quarta-feira, 15 de abril de 2026

A Saúde em choque e o SNS em coma

A ministra da Saúde, a farmacêutica Ana Paula Martins, ou melhor dizendo, a comissária política para a área da Saúde em Portugal, é declarada  “esgotadíssima” pelos partidos da oposição e que se mantem no cargo por simples “teimosia” de Montenegro. Ela própria não deverá andar muito descansada não só pelos ataques a que é sujeita, mas pela quantidade de coisas e casos que não têm corrido lá muito bem, contrariando o discurso de que "o SNS está melhor", que, por sua vez, é o prosseguimento de um outro: "hoje o país está melhor e os portugueses também estão melhor".

O caso que levou ao estado de esgotamento político da ministra terá sido a tomada de posse do novo secretário de estado da Gestão de Saúde, o terceiro em menos de dois anos, por suspeita de ter favorecido um amigo na abertura de uma Unidade de Cirurgia Cardíaca no Hospital de Santo António, no Porto. O novo secretário, Francisco Catalão, foi orientado por Miranda Sarmento, a quem se refere como "amigo". Diz a imprensa que “Finanças ganham influência na Saúde”. Como se constata, as nomeações são feitas na base do nepotismo, esta não deixa de ser uma das marcas do governo PSD/CDS/Montenegro.

Este caso sucede-se a um outro no mesmo hospital, em que o director de serviço de cirurgia, Eurico Castro Alves, está sob suspeita de ter recebido indevidamente cerca de 179 mil euros entre 2021 e 2025, por cirurgias realizadas fora do horário normal para recuperação de listas de espera. Quanto a esta questão das listas de espera, a Direção Executiva do SNS ignorou a proposta para reduzir tempos de espera para consultas nos hospitais, apresentada pelo SINACC (Grupo de Trabalho do Sistema Nacional de Acesso a Consultas e Cirurgias) e tenha feito exactamente o contrário, aprovou novos tempos de resposta mais longos para consultas de especialidade. Mais, o tempo de espera para cirurgias mais graves duplicou. Fica-se assim a perceber as verdadeiras razões para a existência de listas de espera no SNS.

Todas as medidas decididas por esta ministra já “esgotada”, e pelo governo de que faz parte, são no sentido de não resolver os problemas de que enferma o SNS, mas sim agravá-los, argumentado que tudo se está a fazer para o salvar da morte anunciada. Hoje, dia 15 de Abril, abriu o segundo centro regional de urgências de obstetrícia e ginecologia, na Península de Setúbal, hospitais de Almada e Setúbal, com a argumentação falaciosa de “escassez de profissionais e instabilidade nas escalas de urgência” – o primeiro centro regional foi no Hospital de Loures. Ambos ilustram a política de encerrar o público para favorecer o privado que, desta forma, vê aumentar a sua clientela. Só que as mulheres de menores rendimentos económicos continuarão a percorrer dezenas e centenas de quilómetros, como tem acontecido até agora, e os partos em ambulâncias não irão diminuir.

Em relação aos partos ocorridos em ambulâncias, na estrada ou à porta dos hospitais, quando não no meio da rua, tivemos de ouvir algumas bojardas vomitadas quer pela ministra, quer pelo anterior bastonário da Ordem dos Médicos, agora vice da bancada parlamentar do PSD. Este último lançou fel pela boca, culpou as grávidas pelo aumento do número de partos em ambulância por se atrasarem no pedido de socorro. E, mais ainda, o aumento de listas de espera na Saúde significa, no seu embotado entendimento, “mais confiança no Serviço Nacional de Saúde”. A ministra não se coibiu de defender que o parto ocorrido no parque de estacionamento do Hospital de Santa Maria só “reforça a necessidade da urgência regional da Península de Setúbal”. Gente sem alma que diz cuidar da saúde e bem-estar dos portugueses, mas cujas preocupações e interesses estão bem longe do que apregoam.

As estatísticas quanto ao estado de saúde e aos meios disponíveis pelo estado/governo falam por si:

- O número de mortos provocados por acidentes nas localidades aumentou depois da pandemia, segundo a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), “Portugal tem o perfil de mortalidade urbana mais elevado da União Europeia”;

- Menos de um quinto dos idosos portugueses dizem ser saudáveis – é o terceiro pior resultado da União Europeia;

- Número de utentes no SNS cresce na última década, mas acesso a médico de família deteriora-se desde 2019 - 10,7 milhões inscritos nos centros de saúde, quase 1,6 milhões sem médico de família;

- Serviço Nacional de Saúde pagou 249 milhões de euros a médicos tarefeiros, agravando 37 milhões de euros em 2025 – não integrar estes médicos nos quadros do SNS só contribui para degradação da qualidade dos cuidados prestado;

- Mudança no imposto sobre o tabaco tira 150 milhões ao Serviço Nacional de Saúde;

- Doze unidades do SNS ficaram sem fundos para assumirem despesas logo em Fevereiro - Orçamentos curtos e alteração na base de cálculo dos fundos destinados ao SNS estão a colocar pressão sobre as unidades de saúde, o ministério da Saúde diz que a situação é "normal";

- Proposta para curso de Medicina na Universidade de Évora foi novamente chumbada – a Ordem dos Médicos não quer que se formem muitos médicos para não fazerem concorrência uns aos outros;

- Os preços dos medicamentos vão "inevitavelmente" subir, avisam as farmacêuticas – prepara-se a opinião pública sobre a fatalidade que irá agravar ainda mais a situação, nomeadamente, de muitos idosos e pensionistas que já agora possuem dificuldade em adquirir os seus medicamentos;

- O FMI defende que a aposta na Defesa pode levar a cortes brutais em Saúde, Educação e apoios sociais – é a cereja no topo do bolo.

Entretanto, os lóbis privados da saúde regozijam com o bom andamento do negócio e com as ajudas prestimosas do estado/governo de Montenegro:

- As entidades privadas asseguram anualmente 150 milhões de exames complementares de diagnóstico e terapêutica e outros cuidados de saúde especializados;

- A Trofa Saúde, que emprega mais de três mil pessoas e detém atualmente 25 hospitais e clínicas em Portugal, entra num shopping da Sonae;

- Lusíadas Saúde investe 30 milhões em hospital na Grande Lisboa e cria 500 empregos;

- Hospitais privados investem valor recorde e aumentam atividade em 2025: mais de dez milhões de consultas, 1,46 milhões episódios de urgências e quase 284 mil cirurgias - resultado do inquérito aos associados da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada (APHP); 

- Hospitais privados batem recorde nos partos realizados: "As maternidades dos três grandes grupos - CUF, Luz e Lusíadas - cada uma fez mais de quatro mil partos, em 2024, tornando-se nas maiores maternidades do país, a procura por esta atividade tem crescido de forma sustentada, entre 8 a 9% nos últimos seis anos;

- Despesa com Ozempic sobe 258% em cinco anos e metade terá sido usada para perda de peso, revela Polícia Judiciária;

- Saúde: Setor privado concentra 75% das 1440 queixas registadas no primeiro trimestre do ano – o que confirma que a qualidade dos cuidados prestados pelo privado é bem inferior à dos prestados pelo SNS.

O governo, contrariando as declarações optimistas da ministra, é obrigado a reconhecer a realidade: Governo "não vai conseguir" atribuir médico de família a todos até 2027. É que esta também não é sua intenção, a verdadeira intenção é contratualizar com o privado os centros de saúde, são as ditas “unidades de saúde familiar (USF-C) com gestão privada ou social”. Os concursos arrancam nas regiões com menor cobertura de médicos de família e o governo prevê gastar cerca de 70 milhões de euros ao longo de cinco anos, financiando 20 destas unidades. O privado sempre a facturar, enquanto o SNS definha, agora com os privados dentro do SNS - de “serviço” passará a “sistema”.

O país está cada vez mais endividado, embora com a dívida privada a superar a dívida pública, o que faz com que as verbas disponibilizadas para a Saúde (SNS) tenderão a diminuir em termos relativos. Com guerra ou sem guerra, com o aumento da percentagem do PIB atribuído à Defesa ou não, o investimento para a Saúde derivará sempre pela promoção dos negócios dos lóbis privados. Decididamente, e a mando de Bruxelas, a saúde transformou-se em negócio, como qualquer outra actividade económica, com a dupla exploração dos trabalhadores portugueses e simultânea degradação das suas já débeis condições de bem-estar físico e mental. 

A ilustração de como são tratadas estas questões de saúde e sua gestão, não deixamos de chamar a atenção para o facto de se encontrar à frente da Cruz Vermelha Portuguesa, como vice-presidente, um oficial general aposentado que, em comentário televisivo, não teve engulhos em defender o lançamento de três bombas nucleares sobre o povo do Irão, no conflito que o opõe aquele país à maior potência nuclear do mundo, EUA, e à sua filial no Médio Oriente, o estado de Israel, também potência nuclear. 

Para se afirmar sem hesitação: Estamos entregues a criminosos!

Imagem in Expresso

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