segunda-feira, 25 de maio de 2026

MANUAL DO BOM FASCISTA

 

Por Rui Zink

O BOM FASCISTA NÃO GOSTA DE SER CHAMADO FASCISTA

Acha que o retrato não lhe faz justiça. E a justiça é muito importante para o bom fascista. Ele não suporta injustiças. E, afinal de contas, o que significa "ser fascista"? Nada. Salazar, por exemplo. Passam a vida a chamar-lhe fascista, mas «não era fascista» [sic — estas coisas não se inventam]. Já muitos e bons doutores explicaram que Salazar não era fascista. Fascistas eram Hitler e Mussolini. E Salazar era muito diferente de Hitler e de Mussolini. Para começar, Hitler falava alemão e Mussolini italiano. Ora, Salazar não falava nem alemão nem italiano, falava português. Para terminar, Mussolini era gordo e careca e Hitler tinha bigode a Charlot. Já Salazar, embora tivesse cabelo, não usava bigode. Só não vê quem não quer ver! Haverá provas mais científicas de que nunca houve ditadura em Portugal? Ora bem.

Depois, há todo um ror de infinitas e subtis (mas significativas) diferenças. Salazar nao comia tagliatelle nem sauerkraut, ele era patrioticamente mais aderente a dieta lusitana: bacalhau a Gomes de Sá, arroz de cabidela, iscas com elas, chocos sem tinta.

Pimba.

E há mais:

«(...) Enquanto Mussolini, Hitler ou Franco discursavam e apareciam em púbico em trajes militares, Salazar nunca o fez.»

Inteira razão, doutor Campos e Cunha, só não vê quem não quer ver. Salazar era apenas, admitamos (sendo contemporizadores após este momento de retórico triunfo), talvez "um bocadinho autoritário".

Mas isso era para o bem do país. E não enriqueceu. A prova é que não deixou nada aos filhos nem pôs a empresa em nome da mulher.

*

O BOM FASCISTA NÃO SE ARMA EM ESQUISITO

O bom fascista alimenta-se de mentiras e distorções, é essa a sua dieta favorita, mas, se não houver mais nada para comer, também não desdenha a um facto. O bom fascista gosta de tasquinhar, e até acha graça à ocasional verdade, desde que esses exóticos produtos chamados factos cumpram o requisito fundamental: confirmarem aquilo que pensa.

Quando vê o noticiário, um bom fascista não se deixa dispersar nem enganar: só escuta aquilo que já sabe. Um telejornal pode mostrar golfinhos no Tejo, um incêndio em Los Angeles, uma entrevista um ministro estrangeiro, greves em França, o julgamento dos separatistas em Espanha, uma declaração do Papa sobre recentes escândalos, uma cimeira entre a Ucrânia e a Rússia. Tudo isso o bom fascista vê com o ar adormecido de um velho crocodilo a jogar bingo. Só quando sai o número certo — digamos, “cigano/muçulmano atacou alguém" — é que o crocodilo lá abre um olho, subitamente alerta. E comenta, satisfeito com a sua visão periférica:

«Eu sabia. Esta gente...»

*

O BOM FASCISTA NÃO SE METE EM POLÍTICA

Até porque a sua política é o trabalho.

E muito gosta o bom fascista do trabalho. Ao contrário dos outros, que «não querem é trabalhar», o bom fascista quer trabalhar. E não tem medo do trabalho. A sério, não tem. Consegue aproximar-se do trabalho sem medo — desde que tenha um chicote, uma cadeira e, bem entendido, o trabalho esteja devidamente açaimado e/ou acorrentado à parede.

Se o bom fascista tem um chicote e uma cadeira, e o trabalho estiver devidamente açaimado, o trabalho que se cuide. Com ele não faz farinha.

Quando interrompe o trânsito e os carros de trás começam a buzinar, o bom fascista ruge:

«Estou a trabalhar!»

E quando não o deixam passar, aí é o bom fascista que carrega na buzina, e grita:

«Tira daí essa merda que tenho de ir trabalhar!»

Todavia, por vezes, o bom fascista também gosta de dizer, rindo com gosto, que «o trabalho é bom é para o preto». Isto é, aliás, por definição, o que faz rir o bom fascista: imaginar alguém a ser pisado, maltratado, espezinhado. E a levar porrada no lombo, se refilar, para aprender a da próxima vez ficar quietinho.

O bom fascista, quando ri, ri de cima para baixo.

O que nem sempre é fácil, convenhamos. Sobretudo quando estamos cheios de trabalho.

O bom fascista gosta tanto de trabalhar que, quando não está a trabalhar, finge que está a trabalhar.

*

O BOM FASCISTA TOLERA PRETOS, DESDE QUE SAIBAM O SEU LUGAR

Esta não é a terra deles, diz o mesmo bom fascista que antes achava que a terra deles era "nossa". Esta terra é a nossa terra e se não gostam voltem para a terra deles. Quem não está bem, muda-se. E calem-se. Parem com a chinfrineira sobre o "colonialismo" e o “tráfico de escravos”. Quem não está bem emudece.

Eles são eles e nós somos nós e assim é que é bonito. O bom fascista desconfia do até do turismo: pode ser imigração encapotada. E tecnicamente até é, só que  imigração por pouco tempo — tal como a imigração pode ser também vista como turismo prolongado.

De igual modo, aquilo a que chamam "tráfico de escravos" pode ter sido apenas a invenção, ainda titubeante, do turismo moderno. Afinal, quando levaram pretos de África para o Brasil, não estariam os nossos gloriosos antepassados apenas a criar a primeira Agência Abreu da História? Certo, as condições no porão talvez não fossem as melhores, mas os lugares na Ryanair e na EasyJet também são apertados. E desde quando quem viaja quase à borla (ou mesmo à borla, no caso dos escravos) tem direito a queixar-se?

O bom fascista nada tem contra os pretos, atenção, só acha é que não têm a nossa cultura, não partilham os nossos valores e está mal se vêm para cá surrupiar os nossos empregos e, com os seus mastodônticos marsápios, ficar com as nossas mulheres.

O BOM FASCISTA NÃO TEM SAUDADES DE SALAZAR

Nem precisa. Por que raio precisaria se Salazar continua vivo em nossos corações, fígados, bocas e mentes?

Factos são factos. Mesmo passado meio século, o bom homem continua a polonizar-nos o imaginário, qual abelhinha redentora.

Qual santa da ladeira, continua a escutar e a reciclar os nossos pecados.

Qual el-rei D. Sebastião em modo de rancho-melhorado, não precisa de voltar numa noite de nevoeiro — pois ele mesmo é nevoeiro.

O bom fascista sabe que Salazar «sempre quis o melhor para o país». E concede que (está bem, melga) aqui e ali terá sido um bocadinho autoritário e que a PIDE terá feito coisas, das quais ele até nem não sabia, porque não lhe diziam tudo. Agora fascista, Salazar? Isso não.

Foi o quê. então? Foi, digamos, um bocadinho autoritário.

A verdade é que, vendendo volfrâmio aos alemães e emprestando a base das Lajes aos americanos, «Salazar salvou-nos da guerra». E fê-lo com a mesma camponesa manha com que acomodava espiões aliados no Hotel Vitória (hoje, ó ironia, sede do PCP) e espiões nazis no Tivoli (hoje, oh ironia, ainda um belo hotel).

E Salazar foi sempre humilde e discreto. Certo, viveu quarenta anos num palácio — mas acaso era seu? Ah, bom. Tava a ver. E, modesto e humilde, nunca foi agarrado ao poder. O poder é que se lhe agarrou às mãos como um irritante adesivo se cola aos dedos. Acaso uma pessoa é culpada por um adesivo se lhe colar aos dedos?

Ná, o bom fascista não tem saudades de Salazar. Acha apenas que Portugal precisa de um outro Salazar. Alguém que pusesse isto no eixo.

(“Manual do Bom Fascista”, Rui Zink. Ideias de Ler, 2019)

Caricaturas de João Abel Manta (1928-2026, Lisboa)

Nenhum comentário:

Postar um comentário