quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Presidenciais e outras coisas mais

Dizem que estas eleições são as mais renhidas e com resultados mais incertos desde há cinquenta anos, porque a três dias do acto eleitoral as sondagens e as tracking poll dão três ou quatro candidatos na margem da  possibilidade de qualquer um deles poder ganhar, embora sempre com a necessidade de se ir a uma segunda volta. Este empate técnico nas intenções de voto pode ser entendido como resultado da manipulação levada ao extremo por parte dos principais media mainstream e pela mediocridade e cinzentismo dos principais presidenciáveis do sistema. Não está fácil, pelo menos é o que parece, encontrar antecipadamente o sucessor do monárquico e beato Marcelo.

Este talvez o pior Presidente da República pós-25 de Abril, homem que mais denegriu e rebaixou a função de que foi investido, urdindo na sombra a intriga e a conspiração, descredibilizando e demitindo governos ao mesmo tempo que promovia os de sua confiança política, metendo cunhas para os amigos e promovendo compadrios, transformou o cargo e a República em arenas de exibicionismos e populismos, em sentido claro de transformação do regime em algo mais consentâneo com o seu carácter de fascista reciclado. Quem for eleito será ainda pior e terá como missão colocar o epitáfio no regime democrático parlamentar burguês, instituído pela Constituição de 1976 no rescaldo do 25 de Novembro de 1975.

Umas eleições feitas por sondagens

As sondagens mais recentes mostram que a intenção de voto neste momento aponta para empate entre Seguro, André Ventura e Cotrim, outras substituem Seguro por Marques Mendes, qualquer um deles poderá ganhar e passar à segunda volta sempre acompanhado pelo quarto pastorinho que irá perder, definitivamente, o homem não está talhado para PR, mais para primeiro-ministro a seguir à queda provocada deste governo Montenegro. Este será o projecto da oligarquia, ou de uma parte mais substancial, que ainda aposta nos partidos tradicionais, mais concretamente, nos dois partidos do bloco central de interesses, o famigerado “centrão”. E, fatalmente, teremos o Mendes ou o Seguro como sucessor do rei Marcelo. Qualquer um deles servirá bem para fazer os fretes e assinar de cruz todas as medidas apresentadas pelo governo do PSD/Montenegro.

No entanto, não há unanimidade nem certezas, há quem considere que aqueles dois partidos estarão em fim de vida, com o prazo prestes a expirar, e aposte já em outros menos “moderados”, dispostos a impor à força, se necessário à força do porrete, as medidas que o grande capital exige para aumentar os lucros. Para tal urge escolher um PR mais resoluto e determinado nas suas decisões; ora, um militar será a pessoa mais indicada. A promoção precoce do almirante das picas, que não hesitou em encurtar a carreira profissional para se disponibilizar para o cargo, e que logo surgiu no topo das sondagens, apresentado como acima dos partidos, dava como certa a sua eleição. E talvez isso até venha a acontecer.

As nossas elites, e parte substancial da dita “classe média”, nutrem uma especial e antiga simpatia por personalidades fortes, fardadas e com medalhas compradas na Feira da Ladra ainda melhor, que transmitam autoridade e respeito, coisas estranhas ao comentador televisivo Marcelo. Um paizinho da Nação, que seja transversal às classes sociais e que possa gerar consensos, nem que para isso se utilize as botas cardadas, é o ideal nesta altura do campeonato da luta de classes. É em tempo de crise estrutural e prolongada do sistema capitalista, sem solução imediata à vista se não a guerra, que este perfil melhor completa um governo dirigido por um primeiro-ministro semelhante e com a missão específica de carregar sobre o povo uma nova onda de austeridade.

Nesta mesma linha de pensamento se terá de perceber que, jamais e em tempo algum, uma mulher será Presidente da República neste país, mesmo que seja pessoa conservadora e até católica (lembremo-nos de Lurdes Pintassilgo) tal é a misoginia da oligarquia e da classe que nela mais se revê. Nem falaremos sequer de um PR homossexual, cujo alvitre já foi feito com a hipótese de Paulo Portas se apresentar como candidato, ou de um primeiro-ministro. Paulo Rangel foi afastado da liderança do PSD porque seria inconcebível vê-lo a liderar o governo de Portugal. O mesmo se poderá pensar de um ex-operário ou ex-sindicalista, a exemplo de Lula no Brasil, o que, por sua vez, seria quase uma heresia. Nestas eleições, há candidatos escolhidos pela oligarquia, há os que fazem o papel de idiotas úteis, os restantes candidatos, e os figurantes, que são os cidadãos votantes.

Um jogo viciado logo à partida

Neste sentido de direitização da governação e do regime, em recta final do prazo de validade nesta democracia do faz de conta, teremos de também entender por que razão os onze candidatos não são iguais, há uns mais iguais do que outros. Antes do início oficial da campanha as televisões promoveram debates entre os candidatos apoiados pelos partidos e mais o almirante, que acaba por ser apoiado pelos descontentes dentro dos dois principais partidos da governação; os restantes ficaram de fora. E agora em plena campanha os media estabeleceram de imediato uma divisão, os candidatos com mais hipóteses e os sem hipótese nenhuma de serem eleitos presidente. O jogo está viciado logo à partida. Como os próprios boletins de voto, que em vez de terem apenas os candidatos que vão à disputa tem mais três que foram eliminados, aumentando a confusão entre o eleitorado, nomeadamente, os emigrantes que pouco ou nada conhecem sobre o que se passa aqui na piolheira. Já era tempo de substituir o papel pelo voto electrónico, menos sujeito à adulteração, bem como à actualização dos cadernos eleitorais.

A desigualdade nos financiamentos é mais que flagrante e determina à partida quem é que possui mais probabilidade de ganhar a competição; muito à semelhança dos próprios partidos, quem tem dinheiro ganha, quem não tem é eliminado.  Prevê-se que os candidatos venham a gastar uns 4,9 milhões de euros, mais 3,8 milhões do que foi gasto nas presidenciais de 2021. Só o Mendes pensa despender 1,32 milhões de euros, seguido de Seguro com 1,13 milhões. O ex-almirante prevê um gasto de cerca de 1 milhão de euros e o quarto pastorinho aí uns 900 mil euros. Pergunta-se: quem é que financia os candidatos do sistema? Sabemos que Cavaco foi financiado pelo BES e pela família Espírito Santo, Marcelo não precisou, antes de ser já o era, foi vendido como sabonete pelas televisões; agora, quem é que está por detrás desta gente? Não se sabe, porque a lei da protecção de dados não permite que a identidade dos beneméritos e desinteressados doadores seja conhecida. Fica, mais uma vez, evidente que a transparência não é uma virtude desta dita “democracia”.

Mas indo aos candidatos, aos principais considerados elegíveis, que são cinco, parece que os restantes não passam de figurantes, constata-se que são todos gente acomodada ao sistema, todos defendem, por exemplo, “menos peso do Estado na economia”, ou seja, menos saúde, menos educação, menos segurança social, e, em contrapartida, mais dinheiro para a guerra, mais financiamento para as empresas, menos impostos para os patrões e mais impostos, principalmente indirectos, para o povo e os trabalhadores; sobretudo, mais lucros para os bancos. Todos eles antes e durante a campanha pouco esclareceram ou elucidam sobre as principais linhas que os governos deverão seguir para o desenvolvimento do país e para o bem-estar dos portugueses. Não apresentam nem definem estratégias, ficam por apontamentos parciais. Expressam bem que não querem ser estadistas, apenas meros funcionários de turno, relações públicas das corporações e poderes fácticos que, na sombra, manda nisto tudo.

As televisões, e os media mainstream em geral, pouco se preocupam com as ideias dos candidatos, se não tiverem ideias tanto melhor, centram antes o foco nas subidas e descidas na bolsa da cotação das putativas intenções de voto, que são miserável e grosseiramente manipuladas para condicionar e dirigir o sentido de voto dos eleitores, especialmente dos mais despolitizados e que ainda emprenham pelo que vêem e ouvem nas televisões, no próximo domingo, dia 18 de Dezembro. O que mais lhes interessa são os ditos “factos”, os sítios que visitam, os escândalos, género “assédio sexual” de Cotrim, do que vivem, o que comem e o que bebem (muitos deles até são empresários do turismo), a roupa que vestem e os apoios de outras figuras do regime que possam vir a ter. Passou moda, ao que parece, reivindicar o apoio de Montenegro, por parte dos candidatos mais à direita, e quem é que vota e em quem numa segunda volta. Resumido e concluído, podemos afirmar, sem exagero, que são muitos candidatos mas resumem-se a um só.

Entre os candidatos podemos dizer que existe um pouco de tudo, os que se assumem como funcionários do regime e do sistema – são coisas diferentes para quem não saiba – e os que aproveitam a ocasião para segurar eleitorado dos partidos que os apoiam, os que sempre gostaram de protagonismos e aspiram a outras andanças, e há os palhaços, uns por vocação, outros por puro oportunismo, como acontece com o fascista que se veste de D. Afonso Henrique. No global de todos o mais sério ainda será o artista e cantor, do “Conan, O Homem Rã” ou “O Patrão é um Cabrão”, que se aproveita para vender mais uns discos e dizer umas verdades através da ironia sobre as misérias do regime. A decadência do regime é obviamente indisfarçável.

No dia seguinte estará tudo na mesma

Voltamos ao início desta pequena crónica, estamos a três dias da votação para o cargo do “mais alto dignatário” da República, para o povo que trabalha, tanto faz que seja: o almirante herói da vacinação contra a Covid, autoritário e pouco amigo do estado de direito, habilidoso quanto à progressão na carreira militar e acusado de corrupção quanto à vacinação de médicos não prioritários; o (in)Seguro, que compactuou com todas as medidas de austeridade lançadas pelo governo de Passos Coelho/Portas/PSD/CDS contra o povo no tempo da troika; o Mendes, envolvido em nepotismo, compadrio e negócios que prejudicaram o estado e moço de recados de Marcelo; o Cotrim, homem de mão dos negócios do grande capital e agora acusado de assédio sexual; ou o chefe da extrema-direita, que não quer ser PR e anda a enganar o seu próprio eleitorado, apenas aspira a ser um salazarzito; porque nada mudará. 

Estas eleições já são uma rotina, um triste fado que vamos suportando, sabendo de antemão que no dia seguinte o mundo estará na mesma. No que concerne aos problemas e defesa dos interesses dos trabalhadores terão de ser estes, e todos nós que vivemos dos rendimentos da venda da nossa força de trabalho, a ter de encontrar alternativas que revolucionem. A abstenção também é uma forma de dizer não.

Imagem: Vai formoso e bem Seguro - Henricartoon

Nenhum comentário:

Postar um comentário