Por Rui Zink
O BOM FASCISTA NÃO GOSTA DE SER CHAMADO FASCISTA
Acha que o retrato não lhe faz justiça. E a
justiça é muito importante para o bom fascista. Ele não suporta injustiças. E,
afinal de contas, o que significa "ser fascista"? Nada. Salazar, por
exemplo. Passam a vida a chamar-lhe fascista, mas «não era fascista» [sic —
estas coisas não se inventam]. Já muitos e bons doutores explicaram que Salazar
não era fascista. Fascistas eram Hitler e Mussolini. E Salazar era muito
diferente de Hitler e de Mussolini. Para começar, Hitler falava alemão e
Mussolini italiano. Ora, Salazar não falava nem alemão nem italiano, falava português.
Para terminar, Mussolini era gordo e careca e Hitler tinha bigode a Charlot. Já
Salazar, embora tivesse cabelo, não usava bigode. Só não vê quem não quer ver! Haverá
provas mais científicas de que nunca houve ditadura em Portugal? Ora bem.
Depois, há todo um ror de infinitas e subtis
(mas significativas) diferenças. Salazar nao comia tagliatelle nem sauerkraut,
ele era patrioticamente mais aderente a dieta lusitana: bacalhau a Gomes de Sá,
arroz de cabidela, iscas com elas, chocos sem tinta.
Pimba.
E há mais:
«(...) Enquanto Mussolini, Hitler ou Franco
discursavam e apareciam em púbico em trajes militares, Salazar nunca o fez.»
Inteira razão, doutor Campos e Cunha, só não vê
quem não quer ver. Salazar era apenas, admitamos (sendo contemporizadores após
este momento de retórico triunfo), talvez "um bocadinho autoritário".
Mas isso era para o bem do país. E não
enriqueceu. A prova é que não deixou nada aos filhos nem pôs a empresa em nome
da mulher.
*
O BOM FASCISTA NÃO SE ARMA EM ESQUISITO
O bom fascista alimenta-se de mentiras e
distorções, é essa a sua dieta favorita, mas, se não houver mais nada para
comer, também não desdenha a um facto. O bom fascista gosta de tasquinhar, e
até acha graça à ocasional verdade, desde que esses exóticos produtos chamados factos
cumpram o requisito fundamental: confirmarem aquilo que pensa.
Quando vê o noticiário, um bom fascista não se
deixa dispersar nem enganar: só escuta aquilo que já sabe. Um telejornal pode
mostrar golfinhos no Tejo, um incêndio em Los Angeles, uma entrevista um
ministro estrangeiro, greves em França, o julgamento dos separatistas em
Espanha, uma declaração do Papa sobre recentes escândalos, uma cimeira entre a
Ucrânia e a Rússia. Tudo isso o bom fascista vê com o ar adormecido de um velho
crocodilo a jogar bingo. Só quando sai o número certo — digamos, “cigano/muçulmano
atacou alguém" — é que o crocodilo lá abre um olho, subitamente alerta. E
comenta, satisfeito com a sua visão periférica:
«Eu sabia. Esta gente...»
*
O BOM FASCISTA NÃO SE METE EM POLÍTICA
Até porque a sua política é o trabalho.
E muito gosta o bom fascista do trabalho. Ao
contrário dos outros, que «não querem é trabalhar», o bom fascista quer
trabalhar. E não tem medo do trabalho. A sério, não tem. Consegue aproximar-se
do trabalho sem medo — desde que tenha um chicote, uma cadeira e, bem
entendido, o trabalho esteja devidamente açaimado e/ou acorrentado à parede.
Se o bom fascista tem um chicote e uma
cadeira, e o trabalho estiver devidamente açaimado, o trabalho que se cuide.
Com ele não faz farinha.
Quando interrompe o trânsito e os carros de
trás começam a buzinar, o bom fascista ruge:
«Estou a trabalhar!»
E quando não o deixam passar, aí é o bom
fascista que carrega na buzina, e grita:
«Tira daí essa merda que tenho de ir
trabalhar!»
Todavia, por vezes, o bom fascista também
gosta de dizer, rindo com gosto, que «o trabalho é bom é para o preto». Isto
é, aliás, por definição, o que faz rir o bom fascista: imaginar alguém a ser
pisado, maltratado, espezinhado. E a levar porrada no lombo, se refilar, para
aprender a da próxima vez ficar quietinho.
O bom fascista, quando ri, ri de cima para
baixo.
O que nem sempre é fácil, convenhamos.
Sobretudo quando estamos cheios de trabalho.
O bom fascista gosta tanto de trabalhar que,
quando não está a trabalhar, finge que está a trabalhar.
*
O BOM FASCISTA TOLERA PRETOS, DESDE QUE SAIBAM
O SEU LUGAR
Esta não é a terra deles, diz o mesmo bom
fascista que antes achava que a terra deles era "nossa". Esta terra é
a nossa terra e se não gostam voltem para a terra deles. Quem não está bem,
muda-se. E calem-se. Parem com a chinfrineira sobre o "colonialismo"
e o “tráfico de escravos”. Quem não está bem emudece.
Eles são eles e nós somos nós e assim é que é
bonito. O bom fascista desconfia do até do turismo: pode ser imigração
encapotada. E tecnicamente até é, só que imigração por pouco tempo — tal como a imigração
pode ser também vista como turismo prolongado.
De igual modo, aquilo a que chamam
"tráfico de escravos" pode ter sido apenas a invenção, ainda
titubeante, do turismo moderno. Afinal, quando levaram pretos de África para o
Brasil, não estariam os nossos gloriosos antepassados apenas a criar a primeira
Agência Abreu da História? Certo, as condições no porão talvez não fossem as
melhores, mas os lugares na Ryanair e na EasyJet também são apertados. E desde
quando quem viaja quase à borla (ou mesmo à borla, no caso dos escravos) tem
direito a queixar-se?
O bom fascista nada tem contra os pretos,
atenção, só acha é que não têm a nossa cultura, não partilham os nossos valores
e está mal se vêm para cá surrupiar os nossos empregos e, com os seus
mastodônticos marsápios, ficar com as nossas mulheres.
O BOM FASCISTA NÃO TEM SAUDADES DE SALAZAR
Nem precisa. Por que raio precisaria se
Salazar continua vivo em nossos corações, fígados, bocas e mentes?
Factos são factos. Mesmo passado meio século,
o bom homem continua a polonizar-nos o imaginário, qual abelhinha redentora.
Qual santa da ladeira, continua a escutar e a
reciclar os nossos pecados.
Qual el-rei D. Sebastião em modo de
rancho-melhorado, não precisa de voltar numa noite de nevoeiro — pois ele mesmo
é nevoeiro.
O bom fascista sabe que Salazar «sempre
quis o melhor para o país». E concede que (está bem, melga) aqui e ali terá
sido um bocadinho autoritário e que a PIDE terá feito coisas, das quais ele até
nem não sabia, porque não lhe diziam tudo. Agora fascista, Salazar? Isso não.
Foi o quê. então? Foi, digamos, um
bocadinho autoritário.
A verdade é que, vendendo volfrâmio aos
alemães e emprestando a base das Lajes aos americanos, «Salazar salvou-nos
da guerra». E fê-lo com a mesma camponesa manha com que acomodava espiões aliados
no Hotel Vitória (hoje, ó ironia, sede do PCP) e espiões nazis no Tivoli
(hoje, oh ironia, ainda um belo hotel).
E Salazar foi sempre humilde e discreto.
Certo, viveu quarenta anos num palácio — mas acaso era seu? Ah, bom. Tava a
ver. E, modesto e humilde, nunca foi agarrado ao poder. O poder é que se lhe
agarrou às mãos como um irritante adesivo se cola aos dedos. Acaso uma pessoa é
culpada por um adesivo se lhe colar aos dedos?
Ná, o bom fascista não tem saudades de
Salazar. Acha apenas que Portugal precisa de um outro Salazar. Alguém que
pusesse isto no eixo.
(“Manual do Bom Fascista”, Rui Zink. Ideias de Ler, 2019)
Caricaturas de João Abel Manta (1928-2026, Lisboa)


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