Dizem que estas eleições são as mais renhidas
e com resultados mais incertos desde há cinquenta anos, porque a três dias do
acto eleitoral as sondagens e as tracking poll dão três ou quatro candidatos na
margem da possibilidade de qualquer um deles poder ganhar, embora sempre
com a necessidade de se ir a uma segunda volta. Este empate técnico nas
intenções de voto pode ser entendido como resultado da manipulação levada ao
extremo por parte dos principais media mainstream e pela mediocridade e cinzentismo
dos principais presidenciáveis do sistema. Não está fácil, pelo menos é o que
parece, encontrar antecipadamente o sucessor do monárquico e beato Marcelo.
Este talvez o pior Presidente da República
pós-25 de Abril, homem que mais denegriu e rebaixou a função de que foi
investido, urdindo na sombra a intriga e a conspiração, descredibilizando e
demitindo governos ao mesmo tempo que promovia os de sua confiança política,
metendo cunhas para os amigos e promovendo compadrios, transformou o cargo e a
República em arenas de exibicionismos e populismos, em sentido claro de
transformação do regime em algo mais consentâneo com o seu carácter de fascista
reciclado. Quem for eleito será ainda pior e terá como missão colocar o
epitáfio no regime democrático parlamentar burguês, instituído pela
Constituição de 1976 no rescaldo do 25 de Novembro de 1975.
Umas eleições feitas por sondagens
As sondagens mais recentes mostram que a
intenção de voto neste momento aponta para empate entre Seguro, André Ventura e
Cotrim, outras substituem Seguro por Marques Mendes, qualquer um deles poderá
ganhar e passar à segunda volta sempre acompanhado pelo quarto pastorinho que
irá perder, definitivamente, o homem não está talhado para PR, mais para
primeiro-ministro a seguir à queda provocada deste governo Montenegro. Este
será o projecto da oligarquia, ou de uma parte mais substancial, que ainda
aposta nos partidos tradicionais, mais concretamente, nos dois partidos do
bloco central de interesses, o famigerado “centrão”. E, fatalmente, teremos o
Mendes ou o Seguro como sucessor do rei Marcelo. Qualquer um deles servirá bem
para fazer os fretes e assinar de cruz todas as medidas apresentadas pelo
governo do PSD/Montenegro.
No entanto, não há unanimidade nem certezas,
há quem considere que aqueles dois partidos estarão em fim de vida, com o prazo
prestes a expirar, e aposte já em outros menos “moderados”, dispostos a impor à
força, se necessário à força do porrete, as medidas que o grande capital exige
para aumentar os lucros. Para tal urge escolher um PR mais resoluto e
determinado nas suas decisões; ora, um militar será a pessoa mais indicada. A
promoção precoce do almirante das picas, que não hesitou em encurtar a carreira
profissional para se disponibilizar para o cargo, e que logo surgiu no topo das
sondagens, apresentado como acima dos partidos, dava como certa a sua eleição.
E talvez isso até venha a acontecer.
As nossas elites, e parte substancial da dita
“classe média”, nutrem uma especial e antiga simpatia por personalidades
fortes, fardadas e com medalhas compradas na Feira da Ladra ainda melhor, que
transmitam autoridade e respeito, coisas estranhas ao comentador televisivo
Marcelo. Um paizinho da Nação, que seja transversal às classes sociais e que
possa gerar consensos, nem que para isso se utilize as botas cardadas, é o
ideal nesta altura do campeonato da luta de classes. É em tempo de crise
estrutural e prolongada do sistema capitalista, sem solução imediata à vista se
não a guerra, que este perfil melhor completa um governo dirigido por um
primeiro-ministro semelhante e com a missão específica de carregar sobre o povo
uma nova onda de austeridade.
Nesta mesma linha de pensamento se terá de
perceber que, jamais e em tempo algum, uma mulher será Presidente da República
neste país, mesmo que seja pessoa conservadora e até católica (lembremo-nos de
Lurdes Pintassilgo) tal é a misoginia da oligarquia e da classe que nela mais
se revê. Nem falaremos sequer de um PR homossexual, cujo alvitre já foi feito
com a hipótese de Paulo Portas se apresentar como candidato, ou de um
primeiro-ministro. Paulo Rangel foi afastado da liderança do PSD porque seria
inconcebível vê-lo a liderar o governo de Portugal. O mesmo se poderá pensar de
um ex-operário ou ex-sindicalista, a exemplo de Lula no Brasil, o que, por sua
vez, seria quase uma heresia. Nestas eleições, há candidatos escolhidos pela
oligarquia, há os que fazem o papel de idiotas úteis, os restantes candidatos,
e os figurantes, que são os cidadãos votantes.
Um jogo viciado logo à partida
Neste sentido de direitização da governação e
do regime, em recta final do prazo de validade nesta democracia do faz de
conta, teremos de também entender por que razão os onze candidatos não são
iguais, há uns mais iguais do que outros. Antes do início oficial da campanha
as televisões promoveram debates entre os candidatos apoiados pelos partidos e
mais o almirante, que acaba por ser apoiado pelos descontentes dentro dos dois
principais partidos da governação; os restantes ficaram de fora. E agora em
plena campanha os media estabeleceram de imediato uma divisão, os candidatos
com mais hipóteses e os sem hipótese nenhuma de serem eleitos presidente. O
jogo está viciado logo à partida. Como os próprios boletins de voto, que em vez
de terem apenas os candidatos que vão à disputa tem mais três que foram
eliminados, aumentando a confusão entre o eleitorado, nomeadamente, os
emigrantes que pouco ou nada conhecem sobre o que se passa aqui na piolheira.
Já era tempo de substituir o papel pelo voto electrónico, menos sujeito à
adulteração, bem como à actualização dos cadernos eleitorais.
A desigualdade nos financiamentos é mais que
flagrante e determina à partida quem é que possui mais probabilidade de ganhar
a competição; muito à semelhança dos próprios partidos, quem tem dinheiro
ganha, quem não tem é eliminado. Prevê-se que os candidatos venham a
gastar uns 4,9 milhões de euros, mais 3,8 milhões do que foi gasto nas
presidenciais de 2021. Só o Mendes pensa despender 1,32 milhões de
euros, seguido de Seguro com 1,13 milhões. O ex-almirante prevê um gasto de
cerca de 1 milhão de euros e o quarto pastorinho aí uns 900 mil euros.
Pergunta-se: quem é que financia os candidatos do sistema? Sabemos que Cavaco
foi financiado pelo BES e pela família Espírito Santo, Marcelo não precisou,
antes de ser já o era, foi vendido como sabonete pelas televisões; agora, quem
é que está por detrás desta gente? Não se sabe, porque a lei da protecção de
dados não permite que a identidade dos beneméritos e desinteressados doadores
seja conhecida. Fica, mais uma vez, evidente que a transparência não é uma virtude
desta dita “democracia”.
Mas indo aos candidatos, aos principais
considerados elegíveis, que são cinco, parece que os restantes não passam de
figurantes, constata-se que são todos gente acomodada ao sistema, todos
defendem, por exemplo, “menos peso do Estado na economia”, ou seja, menos
saúde, menos educação, menos segurança social, e, em contrapartida, mais
dinheiro para a guerra, mais financiamento para as empresas, menos impostos
para os patrões e mais impostos, principalmente indirectos, para o povo e os
trabalhadores; sobretudo, mais lucros para os bancos. Todos eles antes e
durante a campanha pouco esclareceram ou elucidam sobre as principais linhas
que os governos deverão seguir para o desenvolvimento do país e para o
bem-estar dos portugueses. Não apresentam nem definem estratégias, ficam por
apontamentos parciais. Expressam bem que não querem ser estadistas, apenas
meros funcionários de turno, relações públicas das corporações e poderes
fácticos que, na sombra, manda nisto tudo.
As televisões, e os media mainstream em geral,
pouco se preocupam com as ideias dos candidatos, se não tiverem ideias tanto
melhor, centram antes o foco nas subidas e descidas na bolsa da cotação das
putativas intenções de voto, que são miserável e grosseiramente manipuladas
para condicionar e dirigir o sentido de voto dos eleitores, especialmente dos
mais despolitizados e que ainda emprenham pelo que vêem e ouvem nas televisões,
no próximo domingo, dia 18 de Dezembro. O que mais lhes interessa são os ditos
“factos”, os sítios que visitam, os escândalos, género “assédio sexual” de
Cotrim, do que vivem, o que comem e o que bebem (muitos deles até são
empresários do turismo), a roupa que vestem e os apoios de outras figuras do
regime que possam vir a ter. Passou moda, ao que parece, reivindicar o apoio de
Montenegro, por parte dos candidatos mais à direita, e quem é que vota e em
quem numa segunda volta. Resumido e concluído, podemos afirmar, sem exagero,
que são muitos candidatos mas resumem-se a um só.
Entre os candidatos podemos dizer que existe
um pouco de tudo, os que se assumem como funcionários do regime e do sistema –
são coisas diferentes para quem não saiba – e os que aproveitam a ocasião para
segurar eleitorado dos partidos que os apoiam, os que sempre gostaram de
protagonismos e aspiram a outras andanças, e há os palhaços, uns por vocação,
outros por puro oportunismo, como acontece com o fascista que se veste de D.
Afonso Henrique. No global de todos o mais sério ainda será o artista e cantor,
do “Conan, O Homem Rã” ou “O Patrão é um Cabrão”, que se aproveita para vender
mais uns discos e dizer umas verdades através da ironia sobre as misérias do
regime. A decadência do regime é obviamente indisfarçável.
No dia seguinte estará tudo na mesma
Voltamos ao início desta pequena crónica,
estamos a três dias da votação para o cargo do “mais alto dignatário” da
República, para o povo que trabalha, tanto faz que seja: o almirante herói da
vacinação contra a Covid, autoritário e pouco amigo do estado de direito,
habilidoso quanto à progressão na carreira militar e acusado de corrupção
quanto à vacinação de médicos não prioritários; o (in)Seguro, que compactuou
com todas as medidas de austeridade lançadas pelo governo de Passos
Coelho/Portas/PSD/CDS contra o povo no tempo da troika; o Mendes, envolvido em
nepotismo, compadrio e negócios que prejudicaram o estado e moço de recados de
Marcelo; o Cotrim, homem de mão dos negócios do grande capital e agora acusado
de assédio sexual; ou o chefe da extrema-direita, que não quer ser PR e anda a
enganar o seu próprio eleitorado, apenas aspira a ser um salazarzito; porque
nada mudará.
Estas eleições já são uma rotina, um triste
fado que vamos suportando, sabendo de antemão que no dia seguinte o mundo
estará na mesma. No que concerne aos problemas e defesa dos interesses dos
trabalhadores terão de ser estes, e todos nós que vivemos dos rendimentos da
venda da nossa força de trabalho, a ter de encontrar alternativas que
revolucionem. A abstenção também é uma forma de dizer não.

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