quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Uma saída limpa!

 

Crónica escrita aquando da saída formal do FMI de Portugal após as medidas de austeridade e de empobrecimento do povo português impostas pelo governo pafioso de Passos Coelho/Portas/PSD/CDS, que foi “além da Troika”! Com Montenegro e os mesmos partidos no governo e depois de Passos Coelho vir criticar a falta de "espírito reformista" do correligionário, a situação que nos espera será não só semelhante mas bem pior à vivida há mais de 10 anos.

O povo português está a passar fome, são 2 milhões de portugueses que vivem na pobreza e na miséria, eufemisticamente falando, “em risco de pobreza”, mais de 120 mil crianças passam fome se não tiverem apoio social, fornecido maioritariamente pela Igreja e pelo Banco Alimentar com o dinheiro dos contribuintes, uma maneira fácil e saloia de fazer caridadezinha com o dinheiro dos outros, enquanto se mantem e se escondem as razões da pobreza e da exploração; número aquele que aumentou nos anos da crise em cerca de 35 mil crianças.

No entanto, o governo embandeira em arco com a “retoma económica” em base do aumento das exportações e com os dados do Banco de Portugal que apontam para um aumento do consumo interno, fazendo com que o PIB dispare ainda este ano para os 1,4%, ou 2%, segundo as novas regras de contabilização, fazendo com que o senhor Coelho de Massamá, perante o tarefeiro de serviço da SIC/Balsemão, disparasse mais uma das suas boutades: “a seu tempo”, os portugueses avaliarão “o resultado que garante o melhor para o seu futuro”. Um resultado que não merece confiança do FMI que sairá formalmente de Portugal só em 1 de Janeiro de 2015, até lá irá exercer uma “vigilância reforçada” a fim de se certificar que os cortes nos salários dos trabalhadores públicos e nas pensões serão aprovados e aplicados de forma definitiva, iludindo as objecções do Tribunal Constitucional.

Estas é que são a tão propalada “reforma do Estado”, com a concomitante privatização de todos os serviços e empresas ainda nas mãos do Estado; até às eleições de 2015 será a privatização a todo o vapor. Este mês de Abril, quando se comemoram os 40 anos da dita “Revolução dos Cravos”, os reformados e pensionistas, que já tinham as reformas congeladas e/ou diminuídas desde o tempo do governo Sócrates/PS passaram a sofrer um corte brutal que se pretende que seja de vez, juntando-se aos pobres que, em três anos de crise, vêm a sua alimentação e os seus cuidados básicos de vida a degradar-se, num país que importa cerca de 70% dos bens necessários à sua alimentação; um país, no dizer de um agricultor em recente manifestação, que não tem soberania alimentar, não tem soberania política. A seu tempo, o povo português irá lançar pela borda fora este governo de ladrões, esperamos que o mais breve possível, já ontem era tarde!

A partir de 2010, a quantidade de alimentos disponíveis para cada cidadão português sofreu uma redução acentuada, com a carne de bovino e de suíno a atingir os valores mais baixos da última década, enquanto subiu a carne de frango, que passou a fonte principal de proteínas para uma larga faixa do povo português, assim como desceu o consumo de produtos lacticínios, ovos, fruta e pescado, fazendo com que a fome seja de quantidade e de qualidade dos alimentos disponíveis, com a mais que certa degradação do estado de saúde do povo português. Situação agravada com o recurso a alimentos com mais gordura animal e outras fontes energéticas não proteicas, o que faz com que o INE tenha registado um aumento do aporte calórico de cada cidadão português, cujo resultado a médio e longo prazo será o disparar de doenças do foro cardio-vascular e, por força de uma menor vitalidade e defesas imunológicas do organismo, ao aumento de doenças infecto-contagiosas.

Nestes números incluir-se-ão as mais de 120 mil crianças já lançadas na subnutrição e os idosos que passarão a receber pensões, já de si miseráveis, que não darão sequer para a sobrevivência mais básica. Não esquecer que são mais de 165 mil pensionistas afectadas pelos recentes cortes, e que a esmagadora maioria dos pensionistas está no escalão entre 253,99 e 419,21 euros, ou seja, 1.177.965 reformados, segundo números de 2012; e todas as pensões, incluindo a de sobrevivência, estão congeladas desde 2010, e só o primeiro escalão das pensões mínimas da Segurança Social (246,36 euros) tem sido aumentado, cujo último aumento foi de 9 cêntimos por dia!

A estes cidadãos a viver na miséria irão juntar-se mais uns outros largos milhares, serão pequenos agricultores que irão ser lançados na ruína imediata devido à medida do governo em obrigar a que se colectem e comecem a passar facturas pela venda da sua pequena produção, sendo obrigados ao pagamento do IVA, IRC e prestação para a Segurança Social. O número de portugueses a viver na pobreza e até na maior das misérias irá, dentro em breve e no meio do regozijo do governo quanto ao “milagre económico”, ultrapassar bem à vontade os 50% da população.

Para que a miséria seja certa e segura, o FMI ficará fisicamente em Portugal, como se de colónia se tratasse, para ter a certeza que as tais “reformas do Estado” irão ser aplicadas e aplicadas de forma sólida e duradoura, isto é, privatizar tudo que seja privatizável, cortar salários, que não ficarão pelo sector público, o privado também irá apanhar por medida grossa, e as pensões independentemente do montante ou da natureza. E, ao contrário dos números apontados pelo INE/Governo, o desemprego não irá diminuir, irá aumentar porque será a forma de manter a pressão sobre os baixos salários e por constituir uma consequência inevitável da destruição das pequenas empresas, sejam elas na área da agricultura ou da indústria e mesmo dos serviços.

A recessão económica existe e irá agravar-se porque é o resultado da própria natureza do capitalismo e porque estas medidas de austeridade se, por um lado, pretendem salvar os lucros dos grandes capitalistas, com os banqueiros à frente, vão, pelo outro, reforçar a ruína dos pequenos capitalistas, aumentando, na sua lógica natural, a concentração capitalista. Está na natureza do capitalismo, e não há volta a dar enquanto não acabarem os seus dias. A tranquilidade do FMI é a tranquilidade dos banqueiros que não confiam nem no governo, nem na dita “economia nacional”, e muito menos no povo português, cuja paciência irá um dia destes esgotar-se. Os dias de cólera e de revolta não tardarão, apesar do circo eleitoral que já teve o seu início com estas eleições para o Parlamento Europeu e que a burguesia irá tentar manter até ao Verão de 2015.

Os 40 anos de Abril dos Cravos irão ser comemorados com o país ocupado por potências estrangeiras, FMI/EUA e UE/Alemanha, como se de uma colónia se tratasse, gerida por um comité de lacaios e de corruptos que, continuamente, espezinham e humilham o povo português. Gente que se assume abertamente como os filhos do fascismo, para quem o 25 de Abril nem chega a ser “evolução”, quanto mais “revolução”; para quem a figura mais simbólica do 25 de Abril é o sinistro general Spínola, que nem chega a ser um dissidente do fascismo, como aconteceu com um Pinto Balsemão e Cia, todos eles reciclados em democratas da undécima hora, mostrando bem que o que temos agora é um regime em deslize gradual para fascismo brando, em versão doméstica de sidonismo de ocasião.

Se os partidos da dita oposição fossem partidos verdadeiramente amantes da democracia e com um pouco de coragem, ou por outras palavras, com “eles” no devido sítio, não compareciam na Assembleia da República no dia 25, indo juntar-se às comemorações levadas a cabo pela Associação 25 de Abril no Largo do Carmo. Mas, facto iniludível e que ilustra bem o que é na realidade este regime de democracia parlamentar burguesa, é o governo ter-se mantido no poder durante este tempo todo, apesar da perda de grande parte da sua base eleitoral, por conivência de todos os partidos da putativa oposição. No dia 25 de Abril, os partidos do governo deveriam ficar a falar sozinhos.

22 de Abril 2014

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