Parece que este ano de 2026 não haverá a tão falada silly season, a estação da parvalheira política; bem pelo contrário, tudo indica que será um Verão bem divertido e quente que até o primeiro-ministro nem sequer vai a banhos, ao contrário do que aconteceu no ano passado, tendo sido fortemente criticado porque o país ardia, e nem ao futebol. A tarefa principal vai ser a de segurar os ministros contestados pela oposição e pelos cidadãos indignados devido ao que aconteceu, e ainda está a acontecer, com os exames nacionais; o caos que Montenegro nega, pelo facto de ele e “todos (estarem) focados na missão” reformista, de desmantelamento do que ainda resta do estado social e de empobrecimento de uma larga faixa dos cidadãos portugueses, incluindo a própria classe média que lhe deu a vitória nas eleições legislativas.
Os ministros contestados, almofadas protectoras de Montenegro
A extrema-direita encontra-se na primeira fila
na cruzada pela demissão do ministro da Administração Interna, o governo recusa
comentar o caso, com o ministro Adjunto e da Reforma do Estado a garantir que
todos os ministros estão "focados na sua missão" e na reforma do estado.
O líder do partido neo-fascista com representação parlamentar contra-ataca,
exige a criação de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) e assedia o PR Seguro, em digressão turística por Cabo Verde,
a pressionar o governo no sentido da demissão do seu inimigo de
estimação, o ex-polícia que ousou desmontar a argumentação demagógica de que o
hipotético aumento da criminalidade estaria ligado à imigração. O ministro
colocou-se a jeito e será o saco de boxe em lugar de Montenegro, o mesmo
acontece com o ministro, “melhor credenciado”, da Educação. O PS promete outra
comissão de inquérito mas para os exames. Comissões não faltarão e já com
resultados pré-anunciados, como todas as que foram criadas até hoje na “casa da
democracia”.
Tem sido moda fazer sondagens a torto e a
direito, com os resultados a servirem de orientação para as política quer do
governo quer dos partidos. Foi assim com a mudança de posição do partido da
extrema-direita em relação ao pacote laboral, é agora em relação à actuação do
ministro Fernando Alexandre, ou às explicações dadas pelo ministro Luís Neves, e ao
apoio aos três principais partidos em termos eleitorais, com o PS a surgir em
primeiro lugar e a AD a ser atirada para o terceiro lugar. Quase de certeza que
haverá remodelação do governo ainda antes do final do Verão, ou seja, em princípio de Setembro;
será uma remodelação parcial atendendo aos números de ministros cuja actuação é
contestada em termos populares ou de sondagens. Perdem-se os anéis para salvar
os dedos, ou seja, Montenegro, que nos parece não estar neste momento
interessado em provocar eleições antecipadas, embora vontade não lhe falte, já que
as sondagens mostram que os eleitores querem que o mandato seja levado até ao
fim.
O governo é todo ele um corpo canceroso, todo ele deve ser demitido. A
ministra da Saúde ficará, está a fazer um excelente trabalho no desmantelamento
do SNS e na privatização de uma grande parte dos cuidados de saúde. A ministra
do Trabalho tem lugar cativo já que não desiste de fazer aprovar o pacote
laboral, se não for a bem irá a mal, e tem o apoio da generalidade das
associações patronais. E o ministro das Infraestruturas e Habitação estará de
pedra e cal, apesar das acusações que lhe estão a ser feitas de ter beneficiado
a cadeia internacional de hotéis Hilton com claro prejuízo dos bens públicos,
aquando vice-presidente da câmara de Cascais. E o próprio Montenegro ainda não
se livrou do caso Spinumviva, a empresa que construiu para receber as luvas dos
favores que fazia aos oligarcas da cor. Os estudantes em manifestação exigem a
demissão do ministro, mas a palavra de ordem será a de demissão de todo o
governo.
Os ministros estão "focados na sua
missão" e na reforma do estado; pois estão. Embora não queiram assumir as
suas responsabilidades. Quanto aos exames a culpa do caos foi atribuída aos agrafadores,
aos professores, aos directores da escola e o primeiro-ministro sentenciou que “não
há nenhum caos nos exames em Portugal”. No entanto, será difícil imaginar maior
trapalhada e tudo acontece, e ainda vamos a meio do processo: alunos que ficam
sem nota porque as provas desaparecem, alunos com a nova nota “suspenso”,
provas com falta de folhas ou com folhas trocadas, perguntas mal formuladas, mais
de 26 mil provas afectadas por erros, cerca de 8.900 pedidos de reapreciação de
provas (+ 43% face a 2025), candidaturas ao ensino superior em queda, 45%
abaixo do ano passado (14.191 contra 11.432), criada época extraordinária
de exames nacionais em Setembro, etc… O ministro lá “admitiu” os
erros, alguém lhe terá dito para o fazer, mas recusa alterar calendário de
acesso ao ensino superior, apesar dos reitores se manifestarem disponíveis para
adiar o calendário. A teimosia denota burrice e, sobretudo, que há uma missão a
cumprir: dar cabo de vez com a Escola Pública, à semelhança do SNS.
Os serviços públicos são desmantelados, são
destruídos, o ministro gabou-se de que a redução dos funcionários do Ministério
da educação, assim como a destruição de alguns serviços essenciais e
experientes, com os resultados agora conhecidos, são uma coisa boa. Pois são,
e os privados agradecem. Depois de ter contratado uma empresa de amigos do
partido para a criação da plataforma para a digitalização das provas, Blat -
Creative Powerhouse, por ajuste directo, o ministério da educação contratou os
serviços da Deloitte Technology para presumivelmente ajudar à resolução dos problemas
da digitalização das provas, classificação e divulgação das notas dos exames, por
um montante 701.100 euros. Quatro meses antes, outro contrato já tinha sido celebrado
com a mesma empresa no valor aproximado de 1,5 milhões de euros, também ao
abrigo do mesmo acordo-quadro da ESPAP (Entidade de Serviços Partilhados da
Administração Pública). Tal como na saúde, fecha-se o púbico, beneficia-se o
privado e o que se “poupa” entrega-se a empresas privadas, e se foram
estrangeiras tanto melhor. Os dinheiros públicos são drenados para o capital, e o
povo paga a dobrar. Nesta questão, como em tantas outras, o PS é igual ao
PSD: «o Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) adjudicou, na última
década, 11,35 milhões de euros a um conjunto de empresas através de 126
contratos registados no portal BASE».
Tirar aos trabalhadores e aos pobres para dar aos ricos
É esta drenagem, em sistema de vasos
comunicantes, de riqueza produzida pelos trabalhadores, e arrecadada nos cofres
públicos, para os bolsos da oligarquia e das grandes empresas estrangeiras,
nomeadamente os bancos, que tem ajudado, entre outros factores, a empobrecer o
povo português. O endividamento do sector público subiu 2,9 mil milhões, em Maio
último, e o do setor privado aumentou ainda mais, 3,6 mil milhões, tendo o endividamento
global da economia ascendido a um novo record, 883,2 mil milhões de euros. Ganha
o grande capital, paga o povo. E como diz a imprensa mainstream: «dívida
pública dá trambolhão, Portugal paga 9, 25 mil milhões aos credores» este ano. E
a IGCP (Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública) ainda terá de
reembolsar mais 5 mil milhões à troika até final do ano. Estaremos quase uma
vida inteira a pagar um empréstimo que não precisávamos e que nos foi imposto
por Bruxelas para salvar os principais bancos europeus que eram “demasiado
grandes” para falir. Não se sabe quando acabará a escravidão da dívida
soberana.
Em Portugal, a banca está de boa saúde. Os lucros
sobem há cinco anos e em 2025 superaram 6,317 mil milhões de euros, batido um novo record – segundo dados fornecidos pelo Banco de Portugal. O crédito da casa
atingiu os 110 mil milhões de euros no final do ano passado, aproximando-se dos
níveis pré-troika, o que explica em parte o maior endividamento das famílias
registado em Maio. A Brisa Concessão Rodoviária aumentou os lucros para 356,8
milhões de euros em 2025, mas, não estando contente, exige ao estado uma compensação
financeira de 1.122,5 milhões de euros; quando o ramo se mostra verde carrega-se.
No final de 2025, Autoridade Tributária e Aduaneira (AT) tinha 17.504 milhões
de euros por cobrar, dos quais 8484 milhões dizem respeito a dívida suspensa,
isto é, considerada incobrável ou de difícil recuperação. Mas a carteira global
de dívida tributária é superior, atingiu 27.949 milhões de euros no final do ano
passado, mais 2,6% do que em 2024. Dinheiros que ficarão nos bolsos das grandes
empresas que, pelos vistos, são imunes a cobranças coercivas, ao contrário do comum
dos mortais cidadãos.
Mas o grande capital é insaciável e jamais ficará satisfeito. O ministro das Finanças já deixou o aviso à populaça: a Nato/Otan exige que se cumpra a meta dos 5% do PIB em gastos com a defesa (guerra) e será necessário aumentar ou criar novos impostos. Os bancos esfregam as mãos de satisfação. E o governo acaba de contratar a aquisição de três novas fragatas, possivelmente para a pesca da sardinha, à empresa italiana Fincantieri pelo montante de 3,9 mil milhões de euros, ao abrigo do programa SAFE (Security Action for Europe); dívida que não contará para o défice público segundo Bruxelas. Mas terá de ser paga… e com juros pelos mesmos de sempre.
E quanto ao
Orçamento de Estado para 2027, que o PS se prepara para aprovar a troco de
algumas contrapartidas, Bruxelas já veio dizer que quer medidas “restritivas”,
já sabemos que serão para a saúde, a educação, segurança social, e por aí fora,
para a compra de material de guerra já não há quaisquer restrições. Não haverá imposto
sobre lucros excessivos das empresas especuladores, exemplo petrolíferas, nem
haverá, ao contrário do que o governo prometera e já que também não há eleições,
mais descida de IRS ou suplemento às pensões. Há sim menos apoios à amamentação
e à parentalidade, alegando a ministra que a despesa seria "incomportável", como
se fosse ela a pagar do próprio bolso e não dos dinheiros públicos, e o Subsídio
de Mérito Cultural diminuiu ou foi eliminado para muitos artistas. A cultura
não é prioridade para o governo, o povo deve ser estúpido e se a população do país
diminuir, como se prevê, cerca de 70%, não será problema, há muita gente e a
eugenia é bem vinda.
Governo que não funciona ao serviço de quem trabalha deve ser extirpado
A economia está em crise, e será esta que
decidirá em última estância a sorte do governo Montenegro/PSD/CDS. Exportações
recuaram 0,2% e importações cresceram 3,5% até ao mês de Maio. Aproveitando o
descalabro do abastecimento de água no concelho de Almada pela gestão da câmara
socialista, Bruxelas anuncia que quer a água mais cara em Portugal e lança
críticas à gestão dos municípios, sugerindo claramente que essa gestão deve ser
entregue a empresas privadas. Para o capital tudo é mercadoria, tudo é
susceptível de gerar lucro. O povo deve ser esmifrado até ao tutano e, pela
lógica, não deve protestar porque a culpa é dele. E é neste sentido que todas
as medidas do governo são elaboradas e postas em prática: quanto à habitação
foram aprovadas medidas que facilitam os despejos e o dito “subsídio social” da
renda mais não passa que um incentivo à especulação por parte dos senhorios.
O governo criou um grupo de trabalho para ver da venda dos activos ainda na posse do estado,
são 17 empresas cuja venda das participações será feita por 10 reis de mel coado.
Os governos do PSD/CDS sempre tiveram uma febre privatizadora, mais do que o
PS, talvez na proporção da avidez de enriquecimento pessoal dos seus membros constituintes.
A drenagem da riqueza não poderá afrouxar.
O SNS estiola, as urgências continuam a fechar, apesar da reforma maravilhosa das urgência regionais; os partos continuam a
acontecer nas ambulâncias, no entanto já não são notícia; o INEM tem falta de
viaturas mas vai alugando aos privados umas poucas, a reforma recente é para
isso mesmo; as pessoas esperam pelo socorro deitadas no chão por horas; o governo
não quer pagar aos médicos tarefeiros nem aos médicos que fazem actos médicos
fora das horas de serviço, o que por si só não deixa de ser uma vigarice inventada
pelos próprios; o governo vai vender o Hospital da Cruz Vermelha, em vez de o aproveitar
para cuidados continuados, por exemplo; os partos são feitos maioritariamente por
cesariana, o que é mais lucrativo e exige menos investimento por parte dos
privados, em vez de sala de partos há uma de pequena cirurgia; metade do
Alentejo é controlado por um único grupo privado da saúde (doença), o Hospital
da Luz vai distribuir pelos acionistas 44,9 milhões de euros dos 237,8
milhões de euros de reservas disponíveis para distribuir – um enorme mealheiro
para os negociantes da doença.
A corrupção e o endurecimento do aparelho
repressivo sobre quem trabalha evoluem. Os bairros pobres são considerados “problemáticos”
pelas forças policiais. «Compilação de dezenas de zonas urbanas sensíveis (ZUS)
mostra que policiamento se foca em comunidades guetizadas. Por ordem do
tribunal, GNR identificou bairros. PSP esconde lista e critérios». (da
imprensa). Assim como «a normalização de discursos xenófobos e o crescimento da
extrema-direita estão a tornar Portugal um ambiente mais hostil, alerta o
Relatório sobre o Espaço Cívico (Civic Space Report) 2026». Continuando: «Violações
da privacidade dos dados, repressão policial abusiva de protestos pacíficos,
falta de financiamento das organizações e aumento da extrema-direita são alguns
dos alertas de um relatório sobre o espaço público português». Assim se percebe
a actual sanha do partido do 4º pastorinho e dele próprio contra o ministro da
Administração Interna, talvez temam não só as palavras mas alguma reforma mais
democratizante das forças policiais. E para terminar não é despiciendo anotar
que «13 anos depois, estado indemnizou a família de MC Snake, morto por polícia».
São 110 mil euros, reparação já aprovada no último governo do PS/Costa, veio
tarde mas veio; contudo, prescreveu o processo disciplinar contra o agente da
PSP Nuno Rodrigues Moreira condenado por homicídio negligente.
Os estudantes e os professores exigem a demissão do ministro da Educação, mas a maioria do povo português exige a demissão de todo o governo na justa medida de que é um tumor maligno que deve ser extirpado.
(Imagem: Manifestação de estudantes e professores em frente do Ministério da Educação, "Observador")

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