Crónica alinhavada há 4 anos mas actual quando se vê um PR Seguro e um PM Montenegro a inaugurar uma escola pública com a presença e intervenção de um clérigo católico. República Portuguesa laica ou estado confessional? Estaremos no Irão ou na Arábia Saudita? Neste caso, os pecados dos políticos do establishment serão perdoados?
Ainda nos lembramos das palavras de um
bispo, quando os crimes de pedofilia cometidos dentro da Igreja Católica (mas
lá fora) começaram a ser mais falados, de que tais crimes não aconteciam em
Portugal. Haveria uma barreira sanitária que impedia a entrada do vírus do
pecado entre muros nacionais. Quando começaram a surgir, de forma
indesmentível, os primeiros casos, e possivelmente por pressão do Papa
Francisco, ele por sua vez também obrigado a ter de limpar a casa, as
declarações da hierarquia católica indígena passaram a reconhecer a
prevaricação, no entanto desconhecendo o número exacto dos casos. Por fim, e
com receio ou já notando descontentamento entre os fiéis, a ICAR lá se decidiu
a criar uma comissão independente, e “independente” para não ser acusada de
querer encobrir o rol dos crimes.
Com o trabalho da comissão quase no fim e depois de se conhecer que os casos de denúncias já iriam nos 424, um número que não diz bem da real dimensão do desmando sexual dos senhores curas, lá também apareceram as figuras do costume a tentar pôr água na fervura, e, como não podia deixar de ser, o papagaio-mor do reino, que opina sobre todas as coisas e nenhumas, afirmando candidamente que o número de 424 casos de pedofilia não seria nada de monta comparado com o de outros países de maioria católica. E já depois de ter posto as mãos no lume pela credibilidade do cardeal patriarca de Lisboa, por ter sido acusado de encobrimento, um crime tão ou mais grave que o da pedofilia. Esta foi a melhor expressão da santa aliança entre a cruz e a espada. Nada de motivo para a admiração do reviralho na medida em que o historial desta aliança vem antes da fundação da dita “nacionalidade portuguesa”. Dom Afonso Henriques, o primeiro proprietário da quinta, era franco e derrotou e expulsou os infiéis com a ajuda prestimosa e indispensável dos cruzados, católicos e seguidores do Papa.
A santa aliança entre a cruz e a espada
antes do 25 de Abril revestia forma mais pessoalizada, eram inúmeras as
anedotas que se contavam sobre a amizade entre as duas figuras supremas do
poder, religioso e temporal. No entanto, a Igreja fazia o trabalho de
mentalização das massas, nomeadamente rurais, que interessava ao regime
fascista português, mas parece que agora os papéis se inverteram.
Diversos altos dignatários da Igreja (ICAR)
têm sido questionados sobre o escândalo e, principalmente, sobre o eventual
encobrimento da pedofilia dentro da Igreja. Alguns vão conseguindo descalçar,
mas mal, a bota e limpar a imagem pessoal e da confraria; um deles, o bispo
Ornelas, depois de ter sido avisado pelo PR Marcelo de que estava a ser
investigado pela Justiça, tem-se desunhado em entrevistas pelos media
mainstream, com relevo para a pública RTP, em defesa da honra e do bom nome. No
entanto, outros, por menos inteligentes ou menos diplomáticos, não conseguem
esconder a verdadeira alma de arrogância clerical, pensando talvez que ainda se
encontram no bom e saudoso tempo da Inquisição, do estado religioso que se
sobrepunha ao poder temporal. O bispo do Porto, cujo nome é o antónimo de o
ser, de cada vez que abre a boca mais se enterra na contradição de uma
instituição que vive fora do tempo; ilusão esta que é alimentada por
incompreensíveis e anacrónicos privilégios concedidos pelo poder político de um
estado que constitucionalmente se declara laico. A arrogância e o poder da ICAR
estão na razão directa do oportunismo e pusilanimidade da classe política
nacional e que, à vez, vai gerindo os negócios da elite económica reinante.
A arrogância e algum sentimento de impunidade
de quem está acima da plebe faz com que o bispo Linda venha a ficar na história
da pedofilia em Portugal por tiradas pouco lindas, do género "O crime de
abuso não é público", ou, então, as amnésias selectivas de não se recordar
“minimamente” de ter recebido queixa por abuso sexual envolvendo padre e uma
menor. A acompanhar, o clérigo Ornelas, usando a abstração do termo “igreja”,
não se inibe de afirmar que a “igreja tem casos de pedofilia, mas não é
pedófila” – o que será uma “igreja pedófila”? No topo da hierarquia, o Vaticano
promete trabalhar “em momento oportuno” com Igreja Portuguesa sobre abusos.
Qual será o resultado deste trabalho ainda não sabemos, mas em relação à
Justiça portuguesa não será difícil prognosticar porque neste momento o MP já
arquivou mais de metade dos inquéritos. Como a grande maioria dos abusos
sexuais foi praticada há muito tempo, tendo já prescrito, pouco ou nenhuns irão
sequer a julgamento.
Perante a suspeição e a acusação, agora, é a
vez de o clero apresentar-se como vítima, atitude que se observa em muitos
católicos mais obedientes basta passar os olhos pelas redes sociais. É a
"perseguição à Igreja", é a condescendência de que em todas as
instituições ou grupos sociais há sempre as ovelhas negras, que em altura certa
serão expulsas, ficando a instituição ainda mais pura e verdadeira. Só que a
decadência e a evidência de “os valores que estão a voar" são
incontornáveis. Mas enquanto os valores morais e espirituais vão decaindo ou
adulterando os interesses materiais estão sempre presentes: “Clero do Porto vai
investir sete milhões numa hospedaria. Espaço vai ter 55 quartos e será aberto
a todos os turistas que queiram usufruir” (é a manchete dos media). A
celebração da “segunda peregrinação do ano” a Fátima pela participação e pelo
(des)ânimo em que decorreu não conseguiu esconder a realidade presente da ICAR.
A decadência de valores não é de agora, e
referimo-nos à Igreja católica portuguesa, lembremo-nos do caso do bispo do
Funchal que ordenou padre o secretário, pedófilo e, ao que parece, amante, e o
fez sair da prisão, onde se encontrava por presumível crime de homicídio e com
contornos de envolvimento sexual – ninguém se esqueceu do padre Frederico que
fugiu à Justiça em 1998! Lá vai o tempo em que os padres eram acusados de
poligamia e de terem filhos que mais tarde rejeitavam, recorrendo muitas vezes
ao infanticídio. Refere Alexandre Herculano: «Um dos males que mais afligiam o
reino era a excessiva multidão de sacerdotes. Havia pequena aldeia onde viviam
até quarenta, do que resultava andarem sempre em competências, disputando uns
aos outros as missas, enterros e solenidades do culto, com altíssimo escândalo
do povo». E mais adiante o nosso historiador não se cansa de apontar: «Um dos
abusos frequentes que estes tais cometiam era casarem clandestinamente, podendo
assim delinquir sem perigo, porque, se os processavam por algum crime de morte,
declinavam a competência dos tribunais seculares, e suas mulheres, para os
salvarem, não hesitavam em se envilecerem a si próprias perante os magistrados,
declarando-se concubinas.» Parece que agora os tempos são outros.
São os tempos da pedofilia, das parafilias
resultantes da ancestral e persistente repressão da sexualidade humana por
parte da ICAR e ao longo de muitos séculos da sua existência. A pedofilia tem
um significado preciso, segundo o psiquiatra Afonso Albuquerque “Na perspectiva
sexológica, o pedófilo é um adulto (geralmente um homem) cujo interesse sexual
por crianças pré-púberes (até aos 13 anos) excede claramente o seu interesse
sexual pelos adultos. Alguma especificidade extra vem sugerida nos sistemas classificativos
mais actuais (DSM -IV, CID-10), como a idade de pelo menos 16 anos para o
perpetrador e a da vítima ter até 13 anos, e ser pelo menos cinco anos mais
nova, de forma a excluir os casos de atracção sexual entre crianças e
adolescentes com idades equivalentes”. E como tal deve ser objecto de
tratamento clínico, o que não apaga, como é óbvio, a responsabilidade criminal
do abusador e da própria instituição que criou condições para tal e não soube
tomar medidas em tempo útil.
Embora não parafilia, tanto a homossexualidade
como a masturbação têm sido abertamente reprimidos como pecados. Há quem veja
esta repressão clerical e religiosa como a repressão de uma “sobrevivência
pagã” - como é ainda considerada cristianamente a sexualidade humana - a
expressão de uma «psique neurótica» e de «uma psicologia dos grupos conduzindo
à neurose». A atitude de sempre da Igreja católica, e reiterada em 1975 pela
Sagrada Congregação da Fé quanto a questões de sexo e de castidade, é interpretada
numa perspectiva psicanalítica por um dos seus últimos elementos proscritos, o
teólogo e psiquiatra alemão Eugene Drewermann, que vê como resultado no
indivíduo (homem da igreja ou crente) desta política medieval «o menosprezo do
ego, a “mortificação” da pulsão sexual e a submissão do indivíduo ao grupo
(leia-se hierarquia)».
O mesmo autor reconhece, fruto da sua
experiência de psicoterapeuta, que a percentagem de homossexuais dentro da
Igreja católica é grande, como consequência principal da sua moral repressiva e
da atitude quanto ao celibato, quer entre religiosos de sexo masculino como do
sexo feminino, chegando aos 25% os jovens seminaristas que, de forma permanente
ou esporádica, se dedicam a práticas homossexuais. A homossexualidade
considerada como uma das formas mais graves de pecado pela Igreja (os acusados
pelo crime nefando eram sentenciados à fogueira
pela Santa Inquisição, se fosse agora muito haveria que queimar!) é
por esta directamente fomentada, mas que, ao mesmo tempo (contradição das
contradições), obstinadamente se recusa a reconhecer como realidade existente
no seu seio.
Quanto a práticas masturbatórias, elas são
frequentes, segundo Drewermann, são diversos os casos, por si vistos na
clínica, de eclesiásticos, alguns ocupando altos cargos hierárquicos, que,
perante as dificuldades de preparação de uma conferência ou homília, começavam
sempre por se masturbar. Masturbação, considerada pela Teologia católica como
“um acto gravemente oposto à ordem”, ou então a procura do álcool, outro
refúgio bastante solicitado e que, quer um quer outro, funcionam como droga
para vencer o medo e a insegurança.
E entre os padres que decidem abandonar o
caminho do onanismo para se ligar a alguma mulher, respondendo assim aos apelos
mais íntimos do seu ser, confrontam-se as mais das vezes com o problema dos
filhos não desejados, sendo, por isso, e segundo aquele teólogo alemão, os
abortos coisa frequente: é que o “concubinato” é tolerado desde que o sacerdote
em causa não persista ou “não dê escândalo” (cânone 1395 do Direito Canónico),
isto é, que não haja conhecimento do “pecado”.
Esta realidade não é de estranhar numa
religião, e continuamos a citar as palavras de Drewermann (que apesar de tudo
não renega a sua fé), que «falsifica a neurose em santidade, a doença em
eleição divina e a angústia em confiança em Deus», e onde a separação entre o
pensamento e a sensibilidade, a actividade intelectual e a vivência emocional,
constitui uma estrutura fundamental do pensamento clerical. Esta hipocrisia, a
mesma que a burguesia manifesta, mas mais refinada e levada ao extremo, é
própria de uma religião que «é inimiga da natureza e oposta ao amor», melhor
dizendo, tem como objectivo a subjugação do homem, a sua destruição como
indivíduo livre e senhor do seu destino.
Por fim, haverá que fazer uma distinção entre
“pedófilo” e “adulto abusador sexual de crianças”, que é melhor descrito como
«qualquer adulto que tenha contactos sexuais com crianças pré-púberes», segundo
Afonso de Albuquerque. E continuando, este «qualquer adulto» vai incluir
pedófilos e não pedófilos, ou seja, há adultos que abusam sexualmente de
crianças mas não o fazem porque sejam pedófilos mas sim por uma variedade de
outros motivos (por exemplo, os violadores). Estas duas populações (pedófilos e
abusadores sexuais de crianças) são em parte coincidentes. Talvez tenha sido
esta a realidade dos abusadores envolvidos no caso mais que mediático da Casa
Pia e que abriu o capítulo de um dos maiores escândalos da democracia
portuguesa saída do 25 de Abril de 74, onde estavam envolvidas figuras
importantes da sociedade, do futebol, do espectáculo e da política. Quase que o
espelho de um certo Portugal bem instalado na vida.
Observando com mais atenção constata-se que os
problemas da Igreja Católica são, embora com algum grau de ampliação pelas
características específicas, os mesmos da sociedade em geral. Numa sociedade
patriarcal, onde predominam conceitos racistas, xenófobos e machistas, os
pecados são os mesmo de uma igreja, também ela, patriarcal, e, por acréscimo,
celibatária e gerontocrática. No global, é a sociedade burguesa e capitalista
que se encontra em decadência, porque a superestrutura não se pode desligar da base
económica, andam quanto muito e às vezes desfasadas no tempo.
Bibliografia:
- Afonso de Albuquerque, Minorias Eróticas e
Agressões Sexuais. Publicações Dom Quixote, 2006.
- Alexandre Herculano, História da Origem e
Estabelecimento da Inquisição em Portugal. Edição Círculo de Leitores, 1987.
- Eugen Drewermann, Funcionários de Deus. Editorial Inquérito, 1989.
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