Costa apresentou a demissão ao PR Marcelo e
este de imediato aceitou, parecendo que já estava à espera do acontecimento. A
razão do pedido toda a gente a conhece, ou talvez não, porque muitas vezes o
pretexto não é a causa, apenas um meio para resolver um problema e esconder a
verdadeira razão. No caso presente, o leitmotiv foi o envolvimento do
nome Costa em processo de escutas sobre o alegado envolvimento de figuras do
seu gabinete e de amizade próxima em corrupção, tráfico de influências e
vantagens indevidas no negócio do século da transição energética pelo lítio e
hidrogénio verde. O “capitalismo verde” não será melhor que o actual, porque
são exactamente o mesmo.
A judicialização da política em benefício
do establishment
Após a demissão e apurando-se que terá havido
um “lapso” (o “erro” é intencional), afinal, o Costa será o outro, o da
Economia, mas nem Costa retirou o pedido de demissão, também as eleições
antecipadas já estão marcadas, nem a Gago da PGR veio abaixo. Fica-se com a
ideia que toda a gente ficou satisfeita com a nova situação, desde o PS à
oposição, passando por Marcelo. E quanto ao processo e depois da decisão do
juiz sobre as medidas de coação impostas aos presumíveis prevaricadores, a
acusação de corrupção, que fez correr meio mundo ou mundo inteiro da política e
da comunicação mainstream, acabou por cair, entretanto, a máquina para o
assalto ao pote entrou em movimento desenfreado e agora nada nem ninguém a fará
parar.
Estranhamos que, sendo a Procuradora Geral da República
pessoa de confiança do governo PS e de Costa, pelo menos foi acusada de o ser
pelos partidos de direita que a compararam com a anterior, essa, sim, é que era
boa porque não condescendia com os crimes do PS, Costa não soubesse que iria
rebentar a bomba que poderia causar a sua demissão e do seu governo, porque a
investigação decorria desde o dia 17 de Outubro, segundo a dita PGR. Este caso
faz-nos lembrar outro caso semelhante, o da Casa Pia, que envolveu os nomes de
Ferro Rodrigues, então secretário geral do PS, e outra figura socialista importante,
Paulo Pedroso, que chegou a estar preso alguns meses. Quando Durão Barroso deu
de frosques, o presidente da república de então, Jorge Sampaio, em vez de
convocar eleições antecipadas, preferiu manter o PSD no governo com um novo
primeiro-ministro, surgindo assim a figura caricata de Santana Lopes como chefe
do governo. E por que isto terá acontecido, talvez pelas mesmas razões de agora?
É que, durante o tempo de governo Santana
Lopes, o PS mudou de direcção, surgiu o jovem turco Sócrates, e só depois, e
alegando incapacidade do governo PSD para manter a governação, Sampaio descarta
o governo, dissolve a Assembleia da República e convoca eleições, com o resultado
que sabemos, vitória ao PS. Ficamos com a sensação de que a direcção de Ferro
Rodrigues no PS não seria de grande confiança para o establishment a fim
de fazer frente aos tempos difíceis que se avizinhavam e que trouxeram a troika
a Portugal. Já com novo governo e dirigido pelas pessoas certas, Ferro Rodrigues
e Paulo Pedroso viram cair as suspeições de quem eram objecto, mas ficaram com
o futuro político prejudicado. Esta intervenção da justiça na política, lawfare
ou judicialização da política, foi realizada a contento e em benefício de uma ala do PS e, sobretudo, das elites que dominam o país. Estaremos a assistir a
algo semelhante com o derrube de este governo PS e do seu chefe que, ao
contrário do antecessor, estará em condições de continuar com a carreira
política, possivelmente até Belém?
A disputa pelo acesso ao pote
Devemos fazer correr a fita do tempo um pouco
para trás e lembrar-nos que nas últimas eleições legislativas, que foram
antecipadas, todos, partidos e cidadãos, esperavam que o PS se ganhasse seria
por um triz e que haveria a forte possibilidade, fazendo fé nas sondagens e na
vitória do Moedas com a sua coligação nas eleições para a Câmara de Lisboa, de
o PSD vir a ser o vencedor e poder criar, mas em sentido contrário, uma
geringonça, como, aliás, veio acontecer para o Governo Regional dos Açores, mas
o raio é que o PS conseguiu, sabe-se lá como, tirar da cartola uma maioria
absoluta – um desaforo! Mal o governo
PS, e outra vez chefiado pelo Costa, tomou posse, de imediato toda a sorte de
ataques e de agoiros foram lançados sobre os malditos que estavam destinados a
gerir sozinhos os mais de 55 mil milhões de euros que virão de Bruxelas até
2027.
E com o objectivo de enfiar a mão na massa que
a oposição, nomeadamente a que fica mais do lado direito, procurou de imediato todos
os pretextos e incidentes: a substituição do ministro das Infraestruturas, que
deveria estar a incomodar alguém, pelo famigerado Galamba, e a estória
rocambolesca do portátil com segredos de estado que deveria ter resultado na
demissão deste último. Por que é que Marcelo não despachou o Costa nessa
altura? Muito possivelmente teve medo de o PS vir a ganhar de novo as eleições
e assim ficaria, ele presidente da república, em situação deveras delicada.
Costa e governo ficaram em funções, mas alguma coisa deveria ser feita de molde
a dar a chance ao outro bando da governação poder aceder ao quinhão a que se
acha direito: ou há moralidade ou comem todos!
Nunca é despiciendo falar do bolo que as nossas
elites estão à espera e que será mais tarde pago não por elas mas pelo povo, daí
também não ser conveniente beliscar a “reputação do país”. São 8 mil milhões
para o novo aeroporto; 2 mil milhões para a Ferrovia 2020, a concluir até final
de 2023; 23 mil milhões do Acordo de Parceria entre Portugal e a Comissão
Europeia, com aplicação entre 2021 e 2027; 22,6 mil milhões, que poderão chegar
aos 30,5 mil milhões, do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) que terão de
ser aplicados até 2026. Resumindo, será mais de um terço de todos os fundos
(150 mil milhões de euros) que Portugal (não o povo português) recebeu desde a
entrada na então CEE e agora União Europeia. Percebe-se que a disputa é feroz e
tudo serve para destruir o governo PS e substitui-lo por outro de cor mais alaranjada. No
entanto, ouvindo os líderes do PSD e do IL, a preocupação é sempre o “país”, só
nunca especificam que país é que se trata.
O que terá provocado verdadeiramente a
queda do governo PS?
Terá sido a pedido de “várias famílias” que o
PR Marcelo, esfregando as mãos de contente, depois de aceitar o pedido de
demissão do Costa e de auscultar o seu “conselho de estado”, decidiu dissolver
a Assembleia da República, o tal “órgão máximo da democracia”, mas… atenção!,
só depois da aprovação do Orçamento de Estado para 2024. Brinquem lá com as
eleições, elejam o PS ou o PSD, sós ou acompanhados, o importante é os nossos
empresários garantirem que não falhará o quinhão que lhes é devido no assalto
aos dinheiros públicos, produto do assalto cometido pelo PS ao rendimento dos
cidadãos comuns portugueses, vulgo povo. As elites indígenas pouco se importam
com as paragonas dos seus media: «“Demissão de Costa tem “impacto brutal na
reputação de Portugal”», o que eles querem é dinheiro, não sendo mero acaso o CEO
dos CTT ter vindo a terreiro: «Crise política "é indesejada", mas é
"mitigada" com aprovação do OE» ou uma das organizações dos patrões
logo esclarecesse: «Confederação do Comércio aplaude decisão
"adequada" de Marcelo de salvar OE». Com coisas sérias não se brinca:
“Empresas preocupadas querem OE aprovado”.
O alarido provocado pelos media mainstream serve
mais para iludir os tolos e esconder as verdadeiras causas da substituição das
hostes funcionárias no governo, do género: «“Uma crise política e uma crise de
regime?”; “Depois de 2902 dias como primeiro-ministro, Costa demitiu-se: já não
vai bater o recorde de Cavaco”; “Uma etapa que se encerrou. Costa é a 14.ª
demissão de uma longa lista”; “De governos impossíveis a “mata-borrão” das
crises. Costa sai ao fim de oito anos”; “PS em choque, mas pronto para
substituir Costa por um “senador” “’Bomba atómica’ na política portuguesa
preocupa empresários” “Bolsa em queda após demissão de António Costa, juros da
dívida mantêm-se estáveis” “Ambientalistas temem que processo do lítio retire
confiança à transição verde”; “Citi avisa que agravamento da incerteza política
pode pesar na dívida portuguesa”, “Banqueiros pedem estabilidade e solução
rápida para a crise política”». Mas tudo não passa de espavento.
«Eurostat
confirma contração de 0,1% na Zona Euro no 3.º trimestre. Portugal caiu 0,2%». Não
deixa de ser fastidioso falar em números e ainda por cima de economia, mas a
verdade é que a crise é política e é, acima de tudo, económica, raramente há
crise na esfera da política que não tenha subjacente uma crise económica e, no
caso presente, uma crise dentro de crise, que não se sabe como e quando vai
terminar, daí as guerras como consequência e solução. E pelo sexto mês
consecutivo que as exportações têm vindo baixar: “Exportações encolhem 8,2% em
setembro. Défice comercial atinge 2.171 milhões”. Com a procura externa a baixar,
bem como a interna, daí a diminuição das importações, apesar do turismo se ter
aguentado, as empresas também sofrem: “Empresas não tinham crédito tão caro
desde 2008”. E o outro Costa, causador da confusão, não se engasga: «Não nos
podemos iludir. Vamos ter um ano de 2024 difícil.»
O aumento da pobreza despoleta a revolta
Se a crise económica capitalista é incontornável,
a pobreza em Portugal não o é menos: «“Rendimentos em Portugal são os sextos
mais baixos da UE em poder de compra”; “Portugal é um país onde as
desigualdades estão a crescer de uma forma muito rápida”; “Mulheres têm pensões
43% mais baixas do que os homens”; “Isto é uma doidice! Um litro de azeite a
9,99 euros?”. E onde há exploração e pobreza há revolta: “Empresas com
despedimentos coletivos aumentam 28% até setembro”, “Pré-avisos de greve até
setembro aumentam 290% no Estado e 50% no privado”. Mas de outro lado, contrastando:
“Principais bancos já renegociaram mais de 100 mil créditos à habitação” e “Seis
em cada dez pessoas têm dificuldade em pagar casa”. No entanto, os bancos nunca
tiveram lucros como agora devido à alta das taxas de juro: “Margem dos cinco
maiores bancos dispara 80% para 6,7 mil milhões de euros”. As assimetrias socio-económicas
em Portugal nunca foram tão grandes como no tempo actual, que é indubitavelmente
um tempo de cólera.
Terá sido o descambar da situação económica e
social que levou de certo modo as elites a decidir que é altura de substituir o
governo do PS, apesar da maioria absoluta, porque não dará garantias de poder
vir a lançar sobre os que trabalham as medidas austeritárias que o grande
capital necessita para sair da crise, e a repressão, que poderá ser feroz,
sobre as lutas dos trabalhadores. Talvez um governo de toda a direita,
incluindo o Chega e não apenas do PSD, seja o mais eficaz. Esta sim uma razão
para descartar Costa e sus muchachos, coisa que ele próprio até agradece.
Há quem goste de comparar Costa com Sócrates, nós preferimos comparar mais os
governos de Sócrates e de Passos Coelho/Paulo Portas. O primeiro justificou a
intervenção da troika de má-memória e preparou o terreno para a actuação
caceteira do governo que veio a seguir, o pafioso PSD/PP, mais apetrechado a
fazer o papel de polícia mau. Agora, poderemos estar a assistir a uma situação
semelhante, o polícia bom governo PS/Costa irá dar lugar ao ultramontano
governo PSD/Chega, que ficará na história como o mau da fita.
A situação actual é incerta e os
acontecimentos são imprevisíveis e o facto palpável é que os partidos que vão
concorrer às próxima s eleições legislativas antecipadas, e apesar de alguma gabarolice
e muita demagogia, não parecem ter lá ficado muitos felizes com a solução encontrada
pelo PR Marcelo; é que há o risco de todos eles falharem e as elites, por iniciativa
própria ou por Bruxelas, entendam que fará tempo de alterar o quadro partidário
actual ou encontrar uma solução mais musculada para fazer face à crise
económica e acabar com o regabofe partidário. A última palavra caberá sempre ao
grande capital financeiro, o verdadeiro dono da chafarica, ou ao povo dirigido
pelo proletariado revolucionário que entenda tomar em mãos o seu próprio
destino.
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