Dois casos: Rosa Casaco e Casimiro Monteiro
1. Um assassino que morreu de velhice!
O assassino e ex-inspector da PIDE Rosa Casaco
morreu em paz com 91 anos (gozaria de uma abastada reforma por “serviços à
Pátria”?), entrava e saía livremente no país ainda com o mandado de prisão em
vigor porque tinha sido “condenado” a oito anos de prisão pelo assassinato do
general Humberto Delegado e da sua secretária Arajaryr.
A partir de 2002 o Supremo Tribunal de Justiça
tinha decretado a extinção dos mandados por extinção dos processos em que tinha
sido condenado à revelia pelo Tribunal Militar em plena democracia de Abril.
Andou fugido (ou a viajar) por Brasil e Espanha, escreveu livros, deu
entrevistas a dois jornais de referência, que terão pago bom dinheiro,
“Expresso” e “Independente”, deixou-se fotografar junto à Torre de Belém, em
1998, gozou da maior impunidade. Desculpou Salazar pelo assassínio do general
Humberto Delgado atribuindo a responsabilidade à própria PIDE. Riu-se desta
democracia de opereta.
Quem foi António Rosa Casaco?
A sua ficha profissional diz que nasceu a 1 de Março de 1915, ao que parece na povoação de Rossio, concelho de Abrantes. Começou como empregado comercial, trocando o lugar por um melhor remunerado de agente da PIDE em 12 de Janeiro de 1937. As habilitações literárias não o favoreciam, não passando de “lateiro” na tropa, onde conseguiu ficar até concluir o 2º curso das Escolas Regimentais, que pouco valia. Em 1950, apesar de toda a experiência adquirida em treze anos de pide tentou o concurso para chefe de brigada, tendo reprovado. Mas ia apresentando bom serviço na benemérita instituição que o recebeu, descarregando as frustrações e o ódio sobre as vítimas que lhe iam parar às mãos, daí as observações que constam da sua ficha: «Combativo, mas pouco expedito». Mais tarde, alguém acrescentará: «Educado, inteligente e dedicado, e de toda a confiança» (1).
Rosa Casaco, quando foi entrevistado pelo
jornal "Expresso", em 1998.
Outras notas curiosas: andou no serviço do
correio diplomático Lisboa-Madrid; morava no Bairro do Restelo, na Rua Pedro
Escobar, onde decerto não faltariam elementos para determinar como os 37 anos
de inspector da PIDE foram materialmente frutuosos. Mal eclode a “revolução” na
madrugada do dia de 25 de Abril, o pide Rosa Casaco, bem avisado e sabendo do
que se iria passar, colocou-se logo ao “fresco”, nunca se sentou no “mocho” a
fim de responder pelos seus crimes, nem as autoridades “revolucionárias” vigentes
na década de setenta, nem os governos posteriores do PSD e do PS, se
preocuparam em levar os criminosos do fascismo a julgamento e castigo pelos
crimes nefandos praticados contra o povo. A razão? Alguns dos democratas pós-25
de Abril, alcandorados ao poder, foram coniventes com o fascismo, alguns
inclusivamente terão sido informadores da PIDE, outros choraram que a PIDE
tivesse desaparecido (lembremo-nos da polémica suscitada por Francisco Sousa
Tavares ao acusar os juízes do Tribunal Militar de quererem a PIDE para lhes
proteger as costas), pelo menos, formalmente.
Um regime democrático que desculpa e branqueia
as atrocidades de um regime ditatorial dificilmente poderá ser credível, e a
elite que aí se encontra no poder é conivente e, dessa forma, também
historicamente responsável pelas atrocidades perpetradas pela velha elite.
Esconder a História é preparar o terreno para futuros e maiores crimes.
(Dados retirados de Dossier PIDE - Os
Horrores e Crimes de uma "Polícia", ed. APR, Lisboa. 1974)
2. Casimiro Monteiro uma "besta de força"
Casimiro Monteiro, o pide que terá apertado o gatilho contra o general Humberto Delgado e a sua secretária, em 13 de Fevereiro de 1965, assassinando-os a mando de Salazar
Casimiro Emérito Rosa Teles Jordão Monteiro era
um homem «muito grande, muito largo, era uma besta de
força». Ingressa em 1933, no Seminário de Goa, que abandona ao fim de um
ano.
Alista-se, então, no Exército Português, mas
acaba por desertar. Vai para Itália, entra para a Legião Estrangeira e parte
para a Guerra Civil de Espanha, onde se torna famoso pela ferocidade. No início
da Segunda Guerra Mundial alista-se como voluntário na Divisão Azul alemã.
Participa na invasão da Rússia. «Combateu na guerra civil espanhola e esteve na
Rússia durante a Segunda Guerra Mundial», garante Óscar Cardoso (1).
Desbaratada a Divisão Azul, deserta e
atravessa a Europa. Em Outubro de 1943, é detido e interrogado pela
contra-espionagem inglesa. Comprovada a veracidade das suas declarações, os
ingleses enviam-no para os comandos. Incorporado no 8° Exército de Montgomery,
combate as tropas de Rommel. E participa na invasão de Itália, sendo gravemente
ferido.
Em 1945, é talhante em Londres. Ao mesmo
tempo, é informador da Scotland Yard e membro duma quadrilha de assaltantes de
ourivesarias. Num dos assaltos é assassinado um dos empregados da ourivesaria.
Casimiro Monteiro é procurado pela Scotland Yard, que lhe atribui o crime. E é
perseguido, também, pelos membros da sua quadrilha, que tinham sabido da sua
qualidade de informador. Descoberto por estes é espancado e retalhado à
navalha.
Acaba por fugir para a Índia Portuguesa. Em
1956, é agente de 1ª classe da Polícia Especial, sendo louvado pela sua
participação numa operação de que resultou a apreensão de uma enorme quantidade
de armas roubadas. Em 1958, o jornal português “A Voz de Chaves” notícia a
presença na terra do célebre «Leopardo», chefe de brigada em Goa , «herói
das campanhas da Europa e da Africa, solerte detective dos terroristas no
território português».
Entretanto, um colega de Goa, amante da sua
mulher, denuncia-o como assaltante de ourivesarias em Inglaterra apresentando
como prova um cofre, ainda com algumas jóias. É detido, primeiro na Trafaria,
logo depois na cadeia do Porto. Os territórios portugueses da Índia foram,
entretanto, anexados, pelo que muitas provas desapareceram. Monteiro comparece
a julgamento, em Dezembro de 1963, no Tribunal Militar de Santa Clara. Vinha
acusado de homicídio, extorsão, rapto, violação de mulheres, sevícias. Mas é absolvido.
Casimiro Monteiro terá, então, sido recrutado
por Hermes de Oliveira que, em consonância com Franco Nogueira, pretende
organizar a resistência armada na antiga colónia. Recebe quatrocentos contos a
título de prémio, além duma remuneração normal e de ajudas de custo. Já na
Índia, no âmbito da «Operação Mamasté», Monteiro, ao que parece depois de
assassinar o amante de sua mulher, põe umas bombas. Só que, desmantelada a sua
rede, tem de fugir, regressando a Lisboa. «Já depois da queda da Índia
Portuguesa, ele esteve envolvido com a resistência portuguesa naquele
território», afirma Cardoso.
Regressado a Lisboa, e convidado para chefe de
brigada da PIDE, embora não preencha os requisitos para tal, pois não possui o
5° ano dos liceus nem tem o certificado de registo criminal limpo. No entanto,
diz-se que por interferência do próprio Salazar, acaba sendo admitido. É
apadrinhado por Barbieri Cardoso, sendo colocado na Divisão de Informação.
A sua primeira acção terá sido o fabrico da
bomba para o Esperança , navio com pavilhão panamiano, que se dizia
seguir para a Tanzânia com armas para a FRELIMO. Óscar Cardoso assevera que
Monteiro era «um grande especialista em explosivos». De resto, o
próprio Casimiro Monteiro, no relatório que faz sobre o «Caso Angoche», refere
a sua larga experiência com explosivos.
Depois, com o nome de Washede Kundamal
Milpuri, passaporte retido pela PIDE em Lisboa, a um cidadão inglês de origem
paquistanesa, viaja para Espanha, ao encontro do general Humberto Delgado, a
quem teria assassinado a tiro.
Vai então para Lourenço Marques, onde a sua
colocação é assinalada no Boletim Oficial. Aí prepara a encomenda armadilhada
que mata Eduardo Mondlane, presidente da FRELIMO, ao que parece a mando do
subdirector de António Vaz. «O Casimiro Monteiro era um bulldog.
Dizia-se-lhe faz e fazia» - comenta Óscar Cardoso.
Em Moçambique, Casimiro Monteiro organiza e
chefia uma brigada de operações especiais, brigada que fazia razia nos
africanos suspeitos de apoio à FRELIMO. Aliás, o próprio Óscar Cardoso garante
que Monteiro entrava nos acampamentos e «resolvia as coisas à
catanada» . Seria promovido a subinspector.
No dia 24 de Abril, segundo um vizinho,
Casimiro Monteiro e a família retiraram-se precipitadamente para a África do
Sul. Óscar Cardoso diz tê-lo ali encontrado, em Richards Bay, a viver
miseravelmente e quase cego. Usava o nome falso de José Hernandez e sobrevivia
graças ao apoio da polícia sul-africana. Garante ter ele morrido.
E ainda:
(1) Óscar
Cardoso – Foi inspector da PIDE, criou os Flechas (corpo de comandos
constituído por naturais negros das ex-colónias), foi preso após o 25 de Abril
e condenado a pena mínima, é libertado em Maio de 1976. Treinou a RENAMO como
oficial do exército sul-africano, na década de setenta e oitenta do século
passado. E passou a receber uma pensão vitalícia, a partir de 1992, por
“serviços distintos prestados à Pátria” (atribuída por Cavaco Silva). Houve um
tempo em que se desdobrou em entrevistas a jornais e televisões. Na impunidade.
(Dalila Cabrita Mateus, “A PIDE-DGS na Guerra Colonial 1961-1974. Editora Terramar. Lisboa, 2004.)








