O povo português está a suportar de forma estoica a crise da economia de mercado que se manifesta à superfície pelo aumento obsceno dos combustíveis que, por sua vez, produzem um efeito em cadeia no preço de todos os outros bens, principalmente, nos alimentos. Mais do que uma crise é a natureza de uma dinâmica que corre sempre e irresistivelmente para a maximização dos proventos da oligarquia e, em última linha, dos bancos. Estamos a entrar no mês de Outubro e este aumento das dificuldades de quem trabalha vai disparar mais uma vez: as tarifas de gás natural e da electricidade no mercado regulado vão subir 6,4% e 2,7%, respectivamente, daqui a dois dias. Depois do cabaz alimentar ter subido cerca de 8%, para cerca de 260 euros, desde o início do ano, o gasóleo ter aumentado 22% desde 1 de Março, início da guerra do Irão, e taxa de juro média no crédito à habitação pulado para 3,162%. O governo reconhece que “os portugueses estão a passar dificuldades por causa do custo dos combustíveis” e, como medida, manda-os “andar à boleia” e a “poupar” na gasolina, em indisfarçável tom de sarcasmo, ou seja, gozar com quem trabalha.
Quem não tem vergonha todo o mundo é seu
Esta gente do governo não possui qualquer
consideração por quem lhes dá o sustento e nem por muita gente incrédula que
lhes confiou o voto. Montenegro ainda tem a subida lata de afirmar que é “muito
difícil ser professor, médico ou polícia” em Lisboa e promete habitação para
trabalhadores do Estado, o que ninguém acredita, e até a comissária para a Saúde
vem a terreiro garantir em relação ao famigerado “caso das gémeas” de inteira
responsabilidade do ex-PR Marcelo, que “há mecanismos de controlo do SNS”
ocultando o facto de que ela, na altura em que ocorreu o escândalo e o roubo ao
Erário Público, se encontrava à frente do Hospital de Santa Maria.
Esta gente não tem vergonha nenhuma e acha que
todo o mundo é seu. Montenegro gosta de encher o peito de ar, como as rãs, e falar
de alto: afasta a baixa dos combustíveis, porque não quer “lançar o país num
leilão de medidas avulsas” ou que não se deixa "intimidar" e que irá
levar as políticas de habitação "até ao fim". É notório que o chefe
do governo está agarrado a uma agenda bem definida em termos políticos e
ideológicos e que não a largará facilmente, a não ser que seja obrigado pela
oposição da luta dos trabalhadores deste país.
Quem beneficia deste programa político, que
irá ser consubstanciado no próximo Orçamento de Estado, para além de Bruxelas, é
a nossa incontornável burguesia que não se cansa de esticar a corda: a CAP acaba
de exigir “pacote de 140 milhões” em medidas para “recuperar competitividade”;
a Confederação do Comércio e Serviços de Portugal entende que o salário mínimo
é o pior inimigo do salário médio e que as empresas deviam ser obrigadas a não
pagar salários mínimos, e mais, espera um Orçamento do Estado com “visão
reformista” e de “apoio ao crescimento”… da riqueza dos seus associados, só
pode; empresários admitem não aumentar salário mínimo em 2027 e acusam Governo
de falhar acordo - conclusão, a culpa não é deles; a Confederação do Turismo quer patrões a
liderar revisão da lei laboral contra o “radicalismo”, ou seja, as organizações
do patronato, que deverão ser menos representativas que os sindicatos dos
trabalhadores, querem substituir-se aos deputados da Assembleia da República e
serem elas a fazer as leis. Esta arrogância só é possível porque sabem que este
governo é o seu comité de negócios.
O empobrecimento do mundo do trabalho é
incontornável
Mas há um outro lado da realidade, que não
interessa divulgar demasiado: a inflação em Portugal dispara para 3,6% em Agosto
e ultrapassa média da zona euro; ter trabalho já não chega para escapar à
pobreza, as famílias vivem sob pressão e recorrem à ajuda alimentar; número de
empresas a fechar sobe 5% até Agosto e os hotéis e restaurantes lideram
falências, concentradas nos concelhos de Lisboa, Porto, Braga, Aveiro e
Setúbal; o preço do cabaz alimentar sobe pela segunda semana consecutiva e
ultrapassa os 255 euros e há produtos que subiram mais de 20% numa semana; baixos
rendimentos são principal causa da precariedade para 75% dos portugueses; a produtividade
em Portugal aumentou apenas 3,6% em mais de uma década, o quarto pior
desempenho na Europa - graças à falta de visão de grande parte da classe
empresarial; Rendas subiram mais de 10% no segundo trimestre e a cidade de
Guimarães registou o maior aumento – a crise da habitação já chegou à província;
a factura com juros da dívida pode subir quase 50% até 2030, avisa CFP, devido
ao aumento das taxas de juro por parte do BCE – resultado de Portugal ter
abandonado a moeda própria e ter aderido ao euro, a outra denominação do marco
alemão.
A natureza de uma parte importante da nossa
classe empresarial de sucesso fica bem espelhada na declaração de falência da
empresa de produtos ultracongelados Sabgal, da família Vidal, em Santa Comba
Dão, que até promoveu equipa de ciclismo que ganhou uma Volta a Portugal, uma
empresa de sucesso muito elogiada pela imprensa mainstream. Depois de receber 7
milhões de euros do Estado, faliu, está agora em leilão, deixando um calote de
17 milhões de euros ao Fisco, à Segurança Social e à Caixa Geral de Depósitos e…
mais de uma centena de trabalhadores no desemprego e na mais que certa miséria.
Não se prevê que os proprietários venham alguma vez a ser presos ou ficar na
penúria. Quem faliu foi a empresa, não foram eles. Quem ficou “encravado” neste
caso foram os trabalhadores e os contribuintes portugueses, uns no desemprego,
outros mais uma vez espoliados.
Mas – salvação da salvação! – quase
simultaneamente veio a público um "estudo", coordenado pelo grande “professor
catedrático” Passos Coelho sobre as causas do "encravamento" da
economia nacional, chegando a uma grande, inédita e extraordinária conclusão: “a
baixa produtividade” constitui “o principal bloqueio ao crescimento económico”;
ou seja, a culpa é dos trabalhadores. Ainda bem que houve um iluminado, que conseguiu
tirar uma licenciatura aos 37 anos e que não sabia que do dinheiro recebido de
um oligarca amigo e metido em negócios fraudulentos, Tecnoforma, devia
descontar para a Segurança Social, que mostrou o caminho ao ignaro povoléu e ao
correligionário primeiro-ministro, que teima em não ser o “reformador” que
todos (eles) esperam.
A destruição da Escola Pública é um acto de
fé deste governo
O final do ano lectivo toda gente sabe como foi, a trapalhada dos exames nacionais, os atrasos nas matrículas no ensino
superior, a culpa não foi do governo nem do ministro da tutela, foram os
códigos das provas que não eram lidos, os professores não corrigiram como
devia, as escolas atrasaram a afixação dos resultados, e agora ficou-se a
saber que a responsabilidade do caos é da Fenprof que não ajudou na hercúlea
tarefa reformista do governo. Passado o período de férias, tempo mais que suficiente
para resolver os problemas detectados nas escolas, a situação não é melhor,
bem pelo contrário. Logo de início: 160 mil alunos começam o ano letivo sem
professor a pelo menos uma disciplina, os sindicatos falam em 170 mil; o ministro
garante que apenas 54 alunos aguardam colocação nas escolas, mas serão mais, só
em Lisboa serão cerca de 550, e houve pais que recorreram à justiça para verem concretizada
a colocação dos seus filhos; escola em Lisboa impede alunos sem professor de
entrar, os pais chamam a PSP; os incidentes foram também mais que muitos: moscas
cancelam aulas em sete escolas de Vagos; criança sem almoço na escola por
dívida não paga, foi no Entroncamento, município gerido pelo partido da
extrema-direita; diretores e pais queixam-se da falta de respostas e de não
terem um interlocutor para resolver os casos de alunos que continuam sem vaga,
atribuindo a causa à reestruturação dos serviços do Ministério da Educação que
tornou o processo "mais confuso e moroso"; Deloitte sem concorrência,
oito contratos e 4,09 milhões de euros, em negócios com o ministério da Educação – a quanto montaram as comissões?!
O paraíso do narcotráfico, da lavagem de
dinheiro e da corrupção
Portugal está a ser transformado em paraíso do
narcotráfico, da lavagem do dinheiro e governado pela mesma máfia de sempre: políticos, negócios, corrupção e crimes coexistem pacificamente. A atribuição de “vistos gold” bateu
recorde em 2025, chegou ao novo máximo de 2685, com os EUA a liderar, ao todo,
já foram atribuídos 18.254, as máfias lavam o dinheiro. As redes internacionais
de droga estão a instalar-se em Portugal, procurador pede mudanças urgentes na
lei que os governos ainda não tiveram tempo de fazer – esclareça-se. Julgamento
do ex-deputado Duarte Lima vai avançar, é acusado pelo homicídio de Rosalina
Ribeiro, no Brasil, em 2009 – já lá vão 17 anos! O Ministério Público acusou 4
arguidos quanto ao escândalo dos dois milhões de euros gastos com as gémeas brasileiras,
que obtiveram a nacionalidade portuguesa não se sabe bem como, são eles: António
Lacerda Sales, antigo secretário de Estado da Saúde, Nuno Rebelo de Sousa,
filho do antigo Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, Luís Pinheiro,
ex-diretor clínico do Hospital de Santa Maria (prevaricação e abuso de poder) e
Daniela Martins, mães das gémeas (burla qualificada). Marcelo, a causa principal
de todo o processo da cunha, velha tradição nacional, saliente-se, ficou de
fora e como não tem vergonha nem escrúpulos passa a culpa para o filho.
Cinquenta e dois anos depois do 25 de Abril,
ainda se assiste a fenómenos quase medievais de crendice a superstição: imponente
templo, que custou 12 milhões de euro, foi inaugurado em Balasar, Póvoa de
Varzim, em honra da beata Alexandrina, que terá vivido 30 anos acamada e 13 em
jejum, e que arrasta multidões. Para se entender de igual modo porque razão Portugal
está entre os dez países que mais recuaram ao nível da liberdade de expressão, segundo
documento do Instituto Internacional para a Democracia e Assistência
Eleitoral (Internacional IDEA), com sede em Estocolmo. Nada nos deve
admirar no país em que três agentes da PSP foram condenados por vários crimes
relacionados com abuso de poder, tráfico de estupefacientes, falsificação de
documentos e ofensa à integridade física – quem nos defende da polícia? Em já
Outono, o país continua a arder, fogos em Alvito da Beira, Portel e Mirandela
mobilizam 1.100 operacionais.
Assim se compreende que, face ao descalabro e
à deterioração das condições de vida, muitos cidadãos hesitem ainda quanto a
atitude a tomar perante o governo de Montenegro/PSD/CDS, estão contra mas não
querem eleições – dizem as sondagens. Será mesmo assim? Se houvesse agora
eleições, o PS ganharia e PSD/Montenegro ficariam em terceiro lugar. Os resultados
não nos surpreendem, apesar de todas as sondagens visarem a manipulação e criar
uma percepção e uma outra realidade. Até quando iremos viver neste pântano e
não seguimos o exemplo do povo francês que está neste momento a manifestar-se
nas ruas contra a política de pobreza e de opressão do governo de direita,
chefiado pelo funcionário da família mais rica do mundo, os Rothschild, o
inefável Macron?
PS: Amanhã, parece que o governo de Montenegro/PSD/CDS vai apresentar no Parlamento um conjunto de medidas para “resolver” o problema da habitação em Portugal, medidas que assentam fundamentalmente em facilitar os despejos e flexibilizar ainda mais os contratos de arrendamento que, com se sabe de experiência vivida, terão efeito contrário ao anunciado. Entretanto, perante a fúria das massas, o governo do PSOE e chefiado por Pedro Sánchez acaba de aprovar decreto-lei, que ainda terá de passar pelo Parlamento espanhol, com as seguintes medidas: Proibição da compra de casas por fundos de investimento; Limitação dos despejos até 2030; Prorrogação automática dos contratos de arrendamento; Renovação automática dos contratos de arrendamento por tempo indefinido; Regulação do arrendamento temporário; Regulação do arrendamento de quartos. Manifestações de massas são necessárias em Portugal.
Imagem: encontrada no FB.

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