quarta-feira, 25 de junho de 2025

Governo extremado e pouco moderado

Imagem: “Sem stress” - Henricartoon

Durante a campanha eleitoral falou-se muito da necessidade de um governo do “centro”, constituído por forças “moderadas”, e o foco propagandístico foi dirigido sobretudo para a classe média, para os filhos família que foram beneficiados com garantias do estado na aquisição de habitação. As promessas estão no programa do governo, menos 500 milhões de euros de IRS para os que mais ganham até ao fim do ano e menos 2 mil milhões até ao fim da legislatura, menos IRC para as empresas, que acabam de ser presenteadas com 315 milhões de euros, ao abrigo do famigerado PRR, com os benefícios fiscais a atingirem mais de 2 mil milhões nestes dois anos de governo, 2024 e 2025. No entanto, são prometidos 2% do PIB para a Defesa já para este ano, ou seja, para a indústria da guerra. Uns “miseráveis” 5,7 mil milhões de euros, que passarão para os “3,5% nos próximos 10 anos”, promessa de Montenegro, ou para os 5% ainda antes da data estabelecida. Política que tem o apoio do PS e dos partidos mais à direita no Parlamento. Este governo, mais extremado do que moderado, apostou lançar o povo português na miséria e na guerra, para salvação dos rendimentos da elite e na obediência servil e torpe perante os ditames da potência imperial e do seu braço armado NATO. Em simultâneo, protege e fomenta disfarçadamente os grupos neonazis na esperança que estes venham a ser a tropa de choque contra os trabalhadores em caso de revolta por esta política celerada.

A política migratória do governo só irá aumentar o número de ilegais

Antes de empoleirar-se no governo pela segunda vez, Montenegro e e a sua associação partidária não incluíram no programa, que então presentearam o eleitorado com a verba que iriam destinar aos negócios da guerra, nem com outras medidas que agora foram enfiadas no projecto governativo. Enganaram mais uma vez o povo português, parece que uma parte dele até nem desgosta, tirando da cartola as já anunciadas mudanças na lei da greve e nas leis laborais, a revisão da Lei de Bases da Saúde, para a privatização mais rápida e segura da saúde em Portugal, e a revisão da Lei da Imigração, em debate neste momento no Parlamento a pedido “urgente” do partido da extrema-direita, mas que já tinha sido prevista e planeada pelo governo e até debatida.

Imigração sim, mas para os especuladores imobiliários, as mafias que vêm lavar dinheiro através dos vistos gold, trabalhadores especializados que porventura tenham a triste ideia de para aqui virem viver, o que é pouco provável. Os próprios migrantes dos palops serão postergados para cidadãos de segunda e com mais dificuldade de adquirir autorização para trabalhar, reunir a família, ou adquirir a nacionalidade portuguesa, cidadãos que até 24 de Abril eram considerados portugueses. O travar da imigração ilegal ficará mais no papel do que na realidade prática, porque irá colidir com as necessidades dos empresários em abundante mão-de-obra barata e facilmente descartável, ou com a concretização de grandes projectos que não avançarão ou terão dificuldade em fazê-lo, como está já a acontecer em Sines, com a Administração do Porto de Sines a precisar de preencher 1800 postos de trabalho, mas com os concursos a ficarem desertos porque simplesmente não há oferta de casas. O capitalismo nacional para não soçobrar precisa urgentemente de escravos.

Ficou-se a saber há pouco tempo que um dos clientes da empresa familiar do primeiro-ministro Spinumviva tinha como sócia, em negócios imobiliários na cidade de Espinho, uma empresária moçambicana que tem sobre si um mandado de captura internacional, por acusação de associação criminosa, financiamento ao terrorismo, fraude fiscal e branqueamento de capitais, dando bem a ideia em que mundo se move a actividade profissional de Montenegro. Que se saiba esta empresária de sucesso não teve dificuldade de entrar no país, ter aqui as suas negociatas e viver sem ter problemas com a justiça.

À semelhança da empresária moçambicana, não consta que a famigerada, mas já esquecida, empresária angolana Isabel dos Santos tenha tido alguma vez problema com o então SEF, como, por exemplo, ser detida para interrogatório como aconteceu com o malogrado trabalhador imigrante ucraniano Ihor Homenyuk. Com a nova Lei da Imigração haverá via verde para os criminosos, clientes ou não da empresa familiar de lavagem de dinheiro, traficantes e afins; entretanto, os migrantes que entram em Portugal continuarão a ser ilegais e mão-de-obra escrava. E o número irá aumentar substancialmente, como afirmou o bispo do Porto, porque simplesmente é impossível impedir os movimentos migratórios.

Aumentar as restrições à entrada de trabalhadores imigrantes e dificultando a aquisição da nacionalidade portuguesa com a argumentação falaciosa de que já existe um grande número de estrangeiros em Portugal, o que poderá provocar maior conflitualidade social, tem sido apresentado, pelos comentadores avençados, como uma habilidade táctica de Montenegro de retirar capital político à extrema-direita. Ora, isto não passa de uma outra habilidade ou falácia, porque Montenegro ao elogiar o canoísta português: “É esta a raça lusitana” apenas deixou falar o coração de indivíduo de extrema-direita, embora disfarçado, e de um retinto reaccionário e racista. Iremos observar, ao longo da legislatura, o esbater das diferenças qua ainda possam haver entre o chefe do governo e o auto-intitulado chefete da oposição.

O racismo serve como instrumento para aumentar a divisão entre trabalhadores e intensificar a sua exploração, possui uma função económica, para além de constituir uma crença sem qualquer fundamento científico. No género Homo só existe uma linhagem ou raça que é o Homo Sapiens Sapiens, que saiu de África há cerca de 250 mil anos, e o povo português é o resultado de uma miscigenação ao longo dos séculos, onde os genes subsarianos, árabes e magrebinos são abundantes, atingindo os 20% no total. Os próprios europeus não passam de híbridos, como cerca de 3% de genes de neandertais, enquanto os “puros” sapiens são os !Kung San, um povo tradicional do deserto do Kalahari. Para quem não saiba, a heterozigotia é sinónimo de mais saúde, de ausência de doenças genéticas, ao contrário da “pureza da raça”, ou seja, da homozigotia. A família dos Habsburgos, que casavam entre si, são o bom exemplo das anomalias físicas e da extinção. Mas, não há nada a fazer, os políticos ignorantes são geneticamente racistas.

Canhões em vez de manteiga é a política típica dos partidos da guerra

A retirada do RASI (Relatório Anual de Segurança Interna) da informação sobre o perigo da actividade dos grupos neo-nazis em Portugal, não se deveu, como alguém do governo quis dar a entender, a ministra da Administração Interna se não estamos em erro, à actuação de vigilância sobre um desses grupos, mas a uma displicência sobre o assunto, é que estes grupos geralmente fazem o trabalho sujo das polícias e sempre foram monitorizados quando não protegidos pelos comandos policiais.

Não há motivo para qualquer admiração quando se soube que à frente do grupo Movimento Armilar Lusitano se encontrava um chefe da PSP, não deixando de ser interessante que a maior parte da imprensa de referência tenha escondido no início o posto do referido polícia, de possuir ramificações dentro da GNR a da Marinha. Em vez de ser a polícia a reprimir os trabalhadores imigrantes, são estes bandos de rufias e de jagunços, constituídos maioritariamente por lúmpenes, que executam as tarefas que repugnam às autoridades do establishment. E quanto à actuação destas imitações das Sturmabteilung sem farda, os trabalhadores emigrantes portugueses, nomeadamente na Alemanha, possuem alguma experiência bem sofrida na pele, incluindo mortes.

A par da repressão sobre os trabalhadores mais vulneráveis, para já, porque a “limitação” do direito à greve dos trabalhadores, maior controlo dos trabalhadores do sector estado, depressa a repressão se globalizará sobre todo o mundo do trabalho. O governo vai-se rebaixando perante os ditames de Bruxelas e das imposições do imperialismo norte-americano, através da sua máquina de guerra NATO. Fica bem à vista a natureza de um governo que aceita caninamente ultrapassar a despesa de 2% do PIB com a dita “Defesa”, rapidamente aumentada para 3,5% e de seguida para os 5%, quando desinveste na Saúde, na Educação, admite privatizar a Segurança Social e o resto dos transportes ferroviários, não resolve o problema da habitação para as famílias dos trabalhadores, deixando que se tenha regressado a situação muito semelhante à que existia durante o Estado Novo; só na Grande Lisboa já se contabilizam mais de 27 bairros de barracas ainda mais miseráveis que as de outrora. Vai-se gastar milhões em armas e soldados, mas não se contratam médicos, enfermeiros ou professores com salários dignos.

O governo foi interpelado pelos partidos da oposição de esquerda quanto à utilização da base das Lajes nos Açores e pelo embaixador do Irão em Lisboa "se alguém participa numa guerra, é parte dessa agressão". Em relação à primeira, demorou e não satisfez na resposta, apresentou a utilização como uma inevitabilidade do pseudo-contrato feito com os EUA, “pseudo” porque o Império nada paga pela ocupação de uma parcela do território nacional; em relação à segunda interpelação, o governo pouco ou nada terá dito refugiando-se no colo do Trump, à semelhança do que tem feito em relação à guerra da Ucrânia. Este governo mais não é que uma peça menor da estratégia belicista norte-americana e europeia. Tal como o governo PS, o governo PSD é arrogante com os fracos e subserviente perante os fortes, próprio de invertebrados e geneticamente lacaios. Desde há muito que o povo português reclama a saída de Portugal da NATO e a expulsão das tropas norte-americanas do território nacional. Não queremos ser nem protetorado nem colónia de ninguém, queremos ser soberanos.

Os quarenta anos de länder da Europa e a crise crónica da economia

Montenegro esteve na cerimónia dos 40 anos da assinatura do Tratado de Adesão à CEE, nos Jerónimos, tomando o lugar de Mário Soares, o homem de mão da Alemanha em Portugal, de quem recebeu um partido financiado pela social-democracia germânica. Ambos criados de libré, faltou-lhes o casaco branco e a toalha dobrada no braço. Ambos, como todos os primeiros-ministros que se sucederam entre os dois, são responsáveis pela degradação do aparelho produtivo do país, da nossa inaudita dependência económica e política, e pela criação de uma elite parasitária, de novos ricos, uma burguesia rentista, que terá custado “mais de 160 mil milhões de euros”, que são exactamente os fundos de “apoio europeu”, de que o povo não beneficiou mas que tem pagado durante este tempo todo com língua de palmo.

São as manchetes da imprensa mainstream que revelam a pobreza: endividamento da economia, empresas, famílias e estado, cresce para 829,5 mil milhões de euros, a maior de sempre; recuo nas exportações de bens em Abril agravando o défice da balança comercial; volume de negócios na indústria recua 3,4% em Abril; PIB português teve o terceiro pior desempenho da Zona Euro no primeiro trimestre; Cruz Vermelha apela à mobilização nacional para combater pobreza e solidão; 660 mil pessoas em Portugal vivem preocupadas por não terem comida suficiente, principalmente aquelas que têm crianças a cargo; turismo é o setor com mais trabalhadores pobres, mais de um quinto daqueles que trabalham no alojamento ou na restauração vivem na pobreza, a realidade na agricultura é também muito próxima, assim como na construção civil; quase um terço do país vive na pobreza ou perto disso, número de pobres e excluídos teima em rondar os dois milhões, mas, pouco acima do limiar da pobreza, há mais um milhão vulnerável; privações estão a subir entre os não pobres, incluindo na habitação e saúde; ranking anual do CWUR mostra uma degradação do panorama global das instituições de ensino superior portuguesas, entre as 13 representadas, só três sobem face a 2024.

Bruxelas não deixa margem para dúvidas na “recomendação”: a Comissão Europeia exige que Portugal “reforce as despesas globais com a defesa e a prontidão em consonância com as conclusões do Conselho Europeu de 6 de Março de 2025″, que classificou a guerra na Ucrânia como “um desafio existencial para a União Europeia”; e a englobar nos 5% do PIB impostos pela NATO/Trump. Mas, para continuar a enganar o eleitorado, o novo/velho governo PSD/Montenegro veio com as “10 medidas para mudar o país” para, diz ele, “valorizar o trabalho e a poupança, o mérito e a Justiça Social”, apontando para um salário mínimo de 1.100 euros, salário médio 2.000 euros, e nenhum pensionista terá rendimento abaixo de 870 euros durante a legislatura. Ora, não passam de rematadas mentiras que, por outro lado, têm como objectivo retirar as bandeiras aos partidos de esquerda. Em suma, apresentar-se perante a classe média como o salvador da pátria. Mas será mais o salvador dos empresários parasitas e do capitalismo nacional meio falido; contudo, sempre à custa de uma maior exploração do povo trabalhador e do empobrecimento do cidadão comum em geral.

Este governo é um governo de guerra contra o povo e de nós todos apenas merece o maior repúdio e combate.

quinta-feira, 19 de junho de 2025

O Estado e a Guerra

 

Por Giorgio Agamben

Aquilo a que chamamos Estado é, em última análise, uma máquina de fazer a guerra, e mais cedo ou mais tarde esta vocação constitutiva acaba por emergir para além de todos os propósitos mais ou menos edificantes que ela possa dar para justificar a sua existência. Isto é particularmente evidente hoje. Netanyahu, Zelenskiy, os governos europeus perseguem a todo o custo uma política de guerra para a qual se podem certamente identificar propósitos e justificações, mas cujo motivo último é inconsciente e assenta na própria natureza do Estado como máquina de guerra. Isto explica porque é que a guerra, como é evidente para Zelenskiy e para a Europa, mas também no caso de Israel, é travada mesmo à custa de enfrentar a sua própria possível autodestruição. E é vão esperar que uma máquina de guerra possa parar perante este risco. Continuará até ao fim, seja qual for o preço que tiver de pagar.

14 de junho de 2025

Quodlibet

Ucrânia: O gigante russo acordou! - Carlos Latuff

Fim da Ucrânia

A guerra na Ucrânia aproxima-se do seu fim, que, seja como for, coincidirá inevitavelmente com o colapso da "antiga República Socialista Soviética da Ucrânia" (antes da qual nunca existiu um Estado ucraniano, e convém lembrar que a Crimeia, que Zelensky insiste em afirmar, só foi unida à República Soviética da Ucrânia em 1954 por Khrushchev e, segundo o censo desse ano, era povoada por 72% de russos). Como a classe dirigente europeia tem repetido incansavelmente: estaremos com a Ucrânia até ao fim. Mas este fim envolverá inevitavelmente também o destino da Europa. O que fará e o que dirá a Europa quando o fim da Ucrânia, que ajudou a tornar catastrófico, for um facto consumado? De acordo com as previsões dos observadores políticos mais astutos, é provável que até a identidade da actual comunidade europeia, que não tem outra realidade jurídica que não seja a de um acordo internacional entre Estados, seja revogada e posta em causa. E esta é a única consequência positiva que podemos esperar da guerra na Ucrânia, caso contrário, como todas as guerras, é desastrosa.

13 de junho de 2025

Quodlibet

Imagem de destaque: Descobrindo a verdade - José Alberto Rodríguez Avila

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Gente muito pouco patriótica na colónia à beira-mar plantada

 

Crónica republicada de 2016 sobre a subserviência da elite nacional ("nacional" somente no nome) e a situação de pobreza crescente do povo resultante da entrada de Portugal na então CEE, que na prática terá sido mais a anexação do País pela potência dominante, Alemanha. A partir de 1 de Janeiro de 1986, Portugal passou a ser uma colónia ou região (länder) europeia, no entanto, a elite enriqueceu, formando-se uma nova oligarquia, que neste momento aposta abertamente numa solução política de extrema-direita para melhor garantir os dividendos e privilégios.

Gente muito pouco patriótica

Marcelo foi a Roma ver o Papa e beijou-lhe o anel, segurando-lhe na mão sem se ajoelhar, como era costume antigo, convidando-o a visitar o país (cuja resposta ficou no segredo divino e presidencial) e de regresso visitou o rei Filipe VI de Espanha e VII de Portugal, a quem transmitiu a preocupação pelo domínio cada vez maior da banca nacional pela espanhola; foi a primeira saída ao estrangeiro do 20º, ou 19º se não contarmos Bernardino Machado duas vezes. O homem é católico e Espanha está aqui mesmo ao lado e há que velar pelas boas relações com os nuestros hermanos, já que eles são o principal parceiro económico, nas exportações e nas importações. Contudo, a viagem pode ser, e é na realidade, uma manifestação de subserviência, embora manhosa, como é habitual entre a nossa elite visceralmente provinciana.

Relacionado com esta visita de vassalagem e de validação externa, já antecipadamente efectuada por Bruxelas/Juncker, do cargo da personagem, ocorreram as manifestações dos produtores nacionais de leite e de carne de porco contra as também cada vez maiores importações daqueles produtos de países terceiros, à frente dos quais se encontra, outra coisa não seria de esperar, os produtores a vizinha Espanha. As reivindicações são elementares, a reposição do sistema de quotas leiteiras, favorecimento da distribuição da produção nacional por parte das grandes superfícies comerciais, etiquetagem dos produtores estrangeiros, benefícios fiscais por parte do governo e da segurança social, ou seja, proteccionismo contra a concorrência externa, em contradição aberta com as regras da UE, sem contudo colocarem em causa a permanência de Portugal nesta comunidade económica e política ou na zona euro.

Esperar que o ministro da agricultura, já experiente nestas andanças, e o governo de que faz parte façam alguma coisa de concreto para salvaguardar a produção nacional é qualquer coisa como ficar à espera de Godot, ou seja, esperem sentados, porque as medidas que aí virão serão medidas impostas por Bruxelas para proteger os grandes produtores europeus, franceses e alemães à cabeça, onde se enquadra a intenção de baixar a produção para teoricamente aumentar o preço, o que levará à aniquilação mais rápida das produções da periferia europeia. A entrada de Portugal para a então CEE teve exactamente esse pressuposto, o país deixaria de produzir para passar a comprar aos países do centro da Europa, e Bruxelas foi benevolente enviando milhões de marcos, e mais tarde milhões de euros (a mesma moeda com outro nome), a fim de indemnizar a burguesia nacional e comprar apoios internos; passados 30 anos, o resultado está à vista, mas se não tivesse acontecido essa dita "adesão", o resultado seria semelhante embora em tempo mais dilatado e sem o bónus das comissões. Temos de reconhecer que a burguesia nacional foi esperta, a nossa classe média é que não teve vistas largas e deixou-se enganar, agora é tarde.

Ora, a grande distribuição está-se nas tintas para o facto de "os agricultores estão a morrer no campo" e preferem comprar ao estrangeiro mais barato, com a subsequente maximização da margem do lucro, do que comprometer-se "a comprar a produção portuguesa". O chefe do grupo Pingo Doce/Jerónimo Martins é suficientemente claro ao afirmar, aquando da sua recente visita ao país do narcotráfico da América Latina, que o "peso do sector público em Portugal está a matar lentamente o peso do sector privado", o quer dizer que o governo deve baixar os impostos às empresas e fazer tudo o mais que estiver ao seu alcance para que os patrões nacionais aumentem o mais possível os seus lucros na competição que enfrentam com os restantes; ter a sede das empresas na Holanda, onde pagam metade dos impostos do que pagariam se estivessem em território nacional, não parece ser suficiente, quer mais, não deixando de frisar que "as empresas que não ganhem dinheiro são empresas sem futuro".

A partir da data de adesão à CEE/UE formou-se uma oligarquia rentista

Como se pode constatar, mais uma vez, os casos que o comprovam são muitos, se há uma classe média ou pequena parte da classe possidente em Portugal que aposta no proteccionismo, uma outra, que predomina, aposta numa maior liberalização e aposta na internacionalização dos seus negócios em mercados em ainda abertos do que o nosso e dirigidos por elites ainda mais corruptas. Contudo, não deixa de ser interessante ouvir da boca do Presidente da Associação Comercial de Lisboa – Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, um dos que faz negócio à custa do estado em termos de monopólio (foram claras as suas intenções em querer transformar os estivadores em escravos, aquando das últimas greves), defender que os capitalistas nacionais devem “comprar ou criar um banco” a fim de fazer frente à espanholização da banca portuguesa. Opinião que não parece ser compartilhada pelos seus comparsas da indústria do calçado, o tal sector da indústria nacional tão incensado pelos propagandistas do capital nacionais, que após investigação da polícia judiciária acabam de ser acusados pelo Ministério Público de lavagem de dinheiro e de terem escondido 2,6 milhões em off-shores, Ilhas Caimão e Reino Unido, defraudando assim o fisco e as contas públicas, o que nem sequer constituirá ponta de iceberg da verdadeira dimensão do patriotismo da nossa tão estimada e nacionalista burguesia.

Portugal é dominado por uma burguesia compradora e inútil, verdadeira oligarquia, que vai sobrevivendo do parasitismo dos recursos públicos e do estado, que é também o seu instrumento de repressão sobe os trabalhadores, que defende o proteccionismo quando isso lhe interessa e o seu contrário, o ultra-liberalismo, sendo então mais papista que o Papa se isso lhe trouxer algumas vantagens. Uma classe com fim historicamente anunciado para breve, apesar de não ter morte datada, contorcendo-se por entre o processo de acumulação e concentração capitalistas, temendo menos a concorrência brutal e desapiedada, que está na alma do capitalismo, do que a eventualidade, mais do que certa, de uma nova forma de organização da economia e da sociedade a que podemos dar o nome de socialismo.

Os pequenos agricultores nacionais para sobreviver terão de se organizar e o socialismo é a saída

Mais do que ser "indispensável a regulação legislativa e a fiscalização da actividade dos hipermercados", como reclamam os suinicultores e os produtores de leite, cada vez se torna necessário, não havendo outro caminho, o controlo da grande distribuição pelo próprio estado, o único capaz de exercer um controlo severo e eficaz sobre as importações, venham elas de Espanha ou de outro país; mas, para se atingir este objectivo, o país terá de sair do euro e da União Europeia, mesmo que ainda durante algum tempo e para as trocas comerciais com o exterior venha a manter o euro.

Será com o apoio do estado que os produtores se poderão organizar para fazer frente à concorrência estrangeira e não "morrerem" de forma violenta, como acontecerá com a UE capitalista; o socialismo será também a única alternativa. Para os nossos propagandistas e partidos do poder, só é problema se houver mais estado na economia se for português, porque se for chinês não parece haver qualquer problema atendendo às chorudas comissões pela venda dos activos públicos e, com alguma sorte, para gestão dos mesmos já sob propriedade estrangeira: "Estado chinês ganha quase 400 mil euros por dia na EDP" (é título na imprensa/propaganda nacional, tal como "Aumento do salário do presidente da EDP para 6.800 euros por dia...").

A pobreza é o indicador que mais se desenvolveu após a adesão à União

Enquanto tudo isso, ficamos a saber que: uma em cada 14 famílias portuguesas salta refeições por não ter dinheiro, ou seja, sofre de "insegurança alimentar grave", um eufemismo elegante para designar simplesmente "fome sem disfarces”; o governo PS/Costa fez as contas e entendeu que atribuir os extintos passes "4-18" e "sub 23" a todos os jovens portugueses, independentemente das respectivas condições socioeconómicas, "custaria 20 milhões de euros"; no entanto, vai dar 17 milhões de euros aos taxistas, mas que pode ir até ao 22 milhões, para se calarem e aceitarem a concorrência da Uber, que o governo conta em legalizar dentro em breve (mais um sector tradicional condenado a desaparecer, mas, diga-se em abono de verdade, os próprios nada têm feito para o evitar, bem pelo contrário).

No seu conjunto, a dita "economia nacional" não dá sinais de reanimação, se as importações tiveram uma ligeira diminuição em Janeiro, menos 1% em relação a Janeiro do ano passado, as exportações para os mercados extra-comunitários tiveram uma queda a pique, de 18,8% face ao mesmo mês de 2015 (e de 25,2% na comparação com Dezembro), não sendo compensadas com a ligeira subida para os países da União Europeia, apenas 4,5%. Claro que as explicações oficiais não se fizeram esperar: é devido à "volatilidade nos mercados financeiros" e à crise de alguns países como Angola dependentes do preço do petróleo; mas não à crise capitalista global de superprodução, da qual a Europa do Centro, rica e desenvolvida, não conseguiu ultrapassar, levando a OCDE e o FMI a reverem em baixa as previsões de crescimento mundial para este ano de 2016.

Não se deve igualmente ocultar que só 6,1% das empresas a operar no mercado português são exportadoras, e dizemos a "operar" porque muitas delas são empresas de capital estrangeiro, ou seja, não são portuguesas. E outra realidade, ainda mais importante e que também não deve ser minimizada ou iludida: nos primeiros dois meses do ano, 1.064 pessoas perderam o seu posto de trabalho na sequência de despedimentos colectivos, um aumento de 35,5% face ao mesmo período do ano passado (os dados são da Direcção Geral do Emprego e das Relações do Trabalho). Mais uma vez se constata que crescimento económico não é sinónimo de mais emprego, bem pelo contrário, nem de salários mais elevados, pela simples razão de que a economia de que se trata é a economia capitalista, a que não se pode mudar a natureza.

PS e PSD os dois agentes ao serviço de Bruxelas e do grande capital europeu

O mesmo se pode dizer em relação ao governo do Costa/PS, assim se compreende o que o Costa diz, e o Costa diz que banca precisa de "capital estrangeiro, seja ele espanhol, angolano, alemão ou americano”, isto é, ter um sistema financeiro “estabilizado e devidamente capitalizado”, salientando que Portugal é “uma economia aberta”. Costa vai reunir com a dita "empresária" angolana, filha do presidente do estado/máfia/corrupção de Angola, a fim de ultrapassar o também dito "impasse" no BPI, mais propriamente como entregar este banco, que já foi ex-libris da burguesia nacional do norte, à catalã La Caixa; acontecimento que parece ter agastado o Coelho da "Social-democracia, sempre!". É para se perguntar: qual será a comissão?

PS e PSD funcionam como dois partidos de angariação de emprego para a clientela e recebimento das comissões, para além, como é óbvio, de bem gerir os negócios do capital, independentemente da cor nacional; o PSD e PS chegam a aldrabar a inscrição de militantes na disputa entre caciques a ver quem alcança o pote: dirigentes do PS são condenados por falsificação de documentos no preenchimento de fichas de adesão ao partido; no PSD de Aveiro, secção de Ovar, num mês foram inscritos 418 novos militantes, 217 da freguesia de Esmoriz, dos quais 80 viviam na mesma rua e 17 na exacta mesma morada; são as peripécias dos partidos que vivem metendo a mão na massa, ao mesmo tempo que se desacreditam, desacreditam o próprio regime democrático burguês.

Em última hora, um acontecimento que bem revela que o PR Marcelo e o primeiro Costa estão, por enquanto, em sintonia na gestão dos interesses do capitalismo, foi o presidencial puxar de orelhas ao Coelho por este criticar a intervenção do governo nos negócios do BPI. Marcelo considera que está de acordo com a Constituição "a submissão do poder económico ao poder político", na prestidigitação de inverter a realidade e continuar a enganar os trabalhadores portugueses, simultaneamente chama a atenção para o facto de que não passa cheques em branco; se, por um lado, quer estar em sintonia com o governo no que concerne à política externa, e nesse sentido se deve entender a sua visita ao estrangeiro, e apoia algumas das suas diligências para a boa gestão dos negócios dos senhores do capital, não quer dizer que isso vá durar para sempre. O governo do Costa manterá por algum tempo o estado de graça… até ao dia que o povo e os trabalhadores portugueses percam a paciência.

23 de Março 2016


sexta-feira, 6 de junho de 2025

A escravatura da Alemanha pelo seu passado manteve-a em silêncio sobre Gaza durante muito tempo

Por Gideon Levyin 

Não é a primeira vez que a Globalbridge tem sido um — digamos, um imperativo "moral" — traduzir e publicar um comentário do jornalista israelita Gideon Levy. Levy, cujos pais fugiram da Boémia para Israel em 1939 para escapar aos nazis alemães, lança luz sobre a actual política alemã em relação a Israel. (Editor)

A Alemanha traiu a memória do Holocausto e as suas lições. Um país que considerava o seu maior dever não esquecer, esqueceu. Um país que prometeu a si próprio nunca se calar permanece em silêncio. Um país que outrora disse "Nunca mais" diz agora "outra vez", com armas, com dinheiro, com silêncio. Nenhum país deveria ser melhor do que a Alemanha a "reconhecer processos repugnantes". Todo o alemão sabe muito mais sobre eles do que Yair Golan. Aqui em Israel, estão a todo o vapor, mas a Alemanha ainda não os reconheceu pelo que são. Só recentemente acordou tarde demais e muito pouco.

Quando a Alemanha vê a  marcha da bandeira em Jerusalém, precisa de ver a Kristallnacht. Se não vir os paralelos, trai a memória do Holocausto. Quando olha para Gaza, precisa de ver os campos de concentração e os guetos que ela própria criou. Quando vê a população faminta em Gaza, precisa de ver os miseráveis ​​sobreviventes dos campos. Quando ouve as declarações fascistas de ministros israelitas e de outras figuras públicas sobre assassinatos e troca de populações, sobre "nenhum inocente" e sobre matar bebés, precisa de ouvir as vozes aterradoras do seu passado que diziam a mesma coisa em alemão. 

Não tem o direito de permanecer em silêncio. Deve erguer bem alto a bandeira da resistência europeia ao que se passa na Faixa de Gaza. No entanto, continua a ficar para trás do resto da Europa, ainda que desconfortavelmente, não só pelo seu passado, mas também pela sua  responsabilidade indirecta pela Nakba, que provavelmente não teria acontecido sem o Holocausto. A Alemanha tem também uma dívida moral parcial para com o povo palestiniano.

Sem o apoio dos Estados Unidos e da Alemanha, a ocupação israelita não teria acontecido. Durante todo este tempo, a Alemanha foi considerada a segunda melhor amiga de Israel.  Era inclusiva e incondicional.  Agora, a Alemanha vai pagar os seus longos anos de rigorosa autocensura, durante os quais foi proibida de criticar Israel, a santa vítima.

Qualquer crítica a Israel era  rotulada de anti-semitismo. A justa luta pelos direitos palestinianos era criminalizada. Um país onde um grande império mediático (Springer, org.) exige que os seus jornalistas, como condição para o emprego, nunca questionem o direito de Israel à existência não pode alegar respeitar a liberdade de expressão. E se as actuais políticas de Israel ameaçam a sua existência, não se deveria ter o direito de o criticar?

Na Alemanha, é difícil, senão impossível, criticar Israel, independentemente do que se faça. Isto não é amizade; é a escravatura a um passado e, à luz dos  acontecimentos em Gaza, esta tem de acabar. A "relação especial" não pode incluir a condescendência com crimes de guerra. A Alemanha não tem o direito de ignorar o Tribunal Penal Internacional, criado em resposta aos seus crimes, debatendo quando convidar um primeiro-ministro israelita procurado por crimes de guerra. Não tem o direito de repetir os clichés do passado e depositar flores em Yad Vashem, a 90 minutos de carro de Khan Yunis.

A Alemanha enfrenta agora o seu mais sério teste moral desde o Holocausto. Poucas semanas após a invasão da Ucrânia por Vladimir Putin, a Alemanha liderou as sanções contra a Rússia. Vinte meses após a invasão da Faixa de Gaza, a Alemanha ainda não tomou qualquer medida contra Israel, para além das mesmas declarações vazias de outros países europeus.

A Alemanha precisa de mudar, não apesar do seu passado, mas precisamente por causa dele. Não basta que o Chanceler Friedrich Merz diga que o bombardeamento da Faixa de Gaza já não se justifica.  Ele precisa de tomar medidas para o impedir.  Não basta que o Ministro dos Negócios Estrangeiros Johann Wadephul diga que a Alemanha não se deixará "levar a uma situação em que tenhamos de demonstrar uma solidariedade forçada".

É tempo de a Alemanha demonstrar solidariedade para com as vítimas e libertar-se das amarras do passado que a afastam das lições do Holocausto. A Alemanha não pode mais ficar de braços cruzados e contentar-se com condenações tíbias. Dada a terrível situação em Gaza, isto é silêncio — o silêncio vergonhoso da Alemanha.

O que é que este bebé fez de errado para agora morrer de fome? (Captura de ecrã de um vídeo publicado pela BBC News.)

Leia o artigo original de Gideon Levy no Haaretz.

Fonte

sábado, 31 de maio de 2025

Desculpem se isto é antissemita, mas acho errado queimar crianças vivas

Por Caitlin Johnstone

Israel está a queimar crianças vivas em Gaza. E se quiser, pode chamar-me amante de terroristas nazis, anti-semita e que odeia judeus, mas eu acho que isso é errado.

Agora que se tornou claro que o objectivo de Israel em Gaza é a limpeza étnica completa de todos os palestinianos, os defensores de Israel estão a passar das lamentações sobre os reféns e o Hamas para argumentar que a limpeza étnica é, na verdade, boa e aceitável. O que faz sentido; esse é realmente o único argumento que podem dar neste momento.

Nunca se esqueça que o Congresso dos EUA deu a Netanyahu dezenas de ovações de pé  durante um único discurso, enquanto estava no meio da perpetração do primeiro genocídio transmitido em direto da história. É isso que eles são. Será sempre quem eles são.

Ler no X

Israel fez mais para promover o ódio contra os judeus no último ano e meio do que a Stormfront em toda a sua existência. Nenhuma propaganda supremacista branca será tão eficaz a espalhar o ódio contra os judeus como assassinar crianças abertamente sob a bandeira da Estrela de David.

O apoio a Israel costumava ser a opinião predominante no mundo ocidental. Felizmente, isto está a mudar, mas o facto de isto ser verdade até Israel se expor mostra que não se pode simplesmente aceitar a opinião da maioria sobre qualquer assunto. Precisa de pensar por si mesmo.

Ignore o que a multidão diz. Ignore as pessoas que gritam consigo por discordar da sua posição. Olhe para os factos em bruto, livre dos seus próprios preconceitos cognitivos, tanto quanto possível, e tenha a coragem de se manter firme, se necessário.

Gaza é uma questão moral tão fácil de acertar que não há como alguém que a erre e não seja também uma má pessoa noutras áreas da vida. Tenho pena de quem tem relações interpessoais com apoiantes de Israel, porque seria uma pena tê-los por perto.

A diretora do Programa Alimentar Mundial, Cindy McCain, diz não ter visto qualquer evidência de que o Hamas esteja a roubar ajuda para Gaza. O único argumento de Israel para continuar a bloquear a ajuda a Gaza está a ser publicamente desmascarado por um membro de uma das famílias mais pró-Israel na política dos EUA.

Os EUA terão entregue cerca de 90.000 toneladas de armas a Israel desde outubro de 2023.

Ultimamente, tenho-me concentrado mais no genocídio de Gaza, mas, por vezes, números como estes fazem-me dar alguns cliques para trás e pensar no quão insana é a nossa civilização como um todo. Pensem em quanta coisa boa poderíamos fazer no mundo se não estivéssemos a investir recursos em coisas más como esta.

A publicação The Australian, propriedade de Murdoch, veio atrás de mim no outro dia por ter tweetado

“Dois funcionários da embaixada israelita a serem baleados em Washington, D.C., são menos noticiários do que dezenas de milhares de palestinianos a serem mortos na genocida apropriação de terras por Israel. É menos importante. Merece menos atenção. Não é a história principal. O genocídio de Israel em Gaza é a história principal.”

Chamaram-me "jornalista" entre aspas, o que acho que deveria ser um insulto, mas vindo da imprensa de Murdoch só pode ser visto como um elogio.

De acordo com a narrativa oficial ocidental, os americanos tornarem-se violentamente radicalizados por um genocídio apoiado pelos EUA é um problema maior do que o genocídio apoiado pelos EUA.

De acordo com a narrativa oficial, os protestos universitários contra uma operação transparente de limpeza étnica são uma preocupação maior do que a própria operação transparente de limpeza étnica.

De acordo com a narrativa oficial, os judeus sionistas ocidentais que se sentem emocionalmente perturbados pela oposição a um holocausto moderno são um problema mais urgente do que um holocausto moderno.

Todas as nossas instituições são retrógradas e más. Os nossos media. A nossa política. O nosso sistema educacional. Os nossos fabricantes da cultura dominante. Isto já deve estar claro para todos.

Todo o mal histórico que nos ensinaram a nunca repetir está a ser repetido pelos nossos próprios governantes.

Tudo o que nos ensinaram a temer sobre os países que o império ocidental odeia é verdade em relação ao império ocidental.

Todo o futuro sombrio para o qual fomos alertados na ficção distópica é verdadeiro para a distopia em que vivemos atualmente.

Vivemos num pesadelo de civilização, sob um império que é alimentado por sangue humano. Quanto mais se examina, mais feio fica.

Isto não pode continuar. Não podemos permitir que isto continue.

O império deve cair.

Fonte

sexta-feira, 23 de maio de 2025

A musculação do regime democrático

À mão – Henrique Monteiro

Ao fim de cerca de meio século, afinal, o regime não está assim tão estável e firme como diz o “principal magistrado da nação”, que depois de se livrar do governo de maioria absoluta do partido dito “socialista”, provocou eleições antecipadas pela segunda vez. Como não se conseguira um governo com garantia “estabilidade” à primeira em 2024, então, teve-se de tentar uma segunda vez para alcançar um, de preferência de maioria absoluta e selo PSD, mas mesmo assim não foi possível. O coelho que saiu da cartola ainda não possui a robustez necessária e desejada, daí a necessidade de apoio ou do parceiro do bloco central ou da extrema-direita, que teve a ousadia de se alcandorar a segundo partido do establishment. Parece que tudo aponta para a primeira hipótese, haverá o apoio “socialista”, contudo, não entrará para o governo como na Alemanha. O partido da extrema-direita ficará a liderar a oposição, uma situação assaz inédita. Restará a dúvida sobre a data das próximas eleições legislativas, para então vermos no governo o partido em que a elite nacional está a apostar fortemente no momento presente. A configuração partidária tradicional mudou, e o regime, com ou sem revisão constitucional, ficará com certeza mais “maduro” e “estável”, ao gosto do “alto magistrado da nação”.

A mudança do quadro partidário e o último fôlego do bloco central

Olhando para os resultados dos dois partidos do bloco central, que agora querem a formalização na prática para a tão querida estabilidade, a situação se é desastrosa para o partido que foi fundado na Alemanha em 1973, para o outro a coisa não resultou como se esperava. O partido dito “socialista” passou de 42,50% e 2.302.601 votos, em Janeiro de 2022, que lhe permitiu formar governo de maioria absoluta (um resultado que espantou muita gente e os próprios ditos “socialistas”), para 23,38 % e 1.394.501 votos (resultados ainda provisórios, não são conhecidos os resultados da emigração); em cerca de três anos, perde perto de 1 milhão de votos. A vitória do PSD e o anexo foi uma vitória de Pirro, não foi alcançado o objectivo proposto, a “maior maioria”; dos 38,65% e 2.159.742 votos (108 deputados), a que se juntam os 11,70% e 653.987 votos (24 deputados) do CDS, em 2011, dando origem ao governo pafioso Coelho/Portas, passaram para os 32,10 % e 1.915.098 votos (86 deputados); menos de cerca 900 mil votos e menos 42 deputados. Razão para se perceber as palavras do “alto magistrado” de que o governo durará quanto muito até ao final de 2026; e, em 2027, logo se verá. Afinal, a estabilidade será precária.

Foi patético assistir aos malabarismos do líder demissionário do PS em campanha eleitoral, tentando mostrar a sua moderação e que, jurando a pés juntos que não era e nunca foi um “radical”, como estava a ser injustamente acusado pelo seu principal adversário na corrida eleitoral e por todos os comentadores avençados televisivos. Não conseguiu mostrar diferença entre o PS e o PSD, o que lhe era impossível já que deixou passar o Orçamento de Estado de 2025, a aprovação da Lei dos Solos, preparou o terreno e instrumentos para a privatização da TAP, a “reforma” da Segurança Social, anunciada pela ministra e esposa de banqueiro, a pretexto de assegurar a sua sustentabilidade, e apoio à política quanto à imigração. Fez coro em relação aos gastos com a defesa, ultrapassar os 3% do PIB na indústria da guerra. O PS foi derrotado, foi humilhado, mas só pode queixar-se de si próprio, e vai, ou já está, a apodrecer rapidamente e por este caminho, como referíamos em Janeiro, irá desaparecer ou fundir-se com o PSD, porque não será governo na década mais próxima. Era o partido do “socialismo democrático, para contrapor com O PCP, que não era democrático, resultante do contexto da guerra fria. Ora, o tempo passou e o PS também irá passar.

Apesar de tudo, e deixando a extrema-direita como recurso em segunda linha, os «patrões pedem entendimento entre AD e PS para garantir estabilidade política – Armindo Monteiro, líder da maior confederação patronal, diz ao DN que os “moderados” devem garantir a estabilidade e as reformas essenciais. Os bancos apostam de igual modo no governo do bloco central: «Nuno Amado: país precisa de estabilidade política, mas não de mais "estagnação" - o chairmain do Millennium bcp defendeu que é necessário governo e oposição fazerem "acordos amplos" para alterações estruturais que têm sido "barreiras ao desenvolvimento e bem-estar dos portugueses". Ora, o bem-estar referido é mais dos acionistas da banca que não paga impostos e sempre teve a protecção dos dois partidos do regime. Os trauliteiros da extrema-direitas avançam se PSD e PS se mostrarem incompetentes, até agora têm feito o seu papel: o primeiro usa mais cacete para obrigar o povo a aceitar as medidas mais gravosas a fim de salvar o capital, como se viu durante a troika, o PS mais a cenoura, durante a “geringonça”.

O PS esgotou o seu papel de bombeiro da luta de classes

Com medo de perder as mordomias e o protagonismo verifica-se que os caciques do PS não destoam dos patrões nacionais: «Santos Silva quer nova direção do PS eleita rapidamente, defende viabilização de governo AD»; «PS deve viabilizar Governo se Montenegro quiser "combater a progressão da extrema-direita", diz Medina»; «Francisco Assis defende eleições internas só após autárquicas e diálogo entre PS e AD»; «"PS deveria dizer esta noite que viabiliza um Governo da AD com Luís Montenegro, ponto final" – Sérgio Sousa Pinto diz que o PS não pode deixar a AD "refém" do Chega para poder governar». Estão todos de acordo: bloco central ao poder sem peias nem meias. Ah, ainda! O mesmo Sousa Pinto: “se o partido não acabar com esta direção, esta direção acaba com o partido” e já NPS apresentara a demissão a “bem da estabilidade”, antigamente era a “bem da nação”.

Continuando a ideia anterior, muito provavelmente o PS terá chegado ao fim de linha, o que, diga-se de passagem, não será grande prejuízo para o povo português, e o poeta não esperou para lançar o alerta: «Manuel Alegre alerta que PS corre o risco de se tornar dispensável. Após o terceiro pior resultado em eleições legislativas, o histórico socialista aponta problemas estruturais no PS e sublinha a necessidade de reflexão antes de substituir a liderança». Ora, a substituição da liderança não está a ser fácil pela razão de que os candidatos já apontados estão em debandada; Medina, Leitão e Vieira da Silva já deram o nega, e parece que restará somente o candidato derrotado nas últimas eleições para a direcção, o “ultra-moderado” Carneiro. Ninguém quer herdar uma empresa falida.

Para perceber a situação de dispensabilidade e até de inutilidade, face ao novo contexto económico e social no país e na Europa, temos de conhecer e relembrar qual foi o papel do PS desde que foi fundado, com os marcos da social-democracia para enfiar o pais na CEE/UE, até aos dias de hoje. Foi sabotar a revolução popular, que se seguiu ao 25 de Abril, devolver as empresas recapitalizadas aos patrões que fugiram para o Brasil, incluindo os bancos (o caso BES é paradigmático), amnistiar agentes da PIDE e juízes do Tribunal Plenário, branquear o fascismo, impor todas as reformas e medidas “aconselhadas” por Bruxelas, reforçar os aparelhos judicial e policial e comprar a paz social. Não esquecer que o governo PS/Costa lançou mais requisições civis sobre os trabalhadores que Salazar e, com o pretexto de combate á pandemia da Covid e a mando de Bruxelas, impôs os estados de emergência com a limitação das liberdade, direitos e garantias dos cidadãos. Costa não revogou nem a Lei Cristas, responsável pelos despejos e a especulação imobiliária, nem as alterações ao Código do Trabalho, pelo contrário, acrescentou mais algumas para regozijo dos patrões esclavagistas nacionais. Tanto o SNS como a Escola Pública foram sendo degrados para benefício dos lóbis privados do sector. Se o PS se finar, não deixará grandes saudades, porque foi ele que contribuiu e aplanou o caminho para o novo fascismo que se advinha.

PSD como transição para a extrema-direita

Quanto ao PSD, este está por tudo e não faz orelhas mocas aos apelos e vai mais longe no seu longo abraço: «Hugo Soares e Leitão Amaro admitem negociações com o Chega: o “não é não” é para entrada no governo». Ou seja, fica em lista de espera por agora, se a muleta do PS falhar e caso seja necessário até o poderão aceitar no governo; vamos lá ver como as coisas irão decorrer. No entanto, o grande líder, embriagado pelo aumento do apoio eleitoral e do número de “representantes da nação” eleitos e que ninguém conhece por que não foram publicitados, possivelmente pela riqueza dos curricula, saliva pelo poder e quer mais: «Ventura já prepara governo-sombra com nomes de fora do partido: “somos contra os jobs for the boys” e está “pronto para governar” o país se assim chegar o momento». Ou quando a elite desejar e der ordem.

Relembrar que o agora “principal partido da oposição” foi um partido criado em tempo de governo PS, que pôde legalizar-se contrariando a lei e a Constituição da República, para ser usado contra o PSD, retirando-lhe votos, e simultaneamente assustar a pequena-burguesia medrosa para votar nos partidos politicamente correctos. Mas, ironicamente, virou-se contra o próprio PS, ocupando-lhe o lugar no Parlamento e no país e oficializando a união de facto, agora de jure, entre os dois parceiros do bloco central. Situação que não deixará de ser temporária. E é Marcelo que o reconhece: «o Presidente da República acredita que será possível estabilizar a situação política — foi isso que assegurou logo depois das primeiras reuniões com os partidos maiores, que “correram bem” — mas dificilmente durante uma legislatura inteira». Ainda tem dúvidas e dá a entender que o seu objectivo será mesmo colocar não só a extrema-direita no governo como mudar o regime, a mudança da Constituição não será apenas uma preocupação dos ditos “liberais”. Será a revanche de um filho do fascismo.

A pequena-burguesia sem espaço partidário

Em relação aos outros partidos com tradicional maior representação parlamentar e que já estavam, de uma ou outra forma, inseridos no establishment, BE e PCP, a situação é deveras preocupante quanto à sua continuidade na Assembleia da República. O primeiro passou de 10,19% e 550.892 votos (19 deputados), em 2015, para 2,00 % e 119.211 votos (1 deputado), perdeu cerca de 430 mil votos. Poderá estar em vias de extinção, um partido que, quando foi criado, resultando de coligação de várias agremiações, propunha-se conquistar 15% do eleitorado e, a médio prazo, substituir-se ao PS, à semelhança do que acontecera na Grécia com o Syriza. Acabando o BE, talvez o Livre, parido das suas entranhas, venha a cumprir a tarefa que ficou por concluir, e já disse ao que vem: «Livre quer "relação construtiva" com a esquerda».

A agremiação de partidos começou pelas questões “fracturantes” e acabou acomodado nas mordomias e subvenções parlamentares. Jamais colocou em causa o capitalismo como sistema de exploração, defende um capitalismo bonzinho e fofinho para os trabalhadores. Nega a existência e a luta de classes, existe somente grupos e lutas identitários; o inimigo não é o capitalismo, mas o outra facção que se contrapõe, por exemplo, as mulheres lutam contra o domínio machista, os negros contra a supremacia branca, os trabalhadores migrantes confrontam-se com os nacionais, os homossexuais, lésbicas, transsexuais, etc, confrontam-se com os heterossexuais, e por aí fora. A nível de política externa, seguem o PS, defesa das guerras do Império, manutenção do país na NATO, reconhecimento dos fantoches Gaidós. Esta pequena-burguesia urbana, em vias de proletarização, desaparecerá também.

O outro, o partido mais antigo do país, com pergaminhos na luta contra o fascismo, de 8,25% e 445.980 votos (17 deputados), em 2015, passou para 3,03 % e 180.943 votos (3 deputados), prejuízo de mais de 260 mil votos. Não estamos a ver este partido reverter a social-democratização em que se encontra mergulhado, limitando-se a acções e lutas por reivindicações imediatas e economicistas, facilmente recuperadas pela burguesia, como seja o aumento dos salários, sem colocar em causa a existência do regime de salariato e do domínio político e económico da burguesia. Os custos é a própria sobrevivência e o futuro não será muito diferente do dos ditos partidos “eurocomunistas”. Tanto o PCP como o BES, como já referenciámos aqui, deram-se mal com o apoio à formação do primeiro governo do PS/Costa (“geringonça”), porque até às eleições de 2022, enquanto minguavam em votos e número de deputados, o PS/Costa ia aumentando até chegar à maioria absoluta. Foram usados, porque quiseram, e agora pagam o preço.

Há cada vez menos espaço para partidos do centro e da pequena-burguesia, a social-democracia está morta, na luta de classes os campos extremaram-se e agora a confrontação é entre a classe assalariada e a grande burguesia capitalista, sem intermediários pelo meio. E o confronto vai ser violento. 

A musculação da democracia burguesa

Para se avaliar o espírito democrático de alguém é estarmos atentos aos pequenos deslizes, e o rei/presidente, que queria ser Sidónio Pais, às vezes foge-lhe o pé para a chinela: «Marcelo diz que reunião com Pedro Nuno foi simbólica e não vê problema na moção do PCP». São com os velhos fascistas, disfarçados de democratas, a que se juntam os políticos e os partidos da conciliação, tendo como pano de fundo a revisão da história, em Portugal nunca houve fascismo, isso são coisas dos italianos, quanto muito um regime autoritário de cunho pessoal, que se escorrega para novas formas de fascismo.

Para quê tantos deputados na Assembleia da República? 180 chegarão. É uma velha proposta do PSD, de 2005 se não estamos em erro, que agora o partido da extrema-direita corrobora e quer que seja colocada a referendo. E por que não alterar o actual método de Hondt que desperdiça centenas de milhares de votos e não criar círculos uninominais ou coisa semelhante? Todas boas razões para “aproximar” os eleitores dos seus representantes, são os argumentos de muito boa gente. Agora, os partidos com menos de 5% de votos poderão fazer contas à vida, BE e PCP são os alvos. Os restantes pouco ou nada contam, são mais de uma dúzia, mas não passam de flores de lapela para se mostrar que nesta chafarica até há democracia e pluralidade. O fascismo vem com pezinhos de lã, como na canção.

Será o estado da economia e o comportamento da classe dos explorados e do povo que determinarão a longevidade da democracia parlamentar burguesa. E isso ficou bem patente na I República, quando o povo deixou de apoiar o regime e a situação de bancarrota da economia era iminente, então, a elite substituiu a o voto pela espingarda. Ora, os nossos empresários de sucesso que sempre viveram encostados ao estado, e tiveram o PS e o PSD como os seus principais agentes de negócios, poderão mudar de funcionários se reconhecerem que tal lhes é vantajoso; o que poderá acontecer a breve prazo com a extrema-direita no governo. E eles queixam-se: «Setor têxtil português quer taxa mínima de 20 euros para encomendas vindas da China». Defendem a livre concorrência, mas só quando as coisas lhes correm bem, e são os tais que pagam salários miseráveis aos trabalhadores, que os impedem de adquirir bens eventualmente nacionais mais caros. Como não querem ver baixar os lucros, então, recorrem ao estado que os proteja, embora o critiquem por querer intervir na economia. Esta gente contraditória não deixa de ser perigosa.

Se a burguesia, a fim salvar o seu sistema de exploração e as suas riquezas, está disposta em apostar num fascismo soft, mais polido que o anterior, e num caudilho, salvador da Pátria, que está a ser lançado para Belém nos mesmos moldes, pelos mesmos oligarcas e pelos mesmíssimos media mainstream, que promoveram o partido de extrema-direita, os operários e o povo deste país terão de encontrar uma saída revolucionária que seja o contraponto e à mesma altura. A partir de agora não são somente os direitos e liberdades básicas, como o direito à greve, que o PS já prometera limitar em sectores chave da economia, o direito à saúde, à educação ou habitação estão em causa, mas a tentativa de transformar o país num imenso campo de trabalho escravo, muito semelhante ao que está a acontecer na Argentina, para multiplicação desmesurada das mais valias acumuladas pelos capitalistas. Para mudar a economia e não apenas a política, tarefa que ficou incompleta no Verão de 1975, haverá de se criar instrumentos organizativos e políticos à altura da tarefa, e o operariado e demais trabalhadores assalariados irão fazê-lo no momento oportuno, porque necessário.

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quinta-feira, 15 de maio de 2025

A flexibilidade política do capitalismo para maximização dos lucros

Dr. Jacques Pauwels: “Para promover os seus objectivos de maximização de lucros, o capitalismo está disposto a usar a “cenoura” da democracia, bem como o “pau” do fascismo” - Entrevista realizada por Mohsen Abdelmoumen 

«É efectivamente um mito que o capitalismo seja uma espécie de gémeo siamês da democracia. Por outras palavras, que o ambiente político favorito do capitalismo seja a democracia. A história mostra-nos que o capitalismo floresceu em sistemas altamente autoritários e apoiou entusiasticamente esses sistemas.» Isso verifica-se de Bismark a Pinochet passando por Hitler, e não ficará por aí, se isso lhe for permitido.

Mohsen Abdelmoumen: No seu livro “Big Business and Hitler”, fala da colaboração da elite económica, industrial e financeira mundial com Hitler. Hitler era um produto puro, um instrumento do sistema capitalista?

Dr. Jacques Pauwels: o chamado “Nacional-Socialismo” de Hitler, na realidade nenhuma forma de socialismo, era a variedade alemã do fascismo, e o fascismo era uma manifestação do capitalismo, a forma brutal e sórdida com que o capitalismo se manifestou no período entre guerras em resposta à ameaça de mudança revolucionária, personificada pelo comunismo, e a crise económica da Grande Depressão. Na medida em que Hitler personificou a variedade alemã de fascismo, ele pode de facto ser chamado “instrumento” do capitalismo; entretanto, como mencionei no meu livro, o termo “instrumento” é realmente demasiado simplista. Seria mais exacto definir Hitler como uma espécie de “agente”, um ser humano complexo com uma mente própria, agindo em nome do capitalismo alemão, mas nem sempre de acordo com os desejos dos capitalistas, ao invés de um mero “instrumento” ou “ferramenta” do capitalismo alemão. Isso explica por que os capitalistas alemães nem sempre estiveram perfeitamente satisfeitos com os serviços de Hitler. Mas a vantagem desse arranjo era que, após o colapso da Alemanha nazi, eles poderiam culpar o “agente” por todos os crimes que havia cometido em seu nome.

Tem o capitalismo uma necessidade vital do nazismo e do fascismo?

O capitalismo é um sistema socioeconómico muito flexível, capaz de funcionar em diferentes contextos políticos. É certamente um mito que o capitalismo, eufemisticamente conhecido como “mercado livre”, seja uma espécie de gémeo siamês da democracia, em outras palavras, que o ambiente político favorito do capitalismo seja a democracia. A história mostra-nos que o capitalismo floresceu em sistemas altamente autoritários e apoiou entusiasticamente esses sistemas. Na Alemanha, o capitalismo saiu-se extremamente bem quando Bismarck governava o Reich com punho de ferro. A Alemanha permaneceu 100% capitalista sob Hitler, e o capitalismo floresceu sob Hitler, antes e durante a guerra, como demonstrei no meu livro. O capitalismo também pode e deseja fazer parceria com a democracia, especialmente se as reformas democráticas parecem necessárias para dissipar a ameaça de mudança revolucionária, como por exemplo depois da Segunda Guerra Mundial, quando reformas políticas e sociais democráticas (o Welfare State) foram introduzidas na Europa Ocidental para inviabilizar as reivindicações muito mais radicais, até mesmo revolucionárias, formuladas por movimentos de resistência em países como a Itália e a França. Pode dizer-se que, para promover os seus objectivos de maximização de lucros, o capitalismo está disposto a usar a “cenoura” da democracia, bem como o “pau” do fascismo e outras formas de autoritarismo, como as ditaduras militares.

A ascensão de grupos neonazis e fascistas ao redor do mundo serve ao grande capital e à oligarquia que governa o mundo?

Como mencionado anteriormente, o fascismo é uma manifestação do capitalismo. Em outras palavras, é a forma pela qual o capitalismo, como um camaleão, ajusta a sua cor a um ambiente social e político em mudança. O fascismo histórico dos anos 30, personificado por gente como Mussolini e Hitler, reflectiu a resposta do capitalismo, na Itália e na Alemanha, à ameaça dupla da mudança revolucionária ao estilo russo e da Grande Depressão. Após a Segunda Guerra Mundial, quando o fascismo estava presumivelmente morto e enterrado, o capitalismo, especialmente o capitalismo americano, apoiou-se em sistemas neo, quase ou cripto-fascistas para neutralizar ameaças semelhantes. Por exemplo no Chile, onde Pinochet foi levado ao poder para bloquear reformas radicais e manter o país seguro para o capital de investimento dos EUA. Hoje, problemas económicos e sociais cada vez maiores, juntamente com ameaças revolucionárias reais ou percebidas, fizeram com que o capitalismo em vários países gerasse partidos e movimentos fascistas ou, se preferir, quase ou neofascistas. De momento, o capitalismo não precisa de levar esses fascistas ao poder; mas eles são muito úteis porque, como Hitler com seu anti-semitismo, desviam a atenção do público das deficiências do sistema capitalista culpando todas as coisas desagradáveis em bodes expiatórios (de preferência de cor), como muçulmanos, refugiados, os chineses e os Russkis. O escritor alemão Bertolt Brecht nos alertou poeticamente, aludindo ao fascismo hitlerista e à capacidade inalterada do capitalismo de gerar novas formas de fascismo:

“So was hätt einmal fast die Welt regiert! (O mundo quase era governado por tal monstro!)
Die Völker wurden seiner Herr, jedoch (Felizmente, as nações derrotaram-no)
dass keiner von uns zu früh da triunphiert (Mas não nos alegremos demasiado cedo)
Der Schoss ist fruchtbar noch (O útero de onde rastejou ainda é fértil.)
Aus dem das kroch”
(“A resistível ascensão de Arturo Ui”)

A União Europeia culpa a URSS por iniciar a Segunda Guerra Mundial. O que acha disso?

Culpar a URSS e, por implicação, o seu estado-sucessor russo pela Segunda Guerra Mundial, é uma declaração puramente política. Constitui uma distorção monstruosa e vergonhosa da história. Nos anos 30, a União Soviética procurou durante anos estabelecer uma aliança anti-Hitler com a França e a Grã-Bretanha, mas foi sucessivamente rejeitada. A razão para isso é que os cavalheiros no poder em Londres e Paris não queriam ir para a guerra ao lado dos soviéticos contra Hitler, mas queriam que Hitler usasse o poderio militar da Alemanha para marchar para o leste e destruir a União Soviética enquanto assistiriam alegremente do lado de fora. Hitler certamente queria a guerra, e é justamente culpado por iniciar a Segunda Guerra Mundial. Mas os líderes franceses e britânicos merecem uma parte da culpa porque encorajaram Hitler e o apoiaram com sua política de “Apaziguamento”, por exemplo, oferecendo-lhe a Tcheco-Eslováquia numa bandeja de prata no infame pacto que concluíram com ele em Munique em 1938.

Ao culpar a URSS, os políticos e os media ocidentais não procuram encobrir a sua própria horrível história de colaboração com Hitler e o nazismo?

Na verdade, culpando a União Soviética os países “ocidentais”, ou pelo menos seus líderes, procuram desviar a atenção do seu próprio papel na eclosão da Segunda Guerra Mundial. Por meio da sua infame política de apaziguamento, os líderes britânicos e franceses encorajaram e facilitaram os planos de Hitler para uma “cruzada” contra a União Soviética. E a elite corporativa e financeira dos países ocidentais, incluindo os Estados Unidos, colaborou de forma muito próxima - e muito lucrativa - com Hitler, como demonstrei nos meus livros, “Big Business and Hitler” e “The Myth of the Good War”.

Nos seus livros “Big Business and Hitler” e “Myth of the Good War: America and the Second World War”, desmantela o mito da “libertação” da Europa pelos Estados Unidos quando sabemos que foi a vitória soviética de Stalingrado que foi o ponto de viragem da guerra. Não é outra mentira histórica dizer que os Estados Unidos libertaram a Europa? Os Estados Unidos simplesmente não colonizaram a Europa? Como explica a dependência da Europa em relação aos EUA e o facto de os europeus ainda seguirem a política imperialista dos EUA? A NATO não se tornou obsoleta?

É verdade que a União Soviética deu, de longe, a maior contribuição para a vitória dos Aliados. Se o Exército Vermelho não tivesse conseguido deter o rolo compressor nazi em frente a Moscovo em 1941 e obter grandes vitórias em Stalingrado e outros lugares, Hitler teria vencido a guerra. Mas os nazis tinham a máquina de guerra mais poderosa que o mundo já vira, e derrotá-la exigiu contribuições de todos os exércitos aliados e também de movimentos de resistência. Que o exército norte-americano deu também uma contribuição importante não pode ser negado; entretanto, os líderes americanos aproveitaram a presença de seu exército na Europa Ocidental para estabelecer a sua hegemonia sobre aquela parte do mundo. Em muitos aspectos, realmente não “libertaram” os países da Europa Ocidental. Mesmo hoje, a Alemanha não é “livre” para pedir que as tropas americanas deixem o seu solo, e a Bélgica e a Holanda devem tolerar a presença de bombas atómicas norte-americanas no interior das suas fronteiras. O presidente da França, Charles de Gaulle, não estava longe do alvo quando descreveu a libertação norte-americana da França como uma segunda “ocupação”, seguindo os passos da ocupação alemã. Ao contrário dos alemães e belgas, ele teve a coragem de exigir que as tropas dos Estados Unidos deixassem a França, e essa foi uma das razões pelas quais a CIA parece ter-se envolvido em vários atentados contra a sua vida. Mas mesmo de Gaulle verificou ser impossível evitar a adesão à NATO, que não é de todo uma aliança de iguais, mas um clube de “satélites” europeus dos EUA, estritamente controlado pelo Pentágono, e funcionando como um departamento de vendas e relações públicas do “complexo militar-industrial” norte-americano. A NATO foi originalmente criada para defender a Europa Ocidental contra uma totalmente fictícia ameaça proveniente da União Soviética e, portanto, deveria ter sido dissolvida após o colapso do “império do mal”. Para os Estados Unidos, entretanto, a OTAN é um muito útil e poderoso instrumento de controlo da Europa. E, de facto, esse controlo, essa hegemonia, foi estabelecido pelos EUA nos meses que se seguiram ao desembarque das suas tropas na Normandia em 1944. Ironicamente, essa conquista não teria sido possível se o Exército Vermelho não tivesse anteriormente assestado golpes mortais à Alemanha nazi.

A intervenção norte-americana na Europa durante a Segunda Guerra Mundial não foi simplesmente uma guerra capitalista? Não serve principalmente aos interesses do imperialismo norte-americano e do seu complexo militar-industrial?

A Segunda Guerra Mundial resultou em duas guerras reunidas numa só. Por um lado, foi efectivamente uma guerra “capitalista”, ou melhor, uma guerra “imperialista”. O imperialismo foi/é a manifestação internacional e mundial do capitalismo, envolvendo competição e conflito entre as principais potências capitalistas/imperialistas sobre territórios repletos de desiderata como matérias-primas (como o petróleo) e mão de obra barata. A Primeira Guerra Mundial foi um conflito imperialista, mas não resolveu as coisas, por isso as potências imperialistas foram à guerra uma segunda vez. Os EUA sairiam desse conflito como o grande vencedor, graças, ironicamente, à derrota esmagadora do outro candidato à supremacia imperialista, a Alemanha nazi, perante a União Soviética. Ao mesmo tempo, a Segunda Guerra Mundial foi também um conflito entre capitalismo/imperialismo e socialismo, personificado pela União Soviética. É uma ironia da história que os dois tipos de conflito se tenham fundido, produzindo contradições como a aliança de facto da União Soviética socialista, intrinsecamente anticapitalista e anti-imperialista, com duas potências imperialistas anti-socialistas, os EUA e a Grã-Bretanha. A guerra serviu os interesses do imperialismo dos EUA ao permitir que os EUA emergissem como o número um indiscutível do imperialismo. Mas o resultado da guerra foi imperfeito porque também significou um triunfo para a União Soviética anti-imperialista. É por isso que, imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, Washington iniciou uma nova guerra, a “Guerra Fria”, com o objectivo de nada menos que a eliminação da União Soviética.

O imperialismo dos EUA nunca cessou uma política de guerra e golpes em todo o mundo. As guerras imperialistas no Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria, Iémen, etc. não são um sintoma da barbárie do imperialismo norte-americano?

Historicamente, o imperialismo norte-americano perseguiu seus objectivos de maneira sistemática, implacável e, pode acrescentar-se, não apenas abertamente mas também furtivamente, por meio de guerra aberta, guerra económica, desestabilização, sabotagem e tentativas de assassínio. Exemplos dessa crueldade incluem o desnecessário bombardeamento nuclear de Hiroshima, guerra química contra os vietnamitas, tentativas de assassínio bem ou mal sucedidas de líderes recalcitrantes como Fidel Castro e Lumumba e sanções económicas que custaram a vida de dezenas, senão centenas de milhares de mulheres e crianças, como Madeleine Albright infamemente reconheceu numa referência ao Iraque. Então, sim, as guerras iniciadas pelos EUA no Iraque, Afeganistão, Líbia, etc., são sintomáticas dessa crueldade ou barbárie, como lhe chama.

Jacques R. Pauwels é historiador, investigador e escritor, nascido em Ghent, Bélgica. Emigrou para o Canadá em 1969 após estudar história na Universidade de Ghent e instalou-se perto da cidade de Toronto. Fez estudos de doutoramento na York University em Toronto, especializando-se na história social da Alemanha nazi, e recebeu seu PhD em 1976. Tornou-se professor de história em várias universidades canadianas, incluindo a University of Toronto e a University of Guelph. Em 1995 obteve um Ph.D. em ciência política na especialidade de regulamentação do investimento estrangeiro no Canadá. É professor em várias universidades de Ontário, incluindo a University of Toronto, Waterloo, Guelph, e publicou numerosos artigos.

É autor de vários livros traduzidos em várias línguas, incluindo “Women, Nazis, and Universities : Women University Students in Nazi Germany, 1933-1945”; “The Myth of the Good War”; “The Great Class War”; “Big Business and Hitler”.

O seu website contém conferências e entrevistas em que participou, bem como as suas numerosas publicações: http://www.jacquespauwels.net/

Entrevista: Aqui

Imagem: “Capitalismo” - Nani Lucas, 10 Julho 2021

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