não mexe com os interesses dos grandes grupos económicos.

No dia de ontem o fogo chegou à periferia oriental da cidade de Coimbra, e foi por aqui que em 2005 o fogo entrou na cidade chegando à malha urbana, mas, dessa altura até aos dias de hoje, nada foi feito quanto a limpeza das matas ou à modificação da mata. Em reunião da Junta de Freguesia de Torres do Mondego, onde fica a porta de entrada para o fogo, o presidente da Junta denunciou que a mancha contínua de eucaliptos e de acácias, espécies que não são nativas, se mantem (Diário de Coimbra, 17.09.2024). Nem câmara e nem governo nada fizeram para alterar a situação e prevenir mais uma desgraça. Pela boca do mesmo autarca, ficou-se a saber que a zona é explorada por madeireiros, e, acrescentamos, toda ela se situa dentro da área apetecível para construtores civis e agências imobiliárias. Coimbra deverá ser só ultrapassada, no que concerne à especulação imobiliária e incluindo o mercado do arrendamento de quartos a estudantes, por Lisboa e Porto.

Não será difícil identificar quem ganha com a indústria dos fogos, para além dos citados, empresas de aluguer de meios aéreos, as próprias corporações dos bombeiros, e as câmaras municipais… e as empresas ligadas à exploração do lítio e de outros minérios. A contratação dos meios aéreos seja para o combate aos incêndios, ou socorro e transporte de doentes pelo INEM, continua a ser feita ou por ajuste directo ou às mesmas empresas do costume, que chegam a fazer cambalacho entre si. Só há pouco tempo que o governo anunciou a aquisição de 3 helicópteros que serão operados pela Força Aérea, mas o primeiro só será entregue em 2027. Os Kamov, considerados os melhores helicópteros para combate a incêndios, adquiridos pelo governo de PS/Sócrates, foram sabotados e posteriormente enviados para a Ucrânia, o que suscitou protesto da embaixada da Rússia em Lisboa perante o governo AD. Os comandantes das associações de bombeiros voluntários podem vender material às próprias corporações, porque não constitui qualquer ilegalidade. E as câmaras também poderão alterar os planos directores municipais, alargando as áreas de construção. Pelas redes sociais proliferam os mapas que mostram onde se irão efectuar as explorações do lítio e, coisa curiosa, todas elas coincidem com as regiões mais afectados pelos incêndios. Não sejamos maldosos e conspiradores, serão apenas coincidências.

A imprensa mainstream, que tanto fustigou o governo anterior e exigiu a cabeça da ministra, centra a atenção na dimensão dos incêndios e sublinha a serenidade dos actuais governantes que estarão a ter, ou terão tido, hoje uma reunião do conselho de ministros e, imaginem lá!, presidida pelo inefável PR Marcelo, que possivelmente estará agradecido que o país arda, porque assim este já não falará do amaldiçoado tema das gémeas. As elites pouco ou nada se preocupam com o povo, a sua vida e problemas, a sua atenção dirige-se para os negócios e interesses dos diversos lóbis que dominam o país; o mais é encenação para empalmar o voto em tempo de eleições. Nada se preocupam que a dita “floresta” esteja ao abandono, que os serviços que existiam para a sua protecção tenham sido destruídos, desde guardas florestais a guarda rios, que a população abandone os campos e as serras do interior do país, por falta de empregos, de serviços de saúde, de escolas e de infantários, ficando os velhos ao deus dará e entregues, quanto muito, ao negócio dos lares ilegais ou explorados pela Igreja/Misericórdias financiadas com dinheiros públicos.

À medida que o país arde, o governo AD irá tentar sair do fogo sem se chamuscar muito; irá, à semelhança dos anteriores, prometer mundos e fundos, chorar baba e ranho e verter lágrimas de crocodilo pela desgraça das pessoas do povo, que ficam sem o património conquistado ao longo de uma vida de trabalho e, infelizmente, algumas sem a própria vida. Todos nós sabemos que a origem da maior parte destes incêndios é de natureza criminosa, conhecem-se os incendiários, no entanto, era bom também saber quem são os mandantes e porque possuem inteira liberdade para fazer o que fazem. Isto só pode acontecer porque, em última instância, a responsabilidade da tragédia cabe única e exclusivamente a um poder político e a um sistema económico para quem o dinheiro e a riqueza material são mais importantes que o bem-estar do povo português, a vida humana e a protecção da natureza. A pergunta que deixamos: até quanto teremos de suportar esta situação e esta gente que nos desgoverna?

Imagem de destaque: SIC Notícias.

Ver: Os incêndios e a desertificação do Portugal florestal – Jorge Paiva

terça-feira, 20 de junho de 2023

Na República das Bananas, fogos, assaltos e corrupção

 

Crónica escrita há meia dúzia de anos sobre os fogos de Pedrógão, o assalto ao paiol de Tancos, a corrupção e o mais correlacionado.

Os acontecimentos que ocorreram nos últimos dias mostram bem que vivemos numa espécie de república das bananas que revela, contudo, alguma polidez para se diferenciar das já conhecidas repúblicas da América Latina, já que estamos na União Europeia, um conjunto de países que bailam segundo a música germânica, uma velha Europa dita civilizada, mas que tem sido ela quem tem despoletado as guerras mais sangrentas que têm até agora flagelado o mundo.

Os fogos “inevitáveis”

Foram os incêndios que provocaram 64 mortes e cerca de 250 feridos, que ficarão sempre na memória colectiva, cuja origem ainda está para se apurar, e mais recentemente foi o assalto aos paióis nacionais do polígono militar de Tancos e cujas responsabilidades estão a ser atiradas para cima do PS, como se os restantes partidos do arco da governação, PSD e CDS, estivessem isentos de culpas, e não fosse este sistema económico capitalista, exclusivamente virado para o lucro, e o poder político da burguesia tida como democrática e liberal, em última instância, a causa de tudo o que aconteceu e ainda irá acontecer.

Não deixa de ser curioso que estas calamidades aconteçam no preciso momento em que as coisas relacionadas com a economia e as contas públicas estão a correr tão bem para o governo PS (acolitado por PCP e BE). É a saída do procedimento por défice excessivo, o défice reduziu para número já esquecido, assim como o desemprego (9,3% em Abril), e até o investimento e o PIB dispararam, e o FMI foi reembolsado antecipadamente em 1000 milhões de euros, levando aquela instituição do capitalismo internacional a rever em alta o PIB nacional e a considerar a meta do défice de 1,5% como perfeitamente atingível. E, imagine-se!, até a confiança dos consumidores voltou a crescer em Junho, chegando a valores que já não se viam há pelo menos 20 anos.

O assalto ao paiol de Tancos

Não deixa de ser hilariante ouvir dirigentes da esquerda e, com mais gravidade, de uma esquerda autodenominada de "comunista", considerar o roubo de material de guerra um facto de extrema gravidade para a segurança do país, como se o exército, e as forças armadas em geral, não fossem um exército burguês, reaccionário, constituído actualmente exclusivamente por mercenários, que serve única e exclusivamente para defender a elite que se encontra no poder. Que um reaccionário de extrema-direita, como é Ângelo Correia, até se entende, agora gente que se diz comunista, é obra! E diz bem do papel desempenhado por esta gente no campo de luta de classe em Portugal.

Ao longo da história, quando o país é invadido, as elites e os chefes das forças armadas permanentes, estes pelo menos na sua maioria, ou desertam ou bandeiam-se para o lado do inimigo, sendo depois o povo, com ou sem ajuda estrangeira, a organizar a defesa do país. Foi assim no reinado de D. Fernando, com a invasão do rei de Leão; foi assim depois da morte deste rei, tendo depois a burguesia ascendente sobe a chefia de D. João a lutar pela independência; foi assim em 1580, com a perda da dita; foi assim com as invasões francesas, a corte desertou apavorada para o Brasil, deixando pela rua enormes riquezas que foram saqueados pelo povo.

A corrupção

Um dos papéis do PS quando está no governo é ou completar os mesmos negócios iniciados pelo PSD/CDS quando estes estão no governo e não tiveram tempo, como aconteceu com o contrato SIRESP, ou é iniciar outros negócios de que a direita vai beneficiar mais tarde, e então é ver figurões saltarem do conselho de administração de empresas para pastas ministeriais, facilitando os negócios das ditas com o estado, e depois voltarem para os mesmos conselhos de administração, estando o assalto consumado. Desta feita, foram 500 milhões de euros e o PS mais tarde conseguiu um descontozinho, "poupou" umas migalhas ao erário público – normalmente é esse o seu papel de regularização das negociatas.

Não é espanto para ninguém que o PS venha agora dizer que não houve "mão humana" no desaparecimento da informação dos 10 mil milhões que foram para off-shores, foi mais outra "falha informática", exactamente quando o secretário de estado da tutela era advogado que já trabalhava para os capitalistas com especial tentação para a fuga aos impostos, mostrando-lhes a melhor maneira de enganar o estado, regressando depois ao mesmo ofício quando deixou o governo. PS e PSD são as faces da mesma moeda e é fácil perceber porquê, sem necessidade de grandes explicações, é o bloco central de interesses instituído há mais de 40 anos.

Veio também a saber-se que o governo PS/Costa ilibou o SIRESP de qualquer responsabilidade quanto às falhas no incêndio de Pedrógão Grande (todo o Pinhal Interior), entretanto os acionistas distribuíram entre si 13 milhões de euros de dividendos e irão receber mais uns 200 milhões; se o sistema de comunicações da dita "Protecção Civil" não falhou, esta pela lógica também não terá falhado, e até o presidente Marcelo afirmou sem rebuço que "não era possível fazer mais".

A “conspiração” contra o governo PS

Parece que há um complô contra o PS ou, também é válida a hipóteses, o PS só serve para acudir nos momentos difíceis, não exactamente para o país ou para o povo português, mas para o capitalismo nacional e a burguesia parasitária que dele se alimenta e é razão da sua (dela, burguesia) existência. As interrogações irão persistir por muito tempo: afinal, quem é que deitou fogo ao eucaliptal e quem e como assaltou o paiol (que obviamente deveria estar vigiado 24 horas por dia por soldados armados, como no velho tempo da guerra colonial)?

Ah!, quanto ao assalto ao paiol (quase que faz lembrar os filmes de Bruce Willis), o supremo magistrado da Nação, o comandante em chefe das forças armadas, diz que "ainda não é o momento" de falar sobre o assunto. Com um homem de extrema-direita (sorridente e cheia de afectos) no cargo de PR, é natural que a extrema-direita nas Forças Armadas ponha as garras de fora, descontente com a “gestão política” das supra-citadas. Este incidente faz-nos lembrar um análogo, que ocorreu no tempo do governo PS/Guterres, com o Alberto Costa como ministro da Administração Interna, que o opôs ao comandante nacional da PSP, um general retintamente fascista, que passou à provocação ao governo com a repressão desmedida sobre os trabalhadores de uma empresa têxtil, em vias de encerramento do Norte.

Um outro caso foi a morte de um dos delinquentes em consequência dos disparos dos polícias que já estavam à espera de um assalto a uma ourivesaria em Évora, se não estamos em erro, um assalto que teve a particularidade de ter sido morto, ao que parece, o bufo da PSP e autor da ideia do assalto (era o que corria nos bastidores políticos, na altura); o fascista general acabou por ser demitido, mas tarde, após muito conciliação. Seria interessante conhecer as verdadeiras razões que estão por detrás do pedido insistente da demissão dos ministros da Defesa e da Administração Interna, para além de se querer arranjar problemas ao Costa e forçar a sua demissão.

Para além das aparentes "tramóias" (com ou sem aspas) feitas ao PS dos incêndios e do furto de algumas toneladas de armamento (que só poderia acontecer com a colaboração de gente de dentro e bem colocada, atendendo a que se trata de algumas toneladas que não passam discretamente pelo buraco da rede, a exoneração dos cinco responsáveis militares só vem confirmar a suspeita), o governo PS/Costa até está bem, apesar do pedido da demissão dos dois ministros em causa feito pela oposição de direita e pelo "grande educador", ainda ressabiado com o Costa; segundo as sondagens, Costa não sai chamuscado e a possibilidade de ganhar as eleições mantém-se.

PSD/CDS não sabem o que fazer para descredibilizar o governo: ora, inventam quedas de avião; ora, arranjam uns suicídios ou uns parassuicídios internados em hospital qualquer; ora, escandalizam-se com o roubo do armamento, querendo dar a entender que eles nunca foram governo e se fossem agora nada disto teria acontecido – uns farsantes da pior espécie. Enquanto esta oposição se enreda cada vez mais nas suas contradições e é ela própria que se vai descredibilizando, assiste-se a uns arremedos de greves, como acontece no início deste mês, com a dita "recusa" dos enfermeiros especialistas ou especializados em prestar serviço especializado na sua área, blocos de partos e saúde mental. Uma greve inventada pelo PSD/bastonária do Ordem dos Enfermeiros (com a Ordem arvorada em entidade sindical), depois dos dois sindicatos afectos à UGT/PSD terem, há algum tempo, decretada uma greve de zelo (!?). Uma paródia a que desta vez os sindicatos da CGTP não aderiram.

PS e PSD, as duas faces da mesma moeda

O PS não difere em nada do PSD/CDS, excepto no estilo e no discurso, porque a política é a mesma e com um único objectivo: bem gerir os negócios do capital, assegurando que o estado, que não é neutro, cumpre bem a missão de os defender e promover, para além de simultaneamente garantir a sua função repressiva. São ilustrativas as palavras do ministro da Agricultura (parece que o homem tem lugar cativo no cargo sempre que o PS é governo, terá alguma avença da Celbi, empresa de que Pinto Balsemão é accionista?), o PS não está contra o eucalipto (pouco tempo antes fora aprovado concurso de 9 milhões de euros para o eucaliptal, de um total de 27 milhões para a dita floresta industrial), quer sim é uma melhor gestão da floresta, mais concretamente, “queremos ter mais metros cúbicos de eucalipto para alimentar as celuloses, que são fundamentais para o país, mas na mesma área”.

Resumindo, o PS quer uma melhor gestão do capitalismo, de preferência com algum "rosto humano", traduzido pela restituição de uma pequena, senão pequeníssima, parcela do que foi retirado aos trabalhadores. O PSD vai mais à bruta, não está com subtilezas nem com rodriguinhos, daí defender que o eucalipto não contribui para o aumento dos incêndios já que, na sua douta-ignorante opinião, é uma árvore que custa a arder e fácil de apagar quando incendiada (não se trata de patologia de mentiroso compulsivo, mas de canalha sem o mínimo de escrúpulos para mostrar que ele e o seu partido são os mais eficientes na gestão da acumulação capitalista). Existe entre estes dois partidos quanto muito uma diferença de grau, ou seja, PS = capitalismo com regras (com vaselina), PSD/CDS = capitalismo sem freio (sem vaselina). No fundo, a mesma coisa.

3 de Julho 2017