terça-feira, 24 de março de 2026

Gaza: Com as bibliotecas em ruínas, os palestinianos lutam por preservar a memória histórica

Por Eman Abu Zayed

Desde a eclosão da guerra de Israel na Faixa de Gaza em 2023, a destruição não se limitou a casas e infraestrutura pública. Também se estendeu ao patrimônio cultural e intelectual, já que bibliotecas e arquivos em todo o enclave sofreram grandes ataques e perdas significativas. Relatórios de organizações académicas e de direitos humanos indicam que mais de 87 bibliotecas públicas e arquivos em Gaza foram parcial ou completamente destruídos, resultando na perda de centenas de milhares de livros, documentos e manuscritos raros que constituem uma parte essencial da cultura palestiniana e memória histórica.

Enquanto isso, os visitantes da biblioteca desapareceram gradualmente dos espaços públicos. Os hábitos de leitura mudaram para casas, abrigos para deslocados e plataformas digitais, à medida que as pessoas tentavam preservar as suas práticas culturais no meio de uma guerra que devastou o território e perturbou a vida quotidiana.

A Universidade Islâmica de Gaza: 1,5 milhão de livros bombardeados

Diante dos restos da Universidade Islâmica de Gaza, o investigador Riyad Al-Saawi analisa o que resta de uma instituição de 50 anos, —, uma das maiores e mais antigas universidades de Gaza. Desde a sua criação, as bibliotecas da universidade serviram como alguns dos mais importantes repositórios culturais e acadêmicos da Strip, abrigando mais de 1,5 milhão de livros cobrindo uma ampla gama de disciplinas, desde literatura, história e filosofia até ciência e tecnologia. Eles também continham revistas acadêmicas, documentos raros e manuscritos históricos que refletiam a profundidade da herança intelectual palestina. As longas filas de prateleiras e o ambiente tranquilo de estudo fizeram da biblioteca um refúgio para pesquisadores e estudantes, que passavam horas lendo referências, consultando estudos e escrevendo seus trabalhos em silêncio.

Al-Saawi olha para o espaço vazio onde antes ficavam as prateleiras e reflete sobre a magnitude da perda. “Vim hoje em busca da biblioteca onde passei anos escrevendo minha pesquisa,” diz ele, sua voz carregando choque e tristeza. “Já continha mais de 1,5 milhão de livros, mas não encontrei nenhum vestígio disso.” Cada canto da biblioteca já havia testemunhado momentos de descoberta e aprendizado; cada prateleira carregava conhecimento que se acumulou ao longo de décadas. Hoje, foi substituído pelo silêncio e pelo vazio —, uma ausência que reflete tanto a destruição quanto a resiliência.

Salvando uma biblioteca pessoal dos escombros

Em outro lugar na mesma paisagem de perda, Noaman Al-Hilu, um homem que se aproxima dos 60 anos, está sentado entre os escombros de sua casa destruída. Curvando-se lentamente sobre os detritos, ele peneira a poeira e o concreto quebrado em busca de algo diferente dos destroços circundantes: seus livros.

Ao longo de quase quatro décadas, Al-Hilu construiu uma pequena biblioteca pessoal em sua casa, coletando títulos um por um em livrarias, feiras de livros e mercados de segunda mão. Para ele, não eram simplesmente livros, mas um arquivo pessoal que o acompanhava durante anos de leitura e aprendizagem.

Tirando um volume coberto de poeira debaixo dos escombros, ele cuidadosamente o escova. Em uma voz marcada tanto pela tristeza quanto pela determinação, ele explica que o que resta hoje são apenas fragmentos da biblioteca particular que ele passou anos montando. Junto com sua família, diz ele, ele está tentando salvar quaisquer livros que ainda possam ser recuperados das ruínas — não apenas para mantê-los, mas para passar alguns deles para seus netos como uma lembrança de uma época em que os livros já encheram o casa.

Na superfície, a cena parece simples: um homem idoso nas ruínas de uma casa. No entanto, em todo o seu contexto, parece que o próprio tempo está a escavar as pedras em busca da sua memória perdida.

Biblioteca de Córdoba: Vendendo livros em meio a deslocamentos e guerras

No bairro de Al-Nasr, no norte de Gaza, um jovem chamado Ramzi administrava uma pequena livraria conhecida como Biblioteca de Córdoba há mais de 20 anos. A loja era um local modesto que oferecia obras religiosas, culturais e históricas ao lado de romances e livros infantis.

Quando a guerra começou em outubro de 2023 e ondas de deslocamento se espalharam pela Faixa de Gaza, Ramzi foi forçado a mudar sua livraria várias vezes. Ele se mudou do norte de Gaza para Deir al-Balah e, mais tarde, para Rafah, carregando sempre os livros consigo para preservar o que restava de sua coleção e continuar seu trabalho.

Apesar da guerra e do cerco, Ramzi continuou vendendo livros on-line, respondendo aos leitores que continuavam encomendando títulos mesmo em condições extremamente difíceis. Para ele, o trabalho não era meramente uma fonte de renda mas também um esforço para preservar a presença de livros na vida das pessoas durante um tempo de deslocamento e destruição.

Biblioteca Samir Mansour: A perda de um importante marco cultural

A Biblioteca Samir Mansour há muito é considerada uma das instituições culturais mais proeminentes de Gaza. Fundada pelo professor Samir Mansour, a biblioteca se expandiu ao longo dos anos em várias filiais em toda a Strip, tornando-se um destino chave para estudantes, pesquisadores e leitores.

Sua filial localizada perto da Universidade Islâmica de Gaza era particularmente conhecida entre os estudantes universitários, que frequentemente a visitavam para comprar obras acadêmicas e literárias. As prateleiras continham uma ampla gama de títulos que cobriam literatura, filosofia, política, história e obras traduzidas.

A guerra, porém, não poupou esta instituição cultural. A biblioteca sofreu grandes danos e milhares de livros coletados ao longo de muitos anos foram destruídos. Mansour explica que a perda não foi apenas financeira, mas também cultural, já que muitos dos livros que queimaram eram edições raras ou títulos que os leitores esperavam muito para obter.

Em meio à escassez de combustível e à intensificação do bloqueio, alguns moradores às vezes recorriam à queima de livros simplesmente para acender fogueiras para cozinhar —, uma imagem que reflete a profundidade da crise humanitária na Faixa. Ainda assim, Mansour insiste que a ideia da biblioteca em si não pode ser destruída, e que a cultura literária e acadêmica de Gaza perdurará apesar da devastação das instituições culturais da região.

Leitura como ato de resiliência

A história das bibliotecas de Gaza não é apenas um detalhe passageiro do tempo de guerra. Reflete uma relação profunda entre pessoas e livros numa sociedade que há muito valoriza o conhecimento. Antes e durante a guerra, estudantes universitários, jovens e até crianças visitavam regularmente bibliotecas para emprestar livros e ler, demonstrando a força da cultura da leitura em Gaza.

Durante longos períodos em que a Internet foi cortada durante a guerra, muitas pessoas regressaram aos livros como forma de passar o tempo e recuperar um sentido de vida normal, apesar das dificuldades circundantes.

Em Gaza, um livro nunca foi apenas mais um item numa prateleira —, é uma janela para o resto do mundo numa cidade sob bloqueio. Enquanto algumas famílias deslocadas carregavam seus livros com eles, e outras tentavam resgatá-los de debaixo dos escombros, a leitura continuou a ser um ato de resiliência cultural. Em uma cidade exausta pela guerra, reabrir uma livraria ou ler um livro pode parecer simples. No entanto, para muitos em Gaza, continua a ser a prova de que a vida cultural não desapareceu e que a relação entre pessoas e livros continua apesar de tudo o que a Faixa suportou.

Eman Abu Zayed é um escritor e jornalista de Gaza que acredita no poder das palavras para mudar a realidade.

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