Por Eman Abu Zayed
Desde a eclosão da guerra de Israel na Faixa
de Gaza em 2023, a destruição não se limitou a casas e infraestrutura pública.
Também se estendeu ao patrimônio cultural e intelectual, já que bibliotecas e
arquivos em todo o enclave sofreram grandes ataques e perdas significativas.
Relatórios de organizações académicas e de direitos humanos indicam que mais de
87 bibliotecas públicas e arquivos em Gaza foram parcial ou completamente
destruídos, resultando na perda de centenas de milhares de livros, documentos e
manuscritos raros que constituem uma parte essencial da cultura palestiniana e
memória histórica.
Enquanto isso, os visitantes da biblioteca
desapareceram gradualmente dos espaços públicos. Os hábitos de leitura mudaram
para casas, abrigos para deslocados e plataformas digitais, à medida que as
pessoas tentavam preservar as suas práticas culturais no meio de uma guerra que
devastou o território e perturbou a vida quotidiana.
A Universidade Islâmica de Gaza: 1,5 milhão
de livros bombardeados
Diante dos restos da Universidade Islâmica de
Gaza, o investigador Riyad Al-Saawi analisa o que resta de uma instituição de
50 anos, —, uma das maiores e mais antigas universidades de Gaza. Desde a sua
criação, as bibliotecas da universidade serviram como alguns dos mais
importantes repositórios culturais e acadêmicos da Strip, abrigando mais de 1,5
milhão de livros cobrindo uma ampla gama de disciplinas, desde literatura,
história e filosofia até ciência e tecnologia. Eles também continham revistas
acadêmicas, documentos raros e manuscritos históricos que refletiam a
profundidade da herança intelectual palestina. As longas filas de prateleiras e
o ambiente tranquilo de estudo fizeram da biblioteca um refúgio para
pesquisadores e estudantes, que passavam horas lendo referências, consultando
estudos e escrevendo seus trabalhos em silêncio.
Al-Saawi olha para o espaço vazio onde antes
ficavam as prateleiras e reflete sobre a magnitude da perda. “Vim hoje em busca
da biblioteca onde passei anos escrevendo minha pesquisa,” diz ele, sua voz
carregando choque e tristeza. “Já continha mais de 1,5 milhão de livros, mas
não encontrei nenhum vestígio disso.” Cada canto da biblioteca já havia
testemunhado momentos de descoberta e aprendizado; cada prateleira carregava
conhecimento que se acumulou ao longo de décadas. Hoje, foi substituído pelo
silêncio e pelo vazio —, uma ausência que reflete tanto a destruição quanto a
resiliência.
Salvando uma biblioteca pessoal dos
escombros
Em outro lugar na mesma paisagem de perda,
Noaman Al-Hilu, um homem que se aproxima dos 60 anos, está sentado entre os
escombros de sua casa destruída. Curvando-se lentamente sobre os detritos, ele
peneira a poeira e o concreto quebrado em busca de algo diferente dos destroços
circundantes: seus livros.
Ao longo de quase quatro décadas, Al-Hilu
construiu uma pequena biblioteca pessoal em sua casa, coletando títulos um por
um em livrarias, feiras de livros e mercados de segunda mão. Para ele, não eram
simplesmente livros, mas um arquivo pessoal que o acompanhava durante anos de
leitura e aprendizagem.
Tirando um volume coberto de poeira debaixo
dos escombros, ele cuidadosamente o escova. Em uma voz marcada tanto pela
tristeza quanto pela determinação, ele explica que o que resta hoje são apenas
fragmentos da biblioteca particular que ele passou anos montando. Junto com sua
família, diz ele, ele está tentando salvar quaisquer livros que ainda possam
ser recuperados das ruínas — não apenas para mantê-los, mas para passar alguns
deles para seus netos como uma lembrança de uma época em que os livros já encheram
o casa.
Na superfície, a cena parece simples: um homem
idoso nas ruínas de uma casa. No entanto, em todo o seu contexto, parece que o
próprio tempo está a escavar as pedras em busca da sua memória perdida.
Biblioteca de Córdoba: Vendendo livros em
meio a deslocamentos e guerras
No bairro de Al-Nasr, no norte de Gaza, um
jovem chamado Ramzi administrava uma pequena livraria conhecida como Biblioteca
de Córdoba há mais de 20 anos. A loja era um local modesto que oferecia obras
religiosas, culturais e históricas ao lado de romances e livros infantis.
Quando a guerra começou em outubro de 2023 e
ondas de deslocamento se espalharam pela Faixa de Gaza, Ramzi foi forçado a
mudar sua livraria várias vezes. Ele se mudou do norte de Gaza para Deir
al-Balah e, mais tarde, para Rafah, carregando sempre os livros consigo para
preservar o que restava de sua coleção e continuar seu trabalho.
Apesar da guerra e do cerco, Ramzi continuou
vendendo livros on-line, respondendo aos leitores que continuavam encomendando
títulos mesmo em condições extremamente difíceis. Para ele, o trabalho não era
meramente uma fonte de renda mas também um esforço para preservar a presença de
livros na vida das pessoas durante um tempo de deslocamento e destruição.
Biblioteca Samir Mansour: A perda de um
importante marco cultural
A Biblioteca Samir Mansour há muito é
considerada uma das instituições culturais mais proeminentes de Gaza. Fundada
pelo professor Samir Mansour, a biblioteca se expandiu ao longo dos anos em
várias filiais em toda a Strip, tornando-se um destino chave para estudantes,
pesquisadores e leitores.
Sua filial localizada perto da Universidade
Islâmica de Gaza era particularmente conhecida entre os estudantes
universitários, que frequentemente a visitavam para comprar obras acadêmicas e
literárias. As prateleiras continham uma ampla gama de títulos que cobriam
literatura, filosofia, política, história e obras traduzidas.
A guerra, porém, não poupou esta instituição
cultural. A biblioteca sofreu grandes danos e milhares de livros coletados ao
longo de muitos anos foram destruídos. Mansour explica que a perda não foi
apenas financeira, mas também cultural, já que muitos dos livros que queimaram
eram edições raras ou títulos que os leitores esperavam muito para obter.
Em meio à escassez de combustível e à
intensificação do bloqueio, alguns moradores às vezes recorriam à queima de
livros simplesmente para acender fogueiras para cozinhar —, uma imagem que
reflete a profundidade da crise humanitária na Faixa. Ainda assim, Mansour
insiste que a ideia da biblioteca em si não pode ser destruída, e que a cultura
literária e acadêmica de Gaza perdurará apesar da devastação das instituições
culturais da região.
Leitura como ato de resiliência
A história das bibliotecas de Gaza não é
apenas um detalhe passageiro do tempo de guerra. Reflete uma relação profunda
entre pessoas e livros numa sociedade que há muito valoriza o conhecimento.
Antes e durante a guerra, estudantes universitários, jovens e até crianças
visitavam regularmente bibliotecas para emprestar livros e ler, demonstrando a
força da cultura da leitura em Gaza.
Durante longos períodos em que a Internet foi
cortada durante a guerra, muitas pessoas regressaram aos livros como forma de
passar o tempo e recuperar um sentido de vida normal, apesar das dificuldades
circundantes.
Em Gaza, um livro nunca foi apenas mais um
item numa prateleira —, é uma janela para o resto do mundo numa cidade sob
bloqueio. Enquanto algumas famílias deslocadas carregavam seus livros com eles,
e outras tentavam resgatá-los de debaixo dos escombros, a leitura continuou a
ser um ato de resiliência cultural. Em uma cidade exausta pela guerra, reabrir
uma livraria ou ler um livro pode parecer simples. No entanto, para muitos em
Gaza, continua a ser a prova de que a vida cultural não desapareceu e que a relação
entre pessoas e livros continua apesar de tudo o que a Faixa suportou.
Eman Abu Zayed é
um escritor e jornalista de Gaza que acredita no poder das palavras para mudar
a realidade.

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