Giorgio Agamben
Por Makhmud Eshonkulov, Uzbequistão.
Entre os horrores da guerra, muitas vezes esquecidos, está a sua sobrevivência em tempos de paz através das suas transformações industriais. Sabe-se — mas esquece-se frequentemente — que o arame farpado com que muitos ainda rodeiam os seus campos e propriedades provém das trincheiras da Primeira Guerra Mundial e está manchado com o sangue de inúmeros soldados mortos; sabe-se — mas esquece-se frequentemente — que os botes insufláveis que enchem as nossas praias foram inventados para o desembarque na Normandia, durante a Segunda Guerra Mundial; sabe-se — mas esquece-se frequentemente — que os herbicidas utilizados na agricultura derivam daqueles utilizados pelos americanos para desmatar o Vietname; e, por último, mas não menos importante, as centrais nucleares, com os seus resíduos indestrutíveis, são a transformação "pacífica" das bombas atómicas. E é bom lembrar, como Simone Weil compreendeu, que a guerra estrangeira é sempre também uma guerra civil, que a política externa é, na verdade, política interna. Invertendo a fórmula de Clausewitz, a política hoje não é mais do que uma continuação da guerra por outros meios.
23 de Outubro de 2025
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Os Últimos Dias da Humanidade
“A Humanidade está a morrer no Iémen” – Ceyran
Caferli, Azerbaijão.
A partir de Outubro de 1915, após as notícias do início da Primeira Guerra Mundial, Karl Kraus começou a escrever o drama Os Últimos Dias da Humanidade "para um teatro em Marte ", que não queria que fosse encenado, porque "os espectadores deste mundo não teriam sido capazes de suportar o espetáculo". O drama — ou melhor, como diz o subtítulo, "a tragédia em cinco actos" — era "sangue do sangue deles e substância da substância daqueles anos irreais, inconcebíveis, inalcançáveis por qualquer intelecto desperto, inacessíveis a qualquer memória e preservados apenas num sonho sangrento, aqueles anos em que personagens de opereta representavam a tragédia da humanidade". E no Weltgericht publicado após o fim da guerra, falou do seu "grande tempo", que conheceu "quando era tão pequeno e que voltará a ser pequeno, se ainda lhe restar tempo", como um tempo "em que acontece o inimaginável, e em que o que já não pode ser imaginado deve acontecer, e que, se pudéssemos imaginar, não aconteceria".
Como qualquer discurso implacavelmente lúcido, o diagnóstico de Kraus
encaixa-se perfeitamente na situação que estamos a viver. Os últimos
dias da humanidade são os nossos dias, se é certo que cada dia é o
último, que a escatologia é, para aqueles capazes de a compreender, a condição
histórica por excelência. Particularmente no que diz respeito à guerra, pode
dizer-se do nosso tempo, como Kraus o faz, que "incapaz de experimentar
algo e de o representar, não se abala nem mesmo com o seu próprio
colapso". E não é verdade ainda hoje, quando as mentiras sobre a guerra em
curso procuram autorizar todas as guerras futuras, que "o facto de haver
guerra parece concebível precisamente para aqueles cuja vergonha foi permitida
e encoberta pelo slogan 'há guerra'"? E é provável que, tal como a Áustria
em 1919, também a Europa não sobreviva às suas mentiras e vergonha e, por fim,
possa repetir as palavras do Kaiser que concluem o livro: Ich habe es
nicht gewollt, "Eu não a quis".
11 de Outubro de 2025


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