terça-feira, 15 de março de 2022

A guerra inter-imperialista e a queda do Império do Ocidente

Gaza - Palestina

A guerra que se desenrola na Ucrânia é o fruto do confronto entre as diversas potências capitalistas mundiais, independentemente das causas próximas ou pretextos no deflagrar do conflito que opõe a Rússia à Ucrânia. Enquanto houver classes e capitalismo a guerra é inevitável e na fase de globalização e imperialista, fase final do capitalismo, a guerra estará sempre presente e será usada para resolver não só as contradições entre os diversos blocos como a crise interna de cada estado capitalista. A própria guerra faz parte da economia capitalista, quando acaba alguma guerra, o resultado é sempre o mesmo: os capitalistas ficam mais ricos e os trabalhadores mais pobres. Exactamente como sucedeu com a pandemia, que foi uma guerra não contra o vírus mas contra os povos.

A história da humanidade é a história da luta de classes

Dentro de cada país, a guerra também existe, é uma guerra entre classes, travada pela burguesia contra a classe operária e restantes camadas de trabalhadores do povo, que são exploradas pela extorsão da mais valia, na forma de lucro, juro, renda, etc. A própria burguesia usou a violência para usurpar o poder à nobreza para, substituindo a economia assente na propriedade e exploração da terra, poder desenvolver livremente, primeiro, o comércio e a manufactura, depois, a grande indústria  e comércio mundial até aos dias de hoje. Ao longo da História a guerra e a violência nunca deixaram de estar presentes – a violência foi sempre a parteira da História.

Sabendo-se das inúmeras agressões do imperialismo americano contra os estados e as nações independentes para aí colocar governos vassalos, cujas vítimas atingirão os 20 milhões de pessoas e somente após a Segunda Guerra Mundial, e conhecendo-se o genocídio levado a cabo pelas antigas potências europeias coloniais, onde se inclui Portugal, depois do descobrimento do caminho marítimo para Índia e da viagem à volta de mundo de Magalhães, dando início à globalização, à custa de várias de dezenas de milhões de mortes e de horrores, não deixa de ser patético a campanha conduzida pelos grande órgãos de informação (propaganda) corporativos, propriedade de capitalistas, curiosamente a classe que é responsável pelas guerras e delas beneficia. Estamos perante uma enorme e rematada operação de manipulação e de hipocrisia quanto à guerra.

Na guerra que assola a Ucrânia é evidente a posição de vende pátrias da burguesia e da clique política que se encontra no poder, alinhando abertamente pelos EUA e pelo Ocidente, deixando-se usar numa guerra que não é do povo ucraniano, mas das potências capitalistas na disputa por recursos, mercados e zonas de influência. Parece que ainda não se aperceberam que estão a ser instrumentalizados para daqui a algum tempo, após acordo entre as duas potência em confronto, serem descartados por inúteis. O que seria coisa sem grande importância se não fosse o facto de terem arrastado o povo para a morte, a destruição e a miséria. Este é sempre o resultado das guerras entre burguesias, entre elites, entre classes dominantes, o que lhes quiserem chamar, mas não guerras entre os povos. A guerra na Ucrânia não é uma guerra entre povos, mas pode transformar-se numa guerra contra as suas burguesias.

O capitalismo em crise provoca a guerra

Para se entender a guerra teremos de conhecer o que está por detrás, e por detrás desta encontra-se uma crise económica bastante grave que se vem arrastando sem fim à vista – estamos fartos de repetir isto e só não vê quem não quer. A guerra é o resultado e não a causa da crise económica, e é económica porque se trata da economia de mercado ou capitalista. E as sanções que o Império lança sobre a Rússia e sobre quem a apoia, a China irá a seguir para além das sanções que já lhe foram impostas, irão ser mais perniciosas para os povos do Ocidente do que propriamente para o povo russo que, também ele, irá sofrer mas, e ao contrário da propaganda daqui, irá sofrer menos. E os estados vassalos da União Europeia (uma construção americana para fazer frente à antiga URSS) não ficarão imunes ao tsunami da inflação, do desemprego e, mais cedo ou mais tarde, da guerra que poderá transbordar as fronteiras. Será mais fácil haver revoltas nos países europeus pela miséria que essas sanções irão provocar do que o povo russo. Aparentemente um paradoxo, mas não mais do que isso.

A Rússia, perante o cerco que lhe foi imposto pelos EUA, foi-se precavendo, apetrechou-se com divisas (principal produtor de ouro do mundo), substituiu muitos produtos importados por produção local, manteve um grande excedente comercial, é auto-suficiente em termos energéticos, criou sistema electrónico de pagamentos próprio e interligou-o ao sistema chinês e ambos os países, Rússia e China, basearam esse sistema numa bolsa de meia dúzia de moedas a fim de contornar o dólar e assim dar início à desdolarização do comércio mundial. O governo russo já anunciou que quem quiser receber pagamentos terá de ser em rublos. Quando o dólar deixar de ser a principal moeda de pagamento nas trocas comerciais será o fim do Império. E independentemente de como e quando a guerra na Ucrânia irá acabar, ela marcará o fim do dólar e a queda do Império e por arrasto da Europa com os seus falsos princípios humanistas.  O declínio do dólar, a estagflação de todas as economias do ocidente não deixam outra solução se não a guerra. Daqui para a frente o mundo não será igual.

Estará na lógica que, perante tal perspectiva, a potência que desde o fim da II Guerra Mundial tem dominado o mundo segundo as (suas) regras não queira cair pacificamente e nem sozinha. E os estados europeus parecem que querem cometer suicídio ao deixarem-se arrastar pela política belicista americana ao aceitarem comprar o gás mais caro vindo do outro lado do Atlântico, o que fará aumentar os custos de produção das mercadorias europeias, tornando-as menos competitivas em relação às provenientes da China e dos próprios EUA. A Alemanha deixará rapidamente de ser a “locomotiva da Europa”. Não é só o maior gestor de fundos do mundo BlackRock que assume perdas de 17 mil milhões de dólares devido à exposição em títulos de crédito à Rússia, mas a banca italiana com  25,3 mil milhões de dólares, a bancos francesa com 25,2 mil milhões e a austríaca com 17,5 mil milhões, no total por parte dos bancos da União Europeia serão 89,5 mil milhões de dólares. Com uma inflação média a disparar para 5,1% para já, a Europa, ao querer seguir e sujeitar-se ainda mais ao suserano EUA, irá praticar com certeza o seu hara kiri.

Portugal devorado pela crise arrisca-se a desaparecer 

Em Portugal, país periférico, dirigido por uma burguesia rentista e subsidiária, tem e verá agravar-se rapidamente uma situação já de si dramática: dívida pública de mais de 120% do PIB, fraco crescimento do PIB, será metade do previsto (agora justificado pela guerra), forte dependência alimentar (70% dos produtos importados), enorme dependência energética(importa-se 80% da energia), sem soberania monetária. E as expectativas, ao contrário da propaganda do governo de maioria absoluta, são mais do que péssimas: Galp sobe preços da eletricidade e do gás natural a 15 de abril (3%); FAO prevê subida de 21,5% do preço do trigo em 2022 no pior cenário; Preço dos combustíveis em Portugal acima da média UE; INE confirma inflação de 4,2% em Fevereiro, transportes e restaurantes lideram subidas. Contudo, Portugal prevê aumentar a despesa com a Defesa, ou seja, rearmar o país, alinhando com o resto da Europa na corrida armamentista depois do tiro de partida dado pela Alemanha. Os especialista da área, a exemplo dos especialistas da pandemia, defendem para além de mais dinheiro a reintrodução do recrutamento obrigatório. 

Para não perder o hábito, a burguesia indígena, seguindo o roteiro da pandemia, reivindica mais apoios do estado. O chefe da CIP exige descida do ISP, IVA e do IRC (o ideal dos patrões, não pagar impostos!) e mais uns milhões a fundo perdido, o mesmo aquando da pandemia. Os patrões do sector dos transportes, alegando prejuízo de 70 milhões de euros devido à subida do preço dos combustíveis, exigem reforço dos apoios que já existem. Os donos dos hipermercados consideram inevitável o aumento do preço dos principais produtos alimentares, começando já a fomentar o açambarcamento do óleo de girassol, uma boa maneira de acelerar a inflacção. Perante o alarido dos rentistas que agora não se queixam de haver "muito estado" nem das eventuais respectivas "gorduras", o governo vai prometendo linhas de crédito, no imediato 400 milhões de euros para as empresas mais dependentes da energia dos combustíveis e já admite regresso ao lay-off simplificado devido à crise energética. Não esquecer que o lay-off a pretexto da pandemia foi pago com os dinheiros da Segurança Social.

Enquanto isso, o desemprego vai começar a disparar: a empresa espanhola A Megasa, que controla a Siderurgia Nacional no Seixal e na Maia, e emprega 700 trabalhadores, suspende a atividade devido ao “agravamento da crise energética provocada pela guerra”. Será o novo mantra. Mas com lenga-lenga ou sem ela, os ingredientes para um agravamento da crise económica capitalista vão-se reunindo: estagnação económica, elevada inflacção e aumento do desemprego. E todas as medidas aplicadas pelo governo, desde alívio dos impostos directos sobre as empresas ou indirectos aos financiamentos a fundo perdido ou a linhas de crédito não passam de panaceias, porque a ruína da maioria das pequenas e médias empresas é irreversível e inevitável. O capital para poder continuar a acumular-se terá de se concentrar num número cada vez menor de mãos, faz parte da sua natureza e da sua dinâmica, caso contrário acaba. E com a baixa drástica, em média, dos lucros e com o excesso de produção que o mercado não consegue escoar por falta de poder de compra, a guerra torna-se como o único meio dos capitalistas resolverem os seus problemas.

Um país a atravessar uma crise económica grave, que irá rapidamente assumir proporções jamais vistas, com uma elite parasitária e inútil que vive esencialmente à custa do estado e do povo, sem soberania económica ou política, com uma população envelhecida, com um índice de natalidade a diminuir de ano para ano, liderado por uma classe política medularmente corrupta, centrada no enriquecimento pessoal fácil e rápido, não pode ter outro fim se não desaparecer um dia destes. Será uma questão de tempo, caso o povo não se revolte.

A guerra já fora declarada com a pandemia covid-19

A guerra já começara ainda antes da guerra da Ucrânia, pela forma como se pretendeu combater a pandemia da covid-19, com os estados de emergência e confinamentos e outras medidas não sanitárias, com o flagrante atentado às liberdades, direitos e garantias dos cidadãos - foi a preparação para a fase actual. E quem discordou desta estratégia e fugiu ao discurso único foi alcunhado de negacionista (e ainda é); agora, com a guerra, quem desalinhar da propaganda oficial ditada por Washington é alcunhado de “amigos do Putin”, “fascista”, “defensor da guerra” e outros epítetos menos simpáticos e até difamatórios, como está a acontecer com os generais que se limitaram a dar uma opinião militar e objectiva das razões e da forma como a guerra vai decorrendo no terreno. Antes do 25 de Abril, quem era contra o regime fascista era logo apontado como “comunista” e tinha a Pide à perna. Nestes tempos de intolerância, é de novo a delação, a caça às bruxas, é o fascismo brando de que falamos em relação a quem colocava em questão a estratégia do governo quanto à pandemia, só falta a Pide – podemos agradecer aos governos do PS e do Costa. 

E nota-se bem o efeito da propaganda das televisões e dos jornais mainstream no seio de alguma pequena-burguesia que se dispõe a uma solidariedade que não lhe traga custos no imediato, contudo não pensando no que possa vir a prazo, e falamos dos refugiados. E que se dispõe, na sua exaltada paixão pacifista, a apoiar a guerra, é ver os resultados de algumas sondagens feitas pelos jornais, já para não falar nas indignações patrióticas e pouco afeitas ao contraditório que vão aparecendo nas redes sociais. Num dos jornais do grupo Global Media, podemos ver que a maior percentagem das respostas à sondagem defende a “exibição de força militar no leste europeu” por parte da Nato, a seguir vem o “reforçar das sanções económicas” e, por último, é que vem a opinião do “continuar a via diplomática”, podendo concluir-se que a propensão por parte de alguma opinião pública é simplesmente o confronto. Pode-se entender este resultado porque a guerra está longe e não nos vai afectar, o que é um puro engano, porque numa guerra generalizada não haverá contemplações com a população civil, ao contrário do que parece na Ucrânia onde o número de vítimas ainda é diminuto atendendo à extensão e intensidade dos bombardeamentos,  e com a mais que certa entrada em cena de armas nucleares nem as tropas inimigas precisam sair do seu país, como a devastação será total. Esta gente hipócrita e leviana não pensa bem no que diz.

A opinião pública, numa larga maioria, está a ser formatada, primeiro com a pandemia, agora com a guerra, percebendo-se assim que não se tenha ouvido nenhuma recriminação quanto à afirmação de um Inspetor do SEF que advoga o uso de bastão para "tortura necessária". Parece que os instintos de torcionário não foram extirpados com a condenação dos torturadores e assassinos do imigrante ucraniano Ihor Homenyuk, nem com a reforma do SEF efectuada pelo governo PS; reformas estas que, diga-se de passagem, têm sido sempre de aparência, porque costuma ficar tudo na mesma, quando não pior. A nível interno, a burguesia vai aprimorando os instrumentos de repressão, não vá o povo querer revoltar-se. E a nível externo, temos assistido ao aumento do discurso e dos sentimentos de ódio contra o “outro”; por exemplo, em França, os crimes racistas, xenófobos e anti-religosos aumentaram 13% em 2021. Em Portugal o Chega foi promovido pelos mesmos órgãos de informação que agora clamam contra o “ditador fascista Putin”, foi entretanto normalizado pelas eleições precipitadas pelo PS&Costa para obter a almejada maioria absoluta. Na vizinha Espanha, o Vox, irmão político do Chega, entra pela primeira vez num governo regional. Estes partidos têm tido um papel histórico que é o de fazer o trabalho sujo da polícia, instilar o ódio, intimidar, agredir e, quando se vêm com a força suficientes, eliminar os indesejáveis pelo establishment, sejam imigrantes, minorias étnicas ou trabalhadores. Depressa iremos atingir esta fase.

A corrida aos armamentos é o prenúncio da guerra 

Mas, ao mesmo tempo que o Papa se dirige à boa vontade dos capitalistas, bradando: “Em nome de Deus, parem!”, a Europa rearma-se: Alemanha vai aumentar em mais 100 mil milhões de euros o orçamento da dita "Defesa", ultrapassando os 2% do PIB; Josep Borrell anuncia “mais 500 milhões de euros de contribuição para o apoio militar à Ucrânia”, através do Mecanismo Europeu de Apoio à Paz (?!), verba que poderá duplicar. E todos os restantes países da União Europeia irão seguir o mesmo caminho, incluindo o país pelintra e lacaio, que parece se ter esquecido da Guerra Colonial que esgotou o país em recursos financeiros e principalmente humanos, que é Portugal. Não é só a Ucrânia que está a ser usada como agente de provocação, mas toda a União Europeia que tem mais a perder do que a ganhar com esta guerra, e, dentro da União Europeia, Portugal é o país que menos tem a lucrar devido à situação de dependência económica crónica. Com as sanções impostas à Rússia, não será somente o povo russo a sofrer, nós portugueses iremos sofrer muito mais, bem como os povos da Europa ocidental. Ainda mais grave: todos estaremos no mesmo barco e dentro da mesma tormenta, porque a guerra irá continuar, mesmo que haja transitoriamente uma solução de compromisso para esta guerra. Os factores principais da guerra inter-imperialista manter-se-ão. 

A guerra é inevitável, e não somos profetas da desgraça, basta olhar um pouco para trás, para a História da Europa nos últimos duzentos e cinquenta anos. E os principais representantes do grande capital financeiro sabem bem que as coisas não são favoráveis para o capitalismo ocidental: “A destruição da nossa civilização” só será evitada se Putin e Xi Jinping forem derrubados do poder, diz o especulador Soros. E di-lo porque sabe que esta guerra é uma guerra de vida ou de morte, não há aqui meias tintas ou terceiras vias. O capitalismo encontra-se num estertor de morte e o Império ao cair vai querer levar alguém atrás, se olharmos para a História foi sempre assim. A China e Rússia serão elo mais forte do capitalismo na fase actual, mas mesmo que saiam vencedores desta guerra, o capitalismo sairá ainda mais explorador e opressor, usando técnicas mais sofisticadas devido ao desenvolvimento da electrónica, da inteligência artificial, da biotecnologia, da psicologia de massas. No entanto, a guerra emancipatória dos trabalhadores e de libertação dos povos será de igual modo inevitável, excepto se na próxima guerra mundial, que será nuclear, a humanidade desapareça de vez. Uma hipótese que estará sempre presente.

Os falsos pacifistas e a guerra do povo à guerra inter-imperialista

Em Portugal, é mais que patético é ver uma pequena-burguesia ciosa do seu modo de vida, sempre com a boca cheia de liberdade e de direitos dos cidadãos, mas que, quando foi da campanha da pandemia, enfileirou pela política do medo imposta pelos governos da burguesia e pelos interesses dos grande grupos económicos ligados à indústria farmacêutica. E, presentemente, na questão da guerra ou queda-se na posição do “nim”, “de todas as guerras são más e todos são responsáveis”, o que na prática significa a desculpabilização dos verdadeiros responsáveis da guerra; ou, então, coloca-se abertamente ao lado do imperialismo americano, o suserano da Europa, e principal opositor a uma Rússia capitalista e também imperialista; ou seja, a nossa pacifista classe média perde a vergonha (se alguma vez a teve!) e alinha pelo partido da guerra. Aliás, tem sido esta a posição que os partidos de cariz social-democrata assumem ao longo dos tempos, são mais patriotas (e papistas) que a sua burguesia. Claro, sempre com a boca cheia de “liberdade” e “democracia”, mas para eles que, agora assustados, vêem o seu mundo a desmoronar-se. É gente que tem mais medo da revolução que dos malefícios do capitalismo e da velha sociedade em desagregação. 

Com o desenrolar da guerra, iremos assistir a manifestações mais ou menos explícitas de nacionalismos burgueses, de chauvinismos por parte não só dos partidos de direita mas de igual modo de partidos ditos de “esquerda”, alguns deles apoiando abertamente a intervenção imperialista (o BE não se cansa de apoiar as agressões imperialistas na Líbia, na Venezuela com a tentativa de golpe de estado, e agora na Ucrânia), para além dos governos onde se assentam partidos social-democratas tipo PS ou PSOE. São partidos que defendem o capitalismo e a colaboração de classes sob a bandeira da luta dos “países democráticos e livres” contra as “ditaduras do leste e do oriente” e contra o “fascista Putin”, muito ao gosto de uma certa opinião pública, em parte imbecilizada pela televisão (90% dos portugueses vêm televisão e 60% não lêem um livro sequer, segundo inquérito recente), e se arvoram nos porta estandartes do pacifismo. Ao lado destes partidos, observam-se umas flores de lapela, ex-maoistas e ex-trotskistas, alguns fora da política activa, e que no seu ardor anti-guerra enfiam no mesmo saco os responsáveis pela guerra e as vítimas numa equidistância desarmante e paralisadora da luta dos trabalhadores. Alguns deles, talvez pela vaidade ou personalidade histriónica, nem se importam de ter abertas as páginas dos media do discurso único, com o intuito de vez em quando mostrarem que até há liberdade de expressão no aparelho de propaganda que são todos os media corporativos. Também não é por acaso que a burguesia tem encarregado alguns desses cristão novos da tarefa de escrever alguns trechos da história contemporânea, tipo cronistas do reino.

Ao contrário das posições desta pequena-burguesia geralmente bem instalada e beneficiando das delícias da democracia burguesa, a posição dos povos e dos trabalhadores é mover a guerra contra a guerra imperialista. É preciso romper com a legalidade burguesa, e não respeitá-la, a luta de classe deve ser intensificada e a questão da pátria deve ser entendida como a pátria de quem trabalha. A guerra imperialista tem o condão de mostrar que os operários não têm pátria e reforçar o espírito do internacionalismo, porque o inimigo é comum: o capitalismo e a burguesia em cada país. Tem-se assistido às tentativas por parte de Bruxelas de fomentar os regionalismos na Europa porque essa é uma via de melhor penetração do grande capital financeiro para entrar em cada um dos países.  Como tem sido clara e evidente a política imposta pela Alemanha de retirar soberania económica, monetária e até política dos diversos estados que ainda compõem a União Europeia, transformando-os em simples länders do IV Reich; mas, por outro lado, será meio caminho andado para a união dos povos contra o grande capital e as elites europeias, incluindo a alemã. O capitalismo na sua fase imperialista irá, como já está a acontecer, destruir a velha nação, entidade criada pela burguesia como forma de dar livres asas ao desenvolvimento do capitalismo. À semelhança da livre concorrência que, tendo sido necessária à evolução do capitalismo, é agora destruída pelo próprio nesta fase monopolistas e global. Perante a guerra imperialista – enfatizamos – todos os trabalhadoras e povos (incluindo o povo ucraniano) devem  erguer a bandeira da guerra civil revolucionária e acabar com o capitalismo e com a burguesia. 

Em Portugal devemos exigir a saída do país da Nato e dizer não à entrada de Portugal na guerra, apesar das forças armadas nacionais serem constituídas, por enquanto, por mercenários. 

Pelo o internacionalismo proletário e Não à guerra inter-imperialista!

“América, América, I Love You” - Jorge de Sena

Jorge de Sena

CADASTRADO

Uma vez, aos sete anos,

partiu à pedrada a lanterna da porta da igreja.


Dez anos depois, conduzindo um carro,

não parou num cruzamento de rua

onde havia um sinal de stop.


Dois anos depois, teve uma briga

num bar, e partiu a cabeça de um amigo

com uma garrafa de cerveja.


Quando se recusou a combater no Viet-Nam,

O seu cadastro provava como desde a infância,

sempre manifestara sentimentos

nitidamente de traidor à pátria.


OS PRAZERES DA JUVENTUDE

Ao fim de 24 jogos perdidos,

o time ganhou o desafio.

O público inundou o campo, desceu à cidade,

e durante horas interrompeu o trânsito, bebeu na rua,

quebrou montras, partiu mesmo os faróis dos carros

da polícia que, risonha, comungava

naquele entusiasmo regional e jovem

por um triunfo tão longamente ansiado.


Uma centena de pessoas manifesta-se na rua

(contra uma «vitória» que não se vê no Viet-Nam),

e os cacetes desabam, a prisão enche-se,

porque interromperam o trânsito, incitaram à desordem,

e resistiram malignamente à autoridade

que os mandou dispersar.


A VIDA E A MORTE COMO INVESTIMENTO SEGUNDO AS ÁREAS GEOGRÁFICAS

O menino ia de bicicleta pela rua

e de repente passou pela frente de um carro

que ia com cuidado porque o vira.


O menino caiu, e ficou caído a chorar.

O sujeito que guiava o carro correu

a uma casa fronteira para telefonar

à polícia. O dono da casa

que era estrangeiro correu entretanto

a levantar o menino.


A polícia chegou, tomou conta da ocorrência,

verificou que o homem do automóvel

não tinha culpa nenhuma. Uma ambulância

veio e levou o menino.


Como o homem do automóvel não tinha culpa

dos ferimentos e contusões que o menino aliás não tinha,

a família dele processou (25 000 dólares ) o supracitado

dono da casa pelos danos futuros

causados por acudir ao menino que

levantou sem ser médico ou polícia.


Para exercer-se a caridade,

ou mesmo só a humanidade espontânea

há que ter o seguro respectivo.

(No Viet-Nam, qualquer família de um morto por engano,

se apresentar o cadáver, tem direito a 23.41 de indemnização)..


O DIREITO SAGRADO

Com a barriga a sair das calças descaídas,

as mangas arregaçadas da camisa e os suspensórios,

exibiu na televisão a queixada de chacal

e o cabelo cortado rente como pele de hiena.

Latia curtamente, em pequeninos roncos,

olhando de viés para as lentes que seriam o público.


Dono duma vasta propriedade com

ribeiro, floresta, prados, não cultiva

– tudo o que possui é para os esquilos, os

ratos encantadores de todas as espécies,

etc., vivendo felizes à sua vigi-

lante guarda. Ama a natureza, os

animais seus irmãos.


Por isso espalhou por toda a parte en-

genhosas armadilhas (que inventou)

para crianças, caçadores, pares de na-

morados, quantos

acaso cruzem, desprevenidos, ,sem respeito

pela propriedade privada, o seu terreno.


E ele mesmo, além de binóculo com que

amorosamente espia os animais amigos,

completa o campo entrincheirado com

as suas armas automáticas

– artilharia de apoio para quando as

armadilhas falham.


Assim, já mutilou ou feriu

muita gente. E, desta vez,

– é a razão da entrevista –

matou.

«É o meu terreno. A minha propriedade.

Tenho o direito de defender-me e aos ani-

mais que nele vivem. É o meu terreno.

É meu. É meu.»

(Pelo menos em primeira instância, foi

absolvido).


(SEQUÊNCIAS da Moraes Editores, 1978)

domingo, 6 de março de 2022

A guerra, a crise capitalista e os refugiados

Os nossos incontornáveis órgãos de informação propriedade e porta-vozes dos grandes grupos económicos nacionais e, por delegação ideológica e económica, dos grandes interesses financeiros internacionais, mudaram o chip da pandemia pelo da guerra na tentativa de explicar os problemas do país e do mundo, independentemente da sua natureza. Claro que os de natureza económica e financeira estão na primeira linha: “Guerra. Aumento da incerteza, subida da inflação e abrandamento do PIB" (da imprensa mainstream). A partir de agora, a “guerra” irá explicar tudo e mais alguma coisa.

O aumento "inevitável" do preço dos combustíveis

A guerra, nos tempos modernos, resulta essencialmente da disputa entre as diversas potências capitalistas dominantes pela posse de recursos e zonas de influência. Mas não só. A guerra para o capitalismo tem também como objectivo destruir a produção excedente, que não se consegue escoar pela limitação do mercado, e as próprias forças produtivas, onde se inclui o factor humano. Destruir para reconstruir de novo e assim relançar a acumulação e concentração capitalista, sem as quais o capitalismo não sobreviverá, constitui a essência da economia dita de mercado. Relançar os lucros é vital para a sobrevivência dos capitalistas. Foi graças à II Guerra Mundial que a burguesia conseguiu resolver a grave crise económica de 1930.

No momento em que estas notas são escritas, assiste-se a uma corrida, desenfreada e pouco inteligente, aos postos de abastecimento de combustível na ânsia de se adquirir a gasolina e o gasóleo antes das subidas, antecipadamente anunciadas, de 9 e 19 cêntimos respectivamente. Estamos curiosos sobre o que irá acontecer quando a inflação se generalizar a todos os produtos essenciais à vida das pessoas, o que será uma questão de pouco tempo – OCDE: Inflação chega aos 7,2% em Janeiro, a taxa mais alta desde 1991; Inflação acelera na Zona Euro para novo máximo histórico de 5,8% em Fevereiro; e em Portugal a inflação acelera para 4,2%.

O alarmismo com que se anuncia o aumento dos preços e da sua inevitabilidade, porque há a guerra (dizem eles!), é igual ou talvez superior ao difundido em relação às hipotéticas vagas avassaladoras e também ditas inevitáveis do vírus sars-cov-2, da doença covid-19 e do número de mortes provocadas. As mentes, previamente formatadas, irão aceitar como natural a inflação que se agora é ainda baixa, devido ao apoio financeiro às empresas por parte do estado com o pretexto do combate à pandemia e aos seus efeitos económicos (é bom relembrar), depressa irá disparar logo que se esgote esses financiamentos, que mais não são do que a transferência para a esfera pública das dívidas das empresas privadas, ou seja, dos capitalistas, nacionais e estrangeiros, que utilizam o estado como instrumento para defesa dos seus negócios - “Dívida Pública sobe em Janeiro para 272,4 mil milhões” e “IGCP emite até 1.000 milhões em dívida a 5 e 12 anos”. Por outro lado, fica bem claro aos olhos de todos os cidadãos que os governos, seja qual for o partido ou partidos que os integrem, são sempre os comités de negócios dos capitalistas; e os seus membros, por muito que pintem a cara de “socialismo” ou de “esquerda”, não passam de empregados da burguesia.

O governo do PS/Costa diz que vai prolongar e triplicar o apoio a combustíveis para táxis e autocarros e vai subir o desconto no Autovoucher de 5 para 20 euros para os cidadãos; no entanto, vai encaixar 11,5 milhões por dia com a subida dos combustíveis, dinheiro este que sai directamente dos bolsos dos trabalhadores. Aqueles apoios irão ser limitados no tempo, o governo não deixou de o esclarecer, não se comprometendo com a descida do imposto sobre os combustíveis, como os patrões do sector não se cansam de reclamar, e foi ainda mais longe, adiou apenas para melhores dias o futuro “imposto carbono”. Aliás, se alguma vez o ISP descer não significará preços mais baixos dos combustíveis, porque será aproveitado pelos patrões para aumentar a taxa de lucro. E são os lucros, no meio disto tudo, que estão em causa e são o fautor principal da guerra.

Os baixos salários e a mão-de-obra barata dos imigrantes refugiados

Para poder ganhar as eleições e por maioria absoluta, como veio a acontecer, o PS no governo, e aproveitando-se deste facto, prometeu tudo e mais alguma coisa, desde a subida do salário mínimo e das pensões à felicidade suprema e absoluta do povo português. Só que há um pequeno senão, serão todos os trabalhadores a financiar os patrões a pagar a reles subida do salário mínimo nacional (SMN), e que pelo número de empresas que concorreram a este apoio são demasiados os trabalhadores que auferem este salário miserável: 161.634 empresas, abrangendo quase 979 mil trabalhadores, num montante de 94,5 milhões de euros. Qualquer dia a maior parte dos assalariados do país estarão a auferir o SMN - “Portugal tem salário mínimo "inadequado" ao custo de vida” e “10,7% dos trabalhadores estão em (risco de) pobreza” (da imprensa corporativa).

A predominância de salários baixos reflecte a existência de uma mão-de-obra pouco qualificada e que, por força dessa realidade, será pouco produtiva, não permitindo uma descolagem da economia nacional como se pretende. Mas é para manter esta estratégia de desenvolvimento económico, e para aumentar os lucros a curto prazo, que a nossa burguesia vai continuar a apostar nos salários baixos, agora contando com o maná dos refugiados ucranianos. Todos os patrões se disponibilizam para aceitar os imigrantes, prometem casa, formação e emprego, e tanto eles como as câmaras e o governo prometem o país das delícias e das maravilhas. É só solidariedade, não haverá interesse escondido, ficámos a saber que Portugal é o supra-sumo do altruísmo. Os patrões do Turismo dizem ter 50 mil empregos para os refugiados ucranianos e o governo já garantiu casa para 1500 famílias. No entanto, se a avalanche for súbita e maior que o esperado, os trabalhadores ucranianos ficarão então a conhecer a verdadeira natureza de tanta boa-vontade. Com a entrada de um grande número de trabalhadores no mercado de trabalho irá inevitavelmente baixar ainda mais o preço da mercadoria que é a força de trabalho. Será também o acicatar da competição entre trabalhadores e o dar argumentos aos partidos de extrema-direita que, diga-se em abono da verdade, a burguesia e o governo PS não se cansam de promover.

A crise económica é crónica, arrasta-se penosamente e as medidas entendidas e aplicadas pelos governos para a superar só servem para a amenizar durante algum pouco tempo, sempre à custa do agravamento dos rendimentos e das condições de vida dos trabalhadores, para logo depois a mesma crise ressurgir ainda com mais força. Parece que as medidas de austeridade, postas em prática no tempo da troyka, tiveram um efeito paradoxal: deram mais força à crise. Uma crise que nunca será ultrapassada por uma burguesia rentista e presa ao lucro fácil e imediato, assim se compreende a afirmação dos esclavagistas nacionais: “Com os salários atuais, Portugal pode atrair engenheiros da América Latina” (bastonário dos engenheiros). Uma burguesia de vistas curtas e de fraco intelecto: “Patrões têxteis levam a mal “direito” de gozo do feriado de Carnaval”.

A guerra da Ucrânia fomentada pelo imperialismo estado-unidense tem um duplo objectivo, vergar a Rússia (o sonho molhado do imperialismo capitalista desde o princípio do século XIX) e aumentar ainda mais a subjugação da União Europeia, arredando-a como possível competidora. De igual modo, espelha as contradições e a decadência do capitalismo a nível mundial, nesta época de domínio do grande capital financeiro. Quando a guerra acabar, na hipótese optimista de não desembocar numa terceira Guerra Mundial, nuclear de certeza, a Europa estará mais pobre, mais dividida e mais próxima do fim - “Euro cai para o nível mais baixo desde maio de 2020”. E em Portugal, a austeridade, que agora o governo de maioria absoluta de Costa/PS irá aplicar, será muito semelhante à do primeiro governo Sócrates, também ele de maioria absoluta do mesmíssimo PS (parece que muitos portugueses têm fraca memória). Em vez de cortes nos salários e nas pensões em termos nominais, iremos ter cortes bem maiores mas por meio da inflação. Em 2010, os cortes tiveram de ser directos pela simples razão de que a taxa de inflação era zero ou perto de zero. Desta vez será a matar, só que já não haverá tempo para arrependimentos. Os tempos são de guerra e é bom que os portugueses que trabalham e produzem se capacitem bem disso para não terem mais surpresas.

domingo, 27 de fevereiro de 2022

À ESPERA DOS BÁRBAROS

À Espera dos Bárbaros

K. Kavafis

"Os Bárbaros" - Max Ernst, 1937

 O que esperamos nós em multidão no Forum?

Os Bárbaros, que chegam hoje.

Dentro do Senado, porque tanta inacção?
Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?

É que os Bárbaros chegam hoje.
Que leis haveriam de fazer agora os senadores?
Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.

Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?
E às portas da cidade está sentado,
no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?
Porque os Bárbaros chegam hoje.
E o Imperador está à espera do seu Chefe
para recebê-lo. E até já preparou
um discurso de boas-vindas, em que pôs,
dirigidos a ele, toda a casta de títulos.

E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,
hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?
E porque levavam braceletes, e tantas ametistas,
e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas?
E porque levavam hoje os preciosos bastões,
com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?

Porque os Bárbaros chegam hoje,
e coisas dessas maravilham os Bárbaros.

E porque não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores
para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?

Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,
e aborrecem-se com eloquências e retóricas.

Porque, subitamente, começa um mal-estar,
e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!
E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,
e todos voltam para casa tão apreensivos?

Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.
E umas pessoas que chegaram da fronteira
dizem que não há lá sinal de Bárbaros.
E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?

Essa gente era uma espécie de solução.

[Antes de 1911]

Tradução de Jorge de Sena a partir de versão inglesa.

Konstantínos Kaváfis, poeta grego, considerado o maior nome da poesia em idioma grego moderno.

Nasceu no Egipto, Alexandria,1863, onde faleceu em 1933. 

domingo, 20 de fevereiro de 2022

A guerra é o estado natural

 

Foto in CNN

Antes do deflagrar da Primeira Guerra Mundial, todas as principais potências desejavam a guerra e preparavam-se afincadamente para o conflito, ao mesmo tempo que se desdobravam em declarações de paz; esperava-se apenas um pretexto e o pretexto foi o assassínio do arquiduque herdeiro do trono austríaco por um militante anarquista. A Segunda Guerra seguiu um guião semelhante, mas com menos rodeios. A causa última foi a crise profunda e insolúvel do capitalismo que, recorrendo à guerra, pode assim voltar a reconstruir a sua acumulação e elevar a taxa de lucro. Resolve, também e de uma penada, o excesso de forças de produção que não consegue controlar, o desemprego é resolvido pela mobilização e serviço militar obrigatório e pelo esforço produtivo de guerra. No tempo actual, parece que todos estão à espera da menor faúlha para incendiar a Europa e o mundo.

Antes da guerra já se experimentou a pandemia da covid-19, uma outra forma de guerra não sobre o vírus, mas contra os trabalhadores através dos confinamentos e estados de emergência. Igualmente um pretexto para explicar a crise e desculpar as políticas de austeridade sobre quem trabalha. Contudo, pelo que se está a ver, não foi suficiente e uma guerra a sério parece ser inevitável, só que ninguém quer ser acusado de ter sido o primeiro a premir o gatilho. As guerras são sempre a continuação da política por outros meios e ambas as partes não vêm outra saída para resolver não só a crise, mas também o problema da divisão do saque e das zonas de influência. Na Europa é o controlo dos recursos e a exploração da força de trabalho que se encontra em cima da mesa. Uns EUA decadentes que querem, por uma só cajadada, encurralar e enfraquecer a Rússia, o inimigo eternamente odiado, e controlar uma Europa dependente do gás natural e que jamais poderá ser uma rival na disputa económica. É no meio desta guerra que nos encontramos.

A crise é a crise do capitalismo

O ano começou, em continuidade agravada do ano anterior, com o aumento inusitado dos preços da energia e que, por sua vez, irá agravar ainda mais o preço de todos os produtos necessários à vida das pessoas. Por exemplo, a gasolina em Portugal é 8ª mais cara da Europa, leva 8,3% do salário médio. Se este aumento, explicado oficialmente de forma enviesada, tem como objectivo incentivar a passagem para os carros eléctricos, serve de igual modo para justificar o aumento dos preços na produção industrial, que foram de 17,9% no mês de Janeiro (aumento homólogo), e o gás das botijas aumentou no ano passado cinco vezes mais do que a inflação, cuja real dimensão é sempre ocultada pelo governo. Factores que são apontados para explicar a queda de produção industrial em Portugal, que foi de 0,2%, e de quase estagnação na zona euro, onde não ultrapassou os 2,5% no mês de Dezembro. Na ponta da cadeia encontra-se o capitalismo com as suas contradições insanáveis.

Olhando com um pouco mais de atenção, verifica-se que: se os capitalistas querem aumentar os seus lucros fazendo subir os preços, o povo consumidor, não vendo os seus salários aumentados na mesma ordem, irá forçosamente consumir menos e o mercado diminui. Ao virem dizer que as vendas de automóveis na UE tiveram “o pior arranque do ano de sempre”, estão a confirmar uma verdade que pretendem esconder como uma das razões das crises do capitalismo. Esta é uma das contradições da economia dita de mercado, se não há mercado, então, a produção terá de diminuir, porque nenhum capitalista tem as fábricas a produzir para o armazém, e desse jeito os lucros diminuirão e o capitalismo arrisca-se a implodir na justa medida em que o seu élan vital, a energia mística da acumulação sem limites, já não se pode realizar. A forma de ultrapassar este escolho, o capitalismo teve, como necessidade de sobrevivência, de inundar todas as áreas da actividade humana, não só a estritamente económica, chegando ao dilema, que é o que acontece no tempo actual, não haver mais nada para capitalizar e globalizar. Assim, a guerra torna-se inevitável.

Para concretizar esta ânsia do lucro, do crescimento do PIB (leia-se aumento sem limite dos lucros dos capitalistas), a burguesia não hesita em ser a primeira a desrespeitar as leis que ela própria cria. Diversos e inúmeros exemplos acontecem, o mais recente foi a trapalhada, montada intencionalmente, diga-se de passagem, da mistura dos votos com e sem identificação no círculo eleitoral da Europa, aliás, cuja contagem não irá alterar o arranjo dos partidos na Assembleia da República. Questão que há muito poderia estar resolvida caso houvesse interesse por parte dos dois principais partidos do regime. Veio a calhar, principalmente para o PS que assim pode estar a governar em modo de decreto durante mais dois meses, embora, e de forma hipócrita, venha dizer que até vai decidir apenas sobre “questões urgentes”, como o combate à seca (alterações climáticas) e à pandemia, os dois principais mantras da agenda política e que encobrem a recapitalização da economia falida – o reset de que se fala. Será uma questão de vida ou de morte para o sistema de exploração que tenta contar, outra vez, com a adesão dos próprios explorados, apesar dos dois parceiros, BE e PCP, estarem ainda amuados devido à infidelidade de Costa.

Apoios estatais às grandes empresas e empobrecimento do povo

A coberto do combate à pandemia, o governo tratou de dar algum ânimo à anémica e arruinada economia nacional com cerca de 7 mil milhões de euros, continuando agora com mais “verbas do apoio à família”, ou seja, vai pagar a 81 mil empresas (uma questão urgente!) 5,7 milhões de euros através da Segurança Social, que já tem um buraco de mais de 600 milhões de euros, porque o governo PS, obedecendo às receitas impostas por Bruxelas, entendeu financiar os capitalistas com os dinheiros dos descontos dos trabalhadores. No entanto, suspendeu o apoio covid-19 aos trabalhadores desempregados e às famílias pobres (cerca de 120 mil), apoiadas pela Segurança Social, que se viram cortadas de produtos essenciais nos cabazes alimentares, peixe, leite, azeite, arroz, por exemplo. E em contra-partida, a outra face da moeda, o valor das prestações de desemprego, dinheiro que não vem do Orçamento de Estado, mas dos trabalhadores, é em regra demasiado baixo, inclusivamente abaixo do limiar da pobreza, 534 vs 554 euros por mês; e metade das mulheres desempregadas não recebe qualquer prestação social, numa situação de duplamente exploradas e humilhadas. E o “apoio às rendas só foi concedido a um terço das famílias que o pediram”. O empobrecimento do povo é iniludível.

O primeiro-ministro «não quis ouvir» pequenos e médios empresários, acusação vinda do lado da Confederação Portuguesa das Micro, Pequenas e Médias Empresas (CPPME), que representará 99,6% do tecido económico nacional, e que não será também uma questão urgente, no entanto vai ouvindo as grandes empresas e de preferência de capital estrangeiro. A refinaria de Matosinhos irá dar lugar à cidade da inovação ligada às "energias do futuro", na linha também definida por Bruxelas e pelo grande capital financeiro internacional, enquanto as centrais termo-eléctricas de Sines e Pego foram encerradas, com os lucros da Galp a subirem para 152,8 milhões no quarto trimestre do ano passado. Os lucros da EDP Renováveis aumentaram 18%, em 2021, para 657 milhões de euros e que irão ser distribuídos pelos respectivos acionistas. Ficou-se a saber, depois dos três maiores bancos privados a operar em Portugal de capital maioritariamente espanhol apresentaram muitos milhões de lucro, que o banco público teve lucros de 583 milhões de euros, aumento de 18,7%, à custa da subida das comissões cobradas aos clientes, ao mesmo tempo que recusa aumentos decentes aos trabalhadores, fundamentando a extorsão pela necessidade de... pagar os salários aos trabalhadores, num cinismo que nada fica a dever ao do governo, que empobrece o povo, empurra as pequenas empresas para a falência e recapitaliza as grandes.

A estagnação económica da Europa cria condições para a guerra

Os sinais da estagnação da economia capitalista são mais que óbvios, de nada valendo as perspectivas e os palpites mais que optimistas, dos ditos responsáveis nacionais e europeus, quanto ao crescimento para os próximos dois anos: o PIB da zona euro cresceu 0,3% no último trimestre de 2021; as, já citadas, fracas vendas de automóveis na União Europeia; as principais bolsas europeias no vermelho, com especial destaque para a de Lisboa, e que são formas fraudulentas dos capitalistas financiaram as sua empresas e eles próprios, beneficiando, caso de Portugal, de quase completa isenção fiscal. Transferindo as dívidas particulares para a esfera pública, o próprio estado corre o sério risco de um dia destes (a Argentina infelizmente está a dar pela segunda vez o lamentável exemplo) entrar também em falência. Como curiosidade, o impacto directo das medidas do putativo combate à pandemia (justifica tudo e mais alguma coisa) nas contas públicas aumentou 1119 milhões de euros em 2021, quando comparado com o valor registado em 2020 (da imprensa). Os dinheiros do PRR de pouco ou nada valerão para o estado ou para as pequenas empresas, será canalizada para as grandes empresas e para enriquecimento das clientelas políticas.

Enquanto esmifra o povo trabalhador e contribuinte, o governo PS, que à semelhança da pescada, antes de o ser já era absoluto, vai governando em modo de decreto, ou seja, sem haver Assembleia da República sequer, aprovando centrais solares em montados autorizando o corte de sobreiros, serão 1079 sobreiros e 4 azinheiras cortados no concelho do Gavião, para a construção de mais uma central fotovoltaica, assim como uma outra em Penamacor, com o abate de 54 sobreiros e de 395 azinheiras, perante o silêncio dos restantes partidos e as lamúrias inúteis das ditas organizações ambientais financiadas... pelo governo. O país encontra-se a saque e em franca e rápida transformação sob domínio colonial, a favor de Bruxelas e dos grandes grupos económicos, limitando-se a fornecer mão-de-obra jovem e qualificada e de matérias primas, com o dito “ouro branco” em cena e pelo qual anda muita boa gente do burgo a babar-se no desejo de enriquecer fácil e rapidamente. São os políticos que entram na intermediação e alguns empresários nacionais chico-espertos, para além das empresas estrangeiras que irão fazer a exploração: a empresa Lusorecursos propõe entregar a Montalegre 0,5% dos lucros da mina de lítio; a corrupção é uma velha tradição que deve ser mantida. O povo que se dane.

O capitalismo é a guerra

Uma eventual revolta do povo, que vai despertando em lutas pontuais, pelo menos para já com a luta contra a exploração do lítio, esta sinónimo de destruição do meio ambiente e aumento da exploração do povo português. As lutas no horizonte fazem pensar a burguesia e levam-na a encontrar meios mais sofisticados de repressão. As consequências da exploração do lítio são facilmente previsíveis, basta olhar para o outro caso, o do tão propalado “ouro verde”, estando agora todos nós, povo português, a pagar com a exaustão dos solos devido à eucalipalização quase total do país, aumento dos períodos de seca e dos incêndios; estes, por sua vez, um grande negócio para alguns oportunistas da nossa praça e potenciadores da desertificação. Para que a exploração e a destruição dos nossos recursos naturais possa ser concretizada, não deixando o capitalismo por mãos alheias as suas credenciais de economia predadora seja qual for a cor com que se reveste, a repressão vai-se afiando e experimentando: "É nefasto chamar terrorismo ao caso do João e não à violência de extrema-direita", diz a investigadora de psicologia social na área do terrorismo e na prevenção da radicalização, Cátia Moreira de Carvalho. A partir de agora é preciso ter cuidado porque qualquer cidadão mais perturbado ou descuidado pode ser considerado um perigoso terrorista ainda antes de cometer qualquer acto terrorista, nem será necessário vir a agência de terror norte-americana FBI apontar o dedo, é a entrada em vigor do famoso “relatório minoritário” e que há muito deixou de ser ficção cinematográfica.

A seguir ao medo imposto pela pandemia, vem agora o medo suscitado pelo terrorismo, mesmo que este não chegue a acontecer, basta mencioná-lo. Com a população amedrontada e intimidada é fácil fazê-la aceitar medidas mais repressivas e mais restrições das liberdades e direitos dos cidadãos. A repressão exercida pelo estado é uma repressão de uma classe sobre outras e, assim, é de certa forma arriscado afirmar que o estado português é um estado democrático e de direito, quanto muito será qb; isto é, quando dá jeito e à medida do interesse da clique dominante. São as eleições a terem de ser repetidas, dando bem a imagem de que esta democracia e estas liberdades possuem igualmente um cunho de classe: democracia e liberdade para os ricos e poderosos e limitação ou falta delas para os trabalhadores e os pobres. É uma democracia cuja liberdade do cidadão se resume a enfiar o voto/cheque em branco de vez em quando, para que a sua exploração seja garantida por mais uns tempos e policiada pelos governantes/funcionários de turno. Não sendo isto suficiente, o governo do PS/Costa, fazendo jus à tradição dos partidos “socialistas” e sociais-democratas, quer enfiar o povo português numa guerra inter-imperialista, que agora se desenha na Europa e que irá acontecer mais cedo ou mais tarde: Portugal poderá enviar 619 efectivos para países da NATO na fronteira com a Ucrânia.

A história da humanidade sempre foi a história da luta entre as classes, e a guerra é o estado natural do capitalismo. A guerra, passe o horror e a incredulidade da pequena-burguesia, está sempre presente em capitalismo e inevitável em imperialismo, o capitalismo globalizado. O povo português não deve deixar-se arrastar no enfileirar por um dos lados, deve recusar ser carne para canhão na guerra inter-imperialista e exigir que o país saia da Nato, que esta organização, criada pelos EUA para dominar a Europa e atacar a antiga URSS, deve retirar todas as instalações e armamento que possua em Portugal. A solidariedade é com todos os povos europeus e do mundo – não com o governo fascista de Kiev, como defende o governo lacaio PS/Costa. A Europa dos povos deve também exigir a retirada de todas as tropas e armamentos, nomeadamente nucleares, americanos estacionados no continente – os EUA ficam do outro lado do Atlântico. A guerra do povo contra esta guerra e os seus agentes é o único meio de a esconjurar. A guerra imperialista, a acontecer, irá inevitavelmente despoletar a revolução proletária e dos povos. Estamos em guerra, é a realidade.

19 de Fevereiro

ANTÓNIO ALEIXO

 

Em tempo da mentira e da manipulação: pandemia, alterações climáticas, guerra na Ucrânia e o que mais está para vir...

Quadras da mentira e da verdade

P'ra mentira ser segura

e atingir profundidade,

tem que trazer à mistura

qualquer coisa de verdade.

 

Mentiu com habilidade,

fez quantas mentiras quis;

agora fala verdade

ninguém crê no que ele diz.

 

Gosto do preto no branco,

como costumam dizer:

antes perder por ser franco

que ganhar por não ser.

 

Julgando um dever cumprir,

Sem descer no meu critério,

- Digo verdades a rir

Aos que me mentem a sério!

*

 Não Creio nesse Deus

I
Não sei se és parvo se és inteligente
— Ao disfrutares vida de nababo
Louvando um Deus, do qual te dizes crente,
Que te livre das garras do diabo
E te faça feliz eternamente.

II
Não vês que o teu bem-estar faz d'outra gente
A dor, o sofrimento, a fome e a guerra?
E tu não queres p'ra ti o céu e a terra..
— Não te achas egoísta ou exigente?

III
Não creio nesse Deus que, na igreja,
Escuta, dos beatos, confissões;
Não posso crer num Deus que se maneja,
Em troca de promessas e orações,
P'ra o homem conseguir o que deseja.

IV
Se Deus quer que vivamos irmãmente,
Quem cumpre esse dever por que receia
As iras do divino padre eterno?...
P'ra esses é o céu; porque o inferno
É p'ra quem vive a vida à custa alheia!

 *

A Torpe Sociedade onde Nasci

I
Ao ver um garotito esfarrapado
Brincando numa rua da cidade,
Senti a nostalgia do passado,
Pensando que já fui daquela idade.

II
Que feliz eu era então e que alegria...
Que loucura a brincar, santo delírio!...
Embora fosse mártir, não sabia
Que o mundo me criava p'ra o martírio!

III
Já quando um homenzinho, é que senti
O dilema terrível que me impôs
A torpe sociedade onde nasci:
— De ser vítima humilde ou ser algoz...

IV
E agora é o acaso quem me guia.
Sem esperança, sem um fim, sem uma fé,
Sou tudo: mas não sou o que seria
Se o mundo fosse bom — como não é!

V
Tuberculoso!... Mas que triste sorte!
Podia suicidar-me, mas não quero
Que o mundo diga que me desespero
E que me mato por ter medo à morte...


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Governo PS de maioria absoluta, mas já não era?!

 

Henricartoon

Nos próximos 4 anos iremos ter um governo de maioria absoluta de cor “rosa”. Era um governo deste género, que garanta a estabilidade política, o Santo Graal da gestão capitalista do estado e da economia, que era desejado pelas nossas elites, e por Bruxelas. Como pouca gente acreditava numa maioria socialista, e muito menos laranja, os desejos que se manifestavam eram, e em falta de melhor, o de um governo de bloco central, como aliás tem acontecido desde sempre até aqui, na prática e na maior parte do tempo. Nos últimos dois anos e sem geringonça formal a maior parte das leis aprovadas na Assembleia da República foi graças aos votos conjuntos de PS e PSD e contra os parceiros geringonços PCP e BE. O governo maioritário do PS&Costa passou de facto a jure, nada mais. E com o andar da carroça, em situação de agravamento profundo da crise da economia capitalista e subsequente revolta social, será o PS a exercer o fascismo e Costa o novo "racha-sindicalistas", parecido com o outro Costa da Primeira República e que ditou o fim da dita.

Costa pode agradecer aos patetas do regime

Costa arriscou, seria agora ou nunca, e a coisa até correu bem: será o senhor absoluto até 2026. E não se sentirá grande diferença porque temos assistido a uma governação por decreto do governo PS em todos os domínios, desde as medidas económicas, processo da concessão da exploração do lítio, por exemplo, até aos confinamentos e ajustes directos das aquisições de testes e vacinas, estas impostas por Bruxelas, a pretexto do combate à pandemia. A repressão sobre os cidadãos com as restrições de deslocação ou de frequência de locais públicos, com aberta e ostensiva limitação dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, em flagrante violação da Constituição da República, contando com o aval cego do Parlamento ou a arrepio do mesmo, mostra que o governo socialista já era um governo de maioria absoluta de facto. E com a colaboração de todos os partidos do regime que não atacaram a política já intrinsecamente fascista, a pretexto, do combate à pandemia, e, tal como o PS, se arvoraram em defensores do grande capital: caricato, no mínimo, ver o PCP e o BE (os arautos da esquerda) a defender os interesses da Big Pharma, pugnando pela vacinação em massa dos portugueses.

Os partidos da putativa “oposição”, tanto à esquerda como à direita, só se podem queixar deles próprios, estenderam a passadeira ao PS e ao Costa, devido ao seu oportunismo político, como, se lá estivessem no governo, também fariam o mesmo, porque sabem que é condição sine qua non para ter a mão no pote terem de aceitar caninamente as imposições do regime e de Bruxelas. Quando, por alguma razão, não houver partidos de coluna gelatinosa, então, não haverá eleições sequer. O que não acontecerá porque candidatos a lacaios ou funcionários zelosos nunca faltarão, na medida em que, neste país, sempre houve, e haverá, gente que vende a alma ao diabo por pouco dinheiro. Basta olhar para a História nos momentos mais decisivos, em que o país perdeu a independência ou teve que lutar para a não perder, séculos XIV, XVI, XVII e XIX e actualmente com a entrada na CEE/UE. O medo incutido nas pessoas a propósito da pandemia como que adormeceu muitos cidadãos das classes médias mais temerosos e foi fácil ao Costa, aproveitando esse estado de alguma apatia, surgir como um slavador da pátria. no entanto, o efeito será o oposto.

Vêm agora os analistas encartados e os media mainstream tentar justificar a vitória do PS pela indecisão de um grande número de cidadãos que só resolveu votar, e pelo candidato que achou melhor, à última da hora, o que terá baralhado as sondagens. Não se diz, contudo, que as sondagens são sempre manipuladoras, para induzir o voto no sentido do partido que no momento melhor condições reúne para defender os interesses do capitalismo nacional e de Bruxelas. Ou então encontrar explicação virada pelo avesso, diabolizando os patetas dos parceiros da geringonça que reprovaram o Orçamento, quando todos os partidos, incluindo o PSD, tomaram a mesma posição. Nestas ocasiões há sempre quem se ponha a jeito para bombo da festa. Durante a campanha eleitoral, principalmente durante os debates televisivos, Costa não encontrou oposição, parecendo que todos os noves partidos do regime se encontravam de acordo no que concerne ao essencial das políticas seguidas.

Quanto aos que levaram ao colo o PS à maioria absoluta, talvez valha a pena fazer o balanço: em, 2015, quando se formou a “geringonça”, o BE tinha 19 deputados e 550.892 (10,19%) votos e o PCP/PEV 17 deputados e 445.980 (8,25%) votos, enquanto o PS tinha 86 deputados e 1.747.685 (32,31%) votos, não tendo ganho sequer as eleições. O PCP, mais o seu anexo PEV, e o BE entenderam por bem viabilizar um governo PS, pensando que, com esta Santa Aliança de Esquerda, iriam resolver os problemas do país, ou aquilo que entendem por “país”, e, eventualmente, ter acesso ao pote. As concessões que receberam foram umas parcas migalhas, reposição dos dois meses de salários retirados pelo governo anterior do PSD/PP/CDS aos trabalhadores do estado, ligeira subida das pensões e reformas, e pouco mais. O governo entendeu não reverter as alterações das leis laborais e, inclusivamente, ainda as piorou a contento dos patrões.

No governo, o PS foi comprando os votos

O governo PS/Costa passou o tempo todo a agitar a bandeira da subida do salário mínimo nacional enquanto os restantes salários iam encolhendo por efeito da inflação, com o perigo de um dia destes a maior parte dos trabalhadores vir a auferir o SMN. Costa prometeu acabar com a precariedade do emprego e os salários miseráveis, muitas das vezes inferiores ao salário mínimo, mas foi quem mais promoveu essa precariedade dentro do estado, dando o exemplo pela negativa aos patrões. O sector onde mais trabalhadores a prazo foram contratados foi na SNS, devido à pandemia covid-19, precisamente aquele que foi mais degradado (intencionalmente), com o claro intuito de acelerar a sua privatização, tendo agora um excelente pretexto: a pandemia. BE e PCP sempre apararam o jogo, oferecendo a paz social a troco de nada. Durante o governo da geringonça, entre 2015 a 2019, nunca houve tão poucas greves e aquelas que aconteceram, por terem fugido ao controlo da CGTP/PCP, levaram com a requisição civil em cima, fazendo corar de inveja Marcelo Caetano ou até Salazar, estivadores, enfermeiros e motoristas de matéria perigosa. Assim se explica que em 2019, o BE tenha perdido 50.875 votos, embora mantenha o mesmo número de deputados, e o PCP 113.507 votos e 5 deputados, enquanto o PS tenha ficado com 1.908.036 votos e 108 deputados, podendo fazer um governo sem geringonços.

Não tendo nada aprendido, BE e PCP continuaram a apoiar o governo, deixando passar os Orçamentos, ou com abstenção ou com voto contra, sabendo de antemão que não seriam inviabilizados; ou seja, mantiveram o oportunismo político que lhes é habitual. O PCP parece que tem medo de ser ilegalizado algum dia, não ganhou para o susto em 1975 aquando do golpe de 25 de Novembro, que obrigou o secretário-geral Cunhal a refugiar-se na embaixada da então Checoslováquia. E o BE continua a sonhar num futuro, que parece cada vez menos próximo, vir substituir o PS na governação quando ele desaparecer, à semelhança do que aconteceu com o PASOK. Mas as coisas não têm acontecido como este partido esperava porque o PS ainda se vai aguentando, devido à habilidade do Costa (temos de reconhecer) e à fé que a Alemanha ainda vai mantendo no partido que ajudou a criar em 1973, através da Fundação Friedrich Ebert da social democracia de Willy Brandt, o reconhecido informador encartado da CIA. Soares e PS desempenharam um papel crucial na derrota da revolução de 75 ao serviço não só da Alemanha, mas dos Estados Unidos, como bem atestou Frank Carlucci, embaixador em Lisboa nos tempos quentes do dito PREC. Roma ainda vai pagando aos traidores.

Depois de seis anos de historial de oportunismo e traição, de que se queixam BE e PCP, para falar agora só destes? De ingratidão, de pouca sorte, de falta de reconhecimento do povo e dos trabalhadores pela bondade das medidas que, embora decretadas pelo PS, eram da sua autoria? Pois é, o povo é burro e atrasado! Os resultados não poderiam ser outros, dois anos depois: o PS subiu para 2.246.637 (41,68 %) votos e 117 mandatos, e os três patetas da política, ou idiotas úteis do regime, ficaram apenas com 240.265 (4,46%) votos e 5 mandatos, e 236.635 (4,39%) votos e 6 mandatos, respectivamente; no total “deram” ao PS 25 deputados e 519.972 votos. É o resultado da política calculista, em benefício exclusivo dos seus interesses particulares, e o espelho da natureza de partidos da pequena burguesia. Não ousam enfrentar a burguesia e o capitalismo, preferem lamber-lhes a sola dos pés e ficar com as migalhas. Mas em tempos de crise crónica e profunda do capitalismo, correm o sério risco de desaparecerem, porque imprestáveis.

Costa já não precisa das muletas porque soube comprar os votos e deixar em seco o seu principal rival que é o PSD, ainda o partido por excelência da nossa burguesia conservadora e ainda com laivos de nacionalismo e saudosismos coloniais. Comprou o voto de muitos patrões e de alguns trabalhadores com a história dos layoffs, ao todo foram 7.744 milhões de euros, o que dizem ter “a pandemia custado ao estado em 2021”; as empresas ainda vão receber “compensação” pelo aumento do salário mínimo, isto é, este vai ser subsidiado com os impostos e descontos dos trabalhadores; já foram disponibilizados 650 milhões para capitalizar empresas, no âmbito do PRR; com o Fundo de Capitalização e Resiliência a arrancar com 50% da dotação global para recapitalizar empresas “de interesse estratégico nacional”, que já sabemos são as grandes e/ou de capital estrangeiro. Mas, como se sói dizer, “quem não chora não mama”, um dos incontornáveis pedintes dos dinheiros dos outros (contribuintes) já veio fazer saber, e talvez com alguma razão, que "O comércio é claramente menosprezado na proposta do PRR".

Costa comprou à direita e à esquerda, parece que foram os idosos e pensionistas (temerosos da pandemia!?) que, à última da hora, resolveram votar e a favor do PS, isto é, naquele que está e dá segurança, porque se não dá muito, também não tira: 10 euros para as reformas mínimas e em Maio, no quadro do futuro Orçamento, haverá um aumento extraordinário. Só que agora haverá uma ressalva: não será preciso tirar, basta não aumentar as pensões ou os salários em taxa igual à da inflação. A inflação irá funcionar como o governo troikiano de Passos/Portas, e tudo indica que a inflação em Portugal irá ultrapassar facilmente os 5% já atingidos em média na União Europeia, visto que em Janeiro chegou aos 3,3%. Em 2026, no final do mandato do governo absoluto do PS/Costa (e se chegar ao fim!), as pensões e os salários serão ainda mais miseráveis do que agora.

Os tempos que se aproximam serão de austeridade e de revolta

Os tempos que aí vêm são mais que sombrios: Lagarde admite “preocupação unânime” no BCE sobre inflação e pistas sobre juros só em Março. E estas pistas para a adivinhação facilmente se encontram nas palavras do vice-presidente da Comissão Europeia Valdis Dombrovskis e do comissário para a Economia Paolo Gentiloni: o cenário de suspensão da disciplina orçamental europeia além deste ano só ocorrerá em caso de um novo “choque brutal”. Inflação elevada e por tempo indeterminado, subida das taxas de juro em dimensão ainda desconhecida, que farão disparar enormemente os custos das dívidas pública e privada, obrigatoriedade de se respeitar as regras de disciplina orçamental, nada de bom será para os nossos reformados, trabalhadores e povo em geral, porque somos nós que, em última estância, pagamos a dívida contraída pelos capitalistas e recapitalizamos as suas empresas. No entanto, em 2026, teremos mais desemprego e mais pequenos empresários arruinados.

Costa agitou o espantalho do fascismo, na pessoa de André Ventura e do seu agrupamento de jagunços e fascistas que ousaram sair do armário do PSD e CDS, para meter medo à pequena burguesia medrosa: ou votam em nós ou vem aí o fascismo! Esta tem sido a receita usada em países como a França com a FN e a família Le Pen, que chegaram à final de uma eleição presidencial em que o candidato politicamente correcto afinal defendia os mesmos interesses e as mesmas elites do que os apontados como “tenebrosos fascistas”. Em Portugal parece que querem replicar a estratégia e, para melhor compreensão do fenómeno, seria bom conhecer não apenas quem financia o Ventura mas quem afinal também financia o Costa, e ver que entre os dois não há diferenças de monta quanto a interesses económicos ou de classes possidentes a quem servem. Ambos defendem o capitalismo, em particular o grande capital financeiro (os bancos, que estão no fim da linha do capitalismo), Bruxelas (Alemanha) e, com maior proximidade, a nossa inútil e rentista burguesia. As diferenças, como já referimos anteriormente e em ralação ao PSD, está apenas no modo e no tempo. Daqui para a frente, repetir-se-á a estratégia, mas como a História demonstrou: com o povo em luta, o fascismo é um tigre de papel, apesar de acarretar custos enormes. Matar o capitalismo é matar o fascismo, não o contrário, é cortar a cabeça à serpente.

O dirigente sindical amarelo e filho querido dos capitalistas não se coibiu de afirmar, pouco tempo antes do dia das eleições, que: "A maioria absoluta é um cenário que não rejeito". Querendo dar a entender que o sector dos trabalhadores que ele pretende representar até veria com bons olhos um governo de maioria, não seria um mal vindo ao mundo, bem pelo contrário. E logo que se soube da vitória absoluta do PS, as agências de anotação financeira vieram logo a terreiro, com a Fitch: “resultados eleitorais trazem estabilidade e diminuem risco político”, e com “Eleições pintam Bolsa de Lisboa a verde. CTT disparam 4,46%”. O capital financeiro rejubila e Bruxelas mantem a confiança num partido e num governo capazes de impor os ditames para a recapitalização das grandes empresas e bancos, mesmo que isso custe aos trabalhadores e aos pequenos patrões nacionais muitos sacrifícios, incluindo a sobrevivência. Se o governo de maioria absoluta, com o Costa a afirmar que “"Uma maioria absoluta não é o poder absoluto", é capaz ou não de fazer frente e dobrar a contestação social será uma coisa ainda para se ver, assim como o PCP e o BE ainda estarão na disposição de colaborar nessa infame e ingrata missão, como tem acontecido até agora.

Os partidos saídos do 25 de Abril perecerão com o regime

Mas como já disséramos, em artigo anterior, os partidos vão e vêm conforme as circunstâncias políticas e a necessidade da classe ou estrato de classe que pretendem representar. Os partidos que nasceram após o 25 de Abril, fruto das suas circunstâncias, irão de vela quando essas mesmas circunstâncias desaparecerem ou forem alteradas profundamente. Percebendo-se assim que o CDS está em vias de desaparecimento porque há muito que esgotou a sua missão, que lhe foi entregue pelo governo de Vasco Gonçalves de reter e controlar os fascistas do regime recém deposto; mais tarde e já em plena decadência foi aproveitado por Portas para enriquecimento pessoal. PSD, fundado por Sá Carneiro, simbólico representante da nossa velha burguesia, agora com perda acentuada da sua tradicional base social de apoio e dominado por toda a sorte de caciques, dá todos os indícios de fragmentação; iremos ver se terá capacidade de regeneração ou será substituído pelo IL ou outros que se acharem por mais conveniente. Costa teve a perspicácia de, caso se tivesse aliado ao PSD em 2015 ou em 2019, teria sido ele a sofrer com o abraço do urso, assim foram os trouxas do BE e do PCP; aprendeu com o que aconteceu com o PASOK que desapareceu por se ter aliado ao partido de direita Nova Democracia.

Quanto ao BE e PCP, são dois partidos da pequena burguesia, o primeiro da pequena burguesia urbana e com formação académica mais elevada, o segundo de uma pequena burguesia menos escolarizada e até rural, e a sua base proletária é cada vez mais minguada. O PCP já nem chega a ser o tradicional partido revisionista, o dito partido burguês (pela ideologia) para (consumo) operários. São ambos partidos que abraçaram a social-democracia, rendidos às delícias do capitalismo e que a troco de algumas benesses e sinecuras institucionais não lhes repugna ir enganando as massas operárias e populares. Mas, caso a sua influência se verifique diminuta, e isso mede-se em parte pelos resultados eleitorais, serão imediatamente descartáveis. E jamais para lugares da governação, é que tudo que tenha o rótulo de “esquerda” ou de “comunista” é repelido pela nossa ignorante burguesia e mesmo por Bruxelas, tal é a fobia do comunismo. O desaparecimento de um PCP, que pode ser uma coisa mais provável do que se possa pensar, mesmo que substituam o bronco secretário geral, cujo mundo já desapareceu há muito, será sempre uma coisa boa, deixa campo aberto para o surgimento de alternativas revolucionárias.

Contra o governo de maioria absoluta, só poderá haver luta absoluta.

03 de Fevereiro 2022