O OE-2024 foi aprovado pela maioria absoluta
do PS na Assembleia da República, com a abstenção das duas flores de lapela do
regime e votos contra de todos os demais partidos, que, eventualmente, terão
votado neste sentido porque a aprovação era certa – este orçamento é o
orçamento de estado do regime que antecipadamente merece o aval de Bruxelas –,
fazendo-nos lembrar quando o bando PSD estava no governo e afirmava que “a vida
das pessoas não está melhor, mas o país está muito melhor” e o empobrecimento
de grande parte dos portugueses avançava a grande vapor – agora não será mais
lento.
Escrita em 24 de Fevereiro 2014
Na cimeira do principal bando governativo, que
se realizou neste fim de semana, o chefe não esteve de modas e foi claro: “o
país está melhor que em 2011”; já um dia antes, o chefe da bancada dos paus
mandados na Assembleia da República tinha dito: “a vida das pessoas não está
melhor, mas o país está muito melhor”; deve-se salientar a parte da
frase: o país está muito melhor. Que “país” esta gente está
a referir-se? De certeza que não é o país que trabalha, porque este encontra-se
bem pior, salários mais baixos, quer na Função Pública quer no sector privado, e
aposentados com reformas bem menores.
Cerca de 80% dos pensionistas recebem uma
reforma de 364 euros, enquanto há cerca de 5 mil reformas milionárias, isto é,
acima dos 4 mil euros e cerca de 60 indivíduos com reformas de quase 17 mil
euros por mês. Os salários no sector público caíram cerca de 20%, no sector
privado não estarão muito longe; contudo, a Comissão Europeia já veio dizer que
os salários nominais (não entra em linha de conta com a desvalorização
resultante da inflacção) terão de cair uns 5% para que o país possa reduzir o
défice externo nos próximos 10 anos. Ora, quando diz 5%, como diz que a queda
foi apenas de 6% de 2010 até agora, sabendo todos nós que foi 3 a 4 vezes mais,
deverá querer dizer um pouco mais.
Não estando à espera da troika vir dizer onde
e como deve cortar, o chefe do bando já anunciou mais cortes nos rendimentos
dos trabalhadores do estado, os eternos cepos das marradas e ensaio para o que
irá acontecer mais tarde em todo o sector privado: implementação de tabela
única de suplementos, em Junho, e tabela remuneratória única, em Dezembro, ao
que parece a melhor forma de aumentar e tornar definitivos os cortes salariais
sem haver risco de chumbo por parte do Tribunal Constitucional. Bem razão tem o
tal chefe de bancada do bando principal, mostrando-se um pouco menos poltrão
que o chefe do bando, se a vida das pessoas (que trabalham) não está melhor, o
“país” está muito melhor: em 2011, os 10 por cento mais ricos (este é que o
verdadeiro país de que o bando principal fala) reuniam 27,3% do rendimento
global das famílias portuguesas num ano e Portugal é um dos países europeus com
mais concentração de rendimentos nas famílias mais ricas – ficou-se a saber
(embora, já se soubesse) no Dia Mundial da Justiça Social.
Claro que nem necessário será falar da dívida
soberana que aumentou desde 2011, ultrapassou os 130% do PIB, que por sua vez
encolheu, diga-se em abono da verdade, enquanto o acordado no Memorando da
Troika era de 114,9%; ou os números do défice das contas do estado que deveriam
ter ficado pelos 3% em 2013, mas que dispararam para mais de 5%, quase o dobro,
o que fará com que o endividamento prossiga de vento em popa. Fica mais que
evidente que o défice das contas públicas, que não deve ultrapassar os 0,5% do
PIB, não passa de um instrumento para manter a dívida e impedir que haja
investimento em sectores da economia ou dos serviços de carácter social.
Toda a vida do país, no conceito abrangente do
povo que trabalha, será toda dirigida para o cumprir a meta do défice, ou seja,
manter e pagar a dívida. Esta é o nó da forca que garrota o pescoço do povo
português, razão mais que suficiente para que as metas impostas pelo Pacto
Orçamental não devam ser cumpridas e a Dívida Soberana não deva ser paga. Estes
dois instrumentos têm contribuindo para o empobrecimento galopante dos
trabalhadores portugueses: se, em 2010, 2,28 milhões de famílias (famílias, não
indivíduos) recebiam menos de 10 mil euros, em menos de dois anos depois já
eram 3,04 milhões, isto é, houve um aumento de 33,1% no empobrecimento.
Como é óbvio nestas contas não se encontram os
desempregados, os emigrados, e aqueles que já não são gente porque não entram
nas estatísticas. Serão ao todo 40%, 50%, 60% da população portuguesa a viver
dentro da pobreza? Não se sabe bem, porque os números das estatísticas oficiais
escondem a dura realidade, mas serão de certeza uma larga maioria do povo
empobrecida graças a esta política que o principal bando quer apresentar como a
única, aquela que não tem alternativa.
Este empobrecimento é a única alternativa, na
verdade, mas para que os 10% indivíduos mais ricos se tornem ainda mais ricos,
os bancos consigam sair da situação de pré-falência em que se encontram (em
2013, os seis principais bancos privados tiveram um prejuízo de 1 560 milhões
de euros, mais 353 milhões que em 2012; e a CGD, o banco do estado, um prejuízo
de 576 milhões de euros, superior ao prejuízo de 395 milhões do ano anterior),
e a burguesia nacional consiga aguentar o impacto da concorrência externa.
Nem o país está melhor, nem o bando principal
se encontra em melhor situação do que aquele. Não se pretendendo entrar pela
análise do que se passou no dito congresso, já andam por aí analistas de sobra,
a ideia com que se ficou foi a de que o bando se encontra em desagregação,
parte dele estará a fazer as malas para mudar de poiso, enquanto a camarilha
dirigente se une cada vez mais. Foi um regalo ver todos os
comentadores-paineleiros televisivos a aplaudir o chefe, ver reconduzido o
incontornável Relvas em posição cimeira do bando e até um morto-vivo Lopes a
fazer prova de vida.
O discurso oficial foi o mesmo, culpar uma
parte dos portugueses pela infelicidade da outra parte, depois dos velhos serem
culpados pela desgraça dos novos, dos empregados pela dos desempregados, dos
funcionários públicos pela dos do sector privado, agora assistiu-se à
responsabilização dos portugueses que não pagam impostos pela desgraça das
misérias das contas públicas. Ficou-se também a saber, embora não fosse
novidade que esta política tem o apoio da burguesia nacional, pedindo-se
medidas mais restritivas quanto aos direitos dos trabalhadores, nomeadamente,
maior limitação do direito à greve.
O “convite” do principal bando ao compromisso
por parte do PS até seria desnecessário porque o saque tem-se efectuado nestes
quase 40 anos de democracia de opereta graças a esse consenso, a esse
entendimento político, se a intenção não fosse outra. E a intenção é, para já,
retirar capital político ao PS, para que não vença as próximas eleições
europeias, para mostrar que a política a seguir por outro governo,
eventualmente com o PS, será a mesma porque a política é a que foi
acordada/imposta por Bruxelas, com ou sem FMI (troika).
A sacro-santa disciplina orçamental é para
manter, disse a ministra swaps em recente encontro internacional, e a
assistência financeira, seja qual for a forma que revista, será mais que certa.
A troika sai sem sair, a austeridade é para manter e intensificar, o derrube do
governo é uma tarefa mais que urgente. Não se pode contar com o PS, este tem
sido o principal suporte do governo, tanto ou quase tanto como o partido do
táxi, assim os restantes partidos que se dizem oposição poderiam juntar-se nem
que fosse só para esta tarefa: o PCP diz-se disponível para “negociar,
convergir, com todos aqueles, mas todos, que queiram pôr este Governo na rua e
acabar com esta política”. Claro que sem hegemonias e em pleno pé de igualdade.
Esperamos para ver, se não acontecer, não se queixem de virem a ser acusados de
cumplicidade.
Derrube do governo, já!
PS: Se acompanhado pelo PR Cavaco tanto
melhor!
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