quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Os resultados eleitorais: nova volta, nova corrida

  

O Senhor Seguro de Si - Henricartoon

Como se esperava, terá de haver segunda volta, segunda corrida na caça ao voto do cidadão, para se saber quem é o sucessor de Marcelo no cargo de Presidente da República Portuguesa. Como também era previsível, o líder da extrema-direita fascista seria um dos apurados. No entanto e apesar da promoção nos últimos dias da campanha e do avanço das sondagens a seu favor, a vitória de Seguro não era certa e sabida, esperava-se alguma surpresa que contrariasse as previsões, avançadas e construídas quer pelas empresas de opinião quer pelos media mainstream pertencentes à oligarquia. O terceiro candidato quase que surpreendia, não fosse a notícia de um putativo caso de assédio sexual, estas coisas não são por acaso e surgem sempre na altura mais adequada. Ganhou o fascista político, foi arredado fascista económico, e para Seguro nada está seguro, embora a aposta é torná-lo PR, Enquanto ao quarto pastorinho é transformá-lo em salvador (do capitalismo nacional) alcandorando-o, caso fosse PR isso não seria possível, a primeiro-ministro após o fim precoce do governo Montenegro/PSD/CDS.

A extrema-direita surge como o papão da pequena-burguesia para se votar no candidato politicamente correcto. Logo que se soube dos resultados, ainda a contagem dos votos não estava encerrada, logo os líderes da esquerda institucional, PCP, Bloco e Livre, anunciam o apoio a Seguro, e o objectivo é explícito, para que o líder fascista não seja eleito; isto é, votar no mal menor e engolir alguns sapos, coisa que também não é inédita. Algo parecido se passa no campo da direita democrática, ou dita, com figuras importantes do PSD a confirmar o apoio ao candidato da “moderação. Os mandatários da candidatura de Mendes e de Cotrim e o líder da bancada parlamentar do IL foram os primeiros; seguiu-se Cavaco Silva, o considerado ideólogo do PSD e da dita direita. O que terá arrefecido a euforia do pastorinho como o grande vencedor e, assim, líder do campo de toda a direita contra o “socialismo”, e terá entalado ainda mais Montenegro que não usa, nem se espera, anunciar sobre quem votará no próximo dia 8 de Fevereiro.

Montenegro, se declara apoio a Seguro, hostilizará o chefe da extrema-direita e este chumbará o “pacote laboral”, apesar de aquele ser o melhor PR para fazer promulgar todas as leis, incluindo as piores para o povo português. Se manifesta apoio ao candidato do seu coração, e ideologia, irá dividir ainda mais o campo do centrão e reconhecer o “iluminado” como o líder incontestado de toda a direita. É o imbróglio para ao actual primeiro-ministro que está bem longe de chegar ao fim do mandato. Adivinha-se que nem o mandato de Seguro, se for mesmo eleito, porque não há certeza de nada, embora  as sondagens antes do dia 18 darem-lhe vitória na segunda volta com vantagem de 20%, nem o governo navegará em águas calmas de paz social ou de bom desempenho da economia nacional.

Montenegro falou no “governo de estabilidade”, agora na Assembleia da República, e Seguro prometeu uma “Presidência de estabilidade”, demasiada estabilidade. Optimismo a mais, quando o governo promete que não desiste do pacote laboral e a CGTP se prepara para novas formas de luta. Não somente os trabalhadores assalariados, mas igualmente os agricultores se mobilizam para a luta, já que o acordo UE/Mercosul provocará inevitavelmente a ruína de uma boa parte deles, por força da entrada livre de produtos da América Latina mais baratos mas de pior qualidade. Os produtores nacionais e europeus de gado, cereais e de vinho serão os principais a serem afectados. Bruxelas já anunciou que quer cortar mil milhões de euros na PAC (Política Agrícola Comum) para Portugal que, ocupando o penúltimo lugar da tabela, será dos mais penalizados. O comércio está na mira da crise, parece estar a ser afectado por menor procura, reflexo de perda de poder de compra dos portugueses , com os proprietários de restaurantes a queixarem-se (quem na chora não mama) levando o governo a prometer até 60 mil euros por empresa, sendo até 30% a fundo perdido, com a medida a entrar em vigor já em Fevereiro. Como já dissemos, se 2025 foi um mau ano   para o povo português, 2026 será bem pior.

Quanto aos resultados das eleições em si, confirma-se o que afirmamos em  texto  anterior. Os media, como especial destaque para as televisões, e as sondagens por si encomendadas, formataram opinião e determinaram em grande medida a intenção de voto de uma parte substancial do universo eleitoral. Cerca de 30% dos votantes decidiram "em cima da hora" e 14% fizeram-no no próprio dia da eleição, e destes indecisos 38% votaram em Seguro. E, em termos sociais, Seguro ganhou entre os eleitores com mais instrução e no eleitorado feminino que, por sua vez, foi aquele que esteve mais indeciso; venceu também entre o eleitorado de meia idade e mais idoso. O fascista liberal parece que venceu entre o eleitorado mais jovem, parte dele roubado ao fascista político e que, fica-se com a ideia, não tivesses sido o escândalo e a campanha durasse mais uns dias muito provavelmente teria ficado em segundo lugar. Entretanto, o pastorinho ganhou principalmente entre o eleitorado com menor formação académica.

Em resumo, Seguro ganha no eleitorado mais pequena-burguesia e que viveu ou se lembra ainda do 25 de Abril e como era o país em 24 de Abril; a juventude urbana que não tem confiança no futuro, e por ventura almeja algum tacho, apostou no neo-liberalismo; e trabalhadores assalariados sem formação específica, os mais explorados, deixaram-se seduzir pelo canto de sereia de que se sente o “escolhido” para “salvar a pátria”. Os candidatos, apresentados pelos ditos “pequenos partidos” de esquerda, não conseguiram fixar o eleitorado do partido e, por exemplo, o truão Vieira quase que alcançava António Filipe. O candidato do Livre, levado ao colo pelas televisões, talvez com o intuito do partido poder a vir a substituir o BE e fazer sombra ao PCP, foi um completo desastre. Não terão direito à comparticipação do estado nas despesas, o que não deixa de ser um desastre financeiro para além do político. Em próximas eleições pensarão duas vezes antes de apresentarem candidato.

Independentemente do resultado do próximo dia 8 de Fevereiro, o espectro partidário está a mudar, e já mudou, e daqui para a frente não será o mesmo. O bipartidarismo estará a dar as últimas e a esquerda terá de se reformular não só em termos de organização, mas principalmente em termos de estratégia política e de ideologia. Social-democratas, verdadeiros ou de fantasia, temos cá demais e para este peditório a classe dos operários e do povo trabalhador já deu. À medida que a luta de classes se desenvolve, o “centrão” tende a desaparecer e ficam os extremos, os campos clarificam-se. Não estamos em tempos de moderação, basta olhar um pouco pelo que se passa no mundo.

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